sexta-feira, 13 de maio de 2011

Guarujá Rock City



“Escrever uma história do Guarujá para quem não é do Guarujá pode ser uma coisa difícil. Quem sabe talvez deixar de lado ou do lado de fora tudo que há de certa forma cativantemente colorido no mundo seria um modo de descrever o Guarujá à perfeição. Eu conheço isso aqui do dia em que nasci desde quatro anos depois. Sempre foram três pessoas e as três pessoas são a minha família com o acréscimo e a ruptura o acréscimo e a ruptura o acréscimo e a ruptura o acréscimo que faz da vida uma sucessão de sucessões molhadas ou secas estáticas ou incontroláveis.”
Trecho da poesia Brados de um Jesus anão com
Um bellini no rosto e uma verruga no copo
, do livro Na Pior No Havaí: época de furacões; uma gorda chata, histérica e mimada a tiracolo; uma nota de 10 dólares presa no elástico da sunga; uma ponta com muita amônia umedecida por lábios com herpes do antigo proprietário na carteira; o livro de memórias do Lobão como válvula de escape; a discografia completa de Laura Pausini no ouvido e um revólver calibre 38 com uma só bala no tambor – de festim, de Arno Palumbo, editora Napalm na Micareta Press.


Rock no Guarujá é tão possível quanto um concurso de camiseta molhada na Sibéria. Não há como. Não existe. Para ser sincero, o meu grande sonho é (OU ERA) escrever uma biografia do rock guarujaense. As grandes bandas que chegaram a encher estádios com arquibancadas vazias. Os artistas inovadores que não conseguiram revolucionar o mundo, mas pelo menos as ruas onde moravam, provocando o êxodo da vizinhança que não agüentava mais tanto barulho. Os bares mitológicos. Cereja’s Drink’s e a sua clientela fiel composta por falta de pessoas. Quando havia pessoas, faltavam pessoas bonitas. Ou sóbrias. Ou acordadas. (Ou com mais de dois dentes na boca.) Cantinho’s Bar e o seu ambiente acolhedor. Tão acolhedor que a proprietária decidiu se enforcar dentro do próprio bar, atrás do balcão. Toca do Tubarão, a Amsterdam paradisíaca sem holandesas gostosas e com o público mais batido da Baixada Santista. Basta ir até a Bola de Neve para reencontrar todo mundo. A Festa, o evento que parava a cidade e levava todos os cinqüenta e três habitantes a uma jornada regada a fumaça de cigarro, cerveja quente em copo de plástico, vídeos de surf projetados em um telão rachado, bandas cover de Alanis Morrissete, sexo prazerosamente irresponsável que culminava em mais uma paternidade antes dos 18, ficadas com a mesma menina estranha que era amiga de todas as outras meninas (“ah, a Jú é muito legal, você tem muita sorte, cara”) que não queriam ficar comigo (à exceção de Daniela Ramos, mas aquilo não era uma mulher, tava mais para um monstro, a fusão de Ariats, Willow, o da Terra da Magia, com a risada, e não com as tetas, da Fafá de Belém) por conta da inestimável simpatia que desprendia-se daquela boca que era tão grande que engoliria a China com todo mundo dentro, inclusive com o Yao Ming, e brigas ocasionais e espaçadas que transformavam A Festa em A Briga e A Briga como a grande ocasião da festa. Jambococo e a sua agradabilíssima temperatura de sauna mista freqüentada só por homens, alguns caucasianos, outros negros, pouquíssimos japoneses que eram só japoneses, muitos japoneses que também eram paraibanos, libaneses a rodo herdeiros de lojas de móveis invariavelmente às moscas entretanto com as carteiras de couro verdadeiro atulhadas de dinheiro, metaleiros-funkeiros que usavam o som da guitarra distorcida como desculpa para afundar o seu nariz com uma cabeçada chata, punks que confundiam atitude com mendicância, punks que confundiam “altitude” com “atitude”, punks que confundiam Legião Urbana com punk rock, punks que confundiam a rua com privada e hippies que confundiam chorume com perfume. Manguetown, uma noite capaz de mudar drasticamente os próximos dez anos de sua vida – isso se você conseguisse chegar até lá. Os dois primeiros passados em uma clínica de reabilitação. O próximo par de anos usando tudo que deixou de usar e enfiando tudo em tudo que deixou de enfiar no período de privação. Mais dois anos com o vírus do HIV. Um ano espalhando o vírus do HIV e rechaçando boatos. Seis meses de arrependimentos acompanhados de mais seis meses de iluminação e purgação perante a Deus. Um ano de recriminações às libertinagens da sociedade e de convicção milagrosa quanto à cura da “sua” Aids. E o último ano prostrado em uma maca maculada de sangue alheio % alheio % a tudo % devido ao todo % e a falta de tudo % sem nada % sem tranças % às traças no corredor de alguma policlínica fétida à espera da morte que nem Deus conseguiu interromper. Os organizadores da Manguetown alugavam sempre a mesma mansão de dois andares no bairro da Enseada, a preço de banana. O térreo, onde ficava o extenso quintal, era destinado à apresentação das bandas, basicamente hardcore melódico, covers da Alanis Morrissete, Killing The Name como apelação infalível - até a mina que cantava Alanis Morrissete cantava Killing The Name para acordar a galera entediada que ficava gritando “sai fora, putinha do caralho!”. O primeiro andar era onde ficavam os quartos. Assépticos e cheirosos como só o esgoto que passa pela Favela do Caixão pode ser. Um cara e uma mina se encontravam invariavelmente chapados por alguma substância, desde drops Dulcora até cocaína. Tal como um roteiro de filme pornô, conversavam um pouco para logo procurarem um quarto vago no qual pudessem tirar a roupa e transar bastante. Quase sempre no pelo. Das sete, cinco: chato, clamídia, sífilis, gonorréia e gravidez; ou gravidez, crista de galo, aids, chato e sífilis; ou clamídia, aids, gonorréia, gravidez e crista de galo. O terceiro andar consistia em um espaçoso terraço-parque de diversões-reduto caindo aos pedaços para os usuários de todas as drogas possíveis e imagináveis para o poderio econômico de uma cidade de nono mundo num país de terceiro mundo que, à época, anos 90, estava mais para quinto.

E os festivais? Os festivais que subverteram os ditames repressores e pararam guerras, nos quais guitarristas geniais de pele negra vestidos como ciganos tocaram hinos dos seus países como forma de protesto enquanto a galera se afogava no ácido e afundava na lama? (A lama nunca foi um problema. Ela é uma substância imanente do nosso povo. Vide o epíteto “Pé de Lama”.) Os Estados Unidos tiveram o emblemático Woodstock e o cult Lolapalooza. A Inglaterra tem o Festival da Ilha de Wight, o festival de Glastonbury, o Reading Festival, entre tantos outros. A Espanha tem o Sonar Festival. O Brasil já teve o Rock in Rio, o Hollywood Rock, o Monsters of Rock, o Tim Festival etc. E nós, aqui do Guarujá, que tipo de festival nós tivemos? (Além do Guarujá Verão Show, que, vamos ser sinceros, é uma merda, uma bosta total, todo ano é o mesmo Chiclete com Banana - se você é chicleteiro, Deus te abençoa; se você não é chicleteiro, Deus que se foda!), a mesma Ivete Sangalo, a mesma Claudia Leite, os mesmos César Menotti e Fabiano, em cima do palco, acima do peso e abaixo da crítica (o quê, de certo modo, pode ser encarado como um elogio). Nós tivemos, em julho de 1999, em pleno verão fora de época porque à época aqui era inverno mas isso não faz muita diferença aqui porque aqui não é Campos de Jordão portanto dá para ficar bêbado por bem menos de 300 reais (Maiúsculas), O OUSADO, O DESBUNDADO, O PORNOGRÁFICO, O SUBVERSIVO, O INCLASSIFICÀVEL, O MULTIRRACIAL, O SANGUINOLENTO, O TRANSFORMADOR, O FILANTRÓPICO, O MISANTROPO, O BILÍNGUE, O SIMBÓLICO, O... O... O... O... O... o único festival de rock na história do rock que teve como banda de abertura um grupo de pagode – O APOCALIPTICAMENTE CLASSE MÉDIA “WIZARD BANDS”! (Exato, a filial caiçara da escola nacional de línguas internacionais organizando festivais musicais no intuito de dissuadir a discriminada juventude guarujaense afetada pela atmosfera ao mesmo tempo melíflua e torpe da arte a não cometer suicídio ou castração coletiva na singular Praça das Bandeiras que não possui uma mísera bandeira.)

