segunda-feira, 11 de julho de 2011

MACONHA - Uma história de amor - Parte 2

















“O meu sonho era entrar um dia no Boticário e comprar uma colônia de maconha. Eu passaria a colônia por todo o meu corpo e iria para a balada arrochar as gatas. Arrochar? Acho que nunca usei esse verbo na minha vida. Interessante.”
Nestor e o seu sonho.

Passávamos o dia passando a limpo mentalmente e silenciosamente os supostos ótimos momentos pelos quais passaríamos caso não tivéssemos ido passar o feriado prolongado naquela prisão de ventre da natureza. Nós estaríamos onde? Provavelmente sob a árvore em frente à casa do Nestor. Fazendo o quê? Muito provavelmente dizendo que quem tinha AIDS tinha sorte porque pelo menos estava fazendo sexo. A AIDS se propaga porque quem tem AIDS transa. A AIDS se propagou porque quem tem AIDS transou. Nós não tínhamos AIDS e nós não considerávamos autossexo como um ato de ataque efetivo para se conquistar novas colegas de trabalho no Happy Hour. Nós só teríamos AIDS se Deus fizesse a canalhice de comer a nossa bunda sem camisinha. Ou comer a camisinha dentro da nossa bunda. Mas o legal da vida é que sempre haverá em qualquer circunstância a reação à ação da nossa regra conhecida popularmente como exceção. Saulo era o único que poderia contar vantagem dizendo que ele poderia muito bem ter sido aidético. Ele tem uma pica indômita no lugar do defasado cérebro. Ele mais transou do que leu. Ou melhor, ele mais transou do que entendeu o que leu. Ou melhor, ele transou absurdamente mais do que leu e entendeu muito menos do pouco que leu. Alguns acreditam que para ler Catatau, de Paulo Leminski, é preciso de coragem acima da média. Outros defendem que para ler The Making of Americans, da norte-americana Gertrude Stein, livro disponível só em inglês e que contêm novecentas e vinte cinco páginas de puro experimentalismo literário, é necessário perseverança descomunal. Eu e meus amigos acreditamos piamente que para comer a Ratinha sem camisinha é necessário ser um aloprado sem amor próprio. E acreditamos também que para comer a Claudinha sem camisinha e super menstruada é preciso ter o desprendimento à vida similar ao de um homem-bomba virgem. A primeira vez que vi uma buceta eu não vi buceta alguma porque tinha muito pentelho sobre a buceta da Márcia. Mas depois, bem depois, muito depois, anos depois, duas guerras depois, seis Copas do Mundo depois, a primeira buceta que vi realmente de perto, com todas as nuances, odores e sabores, me causou um misto de excitação e urgência gostosamente dolorida para expressar essa excitação por meio de movimentos que até então tinha pleno desconhecimento - na hora de penetrar no mundo incrível da penetração eu precisei de uns bons minutos para estacionar o meu carrinho de golfe. Saulo, ao ver a primeira buceta da sua vida, chorou copiosamente. Não chorou por medo. Não chorou por decepção. Chorou de emoção. No puteiro! Em uma inesquecível sessão de strip-tease. Vestido com um colete xadrez com a estampa do Cebolinha. Antes da buceta, Saulo estava preso por muitos anos na imensidão opressiva do deserto infinito morrendo de sede. Depois da buceta, no mesmo deserto, ele se deparou com a trupe orgiástica do Burning Man fazendo sexo total imersa num lago potável (AB/DB). Saulo chorou porque estava apaixonado. Apaixonado por todas as bucetas do mundo. Se Deus fosse uma buceta, ele seria fiel. Antes de sair de casa, ele beijaria a buceta que era Deus para guiá-lo rumo a um mundo melhor. Para Saulo, além de comida, saúde e educação, as crianças precisavam de buceta. Buceta para os velhos. Buceta aos garis. Buceta ao proletariado. Buceta gratuita. Troco um vale refeição por uma buceta: um mundo definitivamente mais feliz. Na história da humanidade, nas mais distintas épocas, existiram pessoas, e ainda existem, que vieram ao mundo para serem voluntárias. Dar comida na boca dos famintos. Ninar crianças mutiladas. Dar banho em leprosos. Saulo é um voluntário da buceta. Ele as aceita como são: limpas, sujas, sanguinolentas, secas, abismais, transbordantes, ermas, assíduas, impolutas, infectadas, carnudas, vermelhinhas, rosadas, escuras, exangues, frígidas, famélicas, estranhas, engraçadas e, inclusive, aquelas que vêm acompanhadas por um pintinho minúsculo.

No entanto, mesmo na companhia desse pilar da promiscuidade que trata a buceta como uma deidade, ninguém conseguiu vislumbrar um corpo, um par de seios, um par de coxas, um par de nádegas e um par de “lábios” que causasse suspiros de puro desejo animalesco. Na Prainha Branca, todas as bucetas nos pareciam repulsivas. As meninas, quando sorriam, estavam desfalcadas de peças cruciais da arcada dentária. As meninas, quando soltavam os cabelos, os cabelos ficavam parados no ar. As meninas, quando falavam, arrotavam um dialeto azedo cuja falta de significado significava só uma coisa: O QUE ESTAMOS FAZENDO NESTA PORRA?! As meninas, quando rebolavam, pareciam que estavam assadas. As meninas, quando resolviam se vestir, usavam uma camiseta preta do Raul Seixas, mega-estampada, tamanho ZXWY. As meninas, quando decidiam usar um acessório, elas usavam um gorro listrado que chegava quase até os calcanhares. As meninas, quando fazia frio, se aqueciam com um casacão gangsta falseta da Fubu. As meninas, quando cantavam, elas cantavam Diário de um Detento, do Racionais Mc’s. As meninas, quando queriam dar um trato nos seus delicados pezinhos, eles vinham cheios de lama cinzenta ressecada. As meninas, quando dançavam, pareciam zumbis breacos. As meninas, quando passavam ao nosso lado, pareciam que vinham dormindo, enroladas, dentro de um carpete encharcado que tivera a secagem equivocadamente interrompida. As meninas, quando eram saradas, tinham acabado de sarar de uma sarna incomum. As meninas, quando saiam do mar, precisavam segurar partes do corpo para que elas não caíssem no caminho. Não havia Letícias. Não havia Isabelas. Não havia Loiras da Phoenix. Não havia Japonesas da Saky. Não havia Andréas. Não havia Pretas. Não havia Michelles. Não havia Loiras da Psicologia. Não havia Camiles. Não havia Melissinhas. Não havia garotinhas de classe-média alta paulistanas estrelando monólogos fúteis no Nextel com todo o corpo recendendo a fragrância de melancia. Não havia quarentonas divorciadas e platinadas de óclão praticando jogging na orla da praia. Não havia drinks insinuantes sorvidos por garotas insinuantes fazendo barulhinhos insinuantes com um canudo colorido em espiral na boca. Não havia minazinhas surfistinhas selvagens com as roupas soltas tremulando ao andarem de bike contra o vento. Não havia tatuagens de joaninhas. Não havia borboletinhas voando sem sair do lugar atrás das orelhas. Não havia estrelinhas verdes ou vermelhas na nuca. Não havia cerejinhas acima dos seios. Não havia asas angelicais nas omoplatas. Não havia pedrinhas de diamante delicadamente encravadas na lateral do nariz arrebitado. Não havia narizes arrebitados. Havia desolação. Havia o apocalipse. Havia enxurradas de chorume por todo lado. Havia um treco bambo chamado de bar. Havia uma fila enorme para usar o orelhão. Havia reggae nacional. Havia forregae. Havia reggae evangélico. Reggae Bola de Neve. Havia rodinhas de violão e Eduardo e Mônica. Havia rodinhas de violão e Alceu Valença. Havia rodinhas de violão e Camisa de Vênus. Havia rodinhas de violão e Rita Lee em parceria com Arnaldo Jabor. Havia rodinhas de violão e Catedral. Havia rodinhas de violão e um triângulo. Havia rodinhas de violão e um pandeiro meia-lua. Havia meninas descalças correndo no escuro com bermudões de veludo da Cyclone. Havia garotas com herpes virando pinga pura direto do gargalo de uma garrafa de Guaraná Dolly com o rótulo rasgado. Havia minas ogras de São Vicente, Diadema, Itanhaém, Pouca Farinha, que jaziam desacordadas sobre a lama travestida de areia de tanto inalarem cola estragada. Havia dragões deformados e asas de morcego mal traçadas e desniveladas sobre as costas onduladas pelo excesso de batata-frita congelada. Havia frases em latim erroneamente formuladas sobre braços castigados por agulhas de uso público. Havia estacas de madeira apodrecida arrombando lóbulos. Havia o cheiro. Aquele cheiro. O cheiro onipresente. Ele desprendia-se das rodas. Ele fazia companhia aos solitários. O cheiro oriundo do poltergeist esfumaçado. O perfume. O perfume teleguiado. No pior lugar a melhor sensação do mundo:
Rocambole: Eu trouxe uma parada aqui que abre o apetite.
Falcãozinho: Não fode, Rocambole, e tu lá precisa de alguma coisa pra abrir o apetite?
Nestor: O que que é, Biotônico Fontoura?
Rocambole: Não, MACONHA!


(Na próxima segunda-feira, a última parte desta história.)



segunda-feira, 4 de julho de 2011

MACONHA - Uma história de amor - Parte 1

















“Jamais provou da ironia aquele que nunca teve prazer em escrever sobre si mesmo.”
Trecho do livro Bonde da Melancolia – Uma Autobiografia com gosto de biscoito de Polvilho, de Arno Palumbo, editora Private Brasil

Eu tentei adiar este tema. Pesei os prós e os contras e os contras sempre fizeram questão de ter o mesmo peso do Rocambole sentado no colo do Telmo: 12 toneladas! Falar sobre maconha nestas paragens pode ser perigoso. Estas paragens são de classe-média acima da média constituída por pessoas com a mentalidade da Idade Média: nossos pais que ainda por cima podem ser nossos vizinhos. Os meus não sabem que houve um dia em que desci do carro em movimento – detalhe: dirigindo – e saí correndo pelado na direção de duas gordinhas vermelhíssimas lambuzadas de Caladryl que estavam tomando um sorvetinho, à noite, na praia das Pitangueiras enquanto o som do carro ribombava Smooth Criminal, do Michael Jackson. Os pais de Cabeça Grávida de Trigêmeos não sabem que, ultimamente, o comportamento do seu filho em festas resume-se a uma palavra: Narcolepsia. Os pais de Nestor nem imaginam que no histórico de ligações do celular do filho os números mais acionados têm como proprietários cidadãos empreendedores chamados Mestre dos Magos, Kina, Gerson Brenner (isso mesmo, você fuma o dele e fica igual ao Gerson após o acidente – reconheço que é uma piada bem desagradável, mas o cara tem que valorizar o próprio produto), Lola e Larica Zen. Os pais de Rocambole nem presumem que o fofo do seu filho é tão pouco exigente que consegue ficar chapado com manjericão ralado. Mas a mãe de Falcãozinho sabe que alguma coisa estava muito errada com o seu querido filhinho ao encontrá-lo dormindo no puf da sala com o pau na mão e a língua translucidamente seca de fora.
Como dizem que o primeiro beijo a gente nunca esquece, e, de fato, eu não esqueço: aos 8 anos de idade, uma mulher chamada Márcia, ela tinha 25 anos de idade, era uma espécie de babá e hoje isso seria considerado pedofilia, ela tinha bigode, eu invadi o banheiro enquanto ela tomava banho e ela me deixou tomar banho com ela, ela me beijava na boca e dizia que era minha namorada, ela também beijava o meu tio na boca e também beijava outro cara na boca ao qual se referia como “meu noivo”, ela era tão linda quanto uma mulher que parece o Richard Brautigan pode ser. Como dizem também que a primeira vez na cama a gente nunca esquece, e a minha foi tão estimulante quanto a sensação de receber uma cagada de pombo direto no olho, eu só posso dizer que ainda não fumei o bastante para esquecer a primeira vez em que fumei um beck.

5 a 7 de setembro de 2004 – Little White Beach (ou Prainha Branca)

Éramos três e um monte de comida em uma barraca para dois. Éramos quatro em uma barraca para três. Éramos sete no total e estávamos tão desorientados que escolhemos a Prainha Branca como um destino para um feriado prolongado. Onde estávamos com a cabeça? Eu pensava muito em tetas. Nestor pensava em tetas e em substâncias cremosas desaguando sobre as tetas. Rocambole pensava em tetas e em almôndegas com molho, bacon, Fandangos, pizzas, sorvetes por quilo, tetas com bacon, comer almôndegas nas tetas e embrulhar tudo para a viagem. Falcão pensava em todas as tetas do mundo inclusive nas próprias, e pensava em todas as bundas e principalmente na própria bunda, e como fazer para remover aquele monte de espinha da bunda no Photoshop, e se ficaria gay descolorir os pelos da bunda trabalhada nas academias com os aparelhos mais enferrujados e os instrutores mais retardados, iletrados e viados do Guarujá, e como conseguiria dinheiro para comprar o extensor de pênis, e quais esforços teria que empreender para manter em sigilo as fotos do ensaio sensual que fez para uma improvável publicação italiana na praia do Éden, e por que ele havia ficado com um mísero segundo lugar no Mister Guarujá sendo que ele é o homem mais bonito e gostoso da história da humanidade. Falcãozinho, irmão caçula de Falcão, era muito novo para pensar em tetas, portanto só pensava em tetas enquanto batia punheta. E como ele não batia punheta, mas sim “punhetas”, muitas punhetas, punhetas pra caralho!, ele pensava mais em tetas que toda população carcerária da penitenciária de Tremembé. As únicas tetas que Telmo pensava eram nas tetas da Tomb Raider e esse pensamento era estritamente técnico: será que aquelas tetas poderiam ajudá-lo a fazer aquela vagabunda finalmente sair daquela maldita fase da caverna? O Saulo, bem, o Saulo pensava em estuprar qualquer coisa.

Eu estava entre os três na barraca para duas pessoas. Graças ao Rick, aquele anão filho da puta! Além de não ter ido com a gente para embarcar em mais um dos seus fantásticos encontros repletos de estudantes de arquitetura de todo o Brasil, cheio de gostosas doidonas de vinho vagabundo, éter e ácido (para depois ter a pachorra de esfregar na nossa cara que, pelo que conseguia lembrar, umas três minas “tipo leste europeu” esfregaram as suas bucetas depiladas na cara dele, o que, por pleno conhecimento de causa, podemos traduzir como três meninas tão experientes quanto qualquer menina que nadava nas piscinas do filme Cocoon), ele fez questão de esquecer de propósito de colocar as varetas na barraca que nos emprestou e contribuir para fuder mais um pouco o nosso já fudido feriado prolongado. Nós: eu, Telmo e Nestor ficamos na barraca para duas pessoas porque perdemos no cruel dedos iguais (barraca que tinha como proprietário um dançarino de axé com o nome sugestivo de Xenhenhem. Valeu, Xenhenhem!). Eles: Falcão, Falcãozinho, Rocambole e Saulo ficaram na barraca para três pessoas porque ganharam no dedos iguais. Nós: Nestor, Telmo e eu, além de ficarmos praticamente empilhados na barraca para dois, fomos obrigados a colocar toda a comida na nossa claustrofóbica barraca porque me fudi no par ou ímpar. Eu, Leonardo, perdi no dois ou um e tive que dormir entre Nestor e Telmo e usar um pacote de macarrão parafuso como travesseiro. Eu, o azarado, para não ter que ficar sentindo o bafo de estrume que saía da boca do Nestor e do Telmo enquanto roncavam como duas descargas de boteco, me vi obrigado a escorregar o meu corpo para baixo, mas não muito para baixo para não dar de cara com o bundão do Telmo e com os gases mortíferos expelidos dali, embora baixo o bastante para provocar a saída dos meus dois pés para fora da barraca. Entretanto, pensando com mais calma, foi até bom. Se porventura eu dormisse na outra barraca, a chance de eu ser violentado sexualmente de madrugada seria muito grande.

A Prainha Branca fica na divisa entre Guarujá-Bertioga via estrada do Perequê. Para chegar até lá, tivemos que atravessar uma trilha de uns 20 minutos para logo em seguida andar mais 20 minutos para encontrar um camping minimamente higiênico frequentado por pessoas que não eram ex-presidiárias e que não aparentavam estar sem tomar banho e sem escovar os dentes e sem cortar os cabelos e sem fazer a barba e sem cortar as unhas e sem ser portadora de uma doença sexualmente transmissível desde o dia da morte do Bob Marley. Por mais preconceituosa que possa parecer a próxima constatação, e, sinceramente, é só uma questão de olhar e julgar, nós éramos, sem dúvida alguma, as pessoas mais bonitas de lá. Na real, eu era mais bonito que qualquer menina daquela porra (por isso o receio de ser estuprado de madrugada). A brilhante idéia da viagem partiu do Falcão (Falcão é o cara das idéias brilhantes), que infectou o Saulo (as brilhantes idéias de Falcão não inspiram como as de Gandhi, mas infectam como os vermes saídos da carcaça de uma gata grávida morta por envenenamento sob a churrasqueira nos fundos da casa), que infectou o Nestor, que infectou o Falcãozinho, que infectou o Rocambole, que me infectou, e que, finalmente, infectou o Telmo.

Falcão quis ir para a Prainha Branca porque não basta o Falcão ser Falcão e ficar se exibindo dançando axé pelado em frente à webcam e ir de sunga para a faculdade de engenharia elétrica, ele tem que se superar. Saulo quis ir para a Prainha Branca porque é mais um lugar que Saulo sabe que há bucetas vadias, e, para ele, bucetas vadias, bundas vadias, pés vadios, solas do pé vadias, orelhas vadias, pálpebras vadias, tutanos vadios, nucas vadias, ceras de ouvido vadias e cérebros vadios são tão essenciais quanto um bom plano de saúde. Nestor quis ir à Prainha Branca porque sabia que a fusão de Saulo e Falcão com a Prainha Branca daria em alguma merda portanto era melhor estar lá para presenciar tudo in loco (e porque era sempre bom tentar pescar alguma sobra da população feminina abordada pela cara de pau e pelo cérebro de jagunço do Saulo, embora minutos depois da chegada Nestor tenha chegado à broxante conclusão que seria mais fácil encontrar o Ulysses Guimarães surfando sobre um boto cor de rosa do que uma mina humildemente gostosinha). O Rocambole aceitou ir à Prainha Branca porque estava com fome. Ele queria ir ao Mc Donald’s, contudo o Saulo, o Falcão e o Nestor só aceitariam acompanhá-lo aonde quer que fosse (churrascaria, padaria, confeitaria, pizzaria, rancho da chuleta, carrinho de churros, feira, Pão de Açúcar, Habibs, Brunella, Pastel do Trevo, Gotissô, Milani, Texaco, carrinho de pipoca), caso ele se comprometesse em embarcar na aventura Prainha Branca. Então ele refletiu tal qual Hamlet, ou melhor, então ele refletiu tal qual Augustus, o gordinho da Fantástica Fábrica de Chocolate: qual é a graça de comer sozinho se não dá para pegar a comida dos outros? E prontamente aceitou. Eu aceitei ir à Prainha Branca pelo inevitável arrependimento que viria à tona quando me contassem as histórias das surubas, dos boquetes no mar revolto, da tentativa de estupro perpetrada pelo Saulo na floresta, do Rocambole chupando uma mina cheia de maionese e gritando ao Nestor para pegar na mochila a tuppeware branca lotada de queijo provolone e a caixa fechada de palitos Regina, do Falcão perseguindo as minas na praia com uma tanga rosa como um ator pornô catatônico graças ao fracasso das últimas investidas etc. Telmo foi porque a vida dele àquela altura o credenciava a dizer “que ele não tinha nada melhor a fazer para esnobar a Prainha Branca”, se bem que a partir do momento em que ele colocou os pés 41 desconfortavelmente vestidos em um par pink de Havainas tamanho 35 da própria mãe nas areias terrosas daquela antítese de paraíso e depositou os preguiçosos olhos castanhos escuros baleados pelas longas horas em que ficava entretido junto com os flanelinhas mirins na máquina de King of Fighters na fileira desoladora de campings e casebres amotinados que, no futuro, poderão ser fielmente adaptados como locação para um filme hollywoodiano que retrate os sangrentos combates na Líbia, Telmo disse: “Caralho, vou ter que voltar, esqueci o ferro de passar roupa ligado no meu quarto”. E não parou mais: “Tão ouvindo? Tão ouvindo? É a voz da minha mãe me chamando, cara, acho que aconteceu alguma coisa, vamos ter que ir embora”. “To com uma dor aqui perto da costela, provavelmente é câncer, vamos embora!” “Leonardinho, tá ouvindo? Hein, tá ouvindo? Acho que é o seu pai que tá assobiando, cara, vamos embora.” “Esqueci a escova de dente, vamos embora!” “O celular não funciona, caralho, se o celular não funciona, a minha não deixa, vamos embora!” Puta merda... antes de ir embora, eu abri a porta para a cachorra passear um pouco e esqueci de abrir a porta para ela entrar, vamos embora!” “Puta merda, agora que me lembrei, hoje é aniversário da minha mãe, vamos embora!” “Eu tenho que jantar em casa, vamos embora!” “Eu esqueci a bíblia, vamos embora!” “Lembrei agora, sou alérgico à praia, vamos embora!”

(Continua na próxima segunda-feira)

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Os 1001 ensinamentos, lucubrações e idiossincrasias do Solitário Corredor

















Número 1

Quem vê, pensa: “vou começar a correr para ver se arranjo uma mulher que me aqueça no frio e que tire a minha roupa e lamba o meu suor no verão”. Quem vê filme hollywoodiano, pensa: “não existe gente assim, não há tamanha interação que gere, em tempo recorde, uma relação sexual com tanta simplicidade”. Quem corre no Parque do Ibirapuera, diz: “tem muita gostosa por aqui”. Quem corre no Guarujá, na orla da praia, fora de temporada, pede: “tomara que eu não seja assaltado, já estou sem relógio, sem corrente, sem Ipod, correndo descalço, sem shorts, sem camiseta e só de samba-canção - só falta um louco ou uma gorda alucinada querer me estruprar”. Quem corre, sua. Ou, como diria Heleno de Prado, o poeta do mangue, “quem corre, soa”. Porque suor por todo o corpo só é sexy em pessoas que são sexy's até cobertas de merda. Letícia Spiller suada: encaro (com prazer!). Suzana Vieira suada: passo, deve parecer um churros estragado pelo verão. Dani Bananinha cagada: sem pestanejar (as enfermeira(o)s limpam bosta de gente doente e, cá entre nós, além de serem mal remunerada(o)s ao exercerem tamanho sacrifício nauseabundo, os seus pacientes não chegam nem a um décimo da gostosura contida nos 53kg magnificamente distribuídos em 1,66 de altura, 69cm de cintura, 88cm de busto e 91 cm de quadril de Dani Bananinha)!

Jamais presenciei e nem ao menos soube de alguém que tenha paquerado outro alguém na hora da corrida e dessa intersecção casual tenha vindo à luz algo relevante: Sexo. Ou, como questionaria Juquinha, um gentleman de fino trato: “Sexo Anal?”. Em contrapartida, o meio em que vivo e as pessoas com quem ando não podem servir de parâmetro em um mundo marcado a sangue pela sacanagem interesseira e pela sacanagem por atributos – aqui, na Carlos Nehring, não temos nada que lhe interesse e somos destituídos de qualquer atributo que possa lhe interessar à primeira vista. Eu? Eu não paquero. Eu ajo. E quase sempre erro. O alvo. O tom. Tanto da conversa quanto da voz. O penteado. Ou o corte. Do cabelo ou da roupa. Só por ter nascido, eu já saio em desvantagem. Graças às malucas, pude perder a virgindade. E à bebida. Às drogas. E o que elas fazem com a cabeça das pessoas. As lembranças se apagam e parece que nada aconteceu. Conta-se a todo mundo e fica a impressão que nada que se faça irá fazer com que as pessoas acreditem que você realmente fez. Essa é a origem da mentira verdadeira. Ou da verdade ultra-subestimada. Discos voadores brilham no céu nas madrugadas das grandes cidades. Parentes já falecidos assaltam a geladeira de madrugada. Professoras em trajes sumários deixam à mostra a microcalcinha na aula de antropologia. Namoradas de amigos os traem na escuridão do cinema com direito à felação. Subitamente: um bacanal. Subitamente: uma empregada gostosa aparece e se despe num significante estalar de dedos. Subitamente: uma bela teta se solta no fundo da piscina. Mas não há testemunhas. Quando há testemunhas, ou elas estão inconscientes ou xavecando uma mendiga ou xavecando a cobradora do ônibus de cabelo asa-delta ou xavecando a tia do cachorro-quente ou correndo destrambelