Digo à minha namorada: “Encare os espíritos chineses, ignore as bestas espanholas, desdenhe dos psicopatas americanos, é só um filme, cacete, pare de usar as minhas belas mãos para vedar os seus olhos!”.
Mas reconheço que não dormi direito na primeira vez em que assisti A Bruxa de Blair. Eu tinha 17 anos. Mentira, 18 anos. E estava cheio de espinhas purulentas espalhadas por todo o meu rosto. E a menina que eu namorava na época tinha acabado de me dar um fora. E eu chorei na frente dela após o fatídico episódio. O que me fez conquistar o Nobel de melhor exemplo de eufemismo para patético: “Fofo”. E duas semanas depois dessa desventura tentei pegar uma amiga dela chamada Débora, que era meio banguela, em um baile de carnaval promovido por um hotel chique de Guarujá. Evidente que tomei outro fora. Depois tomei todas. Todas as bebidas e todos os foras possíveis e impossíveis de serem tomados em um espaço de quarenta e cinco minutos. Depois surtei. Me joguei na piscina. Perdi a comanda. Tive que ligar para o meu pai vir me buscar para não ter que pagar trezentos reais. Ele veio. Eu paguei trezentos reais. Os meus amigos da escola riram de mim. O meu colega David, quatro dias depois do “inferno”, disse em sala de aula “que o sol veio a ‘encalhar’”. Eu ri na cara dele e disse “a calhar”. Ele gritou que o pai dele nunca havia tido a necessidade de buscá-lo na balada para socorrer o bundão do filho. A sociedade escolar riu de mim. Sobretudo as meninas. Inclusive os funcionários. Até o zelador mudinho. Ana Flávia, do terceiro colegial, foi a única que não riu de mim. Porque me amava. Só que eu não a amava. Então ela gargalhou por vingança. E mostrou os peitos pro Gilson, que era da minha classe. E ele chupou. E não gostou. “Muito pequeno, bem mole.” Ele só sabia falar assim. “Juliana, bom sexo”; “Garganta, dói”; “Água parada, dengue!”; “Leonardo, filhinho de papai”; Eu respondia: “Gilson, mãe vaca”; “Gilson, pai cadeirante”; “Gilson, irmã chupou meu pau”. O que era verdade. Até mesmo o pai cadeirante. Que era a favor do retorno da ditadura militar e acreditava que o fim da violência só seria possível quando resolvessem explodir a favela. Apesar das desgraças, continuei empurrando o meu barquinho sem bateria sobre a maré impiedosa. Continuei perguntando à minha mãe se ela realmente me amava incondicionalmente. Continuei perguntando ao meu pai se eu era verdadeiramente o seu filho mais que campeão. Prossegui perguntando à minha avó, pós Valium e pós “só três dedinhos de uísque”, se existia alguma probabilidade de eu ser adotado. “Claro que não, boneco.” “Vó, eu sou seu neto, não sua puta.” “Hahahaha, você é muito engraçado, meu Choquitinho.” Continuei perguntando a Deus se havia vida após a morte. Ele me respondeu com uma fratura no meu tornozelo esquerdo, um rompimento no meu ligamento, uma cirurgia para colocar sete pinos de platina e uma placa, um gesso para me fazer companhia durante dois meses, um laxante para extirpar a rigidez que se transforma a merda quando se anda pouco, o recorde mundial de punheta, a oportunidade de assistir à última temporada completa de Six Feet Under e reconhecer mais do que nunca que a vida é realmente a morte da vida, mais uma cirurgia para remover o pino que servia somente para bloquear a minha articulação, um mês e meio de fisioterapia, um bolo da Dora, “a Dora dar o cu” para os mais chegados, para ver se ela dava uma mãozinha, as omoplatas, o traseiro, a vagina, sem beijo, a chupadinha miraculosa que levantava até eunuco, mas ela resolveu ser mais uma cidadã a adensar o agourento coro: “Tomara que você cague nas calças no dia do seu casamento, Leonardo!”. “Tomara que você nem case, Leonardo!”. “Tomara que o seu filho seja gay, Leonardo!”. “Tomara que o seu filho seja gay e seja engolido por um leão quando você levá-lo ao zoológico, Leonardo!”. “Tomara que você batize o seu filho de Telmo e se arrependa depois por ter sido o principal responsável de desgraçar a vida do seu filho gay que irá ser engolido por um leão, Leonardo!”. “Tomara que você seja estéril, Leonardo!”.
Portanto continuei deambulando dando ritmo ao pendor intermitente da minha esquálida porém imberbe bunda salpicada por irritantes espinhas arrivistas que provocavam coceiras enquanto o ônus existencial de ter que carregar uma velha catraia esburacadamente úmida sobre os extenuados ombros prosseguia de modo a oferecer um único péssimo caminho escuro envolto por um túnel instalado sobre as águas chernobilescas da travessia Vicente de Carvalho-Santos para continuar a desenvolver a contragosto os imutáveis bom-dia/com licença/boa-tarde/por favor, use desodorante/caralho, tá demorando/boa-noite/boa-noite, tira a roupa, pega o dinheiro, estamos perdendo tempo/ em suma, modos desonestamente honestos de se relacionar com a sociedade - e formas embusteiramente sinceras de se visualizar no espelho e dizer, “sim, realmente, eu tenho uma vida, é, vida, sim!”.
Mas antes disso, mas no início disso, eu estava parado bem em frente ao finado Cine Ipiranga, na Avenida Ana Costa, na cidade de Santos, na companhia do meu amigo Lúcio, que havia, na ocasião, em um ato de insurreição contra a instituição familiar, pintado o seu cabelo de azul, logo ele que havia sempre se gabado por usar os melhores shampoos, os franceses, os espumantes, que embelezavam as suas longas madeixas cor Rio Tietê, que afagavam, às vezes com fúria, sobretudo quando ele empunhava a sua Fender Caralhocaster branca, as ombreiras de suas camisetas invariavelmente negras com as estampas do Megadeth, do Metalica, do Black Sabbath... Lúcio era aquilo que os bem-sucedidos proprietários de lojas de cd no início dos anos 90 chamavam de “cliente fiel”. Lúcio era o tipo de cidadão revoltado que enfiava o dedo indicador na boca escancarada e mostrava a língua no intuito de ostentar um sinal de reprovação para o seu interlocutor ou para si mesmo ao ver uma imagem que lhe desagradava. Exemplo, quando se deparava com algum dos inúmeros pôsteres do Ugly Kid Joe. Exemplo, quando diziam que o Yes era uma banda de exibicionistas. Exemplo, quando viu, incrédulo, o que o Caio fez com a parte detrás do seu cabelo ao raspá-lo a seco com gilete Bic de barbear caminhoneiro. Lúcio era o cara que na adolescência reunia os amigos para tomar uma gin pura enquanto discutia a dúbia vida sexual de Phil Anselmo. Lúcio era o raro espécime que não se importava quando chamavam a mãe dele de vagabunda, mas que se alimentava de um ódio vertiginoso, que só era extravasado por meio da violência ou do sacrifício humano, quando diziam que Mr.Big era rock; ou por meio da sodomia artificial que leva à morte - estupro com cabos de vassoura, com cabos de aço, com picolés congelados por dois meses em forma de cone, com cone de estrada com cobertura de pixe de estrada -, quando injustamente diziam que Lars Ulrich, baterista do Metalica, coçava as amídalas com rôla de negão suada e nada asseada de 42 cm de comprimento e doze cm de diâmetro.
Lúcio era assim, mas ficou assim. Era uma espécie de Mike Tyson do rock, mas decidiu dar uma mudada e se transformar em um Lafon do indie. Deu uma desmunhecada. Desacelerou o pé do metal e de toda a podridão máscula que o envolvia e começou a usar cachecol roxo no verão, a freqüentar as feiras anuais do Mercado Mundo Mix, a encomendar objetos “in” do Mercado Mundo Mix, a marcar encontros para um “coffee” no Mercado Mundo Mix, a achar Pixies melhor que AC/DC, a gravar por cima de Ruas de Fogo e Warriors o “insbibado” Velvet Goldmine, a escutar músicas do New Order e usar adjetivos como “Lindo”, “Sublime”, “Delícia”, “Demais”, “Caramba, que louco”; a esnobar mulheres detentoras de apelidos como “Demo”, “Piolha”, “Bigode”, “Bigode de Pancho Villa”, “Peruana Falsificada”, “Pior que o Sloth”, “Pé de Lama”, “Vítima de Radiação”, “Corpinho de Fóssil”, “Nem Deus Salva”, “Troço de Rato”, “Só 1,99”, “HIV, certeza”, “Grand Canyon” e se relacionar com moçoilas batizadas como “Elisa”, “Abelhinha”, “Sarah Lisboa”, “Abigail”, “Miranda Boaventura” e “Carol”; a remover e destruir os seus antes intocáveis pôsteres do Cannibal Corpse, do Dave Mustaine, do Kirk Hamlet, do Deep Purple, do Gwar, do Motorhead e substituí-los por imagens do Morrisey mordendo o caule de uma margarida, de Peter Murphy, líder do Bauhaus, sentado sobre a tumba de Jim Morrison, no Pere Lachaise, trajando uma tanga preta minúscula de couro enquanto dava uma baforada em um Gitane. A única imagem remanescente do seu passado metaleiro era um pôster de Rob Halford, líder do Judas Priest e eterno Judas dos metaleiros homofóbicos, acelerando a sua Harley Davison e olhando em nossa direção como quem quer dizer, “Porra, gente, tá na cara, né?”.
A cara de cachorro abandonado desgostoso pelo gosto tóxico do rancor inerente reservado aos abandonados com grande coração tomou de assalto o meu saudoso semblante de deslumbramento oferecido pelo inocente amor concebido pela falta de desconfiança que é a mente de um imbecil de 17 anos, mentira, 18 anos, naquela tarde quase nublada de extremo verão em que estava na presença do meu amigo Lúcio, “bom, muito bom, curte Erasure?”, que infelizmente deixaria a cena ao ser procurado por uma menina chamada “Renata”- outros dois amigos, anos depois, deixaram a cena por culpa dos chamados da Renata -, e me deixaria sozinho, estático, perdido, sorumbático, impelido a rastejar pela rampa negra do desafortunado cinema que seria implodido um ano depois, coagido a dilatar as narinas e a receber o odor mágico das pululantes pipocas bicolores, a reservar um cantinho especial no meu bolso para os extintos drops Ducora que ludibriaram até mesmo o mestre Tim, a ouvir o córrego de Coca-Cola de máquina transbordando o obsoleto copo de papelão, a caminhar até minha poltrona na sala de projeção repleta de ácaros, a sentar na poltrona vermelha, a dirigir o olhar para o relógio, a lembrar que nunca tive relógio, a fechar os olhos e ser invadido pela certeza de que não haveria ninguém na sala de projeção para ver o filme comigo, a chegar à tenebrosa conclusão que nem zumbis canibalescos, colegiais orientais possuídas por espíritos ensandecidos, exorcistas norte-americanas peitudas cobertas de chantily que cospem gosma inflamável, sádicos yuppies da década de 80, e bruxas invisíveis que aniquilam visitantes indesejáveis, seriam mais assustadores que a expressão do próprio rosto ao ouvir o seu amor de ocasião lhe dizendo “que não o ama mais”.