A Wizard contava no seu corpo docente com uma gama de professoras estúpidas mas talentosamente gostosas e adeptas à felação em alunos que porventura viessem à tona com suas toras sedentas por empirismo licencioso nas longas madrugadas sonolentas de sonhos lúbricos em vigília entorpecida por ervas com excesso de amônia. (Eu estudei lá durante dois anos e posso afirmar uma coisa: não aconteceu nada disso comigo.) Vinte bandas participaram da primeira edição do festival. A primeira edição deu tão certo que nem houve a segunda. Das vinte bandas, dez classificaram-se para a fase final. Das dez finalistas, as três primeiras colocadas ganharam prêmios. E que prêmios! Uma camiseta da Wizard. Uma. Havia bandas com sete integrantes. E uma camiseta. Além do mais, horrorosa! Uma camiseta da marca de surf Antiqueda, uma das proeminentes patrocinadoras do evento. E alguém se pergunta. “Uma?” Uma. Um cd da banda So What! What? So What! What? So What! Whatcha Whatcha On? Banda paulistana de hard rock farofa que encerrou o festival com um show digno de nota: 0,1. Direito à gravação de três músicas no estúdio do lendário e pontual produtor santista Boca. E, das três músicas gravadas, a honra de ter duas músicas no histórico CD do festival: Wizard Bands Vol 1. O CD custava dez reais e para todas as dez pessoas que ofereci o CD as dez ofereceram no mínimo dez pertinentes motivos para não comprar o CD. Então eu dei os CD’s. Ao meu pai, a um amigo da escola que disse para umas meninas gostosas do Paraná que adorava morar em “uma cidade litorística”; à minha mãe, que, obviamente, amou; à minha namorada da época, que já à época me chifrava com caras mais fortes que só uma época depois fui descobrir; a um entulho amarelo que estava estrategicamente parado em frente à minha casa; a mim mesmo; a mim mesmo de novo, ocasião na qual o transformei em patins de patinação no gelo, só que sobre o asfalto esburacado e sob um calor de 43 graus, e bailei como se estivesse no perobístico Holliday On Ice; a uma criança de rua que logo depois o utilizou, de modo inteligente, como frisbee; a uma macumba que estava diabolicamente parada na esquina da minha casa; e, finalmente, a Deus, que, desconfio, não curtiu, isso porque dois dias depois quebrei o meu tornozelo andando assim do nada.
Eu fazia parte da banda RKF – a banda mais sexista a não fazer sexo do rock litorâneo. Para ser sincero, éramos todos virgens. Embora nos enganássemos ao disseminarmos histórias sacanas sobre empregadas domésticas apoiadas de quatro sobre tanques de lavar roupa, sobre amigas mais velhas das irmãs mais velhas que romperam a barreira do som com os seus urros apocalípticos de prazer e dor enquanto nos deixavam romper os seus hímens porcalhões que hiperbolicamente quase nos fizeram morrer afogados de um líquido parecido com suco de tomate caudaloso, sobre primas gostosas que na realidade eram bagulhos incapazes de provocar qualquer alusão a qualquer coisa sobretudo ao tipo de coisa que pode ser identificada como tudo, menos coisa, sobre anãs atletas cadeirantes campeãs de luta greco-romana que levantavam...

Outra banda de destaque era a banda mirim pacifista Fuck’n All. Garotinhos de 12 a 13 anos que eram influenciados evidentemente pela versão mais velha e imaturamente madura: RKF. Como o RKF, eles mandavam todo mundo pra casa do caralho, bebiam pinga direto do gargalo, deixavam a cueca samba-canção à mostra, viam as mulheres como objeto, eram mais promíscuos quanto ao estilo musical do que a bunda do roqueiro Serguei jamais será, mas também não comiam ninguém. Um espécime assaz curioso nessa trupe de cinco garotos era o outro vocalista, porque havia outro além do outro, Luquinha. Fruto de uma educação experimental, anos depois de deixar a banda e a gloriosa camiseta do Olodum que provocava suspiros nas gatinhas do hardcore, Luquinha foi preso na mesma cela do irmão mais novo. Dias depois desse reencontro, os outros 147 presos que dividiam a cela com os dois irmãos, que era da magnitude da casa do Jerry, pediram transferência porque não agüentavam mais as selvagens brigas dos dois afortunados.

N.D.A entrou para história do rock guarujaense não pela qualidade musical, muito menos pela originalidade do nome, mas por conta do comportamento fantástico de um dos integrantes: vamos chamá-lo de A (até parece que ninguém sabe de quem estou falando), baterista e mágico. Retificando: péssimo baterista e mágico mediano. A mágica de A não se relacionava com as ferramentas usuais do mundo dos mágicos. Esqueça cartas de baralho, pombas brancas, cartolas pretas, mulheres cortadas ao meio e ilusionismo. Não era nada ilusório, era tudo verdade. O que sumia, sumia. E o poder da sua mágica cresceu ainda mais por conta de sua mudança do Guarujá para Curitiba. Por exemplo, você e A (não me pergunte quem, você sabe muito bem de quem estou falando, lembre-se daquele boné importado que você tanto gostava) estão na mesa de um bar. De repente, você coloca uma nota de cem reais sobre a mesa para checar algo no bolso de sua bermuda. Quando você olha de novo para a mesa para pegar a nota de cem e recolocá-la no bolso, ela sumiu. Foi assim com o meu CD “importado” do The Cramps. Com as blusas de outros amigos. Óculos. A caixa da batera do Kellinho. Vídeos. Bonés. O sumiço repentino na hora de pagar a conta no bar. A aparição repentina em festas para as quais não fora convidado...

Da metade ao fim da década de 90 o Guarujá foi encurralado por um tardio frenesi de música grunge – em suma, rock velho travestido de novo – executada por surfistas idosos que já naquele período tinham a mesma idade que nós, eu e os meus amigos sedentos por buça (qualquer buça que fosse realmente uma buça), temos hoje. Atualmente eles têm a mesma barriga, a mesma erosão capilar, a mesma incontinência urinária, o mesmo bundão, o mesmo intermitente pigarro, o mesmo bigode amarelado, o mesmo receio em falar em voz alta sobre o temido exame do toque, o mesmo descuido em peidar em público, a mesma obsessão por uma só marca de cerveja porque as outras, agora, dão dor de cabeça, a mesma cor no nariz do nariz de palhaço, a mesma decepção no ato de descabelar o palhaço por conta da insistente indolência do palhaço, o mesmo desembaraço de enfiar a mão no rabo e coçá-lo em público, o mesmo insuportável, num dia bom soa até engraçado, estertor noturno, o mesmo questionamento matutino quanto à possibilidade do próprio pênis estar realmente diminuindo, a mesma sensação lancinante que, a todo momento, menos quando ele olha para a bunda de alguma menina que tem a idade da própria filha e percebe que mesmo com esta vista privilegiada a porra do pau velho enrugado não sobe, o acomete ao sentir que algum soturno diligente cidadão do Vale da Morte está à espreita para levar a próxima encomenda e a próxima encomenda, cruzes ++++++, ser ele – as mesmas neuroses dos nossos pais.


Portanto, nós – em micaretas ao ar livre nós só pegávamos friagem – estávamos cagando e andando para eles. A exceção dessa trupe, que evitava que nossa bosta fosse encontrada a caminho do banheiro da escola, nos campos de futebol, nas salas de visita das nossas avós ou na escadaria da igreja, chamava-se Chacras. Afinal, além de ensaiarem na nossa rua (o baterista, o bom e “velho” amigo Yuri, que, há poucos anos, e com toda a propriedade, poderia ter servido de dublê em Hollywood para a adaptação cinematográfica de Hulk - a propriedade se deve ao abuso de chá de cogumelo que “o deixou verde”, palavras do próprio), eles nos induziram indiretamente a esquecer o futebol e a enchermos o saco estéril dos nossos pais para comprar instrumentos barulhentos. (Filhos da puta!) Eles eram em quatro, e talvez alguns eram vivos, e um deles, não o Yuri, posteriormente se viu envolvido em alguns crimes amenos (roubos e assassinatos, basicamente) na selva amazônica. Adoravam beck (cá entre nós, quem não curti... uma Becker, a mais pura cerveza chilena) e tinham uma espécie de quinto integrante, o homem responsável pelas letras, sujeito incógnito que, na minha humilde opinião que julga estar certa quase sempre, era o verdadeiro gênio da banda, o qual, infelizmente, não me recordo o nome (na verdade, nunca soube o nome dele, era mais recluso e mais talentoso que Thomas Pynchon), mas sei que era o tio do Yuri, e que tinha bigode, e que era careca, enfim, o perfil do campeão. Agora, sinta o drama:
“Titanic de pobre,
É a catraia que sai do Itapema
E atravessa pra Santos.”
Note a singeleza desta frase:
“Quando chega a sexta-cheira...”
O compromisso e a sabedoria de homenagear o que dá prazer:
“Rabo de Galo,
Três Fazendas,
51,
Velho Barreiro,
Álcool Puro,
Óleo diesel,
Cloro,
Solvente,
Merda de Pombo,
Vômito de cachorro com sarna,
Urina de prostituta de Chernobyl...”
O compromisso com a história do povo:
“Essa é a história do catador de lixo da praia que dava a bunda em troca de lata”

E o passado recente? Aquele momento no qual nos conformamos que talvez teríamos que fazer faculdade de engenharia elétrica? Tristes dias cada vez mais longínquos porém intensamente nítidos que nos afligiram em sua vertiginosa passagem ao iluminar, paulatinamente, com requintes de sadismo e doses cavalares de humor lúgubre, as vogais em forma de neon colorido da palavra HOBBY? Por que o Bolinho, depois que tornou-se straight-edge, ficou mais gordo? Por que escolher Ian Mcaye como referência ao invés de Tommy Lee? Por que cursar jornalismo já que, assim que me formei, a última coisa que eu queria ser era jornalista? Por que Bob Marley, se não fosse artista, seria biólogo? Por que Peter Tosh, se não fosse artista, seria nutricionista? Por que balançar a cabeça, tal qual um headbanger, se o cabelo sumiu?

