segunda-feira, 2 de março de 2009

Cut (Love) Up

Homenagem aos homens de verdade. Aos homens que não são retratados pelas revistas “ditas” masculinas. Aos homens que muitas vezes esquecem de passar o “bendito” desodorante e são repelidos pelas garotas sem nem ao menos presumir que a sorte abomina descuidos. Aos homens sem vaidade, que atravessam uma boa fase sexual com a mesma freqüência que o cometa Halley atravessa o Planeta Terra. Aos homens que se perguntam no Dia Internacional da Mulher:“Por que não tem Dia Internacional do Homem?”. Aos homens que assistiram ao filme Procura-se Amy e concordaram com a constatação que Deus, no oitavo dia, criou a cerveja.


O ser humano (médio de rosto) só aprende o quão maravilhosa e inebriante pode ser a vida quando se apaixona perdidamente por alguém. Pode ser do sexo oposto ou do mesmo sexo. Sem validade a animais irracionais.
O ser humano (médio de rosto e sem barriga e que já leu no máximo uns dez gibis da Marvel Comics e foi coagido pelos pais a se fantasiar de baiana em sua primeira festa à fantasia no Ilha Porchat Clube) só aprende o quão filha da puta e desprezível e dolorosa e injusta e pútrida e sufocante e tenebrosa e lúgubre (mesmo não sabendo o significado da maioria dessas palavras) pode ser a vida quando se apaixona perdidamente por alguém e esse mesmo alguém o fode com o fim daquilo que ele (o ser humano médio de rosto com uma ligeira barriguinha provocada pela fusão aprazível de cevada com álcool e que já escutou, durante um ano, pelo menos três vezes por dia, toda a discografia do Beastie Boys, mais especificamente de Licenced To Ill a Ill Comunication - 1986 a 1994 -, e que chorou na pré-adolescência ao assistir, no cinema, acompanhado pelos pais, o clássico do mela cueca e da umidade involuntária de camisetas brancas da Jinglers adquiridas na CeA, tamanho M, ou seja, O Meu Primeiro Amor, muito antes do chapado Macauly Culkin ser chapado, muito antes da protagonista sumir do epicentro ilusório hollywoodiano, e um pouco antes de Jamie Lee Curtis se entregar à condescendente máxima que a idade transforma boazudas em figuras análogas a cinzentos postes de concreto e pedras de jardins ocultas pelo antes cremoso agora duro excremento de labrador de 9 meses de existência) acreditava piamente que seria o seu eterno porto-seguro protegido pelas generalizadas (“toda mulher é vagabunda, menos a minha”) desgraças que acontecem a todo instante com todas as pessoas que, por intervalos (males?) necessários, tentam porém não conseguem dissecar a sua (minha, nossa, de todos nós) vida, principalmente na altura em que a indagação: “Como vai a “porra” da sua vida amorosa?” é levantada e instantaneamente deixada à lei da gravidade tal como o baque estrondoso da queda de uma bola de boliche preta sobre a calçada atulhada de restos de bexigas coloridas devido ao pós-bem aventurado aniversário de 15 anos da igualmente média e divertida menina que, em um passe mágica, escureceu o céu de verão.


Milton. Homem de 25 anos. Barba por fazer e camisetas sem estampas. Não lhe agrada o tamanho do próprio pênis. Não vê demérito algum pagar para comer alguém. Nunca chupou uma buceta porque até então nunca teve uma namorada. Quando lhe perguntam se quer transar: “Só com camisinha.” Se arrepende por desperdiçar sábados, que poderiam ter desfechos mais significativos que uma simples ejaculada na própria mão, por assistir loiras norte-americanas chantilizadas refestelando-se em rôlas caribenhas em compilações pornográficas destinadas a esquecidos jovens insatisfeitos com o ritmo da própria respiração. Não anda de montanha-russa porque já sonhou que estava morrendo na mesma. Sim, pensou em se matar. Enforcar-se nu. Mas teme se tornar motivo de chacota mesmo depois de morto.


Rocambole é o cara. Gordo e peludo. Reza a lenda que, nos primeiros cinco tenros anos de vida, já ostentava cavanhaque à la Rasputin e um carbonizado matagal de pêlos psicodelicamente emaranhados na região da bunda. Primeiro colocado no IV Campeonato Interno de Flatulência Matutina do Colégio Coração de Maria, hoje relega a segundo plano os prazeres libertinos do fim de semana para assistir à maratona de um milhão de episódios puxados da internet do desenho nipônico Dragon Ball. Veste cuecas box por prazer. Ouve Napalm Death e Shai Hulud para relaxar, embora tenha feito parte, tacitamente, porém com desmesurada paixão, do fã-clube do cantor de pagode Salgadinho. Foi vegetariano durante dois longos dias, depois sucumbiu à salsicha e até hoje participa, sorridente, munido de um sanduíche de carne moída com muito molho sempre à mão, de rinhas de galo, embate entre cães e festejos em churrascarias (9,90 o rodízio completo) abalando no vídeoke ao cantar, sempre de boca cheia e ébrio, a canção Magic, do Pilot.

Rick. Insignificância em altura. Hercúleo em estima. Ou alienado a respeito do surgimento da autocrítica. Nasceu no nordeste mas acha que é carioca. Tentou xavecar Débora Falabela. A atriz. Não pegou. Lógico. “Tente outra vez” é um lema que ele persegue, “não basta só vestir a camisa”, munido de profunda obsessão. “Tente não tentar outra vez” é o lema que os seus amigos insistem para ele adotar de uma vez por todas. Ele sempre entende tudo como “pegar todas”. Todas as velhas com mais de 67 anos de idade.

Maneco não é filho de português. Não sabe nem de quem é filho. O pai sumiu e a mãe não o convence. “Ela me ama, eu sei. Mas eu sou moreno bombom e ele é ruiva, porra, ela não tem como ser a minha verdadeira mãe.” Talvez pela ausência de carinho materno (ou pela inexistência de carinho filial) deixa o seu melhor amigo, Espiga, depilar o seu cu. “Mãe, não é isso que a senhora está pensando.” As fontes pesquisadas afirmam que sua cama de dormir é sustentada por dezenas de fitas de vídeo de hardcore. De sexo hardcore. “Não vai pegar todas, senão a cama vai ficar torta, eu odeio quando acontece isso.” (Entre elas está o blockbuster “É Grande!”.) Outras fontes pesquisadas juram que ele costuma encher bexigas até a metade, de preferência da cor vermelha (“verde parece E.T”), deixando proeminente o bico que se forma na parte superior da bexiga a ponto de se assemelhar com um peitinho para depois chupá-lo e, ao mesmo tempo, socar uma imaginando sorver a teta esquerda da Márcia Emperatori. “É, aquela que urra.”


Cut (Love) Up #2


Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, ofereço com todo o amor do mundo, às garotas que passaram pelas minhas mãos, as minhas impressões melífluas e imparciais.



Angélica: tinha 20 anos de idade, tinha buço, só ficávamos no selinho, em vez de ela sentar no meu colo eu sentava no colo dela. Os motivos cruciais dessa inversão de posição se devia ao fato de na época eu ter somente nove anos de idade e ela ser gorda pra cacete. O fim do relacionamento partiu dela (antes de partir o relacionamento ela partiu duas mesas de mogno, cinco pias de mármore e um tablado de madeira sobre o qual me entretia com danças eróticas), isso porque me traiu com o meu tio “ainda mais gordo” chamado Júlio, depois casou-se com um micro traficante que acabou morrendo de aids anos depois. Ela não foi infectada.


Flávia: peitudinha, a menina mais assediada do bairro, a menina mais assanhada do bairro, a menina mais rodada do bairro - um verdadeiro rodízio de um só sabor. Namoramos por três meses até o momento que ela esqueceu que era minha namorada e começou a namorar mais três caras ao mesmo tempo. Eu tinha 13 anos na época. Hoje, Flávia é mãe de dois filhos feios e mais parece a Daniele Hypólito do que qualquer outra coisa. (Qualquer outra coisa seria bem melhor para ela.)