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
Massive Attack and Drunk Memories
Prefácio: Papo de zagueiras
(Diálogo baseado em fatos reais)
Menina número 1: “meu, só tem gente feia nesse lugar.” Detalhe: a mina é birolha.
Menina número 2: “nossa, é verdade, só tem baiano nessa merda”, a mina número 2 é gorda pra caralho.
Menina número 1: “olha a roupa dessa menina, que coisa horrível, nada combina, parece uma... como é o nome daquele bicho que levanta umas pena colorida nas costa dele?” Além de birolha, é burra.
Menina número 2: “é uma garça, né?” Além de gorda pra caralho, não sabe que garça não é pavão.
Menina número1: “é esse bicho memo. Meu, mudando completamente de assunto, você soube que a Juliana Pompeu tá grávida?” Além de birolha e burra, é fofoqueira.
Menina número 2: “não, não acredito, pelo amor de Deus, que vaca, também ela já deu pra todo mundo, transa com todo mundo, beijou todo mundo do Universitas, bem feito praquela piranhuda gorda”, além de ser gorda e não saber que garça não é pavão, também é fofoqueira, virgem, sem espelho em casa e invejosa.
Eu adorava ir a lugares nos quais a dádiva da locomoção torna-se algo doloroso e vagaroso. Eu amava lugares onde sovacos masculinos e suor de pessoas gordas e porcas se fundiam com a nossa asseada pele. O problema é que eu estava sempre completamente doidão, portanto eu queria que tudo e todas as pessoas do mundo e de marte se fodessem explodindo.
O bom de ficar bêbado é que tudo parece possível de ser realizado. O ruim de ficar bêbado é que cu de bêbado não tem dono, mas nunca fiquei tão bêbado a ponto de esquecer que era dono do meu próprio cu. Por onde passava alguma coisa ia ao chão. Tentava mijar na rua, mas acabava mijando no meu pé e esquecendo de balançar a minhoca menor de idade (não só de idade) e os respingos amarelados sobre a calça eram inevitáveis.
Há mais de dez anos atrás, no período em que eu ainda era um inocente pré-adolescente que jogava Fifa Soccer, eu tinha uma terrível mania de fazer xixxizão com as calças completamente arriadas, o que era bastante reprovável e excêntrico quando eu, uma quase criança que socava uma e ainda reconhecia isso como um ato pecaminoso (mesmo sem saber o significado de pecaminoso), fazia a minha necessidade – e não “as”, porque extirpação das fezes eu não tinha coragem de fazer em público, embora já tenha feito na água do mar, o mesmo aconteceu com o meu amigo Ciro, o que não vem ao caso neste momento – no meio da rua, bem em frente aos incrédulos ou entretidos ou divertidos transeuntes de todas as raças, credos e gerações.
A minha devoção pelos destilados foi tão intensa que, aos 18 anos de idade, criei um pequeno guia de oito mandamentos por meio do qual instruía os incautos que atacavam as pingas com irresponsável sofreguidão a alcançarem o nível de embriaguez que os levaria, com alguma sombra de dúvida, ao tão almejado sucesso nas baladas de fim de semana. (Sucesso = Pegar mulher gata = Pegar duas ou mais mulheres gatas = Transar com mulher gata = Transar com duas ou mais mulheres gatas = Transar com todas as mulheres gatas da balada, inclusive com as vendedoras de cachorro quente - só com as gatas - que ficavam em frente à balada = Transar com todas as mulheres gatas da balada, inclusive com as vendedoras de cachorro quente - só com as gatas - que ficavam em frente à balada, e com as mães gostosas que iam pegar as respectivas filhas igualmente gostosas - que já foram espetadas por você horas, minutos, segundos antes -, e com a cobradora do busão - só se ela fosse gata, o que de fato não acontecia; um camarada meu pegou uma cobradora que tinha o corte de cabelo no formato asa delta, atitude que expõe à luz o deslize de ele não ter feito usufruto dos bens do meu guia. O mesmo camarada transou com uma ex-detenta que usava a coleção primavera-verão 2002 da Onbongo e, segundo o meu brother Fagundes, que estava na Prainha Branca, local da hediondez, “tinha uma copa aloirada, tal como o Cascão, no topo da cabeça, e parecia o Márcio Santos”, zagueiro do tetra na Copa de 94. Se bem que o próprio Fagundes tentou comer a ex-detenta vestida de Onbongo com a copa Aloirada parecida com o Márcio Santos, mas não conseguiu. O que denuncia que nem o meu guia é capaz de domar tais pedreirinhos.)
Agora leiam o guia que fez da Carlos Nehring (rua na qual eu e todos os meus amigos fomos criados) o maior antro de conquistadores que a Pérola do Atlântico jamais verá. (Ou verá? Ainda estamos esperando o dia em que isso irá acontecer.) / fator George Clooney de futuro promissor/
Guia alcoólico para garotos medianos (amaldiçoados?) que não agüentam mais ficar pesados
- Coma bastante antes de sair de casa.
- Peça uma garrafa de cerveja e tome com parcimônia. (Caso não saiba o que é parcimônia, tome-a devagar. Digo a cerveja, parcimônia não se bebe.)
- Peça outra, mas dessa vez seja menos cauteloso.
- Peça mais uma e vire com tudo e cuspa no chão para impor respeito. (Sem mostrar o peito, por favor, esse gesto é bem gay e só viado irá colar em você durante a balada.)
- Peça mais uma, só que dessa vez grite e bata com a palma da mão no balcão e dê uma risada de cigano e beba no gargalo da garrafa e cuidado para não derrubar a merda da garrafa e fazer um estrago e queimar o seu filme no bar e ser expulso pelo dono do bar e aí você vai ficar bravo porque já está bêbado e o dono do bar vai chamar os pescadores alcoólatras que já passaram da hora de marcarem uma consulta no dermatologista para descobrirem que já estão em um estágio avançado de câncer de pele e então eles vão te bater muito e vai sair sangue e quando sai sangue é uma merda.(Eu, ao ver sangue, já começo a chorar e gritar.)
- Peça mais uma e vire muito rápido, muito rápido, rápido, rápido...
- Peça mais outra e beba mais rápido ainda, mais rápido, ágil...
- Agora peça uma pinga pura e peça outra cerveja e alterne a bebedeira entre a pinga e a cerveja e torça para não fazer nenhuma besteira, tipo vomitar no pé de uma garota, principalmente de uma gostosa, quando isso acontece é terrível, sobretudo quando se está sozinho na balada e a gostosa está na companhia de algum amigão que está louco para comê-la, mas ainda não conseguiu, de modo que ele enxerga essa situação como uma perfeita oportunidade para conquistar o coração da garota, ou só o clitóris, e enche você - um saco de ossos e músculos totalmente fora de si e fora de equilíbrio e que só fala um dialeto, o dialeto do bêbado, que consiste só em falar merda – de porrada para comer a garota de quatro dentro do carro no final da balada, enquanto quem come o seu rabo no dia seguinte é a sua mãe e o seu pai por estar todo melecado de sangue seco e estar fedendo a álcool e por ter fodido o farol do carro e o pára-choque e amassado a porta e por não se lembrar de merda alguma.
Desde criançinha carrego um talento absurdo para bailar e fazer imitações de cantores e artistas dos mais variados. Por esse motivo que me entregava de corpo e alma a essas manifestações vazias e sem propósito algum, que têm como principal foco nos fazer acreditar que ler Camus é uma merda e que a melhor coisa a se fazer no mundo é encher a cara, ouvir e dançar música ruim, e agir como um completo babaca acéfalo.
Portanto, devo esclarecer algumas coisas acerca do meu nem tão distante passado. (Porque todo mundo tem um passado do qual não se orgulha.) Antes de ter sido influenciado pelas poesias de Charles Bukowski, pela prosa do John Fante, pelos vícios do Dostoieviski, pelas obsessões do Woody Allen, pelas músicas do Bob Dylan, pelas bizarrices do J. D. Salinger, pela insignificância musical do The The, pelas lamúrias do Jeff Buclkey, e pelos peitos da Érika Mader na série Mandrake, eu fui uma das inúmeras vítimas a fazer parte, mesmo que por pouco tempo, dos prazeres desprezíveis do gosto popular – eu era mais um no meio da massa.
Agora, com detalhes, farei um rápido apanhado da meteórica época em que eu estava incluído na categoria “Maria vai com as outras”, do teoricamente democrático “gosto popular”.
Leonardo 1986-1994
1- Aos 4 anos de idade, eu era obrigado a fazer uma versátil RaulGildesca performance para as visitas que aportavam em minha casa, na qual se destacavam as dublagens e os trejeitos mancos de Roberto Carlos, e o swing ainda negro de Michael Jackson, que redundaram em um prematuro problema nas minhas partes baixas devido ao excessivo número de golpes acompanhados pelos gritinhos afetados dados pelo Michael que eu imitava. (As seqüelas dessas violentíssimas pegadas no santo e nada asseado órgão genital vieram à tona na época em que eu batia 48 punhetas em um único mês. “É pra evitar o câncer de próstata”, eu dizia.)
2- Aos 4 anos e meio coloquei na cabeça que queria ter o rosto do Fofão do Balão Mágico. Perdi várias aulas no coléginho por causa das inúmeras visitas que tive que fazer à clínica de dermatologia.
3- Aos 5 anos descobri que gostava de futebol e que queria ser um jogador.
4- Aos 5 anos e meio virei Corintiano.
5- Aos 6 comprei a fantasia do Grifon, do Esquadrão nipônico Changeman.
6- Aos 6 e meio quebrei o nariz achando que poderia atravessar uma pilastra de concreto.
