quarta-feira, 24 de junho de 2009

Mais um texto grande – para horror dos impacientes, míopes e sensíveis – sobre um motivo estúpido



Algumas pessoas me pediram (meus amigos imaginários) para escrever um texto sobre a derrocada acadêmica do jornalismo. Como vocês (ou não) sabem, eu sou jornalista. Formado e não deformado pelo corpo docente que, agora, deve estar doente de raiva.
Fui coagido, há cinco anos, não pela força, mas sentimentalmente, por um “ser” chamado “mãe”, a arranjar um diploma. A minha carreira estudantil é dividida em três etapas: do pré à quarta-série fui o melhor aluno da classe; da quinta à sétima-série fui o pior aluno do Brasil - reprovei três vezes em todas as matérias (inclusive em Educação Artística), exceto em Educação Física, graças ao santo atestado médico escrito, sem brincadeira, pelo pai de um amigo que é ginecologista, gaúcho e ardoroso fã de Eros Ramazzotti e Andrea Bocelli; e da oitava ao terceiro colegial só passei porque a escola na qual estudava à época exigia o máximo da insignificância intelectual dos seus pupilos de classe-média inadimplente.
Após quatrocentos anos de estudo, inúmeros cochilos, incontáveis zeros, compassivos meios, milhares de erros ortográficos, divisões absurdas, tabuadas insolúveis, gafes geográficas, colas equivocadas, colas milagrosas, colas deslavadas e comemoradas como a esperada morte de todo o clã Sarney, ocasionais beijinhos, constantes foras, um batalhão de espinhas, falsos diagnósticos, duas evacuações fisiológicas pegas no flagra, eternos verbos to be, falaciosa acusação de ter cuspido na cabeça de uma menina da oitava-série que só não me levou ao linchamento graças à minha velha amizade com o simpático pior valentão do colégio, dezessete advertências em um ano, fugas mal-sucedidas, uniformes justos devido a momentâneas dificuldades financeiras, duas suspensões, nenhuma briga, campeão de 100 metros rasos, campeão de ping-pong sem mandar uma bola à mesa adversária (é sério, em outra ocasião conto com mais calma), ausências dissimuladas, voltas sem idas, nenhum sexo, o papel de árvore na peça “A Volta da Chapeuzinho Vermelho”, sheik na Festa das Nações de 1997, dançarino de tango na Festa das Nações de 1998, desabrigado bósnio na Festa das Nações de 1999, sultão quase-virgem na Festa das Nações de 2000 (a Festa das Nações dava dois pontos na média em História e Educação Artística, mesmo assim eu sempre me fudia), uma estranha obsessão púbere de mostrar a bunda em público, alvo de paixão de uma vizinha que escreveu uma carta a mim que terminava com a estranha saudação: “Miu, beijos”; três namoros, um chifre desvendado, outros chifres que devem estar incógnitos, a chegada do vigésimo aniversário, eu supus que a minha disponibilidade para ouvir alguém mais velho falar um monte de merda desinteressante já havia se esgotado.
Mas não.
Desconhecia, hercúlea era a minha alienação, A Trilogia Elementar do Fracasso Travestida de Sucesso: Faculdade + Emprego + Morte = Fez sua parte.
Os meus pais, ainda em êxtase por seu filho possivelmente retardado ter conseguido concluir arduamente o segundo grau, me deram um ano de férias para pensar na vida - nas afamadas e quase sempre inalcançáveis possibilidades que dariam o tom ensolarado ao meu futuro.