Luana: deusa da volúpia, principal motivo da insurgência hormonal púbere que culmina em um esquadrão de espinhas e a probabilidade nada improvável de dar um tiro na cabeça aos 15 anos de idade. Nunca existiu mais bela e gostosa moçoila. (Ou potranca, na linguagem intelectual.) Lia de tudo, sobretudo o que não prestava: figuras, Fatos e Fotos e O Livro de Letras do Boy’s II Men. Injustamente, era chamada de cachorra pelas rivais. Meses depois, reconheci, era uma tremenda vaca.


Renata: O meu primeiro amor. Dois anos de paixão, um ano de sexo e nada de sexo oral. Quando acabou, colei uma foto dela atrás da porta do meu quarto. Comecei arremessando dardos coloridos. Passei para uma flecha de madeira do tamanho do membro sexual do Kid Bengala. Terminei jogando pedras no mar, chutando poças d’ água, tomando banho de chuva pelado e adotando um filhote de labrador.



Denise: professora de inglês com a voz mais sexy do mundo. Nunca faltei enquanto ela me deu aula. Pena que a única coisa que ela me deu foi aula - e de inglês. (Ah, claro, e um biscoito de maisena estragado.)


Cat Power ou Chan Marshall: um amor impossível de ser concretizado. Além do mais agora que ela parou de beber.

Pietra: a mulher da minha vida, o amor em proporções interplanetárias. Sem ela, a minha sensação de alegria seria a mesma que ganhar de presente no natal um par de meias finas e um DVD do acústico do Maná.



Mãe: perdão por todos os infortúnios que lhe fiz passar. Perdão por repetir a quinta série. Perdão por repetir a sexta série. Perdão por repetir a sétima série. Perdão por repetir o mesmo modelito em vários festejos familiares. Perdão por usar a camiseta do “Fun People” no enterro de sua amiga Cíntia Nunez. Perdão por ir de chinelo, bêbado, seminu, com um lacre de alumínio de cerveja fazendo as vezes de um piercing mamilal, nas bodas de ouro da vovó Leonor. Perdão por quase obrigá-la a assistir ao meu lado ao filme Irreversível (o filme é bom, mas com a mãe não dá). Eu lhe perdôo por me vestir de travequinho mirim no meu primeiro baile de carnaval. Eu lhe perdôo por me obrigar a usar aquela vergonhosa boininha da Bad Boy durante considerável período da minha pré-adolescência. Eu lhe perdôo por não ter nem uma mísera foto da época em que eu era um porcalhão bebê (mãe, seja sincera, eu sou adotado?). Contudo, com nada, ou só com alguma coisa, agradeço a você e ao papai por não terem cogitado a possibilidade de me batizarem com o nome de Telmo.



Maria Fernanda Lossavora Marques da Roz (1915 – 2009): minha segunda mãe, minha eterna avó. Adeus.












segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

8 de junho de 2007, 23:53


Ao lado do Perequê Praia Show tem um bar. O Perequê Praia Show fica no mesmo lugar onde antes era o Avelinos. Eu, na minha juventude, fui muito ao Avelinos. Já beijei muitas garotas no Avelinos. Algumas bonitas, outras feias e outras terríveis. Também já caguei no banheiro do Avelinos. Vomitei no banheiro do Avelinos. Já rolei pela escadaria do Avelinos. Já arrumei briga no Avelinos, mas nunca apanhei. Nem bati. Muito menos uma punheta. Entro no bar e peço uma cerveja. O bar tem cheiro de mijo de gato misturado com o cheiro da bosta fresca do meu pai. No som do bar tá rolando uma música que diz “baila, baila comigo, baila, baila, meu amor, rebola, mexe o umbigo, mostra todo o seu calor”, eu fico com calor, não por culpa da música, mas por culpa do próprio calor, que, infelizmente, existe. Eu quero ficar bêbado e já viro o primeiro copo que, evidentemente, não vai alterar bosta nenhuma no meu estado sóbrio, isso porque eu verti mais da metade do conteúdo sobre a minha camiseta. Umas meninas super-gostosas que estão sentadas em uma das mesas de plástico do bar começam a rir da minha cara. Eu começo a rir de mim mesmo e depois percebo que nada fará mudar o meu semblante de trouxa. Uma delas se levanta e vai até o balcão e pede uma pinga pura e, com a maior discrição e classe possível, externa um pequeno arroto que dá vontade de abrir boca e engolir esse eflúvio fedorento composto de torrada de alho e álcool puro expelido por essa deusa da volúpia...