7-Aos 7 ganhei a minha primeira pipa e logo a coloquei no alto. Infelizmente, um minuto e meio depois de colocar aquele pedaço de papel com o rosto da Hello Kitty no céu (presente da minha madrinha), vi a minha adorável pipa ser cortada e esquartejada. Chorei demais, fiquei inconsolável, peguei as duas mãos e as coloquei nos dois extremos da boca no intuito de estourar com tudo e fazer cessar a portentosa dor. Aprendi essa manobra com o fanfarrão Didi Mocó. (Devo fazer uma pequena observação. Ao saber que eu era um bebê do sexo masculino, os meus familiares ficaram completamente decepcionados, isso porque eles contavam com o nascimento de uma menina. Depois, eles fizeram de tudo, até mesmo com o consentimento do meu avô nazista e gigolô, para tentar me transformar em uma bichinha, ou até mesmo em um travequinho mirim. Por isso que a minha madrinha me presenteou com a adorável pipa da Hello Kitty.)
8- Aos 8 chorei com o gol do Viola na final do Campeonato Paulista de 1988. E, na mesma data, descobri que a história da cegonha era uma falcatrua. (Pai e mãe, mãe e pai, pai e tia, mãe e filho do zelador, opa, fechem a porta.)
9- Aos 9 virei fã do Vanilla Ice e tive uma séria infecção no couro cabeludo de tanto besuntar no meu cabelo gel das mais variadas marcas. O propósito que buscava para essa repentina excentricidade era o de edificar um topete ainda maior que o do meu ídolo.
10- Aos 9 anos e meio andava na rua com catapora, com 3 relógios em cada pulso (todos eles quebrados), camisa com a estampa do Sérgio Malandro fazendo glu-glu, e só uma parte da cabeça habitada por exíguos fios capilares.
11- Aos 10 virei fã do New Kid’s On The Block e a minha família finalmente achou que eu viraria gay.
12- Aos 11 me transformei em rebelde (muito antes dos rebeldes mexicanos), deixei o cabelo crescer, depilei uma sobrancelha (?), usava shortinhos de lycra pretos acima do joelho e bem próximos à virilha, bebia água no vasilhame de cerveja Malt 90 à guisa de me assemelhar ao meu mais novo ídolo, Axl Rose. Minha avó teve um infarto quando me viu trajando esses modelitos. “Um infarto de imensa alegria”, disse a minha avó – irmã do meu avô nazi-gigolô e tia-avó do meu primo paparazzi - estendendo a mão na minha direção para presentear-me com uma necessaire de esmaltes com as cores do arco-íris.
13- Aos 12 anos de idade, inesperadamente, comecei a gostar de Pagode, Patrícia Marx e Luis Caldas – essa última escolha muito comemorada pela minha família por motivos óbvios.
14- Aos 13 anos bati punheta pela primeira vez e gozei na mão.
15- Aos 14 anos de idade conheci o AC/DC, Sex Pistols, parei de tomar banho, parei de escovar os dentes, comecei a cuspir no próprio rosto em lugares públicos, deixei de limpar a bunda e, surpreendentemente, comecei a pegar mulher.
16- Aos 15 anos de idade comprei uma bateria, montei uma banda, continuei pegando muita mulher (a maioria eram monstros horrendos) e achei que seria o novo Neil Peart.
17- Aos 17 me apaixonei perdidamente pela primeira vez e tomei no cu
(Diálogo baseado em fatos reais)
Menina número 1: “meu, só tem gente feia nesse lugar.” Detalhe: a mina é birolha.
Menina número 2: “nossa, é verdade, só tem baiano nessa merda”, a mina número 2 é gorda pra caralho.
Menina número 1: “olha a roupa dessa menina, que coisa horrível, nada combina, parece uma... como é o nome daquele bicho que levanta umas pena colorida nas costa dele?” Além de birolha, é burra.
Menina número 2: “é uma garça, né?” Além de gorda pra caralho, não sabe que garça não é pavão.
Menina número1: “é esse bicho memo. Meu, mudando completamente de assunto, você soube que a Juliana Pompeu tá grávida?” Além de birolha e burra, é fofoqueira.
Menina número 2: “não, não acredito, pelo amor de Deus, que vaca, também ela já deu pra todo mundo, transa com todo mundo, beijou todo mundo do Universitas, bem feito praquela piranhuda gorda”, além de ser gorda e não saber que garça não é pavão, também é fofoqueira, virgem, sem espelho em casa e invejosa.
Eu adorava ir a lugares nos quais a dádiva da locomoção torna-se algo doloroso e vagaroso. Eu amava lugares onde sovacos masculinos e suor de pessoas gordas e porcas se fundiam com a nossa asseada pele. O problema é que eu estava sempre completamente doidão, portanto eu queria que tudo e todas as pessoas do mundo e de marte se fodessem explodindo.
O bom de ficar bêbado é que tudo parece possível de ser realizado. O ruim de ficar bêbado é que cu de bêbado não tem dono, mas nunca fiquei tão bêbado a ponto de esquecer que era dono do meu próprio cu. Por onde passava alguma coisa ia ao chão. Tentava mijar na rua, mas acabava mijando no meu pé e esquecendo de balançar a minhoca menor de idade (não só de idade) e os respingos amarelados sobre a calça eram inevitáveis.
Há mais de dez anos atrás, no período em que eu ainda era um inocente pré-adolescente que jogava Fifa Soccer, eu tinha uma terrível mania de fazer xixxizão com as calças completamente arriadas, o que era bastante reprovável e excêntrico quando eu, uma quase criança que socava uma e ainda reconhecia isso como um ato pecaminoso (mesmo sem saber o significado de pecaminoso), fazia a minha necessidade – e não “as”, porque extirpação das fezes eu não tinha coragem de fazer em público, embora já tenha feito na água do mar, o mesmo aconteceu com o meu amigo Ciro, o que não vem ao caso neste momento – no meio da rua, bem em frente aos incrédulos ou entretidos ou divertidos transeuntes de todas as raças, credos e gerações.
A minha devoção pelos destilados foi tão intensa que, aos 18 anos de idade, criei um pequeno guia de oito mandamentos por meio do qual instruía os incautos que atacavam as pingas com irresponsável sofreguidão a alcançarem o nível de embriaguez que os levaria, com alguma sombra de dúvida, ao tão almejado sucesso nas baladas de fim de semana. (Sucesso = Pegar mulher gata = Pegar duas ou mais mulheres gatas = Transar com mulher gata = Transar com duas ou mais mulheres gatas = Transar com todas as mulheres gatas da balada, inclusive com as vendedoras de cachorro quente - só com as gatas - que ficavam em frente à balada = Transar com todas as mulheres gatas da balada, inclusive com as vendedoras de cachorro quente - só com as gatas - que ficavam em frente à balada, e com as mães gostosas que iam pegar as respectivas filhas igualmente gostosas - que já foram espetadas por você horas, minutos, segundos antes -, e com a cobradora do busão - só se ela fosse gata, o que de fato não acontecia; um camarada meu pegou uma cobradora que tinha o corte de cabelo no formato asa delta, atitude que expõe à luz o deslize de ele não ter feito usufruto dos bens do meu guia. O mesmo camarada transou com uma ex-detenta que usava a coleção primavera-verão 2002 da Onbongo e, segundo o meu brother Fagundes, que estava na Prainha Branca, local da hediondez, “tinha uma copa aloirada, tal como o Cascão, no topo da cabeça, e parecia o Márcio Santos”, zagueiro do tetra na Copa de 94. Se bem que o próprio Fagundes tentou comer a ex-detenta vestida de Onbongo com a copa Aloirada parecida com o Márcio Santos, mas não conseguiu. O que denuncia que nem o meu guia é capaz de domar tais pedreirinhos.)
Agora leiam o guia que fez da Carlos Nehring (rua na qual eu e todos os meus amigos fomos criados) o maior antro de conquistadores que a Pérola do Atlântico jamais verá. (Ou verá? Ainda estamos esperando o dia em que isso irá acontecer.) / fator George Clooney de futuro promissor/
Guia alcoólico para garotos medianos (amaldiçoados?) que não agüentam mais ficar pesados
- Coma bastante antes de sair de casa.
- Peça uma garrafa de cerveja e tome com parcimônia. (Caso não saiba o que é parcimônia, tome-a devagar. Digo a cerveja, parcimônia não se bebe.)
- Peça outra, mas dessa vez seja menos cauteloso.
- Peça mais uma e vire com tudo e cuspa no chão para impor respeito. (Sem mostrar o peito, por favor, esse gesto é bem gay e só viado irá colar em você durante a balada.)
- Peça mais uma, só que dessa vez grite e bata com a palma da mão no balcão e dê uma risada de cigano e beba no gargalo da garrafa e cuidado para não derrubar a merda da garrafa e fazer um estrago e queimar o seu filme no bar e ser expulso pelo dono do bar e aí você vai ficar bravo porque já está bêbado e o dono do bar vai chamar os pescadores alcoólatras que já passaram da hora de marcarem uma consulta no dermatologista para descobrirem que já estão em um estágio avançado de câncer de pele e então eles vão te bater muito e vai sair sangue e quando sai sangue é uma merda.(Eu, ao ver sangue, já começo a chorar e gritar.)
- Peça mais uma e vire muito rápido, muito rápido, rápido, rápido...
- Peça mais outra e beba mais rápido ainda, mais rápido, ágil...
- Agora peça uma pinga pura e peça outra cerveja e alterne a bebedeira entre a pinga e a cerveja e torça para não fazer nenhuma besteira, tipo vomitar no pé de uma garota, principalmente de uma gostosa, quando isso acontece é terrível, sobretudo quando se está sozinho na balada e a gostosa está na companhia de algum amigão que está louco para comê-la, mas ainda não conseguiu, de modo que ele enxerga essa situação como uma perfeita oportunidade para conquistar o coração da garota, ou só o clitóris, e enche você - um saco de ossos e músculos totalmente fora de si e fora de equilíbrio e que só fala um dialeto, o dialeto do bêbado, que consiste só em falar merda – de porrada para comer a garota de quatro dentro do carro no final da balada, enquanto quem come o seu rabo no dia seguinte é a sua mãe e o seu pai por estar todo melecado de sangue seco e estar fedendo a álcool e por ter fodido o farol do carro e o pára-choque e amassado a porta e por não se lembrar de merda alguma.
Desde criançinha carrego um talento absurdo para bailar e fazer imitações de cantores e artistas dos mais variados. Por esse motivo que me entregava de corpo e alma a essas manifestações vazias e sem propósito algum, que têm como principal foco nos fazer acreditar que ler Camus é uma merda e que a melhor coisa a se fazer no mundo é encher a cara, ouvir e dançar música ruim, e agir como um completo babaca acéfalo.
Portanto, devo esclarecer algumas coisas acerca do meu nem tão distante passado. (Porque todo mundo tem um passado do qual não se orgulha.) Antes de ter sido influenciado pelas poesias de Charles Bukowski, pela prosa do John Fante, pelos vícios do Dostoieviski, pelas obsessões do Woody Allen, pelas músicas do Bob Dylan, pelas bizarrices do J. D. Salinger, pela insignificância musical do The The, pelas lamúrias do Jeff Buclkey, e pelos peitos da Érika Mader na série Mandrake, eu fui uma das inúmeras vítimas a fazer parte, mesmo que por pouco tempo, dos prazeres desprezíveis do gosto popular – eu era mais um no meio da massa.