Assim, eu passei um ano tocando bateria na minha banda – a mítica, indolente e instrumental Cadillac Drama. Eu passei um ano batendo punheta imaginando surubas no Leste Europeu, sexo com empregadas domésticas suadas que esfregavam com a língua as minhas cuecas no tanque, orgasmos sinfônicos com Monica Bellucci (um amigo teve o “dom” de se masturbar na cena do estupro de Irreversível), sexo casual com a atriz Flávia Alessandra, sexo casualmente para sempre e pós-morte com Dani Bananinha, sexo casual com a apresentadora Lorena Calábria (apesar do sobrenome de marca de laticínios, não sei por quê, nutria uma tara por esta mulher), sexo casual com Letícia Spiller, sexo casual com jogadoras de tênis, sexo casual com jogadoras de vôlei, sexo casual com jogadoras de dardo, sexo casual com jogadoras de rugby, sexo casual com jogadoras de qualquer coisa, com arremessadoras de peso, com mães gostosas, com mães magras, com mães gordas, com bisavós, com engenheiras, com funcionárias da Cosipa, com ciganas, com mendigas, com qualquer mulher viva, com qualquer mulher morta, com qualquer mulher apodrecida. Eu passei um ano escrevendo merda no ICQ. Eu passei um ano baixando música no Napster. Eu passei um ano alugando filmes de terror. Eu passei um ano indo a cinemas sozinho. Eu passei um ano me embriagando em baladas e provocando anões. Eu passei um ano me embriagando em baladas e passando em branco. Eu passei um ano me embriagando em baladas e voltando de ônibus. Eu passei um ano vomitando em baladas e me embriagando em neuras. Eu passei um ano pensando no amor. Será que é aquela ali? Será que é você? Será que é aquela outra? Será que é a Jennifer Connelly? Será que é a Daniela Sarahyba? Será que é a Chan Marshall vulgo Cat Power? Será que é a Marlene Mattos? Será que não é ninguém? Eu passei um ano me empanturrando em rodízios de pizza. Eu passei um ano freqüentando shows de hardcore alimentando o vazio da existência que era tão vazia que ignorava o próprio vazio. Eu passei um ano assistindo a meus amigos empinarem pipa. Eu passei um ano jogando War. Eu passei um ano jogando Winning Eleven. Eu passei um ano sofrendo com o meu Corinthians. Eu passei um ano falando mal de alguma garota ou das garotas em geral junto a meus amigos. Eu passei um ano jogando futebol e fazendo inimigos. Eu passei um ano recusando convites para ir à praia de dia. Eu passei um ano recusando convites para renovar o guarda-roupa. Eu passei um ano ignorando que um dia um ano passaria mais depressa.
Então o prazo se esgotou e encontrei a melhor saída para sanar os meus problemas: “Decidi, vou fazer inglês!”. (Imagine a cena: eu, um homem de 21 anos, sentado em um banco sem encosto para as costas e com os braços apoiados sobre um balcão de bar – bem comédia romântica norte-americana. De repente, uma mulher chega ao meu lado e diz, “Oi”. Eu respondo, “Oi”. Ela pergunta, “Qual é o seu nome?”. Eu respondo, “Leonardo”, e prontamente pergunto, “E o seu?”. Ela diz, “Juliana”, e em seguida pergunta, “Qual a sua idade?”. Eu digo, “21 anos”, e pergunto, “e a sua?”. Ela diz, “Também 21”, e pergunta, “o que você faz da vida?”. Então eu digo, “Bem, faço inglês”.)
O inglês durou um ano. Não aprendi nada. Só me apaixonei pela professora. Também não deu em nada. Eu era um nada. Nada dava certo. Nadava, nadava, nadava, nadava e nada. Sem troféus. Sem medalhas falsas. Sem emprego. Sem dinheiro. Sem amor. Sem sexo. Sem perspectiva. Com amigos sem as mesmas coisas. Sem carteira de motorista – reprovei no primeiro exame prático. Com carteira de motorista – passei no segundo exame prático por ter o mesmo nome, Leonardo, e fazer aniversário na mesma data, 9 de maio, que o delegado que estava julgando a minha performance.
De qualquer maneira, até mesmo da pior maneira possível, adentrei no cinzento prédio da Faculdade de Comunicação e Artes - a FACOS - da Universidade Católica de Santos, a Unisantos, em meados do mês de fevereiro de 2004 para iniciar a minha aventura acadêmica. Ou melhor, satisfazer as incessantes e fatigantes súplicas de minha mãe. Escolhi como primeira opção no vestibular o curso de Psicologia. Escolhi como segunda opção no vestibular o curso de Psicologia. Escolhi como terceira opção no vestibular o curso de Jornalismo. Um dia depois do vestibular (chutei quase tudo, o que não chutei, errei), vi que havia me equivocado nas minhas preferências, portanto, decidi que queria fazer Jornalismo. De todo modo, e para a surpresa de ninguém, tamanha é a facilidade para entrar na maioria das faculdades particulares do país, basta deixar cair a carteira de identidade na porta, fui aprovado em todos os cursos. Pague e Pesque. Até então, nunca havia lido um livro na vida. Nunca havia escrito nem uma mísera palavra – exceto quando recitei, a plenos pulmões e só de cueca sob uma tempestade de verão, uma poesia de minha autoria à minha vizinha nissei pela qual estava apaixonado, a voluptuosa, para a idade de 11 anos, Camila Shimi, poesia essa intitulada “Adorável filha de Bruce Lee” – não sabia que o Bruce Lee era chinês, nem ela. Ignorava escritores de qualquer espécie. Arte pra mim se limitava à música e a cinema. Ouvia desde Fugazi até John Zorn. Assistia de Kevin Smith a Larry Clark. Não era tão estúpido quanto aparentava. Era muito mais. Muito mais estúpido e muito mais feliz. A obtusidade age como um campo de força que nos protege da compreensão da dura realidade que nos cerca, portanto poucos têm a capacidade de enxergar. Fui cabeludo e voltei para casa como se tivesse sido vítima de uma arrasadora fusão de sarna com radiação de alta potência. Se com cabelo já era difícil, a careca pós-trote no carnaval não fez nenhum sucesso. Levei um susto quando vi que a maior parte dos meus companheiros de classe estava lendo jornal na sala de aula, me senti em um workshop que apresentava materiais para futuras moradias para mendigos. Não demorou muito para que a minha falta de conhecimento se anunciasse: 0,5 no primeiro teste de Português e “Fraco”, o que equivalia a um 3,0, no primeiro trabalho de História do Jornalismo. A motivação de desistência que me retirou do Karatê, do futebol, dos fins de semanas de escoteiro, do Kumon, do namoro com a Natalha, do Inglês, voltou à tona. Comuniquei aos meus pais que queria desistir, havia tomado uma resolução: “Quero ser músico profissional e acabar como o Benito de Paula”. Minha mãe ficou preocupada e perguntou: “Como o Benito de Paula?”. “Tá bom, mãe, esquece a ‘viagem’ do Benito de Paula, quero acabar como o Kiko Zambianchi” - e esta resposta doeu mais em mim do que nela.
Ficou acordado que eu teria que concluir, pelo menos, o primeiro semestre. E as coisas mudaram. Para sempre. Fiz um texto para a disciplina de Psicologia sobre a falta de inocência que há nas crianças de hoje em dia, tirei nota máxima, li na classe, todo mundo aplaudiu e fiquei com uma sensação boa. Botei na cabeça que já era hora de começar a ler alguma coisa. Li Charles Bukowski e chapei. Li Jack Keouac e chapei. A partir daí, não parei mais, fiquei doente, viciado em livros, receoso até o último segundo da minha vida. Allen Ginsberg. William Burroughs. J.D.Salinger. John Fante. Paulo Leminski. Céline. Norman Mailer. Chuck Palahniuk. Millôr Fernandes. Kurt Vonnegut. Nick Hornby. Somerset Maugham. Jeffrey Eugenides. José Agripino de Paula. Fiódor Dostoiévski. Kafka. Robert Crumb. Henry Miller. Lourenço Mutarelli. Hunter Thompson. Tarso de Castro. Raymond Chandler. Raymond Carver. Haruki Murakami. Alexandre Frota etc.
No meu caso, a faculdade foi importante por evidenciar que havia um rumo pelo qual eu podia seguir. Duvido que teria conhecido estas mentes maravilhosas citadas acima se tivesse optado, por exemplo, pela música. Mas não foi só a faculdade que fez isso, muito menos os professores. O proveito que se tira do conhecimento parte única e exclusivamente de si próprio. 90% de um curso acadêmico depende do interessado. Se dependesse dos ensinamentos dos professores, eu estava exercitando os “profundos” ditames do Lead até hoje. Depois do segundo semestre, a faculdade perdeu o valor. As técnicas jornalísticas supracitadas como vantagem após a queda do mito do diploma funcionam somente como uma forma de uniformizar os ratos de laboratório também conhecidos como alunos e, futuramente, como jornalistas autômatos. O fim da obrigatoriedade do diploma já existia desde que Pedro Álvares Cabral errou o caminho e ancorou aqui. No Brasil, sempre foi lei burlar a lei. Não vejo por que houve tanta comoção com o fim da suposta ditadura do canudo decorativo. Há um policial que tem um programa de variedades em uma emissora em Santos. Há um professor de física que também tem um programa de variedades na mesma emissora. Ana Hickman dá pitacos sobre o cotidiano no programa do qual faz parte na rede Record. Neto, ex-jogador de futebol, tem uma coluna no Estadão, analisa futebol e entrevista atletas há mais de dez anos. Se vivemos em uma democracia, e a classe jornalística foi uma das principais, senão a principal, fomentadora da liberdade de expressão no país, não consigo atinar para os deméritos que envolvem a opinião de qualquer pessoa que não tenha a merda de um diploma que muitos imbecis acéfalos possuem devidamente enquadrados em suas respectivas salas de jantar. A imprensa se caracteriza como um mundo de interesses. Altos-salários para poucos e baixos-salários para quase todos. A síntese do que é o Brasil. Caro empresário, anuncie para sair incólume de eventuais escândalos. Pergunte para quinze jornalistas se eles estão satisfeitos com a profissão. Pergunte se o veículo pelo qual eles trabalham, isso se ele forem sortudos por ter um lugar para trabalhar, cumpri com as leis trabalhistas. Nepotismo é vergonha para político mas não é vergonha para a família Beting? Mauro Beting diz: “Beting e Beting, o programa mais nepotista da T.V brasileira”, e depois ri. Essa é a nossa imprensa diplomada? As revistas estão “enganosamente” quebradas mas aceitam colaborações desde que elas sejam gratuitas. José Luiz Datena alimenta até hoje um ódio pelo jogador Ronaldo pelo fato de ele ter atravancado uma entrevista que o jornalista quis fazer com ele, há anos atrás, a qual foi realizada, inclusive na casa do entrevistado, à época em Madri, mas não pôde reservar dois minutos da sua agenda, durante um ano de intermitentes tentativas, para dar uma declaração a um grupo de alunos da minha classe que tentou, sem sucesso, fazer uma entrevista com ele sobre a violência da polícia brasileira que servia como tema para o trabalho de conclusão de curso.
O que funciona à imprensa tupiniquim, não funciona a mim. O que funciona a mim, não funciona a eles. Os maiores e mais inventivos jornalistas de nossa história, mortos ou vivos, nunca tiveram diploma de jornalista – ex: Millôr Fernandes, Tarso de Castro, João do Rio, Nelson Rodrigues, entre outros. A tecnologia, contrariando detratores que a acusam de minar o segmento “impresso” da imprensa, só serviu para enriquecer os cofres de grandes editoras e escravizar “recém-formandos” sedentos por um lugar sob um teto translúcido que apóiam o seu sedentário alívio uniforme sobre uma mesa de acrílico decorada com fotos de familiares. Para quem discorda, observe a variedade de publicações na banca mais próxima. Convivemos com uma tendenciosa e enxugada seleção de estágios. Áreas de recursos-humanos que só servem como fachada. Aos tristes e decepcionados por tanto dinheiro gasto e absorção de técnicas jornalísticas inócuas, por favor, não sejam hipócritas. Se só bastasse piscar os olhos para ter diploma nas mãos, não hesitariam. Ao fim do segundo semestre, as conversas de bar eram mais produtivas que os solilóquios saudosistas cuspidos por professores sexagenários que faziam de tudo para mostrar à nossa “péssima” geração que “no tempo deles as coisas eram mais difíceis e emocionantes”. Pagar o diploma em 48X e beber no bar. Quem é aluno brilhante e não paga a mensalidade, não recebe o diploma. Quem é talentoso mas não tem contatos porque é incapaz de se aproximar de um desconhecido por interesse, e com certeza dez décimos da população intergalática desaprovam este tipo de comportamento diagnosticando-o como covardia, vai ficar desempregado pelo resto da vida. Foda-se o diploma!

O MUNDO CÃO É PITBULL MALTRATADO PELO DONO PRONTO PARA MATAR AQUELE QUE É CONTRA A GUERRA QUE LEVA À MORTE.