Menina do arroto: “Oi.”
Eu, surpreso, claro: “Olá.” (Olá? Quem eu penso que sou? O Gene Kelly dançando na chuva? Ou um hippie colecionador de borboletas?)
Menina do arroto com um baita de um peitão: “Então, qual é o seu nome?”
Eu, surpreso, claro, com a mão suando, me sentindo culpado por estar de pau duro: “Francesco, é italiano.” (Italiano?)
Menina do arroto com um baita de um peitão cheio de sardas maravilhosas que tanto amo: “Nossa, italiano, sabe falar alguma palavra bonita em italiano?”
Eu, surpreso, claro, com a mão suando, me sentindo culpado por estar de pau duro, pensando na minha garota cortando o meu pênis e com uma puta vontade de cagar característica em ocasiões como essa: “Je taime.” (É, acho que mandei bem.)
Menina do arroto com um baita de um peitão cheio de sardas que tanto amo e com uma cara de contrariada: “Je taime não é francês?”
Eu, surpreso, claro, com a mão suando, me sentindo culpado por estar de pau duro, pensando na minha garota cortando o meu pênis e com uma puta vontade cagar característica em ocasiões como essa e me sentindo burro e reconhecendo, pelo menos internamente, o meu equívoco: “É? Ah, é verdade, é que eu falo tantas línguas... Francês, italiano, português, inglês e arranho mais algumas.” (Poliglota? Tu não sabe nem falar português. Aliás, quando era jovem, com vinte e um anos, ao invés de difamar, você falava diflamar. Pelo menos você não é igual ao seu primo Leleco, que acha que Lisboa é a capital da França, que escreve de repente junto e com dois erres, que pensou que Portugal ficava dentro dos Estados Unidos, que foi buscar o seguro-desemprego e ficou espantado “com o número de ‘anafabetos’ que existe no Guarujá, que acha que heterossexual é a mesma coisa que homossexual etc.)
Menina do arroto com um baita de um peitão cheio de sardas que tanto amo e com uma cara de contrariada e que tem o lábio mais carnudo que eu vi na minha, por enquanto, tortuosa existência com pitadas de alegria efêmera e satisfação fugaz, mas eu tenho o meu amor, eu te amo, meu amor, não amo esta garota gostosa que está na minha frente virando uma cachaça pura e pedindo a porra de um canudo e começando a chupar a porra do canudo e olhando com os seus olhos verdes que te quero verdes que é a escola em que o meu priminho estuda e eu não sei mais sobre o que estou pensando... isso deve ser alguma pegadinha ou algum quadro daquele programa do Ashton Kucher, que é aquele afortunado que come a Demi Moore: “Você deve ser um cara muito viajado, ou melhor, vivido. Tipo um andarilho, né, você deve ter passado por muitas loucuras, hein, gatinho?”
Eu, surpreso, claro, com a mão suando, me sentindo culpado por estar de pau duro, pensando na minha garota cortando o meu pênis e com uma puta vontade de cagar característica em ocasiões como essa e me sentindo burro e reconhecendo, pelo menos internamente, o meu equívoco e não sabendo o que dizer para a gostosíssima que acabou de me nomear o novo gatinho do pedaço. Então pensa o seu filho da puta miserável, não deixa a peteca cair, e lembre-se para nunca falar em voz alta não deixa a peteca cair, e nunca conte pra ninguém que o seu avô te chama de fanchona, e tente evitar essas digressões e chegue logo a uma conclusão sobre o que vai dizer para essa gostosa, porque agora você é um personagem mais vivido, mais viajado, mais cheio de si, mais roludo, mais sexy... Jamais mencione que o lugar mais longínquo que você viajou foi até o Paraguai, na época em que o ministro da economia era o Rubens Ricupero e que o dólar era um por um e foi uma época muito feliz na sua vida, claro, tirando aquele episódio do dia em que você perdeu a virgindade no meio do mato e foi atacado por uma gangue de saúvas e saiu correndo no mesmo estado de histeria e pânico dos atores, que são só atores, nada mais do que isso... eu sempre falo para a minha mina não sentir medo ao assistir filmes de terror, é tudo Ketchup e atuação, menos os filmes com o Daniel Day-Lewis, eu li em algum lugar que ele, de fato, encarna o personagem, até mesmo no seu dia-a-dia, dentro de casa, com a mulher e as filhas ou os filhos ou a filha ou só o filho ou só a mulher, que eu sei que ele tem e que eu conheço, não pessoalmente, mas através dos ótimos filmes que ela realiza, o nome dela é Rebecca Miller, filha do escritor e dramaturgo Arthur Miller, que fez A Morte do Caixeiro Viajante, Focus etc, inclusive, dizem que o Daniel, não o meu amigo, o Daniel Faísca, que é gordo e não é famoso, mas o Day- Lewis, assumia no seu dia-a-dia - tipo ir para a padaria, para o supermercado, tomar uma com os camaradas -, até mesmo aquele personagem que tinha uma puta força no pé esquerdo, eu não teria coragem, nem fudendo, de fazer aquilo que ele fazia no filme, por exemplo, dentro da escola, onde eu já era zuado mesmo sendo aparentemente normal. A não ser naquele período em que eu tinha o corte de cabelo do Xororó e as garotas riam da minha cara e, lógico, o tratamento não poderia ser diferente para uma pessoa que usava um cabelo daquela espécie e... Pára, pára, pára, agora só falta eu gritar ui!, agora é sério, no more digressiones, vamos ao que interessa: “Costumo dizer para as pessoas que eu não vivo, que eu me aventuro, sou louco por adrenalina. Não gosto de ficar em casa, tenho que curtir a minha vida, viver intensamente. Só estou aqui no Guarujá porque prometi visitar os meus pais. Mas, na semana que vem, estou embarcando para Londres com uns amigos, e depois vou dar uma passada em Amsterdã e ficar muito chapado, e depois eu vou para o Chile curtir um inverno sozinho, sem ninguém, alone in the dark, desculpe, às vezes misturo os idiomas, culpa das viagens ao redor do mundo...”
Menina do arroto com um baita de um peitão cheio de sardas que tanto amo e com uma cara de contrariada e que tem o lábio mais carnudo que eu vi na minha, por enquanto, tortuosa existência com pitadas de alegria efêmera e satisfação fugaz, mas eu tenho o meu amor, eu te amo, meu amor, não amo esta garota gostosa que está na minha frente virando uma cachaça pura e pedindo a porra de um canudo e começando a chupar a porra do canudo e olhando com os seus olhos verdes que te quero verdes que é a escola em que o meu priminho estuda e eu não sei mais sobre o que estou pensando, isso deve ser alguma pegadinha ou algum quadro daquele programa do Ashton Kucher, que é aquele afortunado que come a Demi Moore e ela agora solto um sorrisinho, nossa, que dentinhos lindos, branquinhos... Ah, não, já sei: deve ser uma prostituta. Meu Deus, eu sou o protótipo do cliente mais que perfeito. Lindo – tá, nem tanto -, bem sucedido eu não sou, mas o meu personagem aventureiro é. Ou seja, ela quer a minha pica e mais alguma grana e essas minas já transaram com todo mundo, com homens com as picas maiores que a do dramaturgo grego Micariontes Palaskprapanos, o fanfarrão, que habitava os sonhos de prazer da donzela Sócrates, e eu, com a minha humilde rôla - cuja inutilidade passada quase me obrigou a transformá-la em um excêntrico pingente -, com certeza irei praticar o mesmo tipo de sexo que, há uma década atrás, servia de consolo para o meu tédio eminente e cheio de espinhas que se chamava adolescência e que provavelmente deve ter sido um inferno muito maior do que a benga do Micariontes Palaskprapanos, o dramaturgo grego e fanfarrão e muso inspirador do filósofo inventor da pederastia, Sócrates: “Nossa, aventureiro, gostei. Olha, eu vou entrar na balada, mais tarde a gente se encontra, certo?”
Eu, surpreso, claro, com a mão suando, me sentindo culpado por estar de pau duro, pensando na minha garota cortando o meu pênis e com uma puta vontade de cagar característica em ocasiões como essa e me sentindo burro e reconhecendo, pelo menos internamente, o meu equívoco e não sabendo o que dizer para a gostosíssima que acabou de me nomear o novo gatinho do pedaço. Então pensa o seu filho da puta miserável, não deixa a peteca cair, e lembre-se para nunca falar em voz alta não deixa a peteca cair, e nunca conte pra ninguém que o seu avô te chama de fanchona, e tente evitar essas digressões e chegue logo a uma conclusão sobre o que vai dizer para essa gostosa, porque agora você é um personagem mais vivido, mais viajado, mais cheio de si, mais roludo, mais sexy... Jamais mencione que o lugar mais longínquo que você viajou foi até o Paraguai, na época em que o ministro da economia era o Rubens Ricupero e que o dólar era um por um e foi uma época muito feliz na sua vida, claro, tirando aquele episódio do dia em que você perdeu a virgindade no meio do mato e foi atacado por uma gangue de saúvas e saiu correndo no mesmo estado de histeria e pânico dos atores, que são só atores, nada mais do que isso, eu sempre falo para a minha mina não sentir medo ao assistir filmes de terror, é tudo Ketchup e atuação, menos os filmes com o Daniel Day-Lewis, eu li em algum lugar que ele, de fato, encarna o personagem, até mesmo no seu dia-a-dia, dentro de casa, com a mulher e as filhas ou os filhos ou a filha ou só o filho ou só a mulher, que eu sei que ele tem e que eu conheço, não pessoalmente, mas através dos ótimos filmes que ela realiza, o nome dela é Rebecca Miller, filha do escritor e dramaturgo Arthur Miller, que fez A Morte do Caixeiro Viajante, Focus etc, inclusive, dizem que o Daniel, não o meu amigo, o Daniel Faísca, que é gordo e não é famoso, mas o Day- Lewis, assumia no seu dia-a-dia - tipo ir para a padaria, para o supermercado, tomar uma com os camaradas -, até mesmo aquele personagem que tinha uma puta força no pé esquerdo, eu não teria coragem, nem fudendo, de fazer aquilo que ele fazia no filme, por exemplo, na escola, onde eu já era zuado mesmo sendo aparentemente normal. A não ser naquele período em que eu tinha o corte de cabelo do Xororó e as garotas riam da minha cara e, lógico, o tratamento não poderia ser diferente para uma pessoa que usava um cabelo daquela espécie e... Pára, pára, pára, agora só falta eu gritar ui!, agora é sério, no more digressiones, vamos ao que interessa. Eu sou um homem compromissado. Sempre busquei o amor. Eu chorei muito quando vi o filme Meu Primeiro Amor, no qual o Macaulay Culkin - não o Macaulay Crack, que é um conhecido meu e que tem este nome porque eu não preciso explicar e dá pra entender o porquê -, morre ao ser atacado por um enxame de abelhas assassinas e depois tem um enterro e a menina que o Macaulay tava começando a pegar e que tinha trocado o sangue com ele lá no começinho do filme e que não aceitava a antiga gostosa Jamie Lee Curtis como madrasta e que se divertia com o Macaulay andando de bike e zuando a velharada no bingo e que morava dentro de uma funerária com uma velha louca que era a sua avó e agora nem imagino aonde quero chegar com essa ladainha filha-da-puta.... ah, sei, a menininha que deu um selinho muito inocente no Macaulay, que é o mesmo muleke que fez o adorável menininho do Esqueceram de Mim e que conquistou o mundo e que estrelou, também, só que mais velho, e casado e mais drogado e com a carreira em baixa – não com a carreira da poeira, essa tava em alta -, o clipe do Sonic Youth, da música Sunday, que é música de bom gosto – bom gosto é o gosto de quem gosta de alguma coisa -, e que é dirigido pelo multifacetado artista chamado Harmony Korine, que é o mesmo cara que escreveu o roteiro do filme Kids, que é aquele filme polêmico que conta a história de um grupo de jovens skatistas e meninas vadias e loucas da cidade de Nova Iorque que ficam se drogando, andando de skate, transando sem camisinha, sem envolvendo em treta, dirigido pelo fotógrafo e velhote descolado chamado Larry Clark, que é o cara que, em 1971, lançou um livro de fotografias chamado Tulsa , que retratava o cotidiano dos viciados em heroína da cidade Tulsa e que influenciou o Martin Scorcese a fazer Táxi Driver e que influenciou o Francis Ford Coppola a fazer O Selvagem da Motocicleta e que influenciou o mundo da moda nos anos 80 com a tendência Heroin Chic, que quer dizer Heroína Chique, e a heroína é uma droga que te deixa alucinado e que serviu como tema do filme Transpotting, que é um filme escocês e que foi lançado um ano depois de Kids e foi considerado a resposta européia para Kids, e que, na verdade, é uma adaptação do livro Transpotting, do escritor escocês Irvine Welsh, que aparece no filme vendendo dois supositórios para o personagem principal que é o também escocês Ewan Mcgregor, que é o mesmo rapazote que estrelou Moulin Rouge com a Nicole Kidman, e que antes do Trainspotting havia feito Cova Rasa, que é um filme muito legal e que foi dirigido pelo mesmo diretor de Trainspotting, que é o Danny Boyle, que dirigiu também o Extermínio, que é um filme que mostra a cidade de Londres sendo tomada por zumbis e os zumbis saem perseguindo as pessoas que ainda não se tornaram zumbis e as pessoas que ainda não se tornaram zumbis saem correndo pelas ruas de Londres da mesma forma que eu corri da gangue de saúvas no triste episódio da perda da minha virgindade: “Certo.”