Agora, com detalhes, farei um rápido apanhado da meteórica época em que eu estava incluído na categoria “Maria vai com as outras”, do teoricamente democrático “gosto popular”.
Leonardo 1986-1994
1- Aos 4 anos de idade, eu era obrigado a fazer uma versátil RaulGildesca performance para as visitas que aportavam em minha casa, na qual se destacavam as dublagens e os trejeitos mancos de Roberto Carlos, e o swing ainda negro de Michael Jackson, que redundaram em um prematuro problema nas minhas partes baixas devido ao excessivo número de golpes acompanhados pelos gritinhos afetados dados pelo Michael que eu imitava. (As seqüelas dessas violentíssimas pegadas no santo e nada asseado órgão genital vieram à tona na época em que eu batia 48 punhetas em um único mês. “É pra evitar o câncer de próstata”, eu dizia.)
2- Aos 4 anos e meio coloquei na cabeça que queria ter o rosto do Fofão do Balão Mágico. Perdi várias aulas no coléginho por causa das inúmeras visitas que tive que fazer à clínica de dermatologia.
3- Aos 5 anos descobri que gostava de futebol e que queria ser um jogador.
4- Aos 5 anos e meio virei Corintiano.
5- Aos 6 comprei a fantasia do Grifon, do Esquadrão nipônico Changeman.
6- Aos 6 e meio quebrei o nariz achando que poderia atravessar uma pilastra de concreto.
7-Aos 7 ganhei a minha primeira pipa e logo a coloquei no alto. Infelizmente, um minuto e meio depois de colocar aquele pedaço de papel com o rosto da Hello Kitty no céu (presente da minha madrinha), vi a minha adorável pipa ser cortada e esquartejada. Chorei demais, fiquei inconsolável, peguei as duas mãos e as coloquei nos dois extremos da boca no intuito de estourar com tudo e fazer cessar a portentosa dor. Aprendi essa manobra com o fanfarrão Didi Mocó. (Devo fazer uma pequena observação. Ao saber que eu era um bebê do sexo masculino, os meus familiares ficaram completamente decepcionados, isso porque eles contavam com o nascimento de uma menina. Depois, eles fizeram de tudo, até mesmo com o consentimento do meu avô nazista e gigolô, para tentar me transformar em uma bichinha, ou até mesmo em um travequinho mirim. Por isso que a minha madrinha me presenteou com a adorável pipa da Hello Kitty.)
8- Aos 8 chorei com o gol do Viola na final do Campeonato Paulista de 1988. E, na mesma data, descobri que a história da cegonha era uma falcatrua. (Pai e mãe, mãe e pai, pai e tia, mãe e filho do zelador, opa, fechem a porta.)
9- Aos 9 virei fã do Vanilla Ice e tive uma séria infecção no couro cabeludo de tanto besuntar no meu cabelo gel das mais variadas marcas. O propósito que buscava para essa repentina excentricidade era o de edificar um topete ainda maior que o do meu ídolo.
10- Aos 9 anos e meio andava na rua com catapora, com 3 relógios em cada pulso (todos eles quebrados), camisa com a estampa do Sérgio Malandro fazendo glu-glu, e só uma parte da cabeça habitada por exíguos fios capilares.
11- Aos 10 virei fã do New Kid’s On The Block e a minha família finalmente achou que eu viraria gay.
12- Aos 11 me transformei em rebelde (muito antes dos rebeldes mexicanos), deixei o cabelo crescer, depilei uma sobrancelha (?), usava shortinhos de lycra pretos acima do joelho e bem próximos à virilha, bebia água no vasilhame de cerveja Malt 90 à guisa de me assemelhar ao meu mais novo ídolo, Axl Rose. Minha avó teve um infarto quando me viu trajando esses modelitos. “Um infarto de imensa alegria”, disse a minha avó – irmã do meu avô nazi-gigolô e tia-avó do meu primo paparazzi - estendendo a mão na minha direção para presentear-me com uma necessaire de esmaltes com as cores do arco-íris.
13- Aos 12 anos de idade, inesperadamente, comecei a gostar de Pagode, Patrícia Marx e Luis Caldas – essa última escolha muito comemorada pela minha família por motivos óbvios.
14- Aos 13 anos bati punheta pela primeira vez e gozei na mão.
15- Aos 14 anos de idade conheci o AC/DC, Sex Pistols, parei de tomar banho, parei de escovar os dentes, comecei a cuspir no próprio rosto em lugares públicos, deixei de limpar a bunda e, surpreendentemente, comecei a pegar mulher.
16- Aos 15 anos de idade comprei uma bateria, montei uma banda, continuei pegando muita mulher (a maioria eram monstros horrendos) e achei que seria o novo Neil Peart.
17- Aos 17 me apaixonei perdidamente pela primeira vez e tomei no cu
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Cloaca PO(bre ou dre)P # 3
Perguntas que Gostaria de Fazer para Pessoas que Teriam Respostas para Me Satisfazer:
Pergunta: Já que você odeia o cinema brasileiro contemporâneo, duramente criticado pelo senhor...
Resposta: Senhor? Eu só tenho 29 anos!
Pergunta: Desculpe, intui erroneamente a sua idade baseado na armação do seu óculos.
Resposta: Tudo bem, monsieur, deixa pra lá.
Pergunta: Voltamos à questão. Já que você odeia o cinema nacional contemporâneo, duramente criticado por você “pela excessiva dissecação do paradigma da miséria e pela glamourização do crime organizado”, qual o período do cinema brasileiro que você reconhece como o mais relevante da nossa história?
Resposta: A Pornochanchada!
Pergunta: Poxa, cara, o que você tem contra o rap?
Resposta: É uma música sem criatividade.
Pergunta: Mas você não foi o membro fundador do fã clube do Thee Butcher’s Orchestra?
Resposta: Fui.
Em 2004...
Resposta: O show do Mars Volta foi ridículo, puro teatro!
Pergunta: Qual foi melhor show da noite?
Resposta: Grenade, nossa, disparado, meu!
Pergunta: Você não é a assessora de imprensa deles?
Resposta: É, sou.
Resposta: As Panicats não são gostosas nem bonitas!
Pergunta: Tá falando sério?
Resposta: Nem a Flávia Alessandra!
Pergunta: Tá maluco?
Resposta: Nem a Dani Bananinha.
Pergunta: Virou bicha?
Resposta: Nem a Jennifer Connelly
Pergunta: Então quem é gostosa e bonita?
Resposta: Kim Deal, sempre Kim Deal, para sempre Kim Deal.
Resposta: Tira esse som, tira essa bosta, essa mina chata gritando!
Pergunta: Eu li uma entrevista do Strokes falando muito bem dela, sabia?
Resposta: Me empresta depois para eu ouvir melhor.
Pergunta: A senhora escreveu um livro acadêmico sobre os brasileiros que vivem em Portugal?
Resposta: Sim. O livro parte da problemática da premissa redutora que o ser pernóstico...
Pergunta: Tá bom, cala a boca! O que é um livro acadêmico?
Resposta: Ah, eu só tive que colocar o meu nome na capa. O resto é só citação.
Pergunta: Cópia?
Resposta: Magina...
Pergunta: Cópia acadêmica?
Resposta: Exato.
Resposta: Cara, cê só fica aí deitado, bebendo cerveja, fumando maconha, lendo livro, falando merda com esses teus amigo fracassado, discutindo futebol, assistindo filme do Kevin Smith, do Simon Pegg, do Scorcese... Sai desse mundo sem significado, seu idiota, vamo curtir a vida, conhecer pessoas diferentes...
Pergunta: Me deixa, caralho, cuida da tua vida... Por falar nisso, que dia é hoje?
Resposta: Sexta.
Pergunta: Vai pra onde?
Resposta: Pro Glória!
Pergunta: A Trama é boa pra música?
Resposta: Claro, rapaz. Criamos o site Trama Virtual, o programa da Trama, na rede Multishow, apoiamos o programa Radiola, na T.V Cultura, estimulamos o cenário independente por todo o Brasil...
Pergunta: A Trama é boa pra música?
Resposta: Claro, meu rapaz. Lançamos Wilson Simoninha, Max de Castro, Pedro Mariano, Jairzinho, Luciana Mello...
Resposta: Ler Chuck Palahniuk não faz de você um intelectual respeitável.
Pergunta: O que devo ler para ser considerado um intelectual respeitável?
Resposta: Ulysses, de James Joyce.
Pergunta: Já leu?
Resposta: Claro, meu querido.
Pergunta: Entendeu?
Resposta: Não.
Resposta: Ele me falou que eu sou ridícula, que não tenho o mínimo de carisma, que não possuo apelo comercial...
Pergunta: Sério? Ele falou isso mesmo pra você?
Resposta: Que eu sou feia, que a minha voz é horrível, que não consigo segurar uma nota...
Pergunta: O que mais?
Resposta: Que eu não tenho talento, não tenho criatividade, que pra sempre serei uma empacada...
Pergunta: Afinal, quem falou isso tudo pra você?
Resposta: Kiko Zambianchi.
Pergunta: Olá, seja bem-vinda, como vai você?
Resposta: Vou bem.
Pergunta: Cadê o seu namorado?
Resposta: Não pôde vir, surgiu um compromisso inadiável de última hora.
Pergunta: Você tá bem mesmo?
Resposta: Mais ou menos.
Pergunta: O que tá pegando?
Resposta: É o meu namorado, o Carlos...
Pergunta: O que foi que ele fez?
Resposta: Eu não gosto quando ele desmarca os compromissos em cima da hora. Agora vou ficar de vela de você e da Pietra.
Pergunta: Que nada, relaxa. Qual o compromisso inadiável que não permitiu que ele viesse?
Resposta: Foi jogar Magic com os amigos.
Pergunta: E essa?
Resposta: Já peguei.
Pergunta: E essa aí com o moletom desbotado do Epcot Center?
Resposta: Já pagou uma bubuca pra mim dentro do carro do Senzala.
Pergunta: E a loira bunduda?
Resposta: Dei só uns beijinhos. Beija mal.
Pergunta: E a morena peituda?
Resposta: Tirei a virgindade dela.
Pergunta: E a ruivinha sardenta?
Resposta: Comi ela e a mãe.
Pergunta: Ao mesmo tempo?
Resposta: Lógico. Fiz cada uma gozar três vezes!
Pergunta: E aquela ali que tá apoiada no vaso de barro?