Aos 20 anos, as responsabilidades rondam como células defeituosas. Para ganhar dinheiro com nossa música teríamos que transformar a nossa retidão e autenticidade nas diabruras boçais do Tihuana, no radicalismo naturalmente grisalho e tingido de caju do Capital Inicial, na fúria púbere descerebrada e celebrada aos 40 do Charlie Brown Jr, no som da risada enlouquecida de alguma piada insossa contada por um eminente funcionário da MTV, mas preferimos, ainda bem, soa mais verdadeiro do que as mentiras que os outros contam a si mesmos, ser empacotador de supermercado a compactuar com a sensação de sucesso que depende da anuência de outras pessoas mais estúpidas que a gente.

Ainda há mais bandas. Muitas bandas. Dos mais diversos estilos e idiossincrasias. De diversos bairros e das mais longínquas fronteiras. Algumas só ensaiavam aos sábados e outras uma vez por mês. Havia aquelas que nunca ensaiavam e aquelas que ensaiavam todos os dias mas que parecia que nunca haviam ensaiado. Bandas tatuadas, bandas depiladas, bandas marombadas, bandas destiladas, bandas drogadas, bandas nudistas, bandas evangélicas, bandas gordas, bandas pobres, bandas exibidas, bandas endiabradas, afinadas, desafinadas e empoeiradas. Enfim, bandas desgraçadas. Sem exceção. Guarujá não é só a Pérola do Atlântico. Guarujá não é só a cidade onde Silvio Santos tem um hotel. Guarujá não é só a cidade onde Santos Dumont se suicidou. Guarujá não é só um fracasso cada vez maior no turismo. Guarujá não é só uma das maiores Mecas de bandidos engravatados. Guarujá não é só uma das cidades brasileiras com uma sublime beleza natural que prima vertiginosamente para a decadência irreversível. Guarujá é também o maior cemitério de artistas que existe no Brasil. E, a cada segundo, eles continuam morrendo.
Nada como um dia após o outro para algo morrer como sempre.




(A partir da próxima semana, toda segunda-feira, um novo texto.)

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Nove de maio

"A juventude começa aos 30. Quando temos catorze, nem sabemos o que é juventude, muito menos que seremos, aos 30, tão saudosos a ela a ponto de não vivê-la intensamente quando jovens", trecho do livro 30 anos sem dar a bunda, de Arno Palumbo, editora Anão Zumbi


As luzes amarelas e vermelhas. As luzes amarelas e vermelhas que vejo nas entradas e saídas dos estacionamentos escuros, antigos e invariavelmente úmidos. Entre a saída e a entrada, há o mesmo lugar de sempre. Elas fazem de mim mais novo. Elas, as luzes. Elas, a saída e a entrada. E o mais novo de mim ficou nos anos 80 e jamais irá voltar. Nem a minha memória é capaz desse feito. A ficção está aí para ser usada a favor de quem não estava lá no lugar que nunca esteve em lugar algum. Só na cabeça de um cidadão que trabalhou durante um longo período para tornar verossímil a história de um grupo de coelhos que fala pelos cotovelos e só com a boca que foi impressa numa pilha de papéis vagabundos encontrada em um escuro, antigo e invariavelmente úmido estacionamento que possui uma entrada e uma saída e uma luz amarela e outra vermelha que me fazem recordar o mais novo de mim que ficará para sempre inalterável entre a saída e a entrada da minha memória.



(Fotografia: A memória não é capaz desse feito.)


(Excepcionalmente, nesta quarta-feira, postarei outro texto.)


















segunda-feira, 2 de maio de 2011

1º Round: Maria Bethânia e por quê, em casos excepcionais, bater em mulher pode ser benéfico à sociedade


“Fazer neném é muito legal!”
Trecho da fábula infantil Abecedário Maluco: A de amor, B de baixinho, C de Ceborréia, de autoria de Arno Palumbo, editora Pompoarismo e Bolinhas de Gude