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

IIIIIIIIIII exemplos desvairados do comportamento do cidadão empanturrado de ilusões perniciosas nas salas de cinema


U1M - A falta de ingenuidade é o modo mais preciso para se manter intacta a covardia que sintetiza o presunçoso sábio estabelecido.
DO2IS - Os asquerosos com asco de ingenuidade estão se preparando na fila da pipoca para desgraçar mais uma sessão de cinema que diz muito pra você e tão pouco pra eles.
TR3ÊS - Sentar na frente tornou-se regra circunstancial enquanto ser o primeiro da fila no ginásio pré-canto do hino nacional era o fim da carreira Pop sob os olhares daqueles que sempre foram os últimos da fila e, quinze anos depois, os primeiros mais bem remunerados em empregos onde a criatividade era o último requisito.
QUA4TRO - Leituras à parte, a deles não é e nem será a sua.
CI5NCO - Os responsáveis por monitorar a classificação indicativa (DEZE16SSEIS) são tão 171 e racionais que compreendem que os de QUAT14ORZE não verão sobretudo no verão longos longas reservados aos péssimos exemplares adultos que mesmo plastificados por súditos de Pitanguy tentam de todos os modos se igualar à frenética instabilidade púbere que arrotará de olhos fechados semicerrando de cólera os olhos interessadamente descortinados de emoção dos ingênuos sem meia-entrada.
SE6IS - “Legenda que cansa” é a legenda dos sem legenda que se pudessem dublariam a própria voz.
SE7TE - Os raros vaga-lumes existem aos montes em qualquer sala escura repleta de gente que se sente tão em casa que esquece que não está em casa – muito menos com razão em razão dos guinchos emitidos pelos vaga-lumes pré-pagos, sem crédito, sem limite, no limite...
OI8TO - O anti-cinéfilo esbelto com barriga de cerveja aconselha ao cinéfilo profissional travestido de homem e desconfortavelmente vestido em um sutil estrangulamento de gola olímpica: Criticar é o talento de reconhecer a si mesmo muito além do espelho.
NO9VE - A antipatia movida pela insuportável presunção telepática convertida em comentário em voz alta pelo tropel que assume o papel do ubíquo retarda(do)tário armado pelo esganiçado tom temperado com manteiga cremosa que por meio da prosa prosaica julga-se capaz de alterar o destino fatal do personagem principal.
D10EZ - Disparos mal empregados na carne de meia dúzia de mal educados incrédulos quanto à possibilidade de fomentarem a fúria alheia que agora jazem lacrados sem uma centelha de luz porém revigorados ao serem considerados pelos comuns como tristes vítimas da barbárie social perpetrada, excepcionalmente neste caso, pela mente impaciente do incipiente estudante de medicina que contrariou a sina do médico de somente fazer renascer da morte a chama dos afogados costumeiramente inadimplentes que não perdem a pose ao posarem frente a seus veículos importados que alimentam a sapiência do quão ridículas são as suas atitudes ao pousarem na superfície desnivelada das prestações que se acumulam, nas orgias arrivistas que os envolvem desde os tempos em que já se imaginavam adultos e livres dos sonhos tão característicos no cotidiano dos ingênuos sonhadores que tateiam muita vezes o vazio no vórtice a que chamamos de vida.
ON11ZE - Minha avó morreu, meu time perdeu, mas eu não chorei. Meu nome é Leonardo Marques, não pago de moderno, não uso Nextel, e esse é um pedaço da minha vida, não posso dizer que é um pedaço do meu mundo, porque se Deus acha que estou satisfeito com esse mundo, ele só pode estar chapado de ácido. Entretanto, se ele estivesse chapado de ácido, o mundo não seria essa bosta insignificante.

Gomorra – parte 2

O filme Gomorra, vencedor da Palma de Ouro em Cannes e baseado no livro homônimo do escritor italiano Roberto Saviano, utilizou no Brasil a seguinte “frase para atrair otário”, ou seja, o slogan: “O Cidade de Deus italiano”. Contrariando a política do slogan, baseada na falácia criada por gente demente, a comparação, involuntariamente induzindo ao erro o escriba subjugado pelo dinheiro, resume com maestria o que é o filme - permita-me o contra-slogan: “O Cidade de Deus brasileiro é muito melhor”. Os especialistas tupiniquins em cinema, gente que cheira vinho antes de tomar e toma no cu sem nem sequer perguntar, aprovou o longa impalpável com os característicos adjetivos compostos por mensagens subliminares encimadas pelas tão temidas estrelinhas que antes atribuíam mérito e demérito ao comportamento das sempre borradas crianças no jardim de infância. Sérgio Rizo, da Folha de S.Paulo, escreveu: “Crime e suas convicções em estado bruto”. Tradução quase próxima da exatidão temporal: “Crime e suas convicções em estado tão bruto quanto um show do Tihuana”. Pedro Butcher, da Folha de S.Paulo, escreveu: “Máfia nua e crua”. Tradução quase simultânea: “Máfia nua e crua. Nua como a Martha, ex jogadora da seleção brasileira de basquete, em uma edição da Playboy na década de 90; saborosamente crua tal como um macarrão cru”. Inácio Araújo, também da Folha de S.Paulo, escreveu: “A Itália ressurge com força!”. Tecla Sap: “A Itália ressurge com força, tão forte que às vezes até dói”. Faço aqui o meu julgamento, e quem lê aqui o que escrevo espero que confie em mim, se não nada.
Quem já leu o livro (indicado neste blog como um ótimo presente de natal) e não viu o filme, esqueça o filme.
Quem viu o filme e ainda não leu o livro, leia o livro.
Quem já leu o livro e viu o filme, sabe bem do que estou falando.
Quem já leu o livro e viu o filme e não “sabe bem do que estou falando”, não leu o livro.

Shake Bong, Bong, Shake Bong, Bong

Coitado do Michael. Phelps. Foi traído pelo inimigo, porque aquilo não é amigo, amigo bafora junto, que filmou o “campeão” fumando da planta que assaltante de banco não faz usufruto na hora do expediente. Cagou geral. A hipocrisia é tanta que até jornalista deu pra criticar a atitude do cara, como se jornalista fosse exemplo máximo de comportamento politicamente correto. E politicamente correto não fosse exemplo máximo de comportamento de político. E político não fosse símbolo máximo de hipocrisia. E hipocrisia não fosse a característica máxima de jornalista cocainômano.

Déjà vu bumerangue

Há dez anos atrás, ou mais, o meu vizinho Marcelo, o popular Teo, antes de ficar louco, e depois de pegar a Carolzinha, fato que causou incredulidade e fúria por parte dos outros punheteiros da rua, emprestou uma VHS do Show do Bob Marley para um cara chamado Brodey – desconfio que lá na terra onde fora criado, na Paraíba, pensaram em chamá-lo de brother, mas não sabiam que brodey não é brother. Meses depois, faminto pela saudade que a falta da voz de Bob Marley provoca enquanto transcorre o ritual da chapação, Marcelo foi buscar sua VHS, com um visível traço de impaciência revelado pelo punho esquerdo cerrado tal como um cofre de uma eminente família judia, na casa de Brodey (será que não pensaram na Broadway?). Chegando lá, tocou a campainha, ou não tinha campainha?, que seja, bateu palmas, gritou o nome de Brodey, até que ele apareceu, como, eu não sei, eu não estava lá, só me contaram a história, aí Marcelo disse, Fala, Brodey, beleza? Brothey respondeu, Fala, Marcelo, beleza? Marcelo prosseguiu, Fala, Brodey, beleza? Brodey abraçou a causa, Fala, Marcelo, beleza? E depois de meia hora nessa troca de gentilezas estúpida, Marcelo finalmente fez o seu pedido, Brodey, tu pode devolver a minha fita do Bob? Ao que Brodey respondeu, Claro, cara, peraí. Depois de cinco minutos, Brodey voltou e disse, Taí, cara, entregue. Marcelo agradeceu, Pô, cara, valeu, estava com saudades desta fita, e emendou, E aí, curtiu a fita? Então Brodey continuou o diálogo, Porra, cara, Bob Marley é foda, né, o cara é o mestre. Para dar um fim na conversa, longe de imaginar o que viria a seguir, Marcelo disse, Pode crer, Brodey, pena que ele morreu. Brodey, branco com o comentário, branco como o Abedi Pelé, soltou essa: Bob Marley Morreu?
Usei essa história babaca apenas para fazer uma analogia de uma situação que ocorreu no último sábado, dia 7 de fevereiro. Estava deliciosamente refestelado na minha cadeira de praia reclinável, sob um sol de quarenta graus, lendo a Folha de S.Paulo, costumeiramente contrariado com o universo e com as pessoas que escrevem sobre o universo, prestes a jogar todas aquelas folhas que sujam os dedos pro alto, quando me deparei com uma informação que me deixou tão espantado, ou mais, ou menos, sei lá, quanto o desafortunado Brodey: David Foster Wallace morreu, e no ano passado, e eu nem sabia - todo mundo tem o dia de Brodey que merece.





segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Futebol em família


(João Marques: da esquerda para a direita, o terceiro no grupo dos agachados.)
(Xaxá: da esquerda para a direita, o primeiro da patota dos acocorados – perceba que Freddie Mercury está acariciando as rechonchudas coxas de Xaxá.)

João Marques nasceu em São Paulo, ama a cidade de Santos, torcia para o Corinthians na época do “faz me rir” – período em que o Timão ficou onze anos sem ganhar do time da Vila, culpa do Edson -, porém, quarenta e três anos depois, estranhamente, na era Telê, começou a torcer pelo São Paulo. “O São Paulo é time de primeiro mundo, que estrutura, que organização”, diz João, meu pai, que, após 10 anos carregando no peito a alma alvinegra maloqueira, quatorze anos sentindo a morte do seu joelho direito ao desfilar pelos campos enlameados como profissional da bola na década de 70, resolveu, juntamente com a esposa, também conhecida aqui em casa como mamãe, montar uma academia de ballet e fazer da arte, não da bola, mas da sapatilha, a principal fonte de sustento da família. (Talvez seja por esse motivo que tenha se tornado são paulino.)
Maximiliano Rodrigues Lopes, apesar do nome, não é argentino, longe disso, é brasileiro da cidade de Guarujá. Antes de ser gordo assumido, e ser chamado de tio por mim, foi um grande, mesmo tendo cerca de 1,68 (nem ele sabe exatamente quanto tem de altura), jogador de soccer brasileiro. Santista de coração, com problemas de coração por culpa do excesso de comida e apreciador inveterado de coração de frango servido nas churrascarias de todo o Brasil, Xaxá, vulgo que serve como uma piorada e engraçada camuflagem para esconder o ridículo nome, atualmente dá aulas de futebol brasileiro para crianças americanas em Redondo Beach, Califórnia, Tio Sam, Planeta Terra.
Os dois se encontraram pela primeira vez em 1971, quando jogavam juntos pela Portuguesa Santista. João na posição de centroavante matador. De torcida. E Xaxá atuando pela ponta direita - embora até hoje ainda sinta dificuldades para saber qual dos lados é o direito e o esquerdo. Um ano depois, João conheceu a irmã de Xaxá, Eliana, e no dia sete do sete de 1977 às sete horas da noite o casal resolveu trocar alianças (não o meu pai e o meu tio, eles são hetero, mas a minha mãe e o meu pai).
Por mais que o destino de ambos tenha convergido para o mesmo caminho diversas vezes, a carreira futebolística dos dois possui uma notória discrepância quando o assunto entra no âmbito das conquistas. O auge da carreira de João Marques foi a conquista do Campeonato Paranaense de 1977 pelo Grêmio de Maringá – time que troca mais de nome que o rapper Puffy Dady. A final dramática foi contra o Coritiba, no Couto Pereira, e a lembrança mais vívida e dolorosa que João tem desta partida aconteceu aos dez minutos do primeiro tempo, quando tomou um chute bem no meio do saco, o que não intimidou João, que resistiu até o término do jogo de forma heróica e com uma avaria irreversível e risível no testículo esquerdo: amassou o coitado. Além de ficar de molho durante quinze dias sem poder levantar da cama tamanho inchaço inclemente que pulsava nas partes baixas, João conviveu com uma dúvida terrível durante os 1.460 dias que sucederam o fato: esse incidente o tornaria um ser infecundo?
Contudo, em 1981, eu nasci. Ou será que fui adotado?
Em contrapartida, Xaxá foi um dos personagens da fatídica e histórica disputa de pênaltis que acabou com a divisão do caneco entre a Portuguesa – título até hoje comemorado euforicamente pela comunidade lusitana, do mesmo modo que Roberto Leal ainda canta euforicamente o seu único sucesso composto no século 19 – e o Santos, devido a um erro crasso de contagem do árbitro Armando Marques.
Xaxá não prestou serviços futebolísticos somente no Brasil, teve sim uma passagem pelo futebol europeu, defendendo o Espinho (quem?) de Portugal. O mais próximo que João chegou de jogar fora do país foi quando fez embaixadinhas na frente de uma loja de bugigangas eletrônicas na Ciudad Del Este, no Paraguai. Na ocasião, participava – quase sempre bêbado - de uma excursão com um grupo de amigos e familiares consumistas no ano de 1994 - período em que o Real valia a mesma coisa que o Dólar.
Nos papos que tenho regularmente com essas figuras sobre futebol, os encho quase sempre com as mesmas perguntas de comparação que põe frente a frente os craques do passado com os pseudo-craques do presente.
João diz que o seu estilo de jogar futebol era muito parecido com o do sempre rápido e frágil Nilmar. Já Xaxá se compara a David Beckham, não pelo futebol, mas sim pela beleza.
Estes dois tiozinhos fustigados pelo tempo me viram crescer da mesma forma que a paixão avassaladora pelo futebol cresceu dentro de mim: graças a eles. Meu pai não colecionou muitas glórias como o meu tio, mas está inundado até o nariz de histórias inusitadas que só o universo do futebol e ele conseguem proporcionar. (Por exemplo, conseguiu ser expulso antes de começar uma partida, e deve ser o único ex-jogador de futebol do mundo proprietário de uma academia de ballet.)
Enfim, poucas pessoas têm a chance de ter um familiar boleiro. Eu não tenho um, mas dois familiares boleiros. O que faz de mim um ser mais feliz e cheio de histórias para dividir com quem quer que seja. Até mesmo com vocês.






segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

A fúria da solidão pela arte


Transformar a dor em alívio. Nem sempre o negrume se dissipa a ponto de avistarmos a nuança mais recôndita e viçosa dos nossos olhos. Ele se avoluma. Às vezes não há classificação. O que resta é a tentativa de atinar os números no escuro. Não é pra qualquer um. Não se trata de sorte. Mas de talento. Único.

Daniel Johnston é um caso sério de talento inexplicável. Na infância, desenhava Gasparzinhos musculosos, Super-Homens desfigurados e faunos decapitados. A câmera super-8 da família documentava o ódio familiar visto pelo olhar do artista. A puberdade trouxe os Beatles e anunciou o início do fim da sanidade. O piano massacrado pelo desuso no porão suburbano tornou-se a principal arma para a alma atormentada de um jovem que irá enlouquecer muito mais nas próximas linhas. Na escola, ficou conhecido como louco. Na faculdade, longe da família, experimentou a primeira droga: o amor não correspondido.
As constantes dores no braço esquerdo denunciavam os primeiros sintomas de um maníaco-depressivo. Abandonou a faculdade. Foi “quase” expulso de casa. Os pais ultra-religiosos não entendiam o porquê de ele não querer ser uma pessoa normal, arranjar um trabalho e morrer com condescendência. A paixão avassaladora foi extravasada por meio de composições. Piano, vocal peculiarmente desafinado, percussão digna de um ritual tribal promovido por uma tribo infantil com tendências canibais e letras tórridas nonsense.
No início dos anos 80, agora morando na casa do irmão mais velho, na companhia de um teclado rudimentar e um gravador portátil, começou a gravar as primeiras músicas. Ao ouvir a fita, o irmão o julgou sem talento e pediu educadamente que fizesse as malas. A irmã o acolheu. Ficou fascinado pelas luzes e pela alegria que o parque de diversões nas cercanias do novo lar propiciava ao seu tão desacreditado coração. Conseguiu emprego, comprou uma mobilete e fugiu acompanhando a vida nômade dos funcionários do parque. Em Austin, Texas, foi deixado pra trás e resolveu adotar a cidade como reduto para a criação artística. Continuava a compor, a gravar e a desenhar diabos extraterrestres com luvas de boxe. Rapidamente se embrenhou na promissora cultura alternativa da cidade. Assalariado do Mc Donald’s, alugou um minúsculo apartamento e se afundou nas entranhas da mente para arrancar o máximo de si.
Hi, How Are You é o mais célebre registro de sua carreira. Na época, quando perguntado sobre o processo de gravação, Daniel respondeu, “estava tendo um colapso nervoso ao gravar essas músicas”. Lançado em formato K7, em 1983, a obra teve uma repercussão estrondosa tanto no cenário underground como no mainstream texano, culminando em constantes apresentações em ginásios e clubes, aparições na MTV, em revistas especializadas, contrato com um empresário, alguns fãs e uma meteórica namorada que, meses depois, o deixou ao concluir que se relacionava com um ser de outra dimensão.
Nesse período, experimentou a segunda droga: o ácido. E a loucura veio à tona. Irreprimível. Conjeturou que estava possuído pelo diabo. Que devia se matar para acabar com a besta que tomava conta do seu corpo. Quase matou o empresário - ao golpeá-lo na cabeça com um porrete de ferro. Ficou preso por 24 horas. Depois solto. Regressou à casa dos pais. Começou a tomar remédios para aplacar a loucura. Não conseguia mais compor. Só comia e dormia. Engordou demais. Um ano depois, retornou aos palcos. Os shows eram um misto de música e discurso fanático religioso.
No início dos anos 90, depois de se apresentar para mais de dez mil pessoas num festival em Austin, arrancou a chave da ignição do avião de pequeno porte que o levava de volta para casa, obrigando o piloto, que era simplesmente o seu pai, a fazer um pouso forçado sobre algumas árvores. O motivo para o desatino: ele queria voar como Gasparzinho, O Fantasminha Camarada. O incidente não fez vítimas. Só destruiu o avião.
A inevitabilidade o levou ao hospício. Os medicamentos – lítio, ácido valpróico, olanzapina -, a um estreitamento na relação de tolerância e descontrole absoluto com o capeta que dormitava dentro de si. Em 1993, Kurt Cobain, até então líder do Nirvana, a grande banda do momento, apareceu em uma premiação musical transmitida pela televisão vestindo uma camiseta adornada com os seguintes dizeres: “Hi, How Are You, Daniel Johnston”.
Rapidamente a imprensa perguntava: quem é Daniel Johnston? Os fãs do Nirvana se questionavam: como não sabemos quem é Daniel Johnston? Kurt Cobain respondia: “o maior gênio vivo da música americana!”.
Um frenesi tomou conta dos yuppies da indústria musical. A Elektra Records fez uma proposta milionária para assinar contrato com o visionário trancafiado no hospício. A gigante Atlantic Records dobrou o valor oferecido pela rival. Daniel ficou com a segunda opção. Para ele, a Elektra tinha vindo a mando do demônio. Então, em 1994, Fun, primeiro registro por uma grande gravadora, veio à luz. E o resto é história.
Atualmente, próximo de completar 48 anos de idade (aniversaria na próxima quinta-feira, dia 22 de janeiro), com vinte discos lançados, recorrentes turnês ao redor do mundo e ainda vivendo sob o mesmo teto dos pais, Daniel Johnston é considerado um dos maiores compositores da história da música americana moderna. No hall de admiradores da sua obra, estão nomes como Beck, R.E.M, Matt Groening, criador dos Simpsons, Yo La Tengo, Sonic Youth, Tom Waits, Pearl Jam, Paul McCartney etc. Seus desenhos tresloucados e estranhamente infantis são disputadíssimos em exposições na Europa e nos Estados Unidos. Em 2006, The Devil and Daniel Johnston, documentário que conta a trajetória do controverso artista, foi premiado no Festival de Sundance, convertendo o solitário incompreendido em mito.



segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Cloaca PO(bre ou dre)P #4


Por Favor, Parem de Idealizar a Morte dos Seus Ídolos!
Quem?
Kurt Cobain.
Como? foi encontrado morto em sua casa com um tiro no queixo.
Quando? 1994
O que disseram? “suicídio”; “a mulher dele o matou, aquela vaca pretensiosa!”; “morreu porque não agüentava mais o mundo no qual vivia”; “ele era muito puro em comparação a toda sordidez à sua volta”; “cretino, por que se foi, deixa eu ir junto”; “apaga-se a única estrela remanescente do verdadeiro rock”; “ daqui pra frente, tudo o que for bom no rock será classificado como o novo Nirvana”; “só Kafka faria uma letra como Smells Like Teen Spirit”; “eu tava naquele show do Nirvana no Rio, é, eu tava sim”; “Gus Van Sant é um mentiroso”; “olha só, eu nem sabia que a banda Mutantes era brasileira”.
O que realmente aconteceu: Kurt Cobain se matou, vejam bem, Se Matou, porque estava sempre mais do que nunca a todo momento Doidão. Muito louco. Noiado. Pêgo. Sorumbático. Bem mais pra lá do que pra cá. Todo borrado. Fodido. Quando ele escreveu Smells Like Teen Spirit, ele estava... diz aí Krist Novoselic: “Doidon”. É mesmo, Dave Grohl: “Muita Louco”. Pat Smear, dê a sua opinião, só a opinião: “ai, bicha, o diabão loiro tava é muito do Pêgo. Thurston Moore, hora de falar no gravador: “Sorumbum... Soram... Sorumbátoco”. Fala aí, Meat Puppets, os dois devem essa ao finado: “Bem mais lá do cá”. Daniel Johnston, por favor, o cara te tirou do hospício: “a besta, 666, a besta o deixou Todo Bolrrrrrado”. Courtney Love, vai que é sua: FODIDO!
Pergunta sem resposta: A morte mistifica e superestima aqueles que provavelmente não seriam grande coisa se morressem aos 79 dormindo em paz?
Contra pergunta sem resposta: O que seria de Johnny Depp se tivesse morrido no período em que atuava em Anjos da Lei?

Quem? Papai Noel.
Como? Há sérias dúvidas até mesmo quanto à veracidade da sua existência.
Quando? Uns acreditam que tenha aparecido no momento em que Jesus Cristo abriu os olhos e disse “Nhé”. Outros entendem que Santa Claus surgiu a partir da fundação da Coca-Cola. Os judeus não acreditam em porra nehuma!
O que disseram? “Papai Noel não existe!”; “Mentira, Papai Noel existe sim!”; “Papai Noel não existe!”; “Mentira, Papai Noel existe sim!”; “Papai Noel não existe!”; “É, ele não existe”; “O verdadeiro Papai Noel é o Papai Noel negro”; “Ele é tão mágico que consegue com aquele corpanzil passar pelas mais exíguas chaminés”; “Tio?”; “Papai Noel cantou até Creedence Clearwater Revival no natal de 96 na casa da vó Plinia”; “Uau, um Atari!”; “Mãe, mais uma vez eu não fui um bom menino. Papai Noel nunca vem à Somália”; “O filho da puta errou a cor da minha bicicleta”.
O que realmente aconteceu? Em todos os anos, nos mais longínquos ambientes, em diferentes horários, utilizando diversos meios de transporte, Papai Noel sempre aparece à meia-noite do dia 25 de dezembro. No Japão, ele é japonês. Na Itália, ele é mafioso. Na casa do Celso Martinez, ele pode estar pelado ou sendo enrabado ou enrabando uma árvore ou de batom roxo. Na casa do Paulo, meu vizinho, ele está desmaiado de tão bêbado. Na casa do meu avô Osmar, ele foi superado pelo dominó. Na minha casa, ele está suando como um porco.

Quem? Elvis Presley.
Quando? 16 de agosto de 1977.
Como? Colapso fulminante associado à disfunção cardíaca.
O que disseram? “Elvis não morreu”; “Elvis morreu, mas ressuscitou, como o Corinthians”; “Elvis está em Moçoró”; “Eu sou Elvis Presley”; “Eu sou Elvis Presley”; “Eu sou Elvis Presley”; “Meu cunhado disse que o motoboy lá da empresa dele é o Elvis Presley”; “Ele parece o Elvis, mas a voz não tem nada a ver”; “Elvis não morreu, ele tá na igreja. Senta aí, toma uma breja”; “Elvis Presley tá com um carrinho de pastel lá na frente da facú”; “Elvis é aquele com os dread que cantava ‘não, não chore mais?’”; “Lisa, chama o moço da funerária, o caixão não fecha de jeito nenhum”; “Pergunta pra Priscilla Presley, o Elvis Presley é o Leslie Nielsen, tô falando sério”; “Qual é a ‘faixa etária’ de preço destes cd’s do rei do rock?”.
O que realmente aconteceu? Sem o preconceito o sarro nunca existiria. Pensem nisso.


Por favor, vá ser padeiro!
Ouvir de cidadãos talentosos a queixa de que a vida de rockstar bem-sucedido é difícil me exaspera profundamente. As faíscas de empáfia forçada cuspidas por este tipo de declaração me forçam a pensar duas vezes se quero ou não ouvir o que esses caras têm a dizer como pessoas normais. E se engana quem pensa que estou me referindo às súplicas de Elton John ao seu empresário para fazê-lo de algum modo extraterreno parar o barulho do vento que não o deixa dormir. O buraco é menos fundo. As estrelas andam de chinelo. Um deles até pega a Mallu Magalhães. Há alguns anos atrás, a trupe de Marcelo Camelo e Amarante, na época do lançamento do segundo disco, Bloco do Eu Sozinho, após a overdose de Ana Júlia e da achincalhação promovida pela imprensa “quero dormir abraçado com o meu vinil importado do Meat Is Murder”, participou de um programa na MTV, quando a MTV ainda tinha alguma coisa de MTV, chamado MTV na Estrada, no qual uma equipe acompanhava o dia-a-dia da turnê do Los Hermanos por diversos estados do Brasil.
Em todas as etapas da cobertura, no ônibus, nos restaurantes, nas infatigáveis babações de ovo dos fãs, nos quartos dos hotéis, nas festas pós-show, sobretudo nos momentos cara a cara com o olhar indagador da câmera, isso sem contar nas horas em que ‘possivelmente’ eles não sabiam que estavam sendo filmados, o que se via era a crispada feição do falsificado “saco cheio”, muito influenciada pela invenção da televisão, pelo surgimento do fã, pelo inexplicável valor do autógrafo, pela existência de Andy Warhol, pela espécie que, além de não ter dormido, considera Brown Bunny um dos melhores filmes da história.
“Não agüento mais fazer turnê.” “Ser reconhecido cansa.” “Trocaria o meu sucesso por dois meses de tranqüilidade.” “Viver por seis meses em um ônibus cinco estrelas, comendo a mulher que eu quero, fazendo o que eu (provavelmente) gosto, tocando sempre com casa cheia, ser elogiado por personalidades que sempre admirei, é cruel.” Então vá ser padeiro, caralho! Monta uma banca de bambu e vende banana na estrada. Que tal ser caixa de supermercado nos dias que antecedem o reveillon. Enfermeiro de guerra. Catador de lixo. Comedor de lixo. Comedor de lixo com AIDS. Amputado que trabalha em telemarketing. Repórter de rua. Escoteiro na Faixa de Gaza. Cléber Bambam. Estuprador de criança. Pai de criança estuprada por estuprador. Professor de filosofia em escola pública. Formado em Estudos Sociais. Amante do Fernando Vannucci. A mítica voz que anuncia a pamonha caseira e o delicioso sorvete de milho verde. Amigo particular de Fernanda Young. Benito de Paula. Faz que nem a Enya, grava disco e não faz turnê. Fica parado em alguma esquina, sob o sol de quarenta graus, segurando uma bandeira de alguma construtora, ou de algum candidato a vereador, das 6 às 18, inclusive aos sábados, quiçá aos domingos, por dez reais diários. Proprietário de sebo de livros em Lorena. Dono de bar em Lorena – o único lugar do mundo onde os bares e os taxistas dormem mais cedo que as igrejas. Prostituta de cais. Ghost Writer. Jornalista que passa o dia todo na rua e é congratulado com o crédito de ‘reportagem local’. Locutor de porta de loja na 25 de março. Empurrador de carro alegórico. Faxineiro de matadouro. Playboy fã de Racionais Mc’s. Empresário do Trio Los Angeles. Funcionário do Mc Donald’s que trabalha em pleno Natal. Pokémon que vende raspadinha na praia. Dono de escola de balé em Guarujá. Organizador da fila da balsa. Funcionário da Chilli Beans – escravidão ainda é crime, mesmo que não se faça nada para mudar a situação. Malabarista de semáforo que não acerta uma. Empacotador de supermercado. Empacotador de supermercado com hemorróida. Leitor de crítica de cinema. Diabético que sonha em se tornar atleta. Ilegal na Espanha. Cérebro de Dado Dolabella. Vítima da Camorra. Hippie caixa-baixa. Frentista de posto que adultera gasolina. Refém. O carinha que recebe o dinheiro no pedágio. Fã da Barbra Streisand. Turista em Aparecida do Norte. Kiko Zambianchi. Alguém que paga duzentos reais para ir ao show da Ana Carolina com o Seu Jorge. Matt Sharp, ex-baixista do Weezer e ex-líder do The Rentals, que depois de perder cinco processos contra Rivers Cuomo, gênio camuflado do Weezer e também mais uma prima-dona insatisfeita em ter o seu nome mencionado ao redutor título de estrela do rock, divorciou-se da música e passa os seus curtos dias cuidando de um cavalo em uma cidade do interior dos Estados Unidos (isso sim é atitude).
Portanto, se nenhuma das alternativas digitadas apetecem o seu sentimento de mudança, caro rockstar enfastiado e todos os fãs que acham o máximo cada peidinho que você dá, então enfia todos os dedos no cu e rasga.

QVAQALV(Quando você acha que acabou lá vem): O que é o que é, que é mulher e era professora de Educação Física na década de 80?
Resposta: Sapatão.




segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Até 2019


Homenagem ao meu amigo Yoshi, que não é japonês, e sim o sósia do Rick Moranis. Como diria o nosso amigo Heleno de Prado: “Há entre eles uma semelhança muito igual”. Eu sonhei com esta carta, a carta que se cristalizará após a leitura desta introdução, Yoshi convidando todos os amigos para o seu casamento em Praga, tendo como futura esposa uma russa sustentada pelo dinheiro do petróleo oriundo do laço paterno.
Feliz ano novo, Yoshi, que Dubai termine em fevereiro, e que você possa nos contar inúmeras histórias, sem muitos detalhes, por favor!


Caro Leonardo,

Olá, espero que ainda tenha memória para se lembrar de mim. Sim, sou eu mesmo, o pequeno com pau grande do Yoshi, é, o Rodrigo, o caçador inveterado, a fera faminta por clitóris de todas as idades, o cachorro louco que julgava um despropósito um macho puro sangue no século XXI se sujeitar à desinteressante e castradora coleira matrimonial. É verdade, vou me casar, encontrei o amor, a paixão, o sexo perfeito, a chance de pronunciar palavras fofas babacas e não me sentir nem um pouco bichona.
Quanto tempo, hein, Leonardinho? Nove anos? Dez? Onze? Tá morando no mesmo lugar? Casou? Tem filhos? Por acaso algum filho(a) já tem filhos? Avô? Alguma filha gostosa? Adultério? Deu a bunda e gostou e agora desabrochou a moçoila? Tá barrigudo? Parou de beber?
Estou em Praga, na República Tcheca, lembra que eu sempre dizia que um dia viria pra cá? Pois é, aconteceu, aportei aqui em julho de 2015 e desde então o amor me pegou pelas bolas e só me deixa sair de casa se eu disser onde, com quem e “sem mim só com seres vivos com pinto e não vale hermafrodita”. O nome dela é Cristyianna, e não, não é brasileira, é russa, ruivinha, olhos verdes, glândulas mamárias avantajadas e salpicadas por um exército de sardas maravilhosas. (Caso você esteja solteiro, Cristyianna tem um bando de priminhas e amigas gostosas e vagabundas.) Portanto, junto com esta carta adorável que provavelmente você deve estar lendo agora, lhe envio cinco convites (se você tiver uma família que exceda esse número ou muitos companheiros gays pode trazer todo mundo pra cá que a gente dá um jeito). Anexado aos convites estão cinco passagens para Praga. (Se necessitar de mais passagens, compre-as, meu sogro fará questão de ressarci-lo – o velho é podre de rico e, cá entre nós, tem também um bafo podre, adora mascar alho, vê se pode uma coisa dessas.)
Eu mandei convites para todo mundo. Victor, Daniel, Paulo, Caio, Bolo, Verinha, Pedro etc. Enviei para os respectivos, assim espero, não obsoletos endereços.
Lembra que eu falei para você, mesmo com o meu tamanho pouco avantajado, digo de altura, não de rôla megalomaníaca, que um dia eu faria gozar de maneira selvagem uma doce potranca do leste europeu? Recorda que além do good sex e da minha evidente disposição (pau pra toda hora), eu a deixaria louca o bastante a ponto de pedi-la em casamento em meio à neve – que frio desgraçado faz nessa porra! - e ela aceitaria, não só a mim, um pobre brasileiro com um respeitoso currículo de arquiteto embora não tão atrativo no que diz respeito às inovações arquitetônicas que pululam por essas bandas, mas iria sugerir que dividamos toda a fortuna – ela é uma eminência no mundo da moda, além do velho sogrão trabalhar, digamos, de forma meio escusa, no tão propalado e inesgotável, porém raro, não é em todo lugar que tem, mercado do petróleo – igualmente?
Ou seja, me dei bem. Muito bem! E se você quiser ver com os próprios olhos o quão grande, aberto e resplandecente é o meu sorriso, pegue a porra destas passagens e venha pra cá, eu peço pelo amor do nosso bom Deus católico que não é muito bem quisto por aqui, e morra de inveja quando se deparar com esse pequeno mas guerreiro homem que vos dissemina estas apaixonantes palavras com uma mulher que nem em seu sonho mais surreal de punheta (você) seria capaz de comer, ou melhor, comer não é coisa assim tão impossível, é quase, pelo menos para você (quando chegar aqui te encho de elogios e de tenras bucetas rosadas), mas mantê-la ao seu lado, e se superando cada vez mais, hasteando a bandeira e dando uma entonação proporcionalmente só comparada a um inexistente – por isso sou fantástico – coral de pôneis vociferando, a plenos pulmões, o hino nacional brasileiro em uma final da Copa do Mundo de Futebol contra a Argentina com as rôlas imensuráveis duríssimas prontos para arrombar as fêmeas – no meu caso “A Fêmea”, mas que fêmea, Deus mio – que venham a subestimar a potência de um filhote que tem muito a provar aos seus congêneres bem-sucedidos.

Amigo, te espero aqui. Não só você, mas todos. Como a piada do cara que come a Sharon Stone em uma ilha deserta e necessita de todo modo contar para alguém: eu preciso que vocês vejam quem eu estou comendo.

Venha prestigiar o sonho do amigo realizado e traga cervejas brasileiras porque as daqui são uma bosta!

Abraços distantes, mas em breve estreitos, do seu amigo, do bom e velho tigre trancafiado em um quartinho de empregada, do insaciável, do doce garoto do posto 9 de Ipanema, eu, euzinho mesmo, o atual saradão do leste europeu (tô malhando, usando lente de contato azul e fiz luzes no cabelo, pretty chic!) Yoshi!