Resposta: Tive um caso com ela durante dois meses. Inverno é foda.
Pergunta: A anã? Tu teve um caso com a anã do terceiro ano de geografia?
Resposta: Opa, peraí... caralho, me enganei... é mentira... confundi...
Pergunta: Você tem alguma informação oficial sobre os indicados ao prêmio Nabokov deste ano?
Resposta: Informação oficial eu não tenho, mas já sei quem vai ganhar.
Pergunta: Quem?
Resposta: Porra, o Marcelo Camelo.
Resposta: Corintiano é tudo ridículo, tudo sofredor, tudo cagão!
Pergunta: Torce pra quem?
Resposta: Pro Manchester United.
Pergunta: Você nasceu onde?
Resposta: Na Barra do Una, fica no litoral sul de São Paulo.
Pergunta: Tem um puta manguezal por lá, né?
Resposta: Tem, eu nasci bem ao lado do mangue, fiquei com cara toda melecada. Na verdade, ainda nem tem luz naquela porra.
Resposta: Fecha a porta!
Pergunta: E aí, o que aconteceu? Por que essa bagunça?
Resposta: Minha mina me deixou.
Pergunta: Por quê?
Resposta: Incompatibilidade de interesses.
Pergunta: O que você tá fazendo com essa caixa na mão?
Resposta: Vou jogar tudo que é dela fora. Começando pelos CD’s.
Pergunta: Ela não vai ficar brava?
Resposta: Eu quero que ela se foda. Se liga, me ajuda.
Pergunta: O que é isso?
Resposta: É o CD do Fugazi, uma bosta, é dela, pode jogar fora!
Pergunta: E esse?
Resposta: The Nudes, Pele. Também é dela, deve ser alguma coisa que o Pelé canta, música pra criança pobre e analfabeta, sei lá, eu não sabia que ela gostava do Pelé, aquela vaca sempre odiou futebol. Foda-se, joga fora!
Pergunta: E esse aqui com esse cara de boina?
Resposta: Bob Dylan. Parece música sertaneja. É um malandro tipo fanhoso. Também é da Elisa. Manda Pro lixo.
Pergunta: E esse do cara de correntão?
Resposta: Caralho, eu achei que tinha perdido este CD, gosto pra caralho desse cara, ele faz um som foda. Este disco é meu. A Elisa odiava este CD. Mas um motivo pra odiar aquela vaca! Bota pra rolar no som.
Pergunta: Qual é o nome desse cara do correntão que tu curte?
Resposta: Cabal.
Pergunta: Ele faz a sobrancelha, não faz?
Resposta: Tá louco, mano, o cara é sangue nos óio!
Pergunta: Tá lendo o quê?
Resposta: Revolução dos Bichos.
Pergunta: Tá lendo o quê?
Resposta: Veja
Pergunta: Tá lendo o quê?
Resposta: Valor nutricional do Cebolitos.
Pergunta: Tá lendo o quê?
Resposta: “Era Só Mais Um Silva: A História Do Funk Carioca”.
Pergunta: Tá lendo o quê?
Resposta: Cartaz de desaparecimento de um cão na primeira pessoa.
Pergunta: Foi o cão que escreveu?
Resposta: Parece que sim.
Pergunta: Como é?
Resposta: “Oi, eu sou o Fluffy, tenho dois aninhos e estou com a minha patinha esquerda quebrada. Sou macho, apesar do meu nome e da minha raça, pudoll, e há duas semanas estou longe de casa e com muito frio, fome e com saudades dos meus donos...
Resposta: Na minha adolescência, quando estava com os hormônios em ebulição e não podia alugar filme pornô na locadora, eu alugava Instinto Selvagem.
Pergunta: E hoje, se não tivesse internet, o que será que a molekadinha iria alugar para socar uma?
Resposta: Ken Park!
Resposta: Hoje eu fiquei pensando nas oscilações da existência e cheguei a uma reconfortante conclusão.
Pergunta: Qual?
Resposta: Até as coisas mais grotescas podem se tornar triunfos tão aprazíveis quanto um orgasmo fantástico que precede o mais belo pôr do sol.
Pergunta: Por exemplo?
Resposta: Kenny G versão Ska!
Resposta do que sempre pergunta: Pode crer.
Pergunta: Já que você odeia o cinema brasileiro contemporâneo, duramente criticado pelo senhor...
Resposta: Senhor? Eu só tenho 29 anos!
Pergunta: Desculpe, intui erroneamente a sua idade baseado na armação do seu óculos.
Resposta: Tudo bem, monsieur, deixa pra lá.
Pergunta: Voltamos à questão. Já que você odeia o cinema nacional contemporâneo, duramente criticado por você “pela excessiva dissecação do paradigma da miséria e pela glamourização do crime organizado”, qual o período do cinema brasileiro que você reconhece como o mais relevante da nossa história?
Resposta: A Pornochanchada!
Pergunta: Poxa, cara, o que você tem contra o rap?
Resposta: É uma música sem criatividade.
Pergunta: Mas você não foi o membro fundador do fã clube do Thee Butcher’s Orchestra?
Resposta: Fui.
Em 2004...
Resposta: O show do Mars Volta foi ridículo, puro teatro!
Pergunta: Qual foi melhor show da noite?
Resposta: Grenade, nossa, disparado, meu!
Pergunta: Você não é a assessora de imprensa deles?
Resposta: É, sou.
Resposta: As Panicats não são gostosas nem bonitas!
Pergunta: Tá falando sério?
Resposta: Nem a Flávia Alessandra!
Pergunta: Tá maluco?
Resposta: Nem a Dani Bananinha.
Pergunta: Virou bicha?
Resposta: Nem a Jennifer Connelly
Pergunta: Então quem é gostosa e bonita?
Resposta: Kim Deal, sempre Kim Deal, para sempre Kim Deal.
Resposta: Tira esse som, tira essa bosta, essa mina chata gritando!
Pergunta: Eu li uma entrevista do Strokes falando muito bem dela, sabia?
Resposta: Me empresta depois para eu ouvir melhor.
Pergunta: A senhora escreveu um livro acadêmico sobre os brasileiros que vivem em Portugal?
Resposta: Sim. O livro parte da problemática da premissa redutora que o ser pernóstico...
Pergunta: Tá bom, cala a boca! O que é um livro acadêmico?
Resposta: Ah, eu só tive que colocar o meu nome na capa. O resto é só citação.
Pergunta: Cópia?
Resposta: Magina...
Pergunta: Cópia acadêmica?
Resposta: Exato.
Resposta: Cara, cê só fica aí deitado, bebendo cerveja, fumando maconha, lendo livro, falando merda com esses teus amigo fracassado, discutindo futebol, assistindo filme do Kevin Smith, do Simon Pegg, do Scorcese... Sai desse mundo sem significado, seu idiota, vamo curtir a vida, conhecer pessoas diferentes...
Pergunta: Me deixa, caralho, cuida da tua vida... Por falar nisso, que dia é hoje?
Resposta: Sexta.
Pergunta: Vai pra onde?
Resposta: Pro Glória!
Pergunta: A Trama é boa pra música?
Resposta: Claro, rapaz. Criamos o site Trama Virtual, o programa da Trama, na rede Multishow, apoiamos o programa Radiola, na T.V Cultura, estimulamos o cenário independente por todo o Brasil...
Pergunta: A Trama é boa pra música?
Resposta: Claro, meu rapaz. Lançamos Wilson Simoninha, Max de Castro, Pedro Mariano, Jairzinho, Luciana Mello...
Resposta: Ler Chuck Palahniuk não faz de você um intelectual respeitável.
Pergunta: O que devo ler para ser considerado um intelectual respeitável?
Resposta: Ulysses, de James Joyce.
Pergunta: Já leu?
Resposta: Claro, meu querido.
Pergunta: Entendeu?
Resposta: Não.
Resposta: Ele me falou que eu sou ridícula, que não tenho o mínimo de carisma, que não possuo apelo comercial...
Pergunta: Sério? Ele falou isso mesmo pra você?
Resposta: Que eu sou feia, que a minha voz é horrível, que não consigo segurar uma nota...
Pergunta: O que mais?
Resposta: Que eu não tenho talento, não tenho criatividade, que pra sempre serei uma empacada...
Pergunta: Afinal, quem falou isso tudo pra você?
Resposta: Kiko Zambianchi.
Pergunta: Olá, seja bem-vinda, como vai você?
Resposta: Vou bem.
Pergunta: Cadê o seu namorado?
Resposta: Não pôde vir, surgiu um compromisso inadiável de última hora.
Pergunta: Você tá bem mesmo?
Resposta: Mais ou menos.
Pergunta: O que tá pegando?
Resposta: É o meu namorado, o Carlos...
Pergunta: O que foi que ele fez?
Resposta: Eu não gosto quando ele desmarca os compromissos em cima da hora. Agora vou ficar de vela de você e da Pietra.
Pergunta: Que nada, relaxa. Qual o compromisso inadiável que não permitiu que ele viesse?
Resposta: Foi jogar Magic com os amigos.
Pergunta: E essa?
Resposta: Já peguei.
Pergunta: E essa aí com o moletom desbotado do Epcot Center?
Resposta: Já pagou uma bubuca pra mim dentro do carro do Senzala.
Pergunta: E a loira bunduda?
Resposta: Dei só uns beijinhos. Beija mal.
Pergunta: E a morena peituda?
Resposta: Tirei a virgindade dela.
Pergunta: E a ruivinha sardenta?
Resposta: Comi ela e a mãe.
Pergunta: Ao mesmo tempo?
Resposta: Lógico. Fiz cada uma gozar três vezes!
Pergunta: E aquela ali que tá apoiada no vaso de barro?
Resposta: Tive um caso com ela durante dois meses. Inverno é foda.
Pergunta: A anã? Tu teve um caso com a anã do terceiro ano de geografia?
Resposta: Opa, peraí... caralho, me enganei... é mentira... confundi...
Pergunta: Você tem alguma informação oficial sobre os indicados ao prêmio Nabokov deste ano?
Resposta: Informação oficial eu não tenho, mas já sei quem vai ganhar.
Pergunta: Quem?
Resposta: Porra, o Marcelo Camelo.
Resposta: Corintiano é tudo ridículo, tudo sofredor, tudo cagão!
Pergunta: Torce pra quem?
Resposta: Pro Manchester United.
Pergunta: Você nasceu onde?
Resposta: Na Barra do Una, fica no litoral sul de São Paulo.
Pergunta: Tem um puta manguezal por lá, né?
Resposta: Tem, eu nasci bem ao lado do mangue, fiquei com cara toda melecada. Na verdade, ainda nem tem luz naquela porra.
Resposta: Fecha a porta!
Pergunta: E aí, o que aconteceu? Por que essa bagunça?
Resposta: Minha mina me deixou.
Pergunta: Por quê?
Resposta: Incompatibilidade de interesses.
Pergunta: O que você tá fazendo com essa caixa na mão?
Resposta: Vou jogar tudo que é dela fora. Começando pelos CD’s.
Pergunta: Ela não vai ficar brava?
Resposta: Eu quero que ela se foda. Se liga, me ajuda.
Pergunta: O que é isso?
Resposta: É o CD do Fugazi, uma bosta, é dela, pode jogar fora!
Pergunta: E esse?
Resposta: The Nudes, Pele. Também é dela, deve ser alguma coisa que o Pelé canta, música pra criança pobre e analfabeta, sei lá, eu não sabia que ela gostava do Pelé, aquela vaca sempre odiou futebol. Foda-se, joga fora!
Pergunta: E esse aqui com esse cara de boina?
Resposta: Bob Dylan. Parece música sertaneja. É um malandro tipo fanhoso. Também é da Elisa. Manda Pro lixo.
Pergunta: E esse do cara de correntão?
Resposta: Caralho, eu achei que tinha perdido este CD, gosto pra caralho desse cara, ele faz um som foda. Este disco é meu. A Elisa odiava este CD. Mas um motivo pra odiar aquela vaca! Bota pra rolar no som.
Pergunta: Qual é o nome desse cara do correntão que tu curte?
Resposta: Cabal.
Pergunta: Ele faz a sobrancelha, não faz?
Resposta: Tá louco, mano, o cara é sangue nos óio!
Pergunta: Tá lendo o quê?
Resposta: Revolução dos Bichos.
Pergunta: Tá lendo o quê?
Resposta: Veja
Pergunta: Tá lendo o quê?
Resposta: Valor nutricional do Cebolitos.
Pergunta: Tá lendo o quê?
Resposta: “Era Só Mais Um Silva: A História Do Funk Carioca”.
Pergunta: Tá lendo o quê?
Resposta: Cartaz de desaparecimento de um cão na primeira pessoa.
Pergunta: Foi o cão que escreveu?
Resposta: Parece que sim.
Pergunta: Como é?
Resposta: “Oi, eu sou o Fluffy, tenho dois aninhos e estou com a minha patinha esquerda quebrada. Sou macho, apesar do meu nome e da minha raça, pudoll, e há duas semanas estou longe de casa e com muito frio, fome e com saudades dos meus donos...
Resposta: Na minha adolescência, quando estava com os hormônios em ebulição e não podia alugar filme pornô na locadora, eu alugava Instinto Selvagem.
Pergunta: E hoje, se não tivesse internet, o que será que a molekadinha iria alugar para socar uma?
Resposta: Ken Park!
Resposta: Hoje eu fiquei pensando nas oscilações da existência e cheguei a uma reconfortante conclusão.
Pergunta: Qual?
Resposta: Até as coisas mais grotescas podem se tornar triunfos tão aprazíveis quanto um orgasmo fantástico que precede o mais belo pôr do sol.
Pergunta: Por exemplo?
Resposta: Kenny G versão Ska!
Resposta do que sempre pergunta: Pode crer.
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
O que é meu não é seu – mas pode ser

O primeiro livro que me causou angústia foi 1933 foi um ano ruim, do escritor norte-americano John Fante. A primeira música que me fez chorar - apesar de ser uma alegria só - foi Penny Lane, dos Beatles. O primeiro filme que me mostrou que a estupidez pode ser genial foi O Balconista, do Kevin Smith.
Basicamente, sou um homem angustiado, emotivo e estúpido. Na real, todo mundo é angustiado, emotivo e estúpido. Só as razões é que diferem. A famigerada particularidade.
Basicamente, sou um homem angustiado, emotivo e estúpido. Na real, todo mundo é angustiado, emotivo e estúpido. Só as razões é que diferem. A famigerada particularidade.
Tenho um amigo. O nome dele é Flávio. A mãe o chama de Frávio. Nós o chamamos de Falcão. Falcão nasceu no interior de São Paulo, em Piracicaba. Falcão tirava foto sem camisa, só de cueca e colocava no Orkut. Falcão retocava o rosto cheio de espinhas no Photoshop para não queimar o seu filme com as garotas. Falcão fazia sessões de strip-tease na frente da web can. Falcão sonha em se tornar um ator pornô. Ele diz que o seu pinto mede 21 cm. O ator predileto de Falcão – tirando o mega star da pornografia Rocco Siffredi, que é hour concour – é o ex-lutador de luta livre The Rock.
Vicente nasceu pobre. Desde criança percebeu que preferia os meninos às meninas. A sua mãe era cega. Não porque não sabia de nada. Era cega porque não sabia que o céu era azul. Era cega porque não sabia o que era azul. Era cega porque nunca se viu no espelho. Era, porque se foi. Vicente virou bombeiro. Conheceu o mundo. Tornou-se um grande desenhista. Fez amigos na Itália. Fez amigos na Suécia. Fez amigos na África. Fez amigos em Vicente de Carvalho. Conhece a vida de Carmen Miranda como poucos. Conhece a minha mãe como poucos. Vicente é meu tio. Mas Vicente não é o meu tio de sangue. Embora eu o considere mais meu tio do que qualquer tio que tenha o meu sangue.
Aos nove anos de idade, Pietra ainda não tinha os incisivos centrais. Os dentes da frente. Imagine a Mônica sem a protuberância. Pronto. Pietra parecia uma indiazinha quando pequena. Mas Pietra cresceu rápido. Sempre a última da fila. A gostosona da turma. Pietra tem uma cicatriz na parte de dentro do tornozelo esquerdo. Tudo por culpa de um garoto. Decepção seguida de atropelamento. Duas cirurgias, sete pinos, seis meses engessada e a recompensa de se apaixonar doze anos depois: por mim.
Uns preferem tirar para colocar. Outros preferem fugir para se encontrar. Alguns não percebem que precisam sofrer para se apaixonar: por si mesmo, pela vida ou por alguém. Particularidades.
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
A Praia (a minha, não do Alex Garland, muito menos a do Ian Mcewan
Acordar. Trocar de cama. Beijinhos e abraços matinais. O que era fofinho vira sacanagem. Não gosto quando acaba a sacanagem, quero mais, sou tarado. Minha namorada toma banho. Eu tento invadir o banheiro. Ela trancou a porta. Ela sai enrolada na toalha. Arremeto sobre ela. Ela foge e diz que talvez ela precise cortar o meu pinto. Me sinto o Michael Douglas. Vou para o banho. Saio do banho direto para a privada. Escorrego o moreno. Ou os morenos. Me troco. Ela já tá trocada mas não tá pronta. Escova no cabelo e liga o secador e arruma a franja: “Nossa, minha franja está horrível.” O cabelo dela é lindo. A cor, o comprimento, a forma como ele realça todo o rosto dela e ela faz questão de criticá-lo todo o santo dia. Será que a Jennifer Connelly não gosta da cor dos seus olhos? Será que a Scarlett Johansson está pensando seriamente em diminuir o tamanho daquelas enormes e suculentas tetas? (Que vulgar, tetas, não é? Sou um príncipe, não posso dizer uma coisa dessas.) Então ela vai ao refeitório e eu a acompanho só para fazer companhia mesmo. Ela pega mamão e suco de caju e faz um sanduíche de presunto com queijo e pega leite e coloca três colheres de Nescau e mexe a colher dentro da caneca e o barulho é tlec tlec tlec... Levantamos, vamos até o quarto e fuço dentro da minha mochila e arranco lá de dentro um pacote de bolacha recheada de chocolate Passatempo e abro o frigobar e pego uma Coca Ligth e digo como sempre digo e direi enquanto tiver saúde para expressar exaustivamente essa frase sem graça: “É o café dos campeões!”. Saímos do quarto, está um puta sol e desde que chegamos aqui não choveu e parece que não irá chover tão cedo. Vamos para o centro, à cidade, ao encontro do povo. Depois do primeiro dia, no qual voltamos a pé para a pousada, excluímos da nossa atividade atlética o único e solitário quesito: caminhar. Vamos de carro. Além de mais rápido, ainda podemos cantar “I Am The Walrus” inteira e metade de “Penny Lane” ou “Penny Lane” inteira e metade de “A Day In The Life” ou “A Day In The Life” inteira e metade do som dos pássaros e dos carros ou das pessoas porque a minha namorada já cansou de tanto “I Am The Walrus” e “Penny Lane” e “A Day In The Life”.
Estaciono sempre no mesmo lugar, em frente à praia feia, não, o nome da praia não é praia feia, é que ela é feia mesmo, toda praia é um inferno, o inferno é a praia, quer coisa mais repugnante do que ficar sob um sol de quarenta graus e se queimar todo e um bando de vendedores gritando no seu ouvido e batendo a porra da merda daquele arame na tábua e aí você se suja todo de areia e vai ao mar e o sal existente na água salga toda a pele e tira todo o gosmento protetor solar e ainda imerso na água você imagina o trabalho que dará ter que passar a merda daquele protetor solar novamente e você sai da água e a sua namorada ou a sua mãe - depende com quem você vai à praia - besunta aquela porcaria industrializada que provavelmente deve ser mais nociva do que o próprio sol e passa nas suas costas e no seu rosto e no peito e no braço e você permanece molhado e aquilo começa a grudar na pele e depois lembram de ter esquecido a toalha em casa ou no hotel ou na pousada ou no camping – depende se você mora na praia, não dentro, mas perto; depende da classe social que você faz parte, ou do seu estilo de vida, às vezes você é rico, mas se rebelou contra o sistema e gosta de acampar e curtir a natureza e parar de tomar banho e parar de lavar o rabo ou deixar mãos peludas alheias lavarem o seu rabo – e você está todo encharcado daquela água nojenta cheia de fezes e musgo e sangue de peixes mortos e urina podre e o sol inclemente bate nas costas e o protetor solar é quinze porque a sua namorada ou mãe ou amiga ou amante ou namorado – desculpa, mas não sei bem quem está lendo este texto – não é altruísta o bastante e nem suficientemente inteligente para intuir que você não é nada brasileiro, principalmente de espírito, e parece mais um urso polar manso porém mal-humorado, às vezes brincalhão, sobretudo quando está tomando uma cerveja em um local fechado e frio, e precisa de um protetor solar número trinta, quarenta, cinqüenta mil, e você sabe que a imaginação é inimiga da perfeição e quando está tudo mais que perfeito é que a imaginação está mentindo pra você, e então você começa a imaginar a insônia que você terá devido à ardência insuportável que as suas costas – parecem chamas, parecem chamas, fogo!, fogo!, fogo! -, os seus braços, o seu rosto, todo todo todo o seu corpo irá sofrer depois de passar algumas horas sendo tostado pelo sol e para cagar um pouco mais a situação a sua namorada ou a sua mãe ou o seu amante ou o seu amigo, colorido ou não, ou a sua avó ou o seu irmão ou o seu dinossauro o informa que, embora a praia esteja linda, a vida é bela, as crianças já dizem mamãe, o vovô já se curou da hemorróida, esquecemos de trazer à praia o guarda-sol e tá tanto calor, tanto calor, você pensa até em morrer, começa a sentir saudades do Alaska para o qual você nunca foi, começa a xingar o Brasil por ser um país tropical e calorento e chega à inevitável e infeliz conclusão de que você precisa entrar mais uma vez no mar para se refrescar só um pouquinho, porque nesse calor não dá, não dá mesmo, não dá pra respirar, sorrir, viver... E você sai correndo que nem uma gazela bicolor e cai de barriga na água e mete a boca sem querer em um pedaço de fezes extirpado do ânus de uma criança cheia de brotoejas e você brada em direção aos céus, urra em direção ao sol da mesma forma que urra o lobo em direção à lua cheia, e o sal de novo está impregnado no seu corpo e o calor piora vertiginosamente e o sol queima e queima, “não, não precisa acender o cigarro no isqueiro, pode acender nas minhas costas, caralho!”, e você não quer mais protetor solar, não quer mais praia, não quer ver mais gostosas de biquíni sorridentes, pessoas despencando do banana-boat, vendedores gritando, vendedores vestidos de Pokemon naquele puta calor, “Deus, como será que eles conseguem”, não quer mais cerveja, tira esse limão daqui, não tem guarda sol, não tem guarda sol, eu não posso, não, eu não posso deitar na areia, mas deita, deita molhado para fuder com tudo e principalmente com você, e a água gruda na areia que gruda na água que vira lama que entra em contato com o sol e com a pele e com a bunda e você já se transformou em um bife à milanesa e está empanado e se encontra pronto para morrer!
Estaciono sempre no mesmo lugar, em frente à praia feia, não, o nome da praia não é praia feia, é que ela é feia mesmo, toda praia é um inferno, o inferno é a praia, quer coisa mais repugnante do que ficar sob um sol de quarenta graus e se queimar todo e um bando de vendedores gritando no seu ouvido e batendo a porra da merda daquele arame na tábua e aí você se suja todo de areia e vai ao mar e o sal existente na água salga toda a pele e tira todo o gosmento protetor solar e ainda imerso na água você imagina o trabalho que dará ter que passar a merda daquele protetor solar novamente e você sai da água e a sua namorada ou a sua mãe - depende com quem você vai à praia - besunta aquela porcaria industrializada que provavelmente deve ser mais nociva do que o próprio sol e passa nas suas costas e no seu rosto e no peito e no braço e você permanece molhado e aquilo começa a grudar na pele e depois lembram de ter esquecido a toalha em casa ou no hotel ou na pousada ou no camping – depende se você mora na praia, não dentro, mas perto; depende da classe social que você faz parte, ou do seu estilo de vida, às vezes você é rico, mas se rebelou contra o sistema e gosta de acampar e curtir a natureza e parar de tomar banho e parar de lavar o rabo ou deixar mãos peludas alheias lavarem o seu rabo – e você está todo encharcado daquela água nojenta cheia de fezes e musgo e sangue de peixes mortos e urina podre e o sol inclemente bate nas costas e o protetor solar é quinze porque a sua namorada ou mãe ou amiga ou amante ou namorado – desculpa, mas não sei bem quem está lendo este texto – não é altruísta o bastante e nem suficientemente inteligente para intuir que você não é nada brasileiro, principalmente de espírito, e parece mais um urso polar manso porém mal-humorado, às vezes brincalhão, sobretudo quando está tomando uma cerveja em um local fechado e frio, e precisa de um protetor solar número trinta, quarenta, cinqüenta mil, e você sabe que a imaginação é inimiga da perfeição e quando está tudo mais que perfeito é que a imaginação está mentindo pra você, e então você começa a imaginar a insônia que você terá devido à ardência insuportável que as suas costas – parecem chamas, parecem chamas, fogo!, fogo!, fogo! -, os seus braços, o seu rosto, todo todo todo o seu corpo irá sofrer depois de passar algumas horas sendo tostado pelo sol e para cagar um pouco mais a situação a sua namorada ou a sua mãe ou o seu amante ou o seu amigo, colorido ou não, ou a sua avó ou o seu irmão ou o seu dinossauro o informa que, embora a praia esteja linda, a vida é bela, as crianças já dizem mamãe, o vovô já se curou da hemorróida, esquecemos de trazer à praia o guarda-sol e tá tanto calor, tanto calor, você pensa até em morrer, começa a sentir saudades do Alaska para o qual você nunca foi, começa a xingar o Brasil por ser um país tropical e calorento e chega à inevitável e infeliz conclusão de que você precisa entrar mais uma vez no mar para se refrescar só um pouquinho, porque nesse calor não dá, não dá mesmo, não dá pra respirar, sorrir, viver... E você sai correndo que nem uma gazela bicolor e cai de barriga na água e mete a boca sem querer em um pedaço de fezes extirpado do ânus de uma criança cheia de brotoejas e você brada em direção aos céus, urra em direção ao sol da mesma forma que urra o lobo em direção à lua cheia, e o sal de novo está impregnado no seu corpo e o calor piora vertiginosamente e o sol queima e queima, “não, não precisa acender o cigarro no isqueiro, pode acender nas minhas costas, caralho!”, e você não quer mais protetor solar, não quer mais praia, não quer ver mais gostosas de biquíni sorridentes, pessoas despencando do banana-boat, vendedores gritando, vendedores vestidos de Pokemon naquele puta calor, “Deus, como será que eles conseguem”, não quer mais cerveja, tira esse limão daqui, não tem guarda sol, não tem guarda sol, eu não posso, não, eu não posso deitar na areia, mas deita, deita molhado para fuder com tudo e principalmente com você, e a água gruda na areia que gruda na água que vira lama que entra em contato com o sol e com a pele e com a bunda e você já se transformou em um bife à milanesa e está empanado e se encontra pronto para morrer!
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
Sobre Santos e Demônios - a crítica cinematográfica não precisa se perpetuar no seu insosso tratado filosófico hermeticamente imbecil

Sente a vibe. A positividade da vibe positiva. As bolhas nascendo sob os seus pés. A inevitabilidade do saudosismo. A marofa da maconha fritando os neurônios de algum fã do Ney Matogrosso. Pode ser também do Planta e Raiz. Pode encontrar aquele cara em algum ritual da Bola de Neve. Ouvirá histórias do muleke brother do surf que traficava ecstasy prum bando de playboy lá na Ponta da Praia e agora, graças ao senhor antes de tudo, e também graças ao ex-cliente, ex-viciado em crack, ex-cleptomaníaco e ex-vândalo que pichava desgostos sob a vista grossa dos magricelas novos ricos que, indiretamente, estão envolvidos com o entretenimento de todos nós, encontrou o caminho da salvação seguindo os passos do Jesus Cristinho. É familiar a história do menino de classe-média de olhos claros e cabelos lisos queimados pelo sol e pela parafina que foi encontrado sem a cabeça e com o corpo imerso no fundo do rio com as costas cravejadas por três tiros de calibre doze? – quem viu conta que dava para ver realmente atravéeeeeessss dele. Lá se pode encontrar também o homem que tomou tanto tiro que ficou conhecido como Peneira. O rapaz que teve que fugir de madrugada da cidade por ter sido flagrado em um vídeo pornô sendo sodomizado enquanto mordia o tronco grosso de uma árvore centenária. O garotinho que teve o rosto deformado pelo fogo e que é municipalmente conhecido como Churrasquinho. O retardado que jogou uma cobra de borracha, “só quis brincar, porra!”, sobre uma mulher grávida que acabou perdendo o bebê meses depois. O menino que perdeu a vida por causa de uma vida. O menino que perdeu a vida por causa de uma pipa. O menino que perdeu a vida e a pipa. O menino que perdeu a vida por causa de uma mina. O menino que perdeu a pica. O menino que perdeu a pipa, o pai, a mãe, os irmãos, o sorriso, o namorado, a virgindade anal, mas que ainda não perdeu a vida nem a pica que não se encaixou bem para o seu gosto pleno de heterofobia. “Me alembro duns mininu que vinha até aqui na locadora alugá ‘Instintu Selvage’ purque num tinha idade para alugá fita de sacanagi.” Falava-se mixa. Dizia-se (ainda se diz) fita. Puli ou pule. Cagibrina ou Catirela. “A minha prima disse que o cara que mora no 715 é mó ‘bomba fofo’”. Há anos existia um cumprimento diferente, um toque - “um toca aqui, tá ligado?” – para cada bairro diferente. Havia uma padaria que era o ponto de encontro de todos os jovens da cidade. Dava pra se embriagar dentro do “ainda único” shopping e esperar ser expulso pelos seguranças. Dava pra ver as minas bêbadas mijando na praia. Olha que às vezes ocorria a situação (ou o clamor) em que os garotos tiravam (não havia força, havia até colaboração) as calças das meninas e cheiravam as suas calcinhas e pediam para elas chuparem o pau deles e algumas chupavam, outras não, outras falavam “que nojo”, outras saiam correndo, gritando, havia certa alegria ninfomaníaca naqueles rostos, outras mordiam o pau dos caras e os deixavam sangrando estatelados na areia áspera do arrependimento. Jovens ficavam na rua até tarde, andando de skate, magros pela ausência de cerveja, pinga!, pinga!, pinga!, gin!, lançando bicicletas desprovidas de quem as conduzisse nos cruzamentos atolados de carros a 80 Km por alguns segundos, caia pra 70, caia a noite e chegava a 120, alguns sem os faróis ligados, a brincadeira da roleta-russa que nunca acabou em tragédia, não havia radares tendenciosos, bafômetros inexoráveis, havia muros para serem derrubados, pneus para serem gastos, encontros em postos de gasolina a serem explorados, porta-malas a serem abertos, sons para serem exteriorizados, desafiados, madrugadas para serem perdidas em frente à televisão, zapeando imagens oleosas da Flipside Video de tantas batatas fritas com gosto de isopor. Ainda continua vivo o cachorro chamado Sabbath? O que é melhor: hardcore melódico ou old school? New York Hardcore ou Venice Beach Hardcore? Jello Biafra ou Ian Mackaye? Beastie Boys ou Wu - Tang Clan? 7 Seconds ou Black Flag? Metallica ou Pantera? NOFX ou Pennywise? A ala A do lado B do prédio C responde: “NOFX, lógico.” AC/DC ou Guns And Roses?
O currículo consta somente que ele jogou Nintendo a vida toda e namorou a menina que acreditava que o mundo era reto. A biografia denuncia de maneira pungente que ele adquiriu autoconhecimento quando se apaixonou perdidamente e ficou perdidamente perdido por ter perdido objeto de sua paixão. A história de vida mostra que ele roubou a namorada de um cara que reconquistou a namorada que ele havia roubado reconquistando assim a namorada que antes era do cara depois dele depois do cara e agora de novo dele provocando uma fúria cega no cara que anos depois inexplicavelmente o acabou salvando da morte o segurando quando o corrimão de ferro cedeu e todas as pessoas caíram e seis pessoas morreram esmagadas pisoteadas afogadas sem o auxílio da água e ele (o cara que havia perdido a primeira vez) que havia perdido recuperado perdido e jurado que seria eternamente inimigo do homem que roubou o seu amor “por enquanto” para sempre provou que animal que se julga indelevelmente ferido acaba por acabar a ceder à bondade inerente característica dos falsos homens durões que mesmo traídos salvam a vida dos seus inimigos.
Santos e Demônios é isso. Saudades multifacetadas, arrependimentos inevitáveis e reencontro com a dor.
O pouco de você que existia no passado. O pouco de todos nós que existe hoje.
PS: Não se perdia tempo analisando o quão estupidamente estúpidos iríamos nos achar no futuro por passarmos graxa no rosto e cuspirmos na própria cara. Na nossa própria, sem sócios, cara!
O currículo consta somente que ele jogou Nintendo a vida toda e namorou a menina que acreditava que o mundo era reto. A biografia denuncia de maneira pungente que ele adquiriu autoconhecimento quando se apaixonou perdidamente e ficou perdidamente perdido por ter perdido objeto de sua paixão. A história de vida mostra que ele roubou a namorada de um cara que reconquistou a namorada que ele havia roubado reconquistando assim a namorada que antes era do cara depois dele depois do cara e agora de novo dele provocando uma fúria cega no cara que anos depois inexplicavelmente o acabou salvando da morte o segurando quando o corrimão de ferro cedeu e todas as pessoas caíram e seis pessoas morreram esmagadas pisoteadas afogadas sem o auxílio da água e ele (o cara que havia perdido a primeira vez) que havia perdido recuperado perdido e jurado que seria eternamente inimigo do homem que roubou o seu amor “por enquanto” para sempre provou que animal que se julga indelevelmente ferido acaba por acabar a ceder à bondade inerente característica dos falsos homens durões que mesmo traídos salvam a vida dos seus inimigos.
Santos e Demônios é isso. Saudades multifacetadas, arrependimentos inevitáveis e reencontro com a dor.
O pouco de você que existia no passado. O pouco de todos nós que existe hoje.
PS: Não se perdia tempo analisando o quão estupidamente estúpidos iríamos nos achar no futuro por passarmos graxa no rosto e cuspirmos na própria cara. Na nossa própria, sem sócios, cara!
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
Brasil: Terra em que Mallu Magalhães é rainha, Kanye West é plebeu e Alex Atala, ahã, punk

“Ela é tão gostosa e eu sou tão pobre.” Bem que esta frase poderia ter saído da boca de John Fante. Contudo, ela foi proferida por alguém bem menos célebre e muito menos genial: Guilherme, o meu infame amigo Calafrango, pobre terceiromundista médio que gosta de Merlot e garotas escandinavas. Nem preciso dizer que ele jamais provou um Merlot e muito menos uma garota escandinava. Calafrango é o protótipo do tarado parcamente assalariado com complexo de Hugh Hefner. O cara que acha que merece ter sangue azul mas já se acostumou com insosso sabor do Sangue de Boi.
Creio que muitas pessoas nessa multifacetada república varonil carregam o mesmo fardo no coração. No meu caso, por exemplo, ele se manifesta na temporada de festivais nacionais com atrações internacionais. Quem mandou gostar de Bob Dylan e Kanye West e só ter bala para assistir ao show do Biafra, sem banda de apoio, nas bodas de prata de sua tia Consórcio (péssimo nome e péssimo gosto, Biafra no playback)?
Li o que escreveram. Escreveram que o show do Kanye West foi péssimo. E quem escreveu escutou o CD da Mallu Magalhães e achou bom. Então chego à tenebrosa conclusão que em terra onde Mallu Magalhães é rainha e Kanye West é plebeu, Alex Atala deve ser punk!
Impossível ir ao show. O valor de duzentos e cinqüenta reais está fora da realidade de qualquer pessoa com o mínimo de senso crítico (e com o mínimo de salário mínimo). Sei que dinheiro é só dinheiro. Mas existem premências que só o dinheiro é capaz de comprar. Gasolina, cerveja, o novo laptop, viajar cinco horas à nova morada da namorada, livros, DVD’s, cerveja...
As mentes geradoras do TIM Festival superestimaram o sucesso das outras edições e subestimaram as carências do público. Há dois anos atrás, no Rio de Janeiro, paguei sessenta reais para assistir às apresentações do Beastie Boy’s, DJ Shadow e Instituto. Saldo: tendas lotadas, pessoas felizes, público mais tolerante quanto à qualidade do som, cervejas consumidas em demasia, meninas mais assanhadas, sexo à vista (para os outros, lógico) e momentos inesquecíveis a contar à província (aqui) e respectivamente aos amigos provincianos.
Entretanto, neste ano, baseado, com extensas ressalvas, nas confissões da crítica neo-indie, o que se viu foi um imenso vácuo. Entre artista e público (pessoas que conversavam durante os shows sem se importar com o esforço do artista que tocava para uma audiência caracterizada em sua maioria pelo trivial defeito adquirido em vida de possuir no lugar do cérebro o mais fétido entulho cognitivo); entre organização e público (o público, em sua maioria, reconheceu que não era o fim do mundo, mas o fim do mês, e decidiu não comparecer); entre organização e organização (há uma terceira organização chamada (des)organização); entre os credenciados apreciadores de electrorocktransformista e os diletantes sem padrinhos (bom gosto é o gosto de que gosta de alguma coisa. Gosto não se discute, qualidade, sim. Se um fã de Tchakabum considerar Tortoise uma merda, ele é burro. Se há alguém que considera Peter Doherty um gênio, ele é o Lúcio Ribeiro).
Quem sabe no próximo ano a coisa muda de figura, mas não de preço. Então teremos que comer a mulher do nosso irmão, roubar o negócio da família, matar o nosso traficante, matar a nossa mãe e fuder com a vida do nosso pai para podermos ter dinheiro para curtir o show-retorno do Dismemberment Plan (imagina, Daniel, imagina, cara, só imagina, porque é o máximo que nós podemos fazer) no Tim Festival.
(Se não entendeu, assista Antes Que O Diabo Saiba Que Você Está Morto.)
QVAALV (Quando você acha que acabou, lá vem!) : O que vocês acham da organização do Tim Festival convidar o Bolinho, agora vegetariano - haja árvore para manter esse corpinho brilhantemente esculpido pela mesma dieta que assassinou John Candy - para dar um basta nessa bagunça desnorteada e organizar a próxima edição do festival?
Creio que muitas pessoas nessa multifacetada república varonil carregam o mesmo fardo no coração. No meu caso, por exemplo, ele se manifesta na temporada de festivais nacionais com atrações internacionais. Quem mandou gostar de Bob Dylan e Kanye West e só ter bala para assistir ao show do Biafra, sem banda de apoio, nas bodas de prata de sua tia Consórcio (péssimo nome e péssimo gosto, Biafra no playback)?
Li o que escreveram. Escreveram que o show do Kanye West foi péssimo. E quem escreveu escutou o CD da Mallu Magalhães e achou bom. Então chego à tenebrosa conclusão que em terra onde Mallu Magalhães é rainha e Kanye West é plebeu, Alex Atala deve ser punk!
Impossível ir ao show. O valor de duzentos e cinqüenta reais está fora da realidade de qualquer pessoa com o mínimo de senso crítico (e com o mínimo de salário mínimo). Sei que dinheiro é só dinheiro. Mas existem premências que só o dinheiro é capaz de comprar. Gasolina, cerveja, o novo laptop, viajar cinco horas à nova morada da namorada, livros, DVD’s, cerveja...
As mentes geradoras do TIM Festival superestimaram o sucesso das outras edições e subestimaram as carências do público. Há dois anos atrás, no Rio de Janeiro, paguei sessenta reais para assistir às apresentações do Beastie Boy’s, DJ Shadow e Instituto. Saldo: tendas lotadas, pessoas felizes, público mais tolerante quanto à qualidade do som, cervejas consumidas em demasia, meninas mais assanhadas, sexo à vista (para os outros, lógico) e momentos inesquecíveis a contar à província (aqui) e respectivamente aos amigos provincianos.
Entretanto, neste ano, baseado, com extensas ressalvas, nas confissões da crítica neo-indie, o que se viu foi um imenso vácuo. Entre artista e público (pessoas que conversavam durante os shows sem se importar com o esforço do artista que tocava para uma audiência caracterizada em sua maioria pelo trivial defeito adquirido em vida de possuir no lugar do cérebro o mais fétido entulho cognitivo); entre organização e público (o público, em sua maioria, reconheceu que não era o fim do mundo, mas o fim do mês, e decidiu não comparecer); entre organização e organização (há uma terceira organização chamada (des)organização); entre os credenciados apreciadores de electrorocktransformista e os diletantes sem padrinhos (bom gosto é o gosto de que gosta de alguma coisa. Gosto não se discute, qualidade, sim. Se um fã de Tchakabum considerar Tortoise uma merda, ele é burro. Se há alguém que considera Peter Doherty um gênio, ele é o Lúcio Ribeiro).
Quem sabe no próximo ano a coisa muda de figura, mas não de preço. Então teremos que comer a mulher do nosso irmão, roubar o negócio da família, matar o nosso traficante, matar a nossa mãe e fuder com a vida do nosso pai para podermos ter dinheiro para curtir o show-retorno do Dismemberment Plan (imagina, Daniel, imagina, cara, só imagina, porque é o máximo que nós podemos fazer) no Tim Festival.
(Se não entendeu, assista Antes Que O Diabo Saiba Que Você Está Morto.)
QVAALV (Quando você acha que acabou, lá vem!) : O que vocês acham da organização do Tim Festival convidar o Bolinho, agora vegetariano - haja árvore para manter esse corpinho brilhantemente esculpido pela mesma dieta que assassinou John Candy - para dar um basta nessa bagunça desnorteada e organizar a próxima edição do festival?
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