Se eu visse a Maria Bethânia agora, a primeira e única atitude que tomaria, de supetão e com a maior tranqüilidade possível, era dar um tapa na cara dela. Um só tapa. O certeiro. Aquele que não deixa margem para dúvidas e questionamentos. Bem de frente, olhando olho no olho. No lado esquerdo do rosto e com a minha mão direita. O braço curvado em forma de L e a mão bem aberta. Os dedos separados e esticados. O som de uma salva de palmas de uma única palma: uma sonoridade estridente, breve e seca. “Maria Bethânia?” “Oi, meu querido, no que eu posso te ajudar?” “Pá!”
O modelo que me inspirou a conjeturar as nuances desse tapa foi o que o meu amigo, vamos chamá-lo de S, deu em uma mina na extinta balada Avelinos. Ele estava lá, de boa, sacando as mulheres, enquanto no meio da pista as pessoas dançavam forró (Forró? Nos lugares em que rola música boa as mulheres não usam decote quase até o umbigo, não têm silicone, não andam praticamente com a bunda de fora, não têm silicone na bunda, não são analfabetas, não ligam para o tamanho da pança e não têm atributos físicos para ingressar na carreira de garota de programa de luxo). S é um cara bonitão, sempre se deu bem com as mulheres, tanto com as bonitas quanto com as feias (mesmo que hoje pareça que ele tenha comido o Mc Donald’s com todo mundo dentro), o seu xaveco era um absurdo de tão absurdo, estranhamente era o que elas queriam ouvir. Ele viu duas meninas dançando forró juntas. Não eram lésbicas. Eram esnobes. Na verdade, uma só era esnobe: a feia. A outra era bonita mas sabia que a amiga era possessiva. A feia, segundo o meu amigo Victor, “parece a Claudete Troiano”. S queria dançar com a bonita, mesmo que nem na imaginação mais fantástica ele consiga dançar sequer Macarena. Ele precisava de um companheiro que, no mínimo, pudesse entreter a feia. Um companheiro não, um guerreiro. (Segue o trigésimo nono mandamento dos 1.900 mandamentos do jovem caiçara de classe média: quem pegou uma mulher que parecia o Márcio Santos, o zagueiro do tetra, não serve de parâmetro e deve caminhar sozinho, com as próprias pernas, daqui para frente - coisa que ele fez muitíssimo bem, sem a nossa presença para desencorajá-lo.) Entretanto, nessa ocasião, ele não conseguiu ninguém que tinha mais de sete dentes na boca. Conseguiu, sim, um cara que tinha menos de sete dentes na boca e que se tornou alcoólatra aos sete anos de idade e que, naquele dia, já vinha bebendo desde as sete horas da manhã. Vos apresento Zezinho. Zezinho tinha um aspecto tão bom que, certa vez, ele foi confundido pelo guardador de carros de uma outra balada como um guardador de carros rival: o detalhe é que ele estava saindo do nosso carro quando o fato ocorreu. Zezinho era um legítimo baiano e, como quase todo baiano (sempre há uma exceção, embora eu não conheça nenhuma), mijava em todo lugar: no meio da rua, perto de crianças, no próprio guarda-roupa, sobre cachorros, nas próprias calças, nas próprias crianças. Naquele dia, a caminho da balada, ele quis mijar dentro do busão, mas nós conseguimos dissuadi-lo. (Sim, uns quarenta e cinco minutos de busão na ida, uma meia hora na volta, e foi a época mais feliz de nossas vidas.) O bom de andar com o Zezinho na balada era que, para os olhos daqueles que não sabiam que ele era um sujeito super de boa, parecia que ele escondia uma faca no cós da calça. O fator negativo de andar com o Zezinho na balada era que talvez ele fosse confundido com um mendigo, e se já é raro ouvir da boca de alguém que conheceu o amor de sua vida na balada, é muito mais raro ouvir “encontrei o amor da minha vida na balada na companhia de um mendigo super simpático”. Então sobrou Zezinho para S e S sabia que as suas chances de êxito estavam quase zeradas. Zezinho deve ter iniciado-se sexualmente com animais, portanto “Claudete Troiano” poderia muito bem ser a mulher da sua vida. S aproximou-se das duas com Zezinho seguindo o seu rastro. S pediu a Claudete Troiano se, porventura, “eu poderia dançar com a sua amiga?”. Claudete disse simplesmente que “não” e deve ter pensado “se ele pedisse para dançar comigo, até toparia”. S sugeriu a Claudete Troiano dançar com Zezinho. Claudete Troiano olhou para Zezinho de cima abaixo, surpreendeu-se pelo fato de ele estar usando sapatos, e se fosse capaz de vociferar mil vezes a palavra “não” num mísero segundo, ela vociferaria. Contudo, ao invés disso, ela dirigiu-se a S e mandou um “não, sai fora, vai se fuder”. S olhou para trás, na nossa direção, e deu uma risadinha de desconforto. Nós, comentando a situação na nossa mesa-redonda, elegemos Claudete Troiano como “um zagueirão filho da puta!”. Zagueirão é a mina que atrasa a vida das amigas mais atraentes. S caminhou na nossa direção, talvez em busca de consolo ou de uma luz. Foi quando Victor lançou a frase cataclísmica: “ela parece a Claudete Troiano”. Zezinho estava dançando forró sozinho enquanto um vácuo se formava em torno dele. S voltou até as duas e tentou mais uma vez. Claudete Troiano, que, no momento, não sabia que a chamávamos de Claudete Troiano, disse “não” novamente, “sai fora” novamente, “vai se fuder” novamente, acrescentou um “vai tomar no cu”, “um filho da puta”, se arrependeu um pouco do que disse ao presumir que Zezinho podia tirar a faca do cós da sua calça encardida e questionou-se por que S não percebia que ela era a mais gostosa das duas. A Bonita chegou à conclusão que, se Deus existisse, ele provocaria um infarto fulminante naquela sua amiga estraga-prazeres “que parece a Claudete Troiano, sim”. Zezinho continuou a dançar forró enquanto um sorriso incriminador rasgava a sua cara e um cheiro de urina se espalhava por toda a pista: exato, ele tava curtindo uma mijada. S arriscou uma última tentativa, colocou a boca próxima do ouvido da Claudete Troiano que estava prestes a saber que era a Claudete Troiano. Claudete Troiano pensou, excitada, “será que agora ele se tocou?”. S disse: “pô, deixa eu dançar com a tua amiga, não percebe que ela quer?”. A amiga disse só para si mesma, “é, isso, eu quero, para de dançar comigo, tenta encarar o mendigo, ele até usa sapatos”. Claudete Troiano sugeriu “por que você não vai chupar o pau do teu amigo e para de encher o meu saco?” Zezinho ouviu aquilo e pensou consigo que “encarava numa maior”. Então S perdeu a paciência e disse com toda a calma e não com todas as letras – ele sempre teve problemas com a língua portuguesa: “então beleza, Claudete Toiano”. Claudete Troiano, agora sabendo que era Claudete Troiano (automaticamente ela colocou o R à frente do T), empurrou com força desmedida a cabeça de S. Instantaneamente, S desferiu um belo tapa na cara de Claudete Troiano. O tapa foi tão perfeito que o cabelo de Claudete Troiano foi todo para o outro lado da cabeça. (Para que esse efeito ocorresse na missão Maria Bethânia, eu teria que estapeá-la em meio a um furacão.) Parecia um policial irascível batendo na cara de um surfista só pelo fato do surfista estar fumando um beckzinho, à noite, na praia. Parecia um policial irascível, em cima de sua portentosa bike e trajando uma máscula bermudinha curta, batendo na cara de um engenheiro alimentar só pelo fato do engenheiro estar fumando um beckzinho, à tarde, na praia do Guaiuba. A primeira coisa que fiz foi olhar para o semblante do segurança que vinha testemunhando toda a treta. Quando a mulher apanha de um homem na balada, a culpa é do homem. Quando uma motocicleta se choca com um carro, a culpa é do motorista do carro. Quando, anos atrás, uma mina que fazia jiu-jitsu cegou uma cara na Phoenix, o cara foi o culpado. Então logo concluí que S estava fodido, portanto o peguei pelo braço, o puxei para longe da confusão e o mandei imiscuir-se no meio da multidão. Claudete Troiano ficou gritando, toda descabelada (como se Palmirinha tivesse acabado de carbonizar mais uma receita e foder com todo o andamento do programa), olhando para todos os lados e perguntando-se “onde está o homenzinho rústico, será que ele já tirou a faca do cós da calça?”. Se as pessoas soubessem um terço da história de Zezinho, elas se surpreenderiam. Não, não vou dizer que ele se formou em Harvard e é amigo pessoal de Noam Chonsky. (Suponho que ele deve ter sido barrado na porta do maternal com uma garrafa de Montilla.) Eu sei que ele tem menos de sete dentes na boca, talvez menos de quatro, sei que ele é alcoólatra desde os sete anos de idade, talvez antes dos sete meses, sei que ele mija nas calças e não liga pra isso, talvez ele beba o próprio mijo e não esteja nem aí, sei que ele se veste como o Velho do livro O Velho e o Mar, talvez sua vestimenta seja mais parecida com a de Nô, personagem interpretado por Carlos Riccelli, na mini-série Riacho Doce, sei que, quando olha-se pra ele, parece que ele esconde uma faca no cós da calça, talvez ele guarde, no mínimo, um cortador de unhas no cós da calça (não, ele não é do tipo que guarda um cortador de unhas no cós da calça, nem na nécessaire, ele não é do tipo que tem nécessaire nem que usa cortador de unhas, a unha dele é grande, amarela e suja), mas o que sei, e vocês não sabem, afinal, vi com os meus próprios olhos, em mais de uma ocasião para ser específico, é que ele tem uma carteira no bolso do “farrapo” que ele chama de calça e para sua surpresa, não para a minha, a carteira está cheia de notas de cem reis. “Oh, o que ele faz da vida?”. Eu digo para você: ele é babá. Um bem-sucedido babá homem, por sinal. De um menininho loiro. A família não tem o que reclamar dos serviços prestados por ele... Mas aí o segurança não tomou nenhuma atitude. Ficou parado. Foi como se ele concordasse com tudo que tinha acontecido. Lógico que não fui perguntar nada para ele. S ainda não havia voltado. Nós estávamos parados, testemunhando o enxame patético que Claudete Troiano estava fazendo. A bonita estava envergonhada, encolhida num canto, torcendo para aquela gralha calar a boca. Zezinho estava dançando... com um homem. Estava dançando com o Wellington. O Wellington foi com a gente. O Wellington é da estirpe que trocaria uma orgia com modelos suecas para ficar dando comida na boca de leprosos na Cracolândia. Ele não causaria nenhum espanto às pessoas com as quais convive se dissesse que casaria com uma anã filipina. Nem se dissesse que casaria com um jogador de basquete da seleção de Uganda. Nem se dissesse que casaria com um papagaio poliglota. Nem se dissesse, naquele momento, a plenos pulmões, ao som do infame Molejão, que casaria com Zezinho. Em suma, ele é completamente louco. Mas um louco bacana. Um louco impoluto. Sem preocupações fúteis, sem amargura e sem sarcasmos gratuitos. Weliington é como um labrador porcalhão, e estava dançando, às gargalhadas, com Zezinho. Ambos abraçados e felizes por dividir aquele momento bem brasileiro... Alguém de bom coração, ao observar a cena, diria se tratar de uma “ação entre amigos”. Alguém com um pouco de aspereza no coração diria se tratar de uma “aberração entre amigos”. Ambos abraçados e felizes por dividir aquele momento radiante... enquanto o bicho pegava na pista. Três caras, que nunca viram aquela vaca louca na vida, apareceram querendo defender Claudete Troiano. Caras desse tipo são identificados por gente do nosso tipo como “Justiceiros Oportunistas”. Eles aparecem em brigas de trânsito, em filas de supermercado, em filas de banco, em filas nas lojas Hering na época de Natal, em qualquer entrevero que haja mulheres “aceitáveis” (Claudete Troiano era inaceitável em todos os sentidos) envolvidas para defendê-las e ver se depois, se tudo correr bem, conseguem comê-las. Eles estavam em maior número do que a quantidade de dentes na boca do Zezinho. Porém, para infelicidade deles, nós estávamos em... Quinze. Isso sem contar com o S. Gordos, magros, altos, mais baixos do que baixos, imberbes, pirados, pacifistas, barbudos e um homem babá que, detalhe, lutava capoeira. Antes da confusão, encontramos dois companheiros que não víamos há algum tempo porque estavam... presos. Eles estavam acompanhados por mais sete caras e juntos formavam uma turminha formidável conhecida como a “Galera da Madeira”. Galera da Madeira porque eles espancavam a porretadas quem ousasse encher o saco deles. Antes de nos despedirmos, eles disseram: “Qualquer problema, é nós!”. Portanto, os Justiceiros Oportunistas estavam estratosfericamente arrombados! De Justiceiros Oportunistas, transformaram-se em Justiceiros Oportunistas. Quando eles perceberam a cagada que tinham cometido ao se envolverem em uma briga que não dizia respeito a eles, já era tarde demais. Nós os espancamos até a morte. Enquanto a caixa de som ribombava Alceu Valença, deixamos Zezinho mijar álcool puro sobre eles, depois tacar fogo, depois ver a fogueira alcançar o teto da balada enquanto a multidão vinha correndo para ver o que acontecia, chamar a Galera da Madeira, pedir com carinho para que a Galera da Madeira matasse a porretadas o DJ (que por sinal chamava-se Cabral) que só rolava merda, roubar um violão da banda de pop rock que tocava no outro ambiente, mandar o pessoal todo sentar no chão, dar o violão para o S tocar (depois de o Daniel dar uma afinada), para no final cantarmos todos juntos Mr. Jones, do Counting Crows, ao mesmo tempo em que Zezinho e Wellington faziam a dança de encerramento de Dirty Dancing. Fim. Agora, sem afetações, delírios e digressões, o que realmente aconteceu foi que eles deram sorte. Muita sorte. Sorte por sermos pacíficos. Sorte por ser apenas o começo da balada e todos estarmos “quase” sóbrios: quase = Zezinho. Sorte por nosso amigo Verinha não ter comparecido. (Nome: Alexandre; Apelido: Verinha; Segunda Personalidade: Michael Douglas em Um Dia de Fúria.) Sorte por sermos de boa família, cultivarmos sonhos, ótimos empregos, belas mulheres, várias viagens, encontrar o amor, oficializar o amor, gerar vidas e ter a chance de dizer: “Ai, que coisa boa”. Sorte por sermos de boa família, cultivarmos sonhos, ótimos empregos, belas mulheres, várias viagens, encontrar o amor, oficializar o amor, gerar vidas e ainda não nos darmos conta que os sonhos podem nunca se realizar, que os empregos são uma merda, que as mulheres, em sua maioria, são todas umas vadias, que as bostas dos empregos só propiciam viagens decepcionantes, que a espera do amor eleva o stress, dá barriga, encareca o que era cabeludo, e quando o amor chega, à beira do abismo do desespero irreversível, aceita qualquer coisa, uma Claudete Troiano em torno dos seus braços que, com o passar do tempo, dificilmente conseguirão fechar em torno daquele trambolho estridente, as vidas geradas serão mal-agradecidas ao longo dos anos, a filhinha linda, que sentava no seu colo com o sorriso mais belo e cativante que Deus foi capaz de criar, chegará ao ponto de sentar no colo de qualquer caminhoneiro cocainômano entupido de Viagra falsificado; o mesmo Deus que um dia lhe encheu de alegria, será o mesmo que o impelirá a gritar, longe de casa, numa puta chuva, de cuecão borrado na parte de trás, depois da primeira crise de Mal de Alzheimer: “DEUUUSSSS, QUE PORRA É ESSA?”. Mas naquele dia não tínhamos consciência da parte amarga desse teatro do bem e do mal. Então deixamos quieto. Claudete Troiano seguiu o seu caminho infeliz. Os Justiceiros Oportunistas, ou melhor, os Justiceiros Oportunistas, foram atrás de novas oportunidades menos problemáticas. Zezinho foi atrás de uma pilastra para dar uma mijada. Wellington foi atrás de uma chihuahua para pedi-la em casamento. S foi atrás de uma nova xoxota que desse menos trabalho. A bonita foi atrás de uma piroca que desse menos trabalho. Nós seguimos nossos caminhos cheios de oportunidades torcendo para que não cruzássemos o caminho cheio de infelicidade de Claudete Troiano.

Outra mina que merece tomar umas bolachas é a irmã de Maria Bethânia (familinha filha da puta): Caetano Veloso.
Mas esse combate ficará para o próximo round de: Por quê, em casos excepcionais, bater em mulher pode ser benéfico à sociedade!


(Fotografia: Mr. Arno Palumbo.)


quarta-feira, 24 de junho de 2009

Mais um texto grande – para horror dos impacientes, míopes e sensíveis – sobre um motivo estúpido



Algumas pessoas me pediram (meus amigos imaginários) para escrever um texto sobre a derrocada acadêmica do jornalismo. Como vocês (ou não) sabem, eu sou jornalista. Formado e não deformado pelo corpo docente que, agora, deve estar doente de raiva.
Fui coagido, há cinco anos, não pela força, mas sentimentalmente, por um “ser” chamado “mãe”, a arranjar um diploma. A minha carreira estudantil é dividida em três etapas: do pré à quarta-série fui o melhor aluno da classe; da quinta à sétima-série fui o pior aluno do Brasil - reprovei três vezes em todas as matérias (inclusive em Educação Artística), exceto em Educação Física, graças ao santo atestado médico escrito, sem brincadeira, pelo pai de um amigo que é ginecologista, gaúcho e ardoroso fã de Eros Ramazzotti e Andrea Bocelli; e da oitava ao terceiro colegial só passei porque a escola na qual estudava à época exigia o máximo da insignificância intelectual dos seus pupilos de classe-média inadimplente.
Após quatrocentos anos de estudo, inúmeros cochilos, incontáveis zeros, compassivos meios, milhares de erros ortográficos, divisões absurdas, tabuadas insolúveis, gafes geográficas, colas equivocadas, colas milagrosas, colas deslavadas e comemoradas como a esperada morte de todo o clã Sarney, ocasionais beijinhos, constantes foras, um batalhão de espinhas, falsos diagnósticos, duas evacuações fisiológicas pegas no flagra, eternos verbos to be, falaciosa acusação de ter cuspido na cabeça de uma menina da oitava-série que só não me levou ao linchamento graças à minha velha amizade com o simpático pior valentão do colégio, dezessete advertências em um ano, fugas mal-sucedidas, uniformes justos devido a momentâneas dificuldades financeiras, duas suspensões, nenhuma briga, campeão de 100 metros rasos, campeão de ping-pong sem mandar uma bola à mesa adversária (é sério, em outra ocasião conto com mais calma), ausências dissimuladas, voltas sem idas, nenhum sexo, o papel de árvore na peça “A Volta da Chapeuzinho Vermelho”, sheik na Festa das Nações de 1997, dançarino de tango na Festa das Nações de 1998, desabrigado bósnio na Festa das Nações de 1999, sultão quase-virgem na Festa das Nações de 2000 (a Festa das Nações dava dois pontos na média em História e Educação Artística, mesmo assim eu sempre me fudia), uma estranha obsessão púbere de mostrar a bunda em público, alvo de paixão de uma vizinha que escreveu uma carta a mim que terminava com a estranha saudação: “Miu, beijos”; três namoros, um chifre desvendado, outros chifres que devem estar incógnitos, a chegada do vigésimo aniversário, eu supus que a minha disponibilidade para ouvir alguém mais velho falar um monte de merda desinteressante já havia se esgotado.
Mas não.
Desconhecia, hercúlea era a minha alienação, A Trilogia Elementar do Fracasso Travestida de Sucesso: Faculdade + Emprego + Morte = Fez sua parte.
Os meus pais, ainda em êxtase por seu filho possivelmente retardado ter conseguido concluir arduamente o segundo grau, me deram um ano de férias para pensar na vida - nas afamadas e quase sempre inalcançáveis possibilidades que dariam o tom ensolarado ao meu futuro.
Assim, eu passei um ano tocando bateria na minha banda – a mítica, indolente e instrumental Cadillac Drama. Eu passei um ano batendo punheta imaginando surubas no Leste Europeu, sexo com empregadas domésticas suadas que esfregavam com a língua as minhas cuecas no tanque, orgasmos sinfônicos com Monica Bellucci (um amigo teve o “dom” de se masturbar na cena do estupro de Irreversível), sexo casual com a atriz Flávia Alessandra, sexo casualmente para sempre e pós-morte com Dani Bananinha, sexo casual com a apresentadora Lorena Calábria (apesar do sobrenome de marca de laticínios, não sei por quê, nutria uma tara por esta mulher), sexo casual com Letícia Spiller, sexo casual com jogadoras de tênis, sexo casual com jogadoras de vôlei, sexo casual com jogadoras de dardo, sexo casual com jogadoras de rugby, sexo casual com jogadoras de qualquer coisa, com arremessadoras de peso, com mães gostosas, com mães magras, com mães gordas, com bisavós, com engenheiras, com funcionárias da Cosipa, com ciganas, com mendigas, com qualquer mulher viva, com qualquer mulher morta, com qualquer mulher apodrecida. Eu passei um ano escrevendo merda no ICQ. Eu passei um ano baixando música no Napster. Eu passei um ano alugando filmes de terror. Eu passei um ano indo a cinemas sozinho. Eu passei um ano me embriagando em baladas e provocando anões. Eu passei um ano me embriagando em baladas e passando em branco. Eu passei um ano me embriagando em baladas e voltando de ônibus. Eu passei um ano vomitando em baladas e me embriagando em neuras. Eu passei um ano pensando no amor. Será que é aquela ali? Será que é você? Será que é aquela outra? Será que é a Jennifer Connelly? Será que é a Daniela Sarahyba? Será que é a Chan Marshall vulgo Cat Power? Será que é a Marlene Mattos? Será que não é ninguém? Eu passei um ano me empanturrando em rodízios de pizza. Eu passei um ano freqüentando shows de hardcore alimentando o vazio da existência que era tão vazia que ignorava o próprio vazio. Eu passei um ano assistindo a meus amigos empinarem pipa. Eu passei um ano jogando War. Eu passei um ano jogando Winning Eleven. Eu passei um ano sofrendo com o meu Corinthians. Eu passei um ano falando mal de alguma garota ou das garotas em geral junto a meus amigos. Eu passei um ano jogando futebol e fazendo inimigos. Eu passei um ano recusando convites para ir à praia de dia. Eu passei um ano recusando convites para renovar o guarda-roupa. Eu passei um ano ignorando que um dia um ano passaria mais depressa.
Então o prazo se esgotou e encontrei a melhor saída para sanar os meus problemas: “Decidi, vou fazer inglês!”. (Imagine a cena: eu, um homem de 21 anos, sentado em um banco sem encosto para as costas e com os braços apoiados sobre um balcão de bar – bem comédia romântica norte-americana. De repente, uma mulher chega ao meu lado e diz, “Oi”. Eu respondo, “Oi”. Ela pergunta, “Qual é o seu nome?”. Eu respondo, “Leonardo”, e prontamente pergunto, “E o seu?”. Ela diz, “Juliana”, e em seguida pergunta, “Qual a sua idade?”. Eu digo, “21 anos”, e pergunto, “e a sua?”. Ela diz, “Também 21”, e pergunta, “o que você faz da vida?”. Então eu digo, “Bem, faço inglês”.)
O inglês durou um ano. Não aprendi nada. Só me apaixonei pela professora. Também não deu em nada. Eu era um nada. Nada dava certo. Nadava, nadava, nadava, nadava e nada. Sem troféus. Sem medalhas falsas. Sem emprego. Sem dinheiro. Sem amor. Sem sexo. Sem perspectiva. Com amigos sem as mesmas coisas. Sem carteira de motorista – reprovei no primeiro exame prático. Com carteira de motorista – passei no segundo exame prático por ter o mesmo nome, Leonardo, e fazer aniversário na mesma data, 9 de maio, que o delegado que estava julgando a minha performance.
De qualquer maneira, até mesmo da pior maneira possível, adentrei no cinzento prédio da Faculdade de Comunicação e Artes - a FACOS - da Universidade Católica de Santos, a Unisantos, em meados do mês de fevereiro de 2004 para iniciar a minha aventura acadêmica. Ou melhor, satisfazer as incessantes e fatigantes súplicas de minha mãe. Escolhi como primeira opção no vestibular o curso de Psicologia. Escolhi como segunda opção no vestibular o curso de Psicologia. Escolhi como terceira opção no vestibular o curso de Jornalismo. Um dia depois do vestibular (chutei quase tudo, o que não chutei, errei), vi que havia me equivocado nas minhas preferências, portanto, decidi que queria fazer Jornalismo. De todo modo, e para a surpresa de ninguém, tamanha é a facilidade para entrar na maioria das faculdades particulares do país, basta deixar cair a carteira de identidade na porta, fui aprovado em todos os cursos. Pague e Pesque. Até então, nunca havia lido um livro na vida. Nunca havia escrito nem uma mísera palavra – exceto quando recitei, a plenos pulmões e só de cueca sob uma tempestade de verão, uma poesia de minha autoria à minha vizinha nissei pela qual estava apaixonado, a voluptuosa, para a idade de 11 anos, Camila Shimi, poesia essa intitulada “Adorável filha de Bruce Lee” – não sabia que o Bruce Lee era chinês, nem ela. Ignorava escritores de qualquer espécie. Arte pra mim se limitava à música e a cinema. Ouvia desde Fugazi até John Zorn. Assistia de Kevin Smith a Larry Clark. Não era tão estúpido quanto aparentava. Era muito mais. Muito mais estúpido e muito mais feliz. A obtusidade age como um campo de força que nos protege da compreensão da dura realidade que nos cerca, portanto poucos têm a capacidade de enxergar. Fui cabeludo e voltei para casa como se tivesse sido vítima de uma arrasadora fusão de sarna com radiação de alta potência. Se com cabelo já era difícil, a careca pós-trote no carnaval não fez nenhum sucesso. Levei um susto quando vi que a maior parte dos meus companheiros de classe estava lendo jornal na sala de aula, me senti em um workshop que apresentava materiais para futuras moradias para mendigos. Não demorou muito para que a minha falta de conhecimento se anunciasse: 0,5 no primeiro teste de Português e “Fraco”, o que equivalia a um 3,0, no primeiro trabalho de História do Jornalismo. A motivação de desistência que me retirou do Karatê, do futebol, dos fins de semanas de escoteiro, do Kumon, do namoro com a Natalha, do Inglês, voltou à tona. Comuniquei aos meus pais que queria desistir, havia tomado uma resolução: “Quero ser músico profissional e acabar como o Benito de Paula”. Minha mãe ficou preocupada e perguntou: “Como o Benito de Paula?”. “Tá bom, mãe, esquece a ‘viagem’ do Benito de Paula, quero acabar como o Kiko Zambianchi” - e esta resposta doeu mais em mim do que nela.
Ficou acordado que eu teria que concluir, pelo menos, o primeiro semestre. E as coisas mudaram. Para sempre. Fiz um texto para a disciplina de Psicologia sobre a falta de inocência que há nas crianças de hoje em dia, tirei nota máxima, li na classe, todo mundo aplaudiu e fiquei com uma sensação boa. Botei na cabeça que já era hora de começar a ler alguma coisa. Li Charles Bukowski e chapei. Li Jack Keouac e chapei. A partir daí, não parei mais, fiquei doente, viciado em livros, receoso até o último segundo da minha vida. Allen Ginsberg. William Burroughs. J.D.Salinger. John Fante. Paulo Leminski. Céline. Norman Mailer. Chuck Palahniuk. Millôr Fernandes. Kurt Vonnegut. Nick Hornby. Somerset Maugham. Jeffrey Eugenides. José Agripino de Paula. Fiódor Dostoiévski. Kafka. Robert Crumb. Henry Miller. Lourenço Mutarelli. Hunter Thompson. Tarso de Castro. Raymond Chandler. Raymond Carver. Haruki Murakami. Alexandre Frota etc.
No meu caso, a faculdade foi importante por evidenciar que havia um rumo pelo qual eu podia seguir. Duvido que teria conhecido estas mentes maravilhosas citadas acima se tivesse optado, por exemplo, pela música. Mas não foi só a faculdade que fez isso, muito menos os professores. O proveito que se tira do conhecimento parte única e exclusivamente de si próprio. 90% de um curso acadêmico depende do interessado. Se dependesse dos ensinamentos dos professores, eu estava exercitando os “profundos” ditames do Lead até hoje. Depois do segundo semestre, a faculdade perdeu o valor. As técnicas jornalísticas supracitadas como vantagem após a queda do mito do diploma funcionam somente como uma forma de uniformizar os ratos de laboratório também conhecidos como alunos e, futuramente, como jornalistas autômatos. O fim da obrigatoriedade do diploma já existia desde que Pedro Álvares Cabral errou o caminho e ancorou aqui. No Brasil, sempre foi lei burlar a lei. Não vejo por que houve tanta comoção com o fim da suposta ditadura do canudo decorativo. Há um policial que tem um programa de variedades em uma emissora em Santos. Há um professor de física que também tem um programa de variedades na mesma emissora. Ana Hickman dá pitacos sobre o cotidiano no programa do qual faz parte na rede Record. Neto, ex-jogador de futebol, tem uma coluna no Estadão, analisa futebol e entrevista atletas há mais de dez anos. Se vivemos em uma democracia, e a classe jornalística foi uma das principais, senão a principal, fomentadora da liberdade de expressão no país, não consigo atinar para os deméritos que envolvem a opinião de qualquer pessoa que não tenha a merda de um diploma que muitos imbecis acéfalos possuem devidamente enquadrados em suas respectivas salas de jantar. A imprensa se caracteriza como um mundo de interesses. Altos-salários para poucos e baixos-salários para quase todos. A síntese do que é o Brasil. Caro empresário, anuncie para sair incólume de eventuais escândalos. Pergunte para quinze jornalistas se eles estão satisfeitos com a profissão. Pergunte se o veículo pelo qual eles trabalham, isso se ele forem sortudos por ter um lugar para trabalhar, cumpri com as leis trabalhistas. Nepotismo é vergonha para político mas não é vergonha para a família Beting? Mauro Beting diz: “Beting e Beting, o programa mais nepotista da T.V brasileira”, e depois ri. Essa é a nossa imprensa diplomada? As revistas estão “enganosamente” quebradas mas aceitam colaborações desde que elas sejam gratuitas. José Luiz Datena alimenta até hoje um ódio pelo jogador Ronaldo pelo fato de ele ter atravancado uma entrevista que o jornalista quis fazer com ele, há anos atrás, a qual foi realizada, inclusive na casa do entrevistado, à época em Madri, mas não pôde reservar dois minutos da sua agenda, durante um ano de intermitentes tentativas, para dar uma declaração a um grupo de alunos da minha classe que tentou, sem sucesso, fazer uma entrevista com ele sobre a violência da polícia brasileira que servia como tema para o trabalho de conclusão de curso.
O que funciona à imprensa tupiniquim, não funciona a mim. O que funciona a mim, não funciona a eles. Os maiores e mais inventivos jornalistas de nossa história, mortos ou vivos, nunca tiveram diploma de jornalista – ex: Millôr Fernandes, Tarso de Castro, João do Rio, Nelson Rodrigues, entre outros. A tecnologia, contrariando detratores que a acusam de minar o segmento “impresso” da imprensa, só serviu para enriquecer os cofres de grandes editoras e escravizar “recém-formandos” sedentos por um lugar sob um teto translúcido que apóiam o seu sedentário alívio uniforme sobre uma mesa de acrílico decorada com fotos de familiares. Para quem discorda, observe a variedade de publicações na banca mais próxima. Convivemos com uma tendenciosa e enxugada seleção de estágios. Áreas de recursos-humanos que só servem como fachada. Aos tristes e decepcionados por tanto dinheiro gasto e absorção de técnicas jornalísticas inócuas, por favor, não sejam hipócritas. Se só bastasse piscar os olhos para ter diploma nas mãos, não hesitariam. Ao fim do segundo semestre, as conversas de bar eram mais produtivas que os solilóquios saudosistas cuspidos por professores sexagenários que faziam de tudo para mostrar à nossa “péssima” geração que “no tempo deles as coisas eram mais difíceis e emocionantes”. Pagar o diploma em 48X e beber no bar. Quem é aluno brilhante e não paga a mensalidade, não recebe o diploma. Quem é talentoso mas não tem contatos porque é incapaz de se aproximar de um desconhecido por interesse, e com certeza dez décimos da população intergalática desaprovam este tipo de comportamento diagnosticando-o como covardia, vai ficar desempregado pelo resto da vida. Foda-se o diploma!

O MUNDO CÃO É PITBULL MALTRATADO PELO DONO PRONTO PARA MATAR AQUELE QUE É CONTRA A GUERRA QUE LEVA À MORTE.


terça-feira, 19 de maio de 2009

Nomadismo Comportamental


Dedico a todos os velhos amigos inesquecíveis que hoje me fazem fingir, reciprocamente, que não os conheço.


Desde pequeno eu sempre senti que o meu espírito era indubitavelmente contrário à manifestação mais propalada e executada entre os supostos sabichões que dizem “que fazem bico porque pensam”, mas que na verdade fazem bico porque o bico talvez seja o único antídoto, certamente é o mais acessível, para atenuar a triste constatação que a fotogenia é um privilégio daqueles que não precisam pensar em nada para atrair toda a atenção: Bem-Vindos ao tenebroso universo do Nomadismo Comportamental.
Alex gostava de New Kids On The Block e morava em São Paulo. Eu morava em Guarujá e superestimava quem morava em São Paulo porque isso é o mínimo que se espera de uma pessoa que vive em Guarujá. Viver em Guarujá é uma merda. Ponto. New Kids On The Block também era uma merda mas eu só tinha dez anos. Não venha me dizer que com dez anos você já tava ligado nas ideias do Jello Biafra, escutava Brahms só de cueca ao mesmo tempo em que sorvia uísque escocês com idade para ter Mal de Alzheimer, fazia duas sessões por dia, de 20 minutos cada, de meditação transcendental, usava a sua irmã como interlocutora enquanto incorporava a onisciência de Platão envolvido por um lençol com a estampa do Super Mouse, ignorava astronautas, idolatrava Calígula e sabia que o Sid Vicious havia cagado na boca de uma mina no Chelsea Hotel. Alex tinha doze anos e era uma espécie de guru comportamental para o povinho caiçara. O povinho caiçara era composto por Cadu, Zé Tó, Jussara Gosta de Mulher e Tem Peito de Homem, Fabiano, Nicolas, Eu, Cláudio, Rodrigo, Maurício, Piolhinho e Sydney. Nós todos amávamos New Kids On The Block porque Alex falou que era bom, e porque ele era de São Paulo, e porque nós éramos do Guarujá, e Guarujá é uma merda, assim como Lorena, Peruíbe, Mongaguá, Itapema, São Vicente, Fernando Bonassi, Pet Shop Boys, Cachorro Grande, arte conceitual, filme chinês, brasileiro que gosta de filme iraniano, Largo do Arouche, Bolívia, Márcia Tiburi, A Tribuna, Brito Júnior, Poço de Caldas, Caldas Novas é legal, mas Luis Caldas, não! Exclamação. Ah, o Douglas também fazia parte do povinho. Alex era ruivo, tinha um relógio Casio calculadora para o qual, quando nos mostrou pela primeira vez, fizemos “UAU!”. Douglas morreu de catapora e, por respeito à sua alma, não farei nenhuma crítica à sua conduta “sovina”. Foi mal. “Uau” é uma reação falada totalmente surrupiada dos garotinhos loiros de classe média norte-americana que eram protagonistas de filmes hollywoodianos da metade da década de 80 e do começo dos anos 90 - estereótipo resumido na personalidade de outro cara que vivenciou aquele período: Christopher, loiro carioca filho de uma mulher esguia de cabelo curto nascida no Recife e de um cara com barba grisalha e cabelo à escovinha, tipo o Ray Conniff, nascido na Inglaterra. Christopher chamava a mãe de “mom”; o pai de “dad”; a gente de “filho de “pescador”, de “vassalo”, de “sobrinho de faxineira”, de “figurante da novela Escrava Isaura”, de “stupid”, de “asshole”, de “son of a maid bitch”, mas nós gostávamos dele. Christopher tinha uma puta coleção de Playmobil. Christopher tinha uma puta coleção de Comandos em Ação. Christopher tinha um puta apartamento na cobertura do prédio. O puta apartamento do Christopher tinha também uma puta piscina. Christopher tinha um puta Master System. Master System é um videogame que até puta viciada em crack desdenha hoje em dia. Christopher tinha uma prima chamada Jennifer, que não era puta. Jennifer era galesa, parecia uma girafa desengonçada, ninguém entendia porra nenhuma que ela dizia, tinha uma risada de síndrome de down, mas eu a amava. Aos 10 anos, Jeniffer tinha um metro e setenta. Aos 10 anos, eu tinha um metro e cinqüenta. Aos 55, minha mãe tem um metro e quarenta e nove. O meu pai nasceu em 1949, chama-se João, tem 1,77 e vive do balé. Digamos que Jennifer era um jogador búlgaro de vôlei e eu era o anão que cantava com o Kid Rock. Digamos que eu era a Nicete Bruno e ela era o Paulo Goulart. Dizer “Uau”, quando criança, é fofo. Depois dos 20, é gay. Jussara Gosta de Mulher e Tem Peito de Homem também era (é) gay mas nós não sabíamos que menina que gosta de menina também podia ser denominada gay. Por isso a chamava-mos de “esquisita”. “E feia.” “Não chama ela pra brincar com a gente.” “Qual o seu nome, cara?” “Tu também tem pinto?” “Ontem eu vi um filme e me lembrei de você: Minha Vida de Cachorro.” 1990 e as corridas com palitos de picolé da Kibon (sem premiação) que eram realizadas nos pequenos córregos que se formavam quando a nossa rua de terra era castigada pela chuva; de segunda a sábado às 19:00 era hora de Vamp com pipoca de panela na casa do Fabiano; na casa do Fabiano vi sua irmã mais nova cagando, na cozinha, sobre um balde de plástico aquilo que eu ainda insisto em acreditar ser uma almôndega generosa com o sangue fazendo as vezes do molho de tomate; 1990 e a minha prima roubando, depois da escola, balas na loja de conveniência da Texaco; no campinho de terra que ficava em um terreno no final da rua, o jovem Ismael arrancou, aos socos, o aparelho fixo de um gordinho turista folgado chamado Marcos, que achou, sem sombra de dúvida, que iria morrer no momento em que o aparelho, ornado por borrachinhas tricolores paulistanas, incrustou-se sobre suas gengivas saudáveis; jogo de taco com taco profissional da Topper de propriedade dos irmãos RodrigoCláudioMaurício; Rafael Camarão disse que o seu pai espirrava “Atchô!”; 1990 e a propaganda do novo micro-system da Gradiente com a trilha sonora do C&C Music Factory (para quem desconhece, pense no pior dos anos 80 que se sai melhor no século XXI), grupo que cunhou o nefasto termo “Poperô”; 2001 e a mesma prima que roubava balas na loja de conveniência da Texaco foi presa no aeroporto de Zurique, na Suíça, por carregar no corpo, tal como uma “mula”, uma quantidade astronômica de drogas pesadas. Uma famosa atriz brasileira da atualidade disse que “a vida começa aos 45”. Eu digo a ela que a vida começa quando a alegria acaba. Ser jovem nos anos 90 é odiar os anos 80. Depois do Hollywood Rock, Alex parou de gostar de New Kids On The Block e passou a idolatrar o Guns N’ Roses. Nós questionamos, em uníssono, “Já?”. Ser jovem nos tempos atuais é amar os anos 80. Nicolas era o único brasileiro de uma família argentina que torcia para a seleção da Argentina e era obrigado pela mãe a tocar piano e a se vestir como uma criança argentina no período da ditadura. Nicolas, o brechó ambulante. 1990 e todos pendurados no caminhão de lixo. Fabiano caiu do caminhão de lixo sobre uma poça de lama e pediu calça de moletom emprestada para todo mundo no intuído de atenuar a dor que viria à tona no inevitável espancamento perpetrado pela sua mãe. Alice, irmã de Nicolas, loira argentina peitudíssima de pele lívida, uma vez perguntou pra mim, depois de perceber que eu estava olhando avidamente para os seus peitos: “Te impressiona? Quer tocá-los?”. A primeira vez que gozei sem precisar tocar a primeira vez no corpo de uma mulher. Ser jovem descolado nos anos 80 é odiar os anos 80. Deus criou a beleza. Deus criou a natureza, o verde, o vermelho, o arco-íris, o calor, a sombra, o perfume, as águas claras, azuis, os cães saudáveis, os gatos ronronantes, a lama terapêutica, o olhar, os olhos claros, o sorriso, as cutículas, as unhas, a chuva redentora, o fim de tarde, a água que sai da mangueira, as ilhas longínquas, a neve e as estrelas. Deus criou a berinjela, a catapora, a conjuntivite, os vesgos, os cegos, o câncer e os irmãos siameses. Nos anos 70, no Brasil, ser jovem é ser americano ou inglês nos anos 60. Alex parou de gostar de Guns N’ Roses e assumiu peremptoriamente: “O que vira é Red Hot Chili Peppers!”. “Já?” Uma semana depois, Jussara Gosta de Mulher e Tem Peito de Homem quebrou todos as fitas K7 que tinha do Guns N’ Roses. Cadu e o seu pai viviam para matar porcos para viver, pelo menos, até os 60. Minha mãe de um metro e quarenta e nove e o meu pai de um metro e setenta e sete organizaram para mim, de um metro e cinqüenta, uma festa de onze anos com temática dos anos 50 – eu ganhei uma fita do Vanilla Ice. Alex esqueceu Chili Peppers, Danzig, Faith No More, Cypress Hill, Rage Against The Machine, Primus, Sepultura, Slayer e assumiu de vez: “O que vira é dar o cu.” Jussara Gosta de Mulher e Tem Peito de Homem não curtiu e disse: “Ih, malandro, o cara é gay, sai fora!”. Douglas morreu de catapora e me lembro do seu pequeno caixão sendo vedado após duas pazadas de terra e da respiração do seu cachorro dormindo no meu colo. A mãe de Douglas me perguntou “Por que ele?”. Eu pensei, “Por que não?”. Os familiares jogaram flores sobre o caixão, os vizinhos jogaram flores sobre o caixão, a mãe tentou se jogar sobre o caixão, duas semanas depois ela se jogou do terceiro andar do prédio, quebrou os dois tornozelos, não perdeu a vida, mas perdeu o marido. Eu joguei algum dinheiro que devia para ele. Um dia antes de morrer, ele me cobrou: “Até amanhã, caralho!”. “O amanhã acabou hoje”, pensei. Foi mal. Ser jovem nos anos 80 é imaginar que, depois do surgimento do Atari, o ano 2000 terá carros voadores. Deus inventou o amor. Deus inventou o ser humano. Deu nessa merda!

terça-feira, 28 de abril de 2009

Houve uma época na vida de todos nós na qual acreditávamos que éramos a maior invenção do homem

Através da janela da sala 102 do curso de Jornalismo Cultural na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, a PUC, há imagens cotidianas que os meus olhos, em um jogo estúpido, invasivo e viciante, tentam transformar em peças fotográficas das quais a imensa maioria (não me recordo de nenhuma no momento, talvez todas) queima. Eu viro o meu pescoço para o lado direito. Eu viro o meu pescoço para o lado esquerdo. Eu solto o peso da cabeça para tocar os ombros com a orelha em busca de ângulos. Novos ângulos. Uns atrás dos outros e todos atrás do irrevogável anonimato. Coloco a palma da minha mão direita sobre o meu olho direito - que se mantém aberto -, e fecho o olho esquerdo, descortinando em seguida, lentamente, os dedos da minha mão direita, como frestas, para sentir uma espécie de renascimento - a força indomável que a luz proporciona quando, segundos antes, nada se via além do eterno breu. Esfrego sofregamente ambos os olhos para que a turvação provocada pela fricção manual conceba uma visão inesquecível que não será vista nem lembrada por ninguém. Nem por mim. Tampo os ouvidos com força para ouvir as funções do meu corpo que retumbam silenciosamente enquanto faço sons com a boca. Roçando a língua no céu da boca. Estalando os lábios. Batendo os dentes. Bum! Pá! Bum! Pá! De modo que, automaticamente, tamborilo os meus dedos sobre mesas de madeira, de fórmica, de plástico, sobre embalagens de acrílico, em cima de bolsas de couro, nos bancos do metrô, em caixas de pastilha, em garrafas de cervejas importadas de um litro, na lataria de carros alheios, nas próprias nádegas, nos maxilares, no rosto, em caixas de fósforo envelhecidas pelo o abandono do recém assumido ex-fumante que, como todos à minha volta, bate os seus pés no intuito de marcar o ritmo de uma música que trava batalha, nesse momento, ontem, daqui a duas horas, cinco anos, antes da morte, contra a manutenção contínua e sacal que a sanidade estabelecida infligi à liberdade inerente que prega que todo e qualquer ser humano tem o direito de ser um artista não profissional.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

... Há dois anos atrás. Longe de casa. Perto de quem ama.

Já andou sobre as nuvens? Não? Nem eu. E nem posso dizer que esse sentimento atual é parecido. Me sinto feliz. Feliz pra caralho!
- Se você tiver que falar com algum escritor importante, um escritor do qual gosta bastante, como você se apresentaria? – questiona a minha namorada, ambos estamos sentados na mesa de um bar, tomando um chope, vendo três crianças se matarem de porrada, mas só de brincadeirinha, o nariz de uma tá sangrando, mas nada disso importa, as três podem até morrer, não vou perder o meu sorriso de jeito nenhum.
- Ah, sei lá, talvez como jornalista e escritor frustrado, ou aspirante a jornalista frustrado por saber que serei um jornalista frustrado por ser um escritor frustrado, ou quase formado em jornalismo e pronto para montar um bar que vende cerveja barata de garrafa, porção de amendoim, que passa jogo do Corinthians que não é transmitido para a T.V aberta e que a cada gol do Corinthians todas as mulheres que estiverem no meu recinto, ou seja, no meu bar, terão que tirar uma peça de roupa...
Minha namorada foi dormir, ela está com dor de cabeça e cólica. TPM. Eu resolvi dar um rolê pela cidade até o início da palestra do Jim Dodge. Entrei em um sebo e comprei um livro do Millôr Fernandes. Entrei em uma sorveteria e pedi um sorvete de chocolate e o sorvete derreteu um pouco e fodeu com a minha camiseta. São 16:15 e daqui a pouco serão cinco horas. Eu acabei de me perder e me encontrei no espelho. Engordei uns dois quilos, é visível, a barriga já está saliente. Não tenho convite para a Tenda dos Autores e nem a bilheteria tem convite para quem quer ir à Tenda dos Autores. O ingresso custa vinte reais.
Decido ficar na Praça da Matriz e assistir à palestra no telão. Tradução simultânea. Muitas pessoas agem da mesma forma, o que esperar de um bando de neo-hippies? Opulência? Jamais. À minha volta dezenas e dezenas de casais se abraçam e se refestelam com a cabeça apoiada sobre as coxas dos seus parceiros. Eles me olham como um solitário, um trovador em busca de inspiração, um coitado. O sol está forte e à noite é hora do frio. As crianças correm em busca do nada. Você perde energia e já era a infância. Algumas pessoas se conhecem e mutuamente se atraem. Outras pessoas se conheceram há alguns minutos e mutuamente se atracam.
Jim Dodge é apresentado no telão. Jim Dodge diz “Hi”. O tradutor diz “Oi”. O público responde “Oi”, alguns idiotas dizem “Hi”. As pessoas acham que estão no cinema. Os casais apaixonados. Por que ela não vem? Por que ela não está aqui? Você faz de tudo para ser diferente dos outros mas no fim tudo o que você quer é ser igual a todo mundo. Não se sentir sozinho. O escritor inglês Will Self diz “Hello”. “Olá.” “Hello.”
Este momento, aqui e agora, agora e aqui, tinha tudo para ser inesquecível. É a mesma coisa quando você encontra o cenário perfeito para tirar uma foto, mas a droga do passarinho acabou voando. A mulher de blusa vermelha piscou. O gordo atrapalhou. Não tem memória.
- Nossa, eu vim correndo, pensei que fosse perder.
- E aí, melhorou?
- Ainda tá doendo um pouquinho. Vem, coloca a cabeça aqui no meu colo.
- Não vai machucar você?
- Não.
- Estava com saudades.
- Eu sabia, por isso que eu vim.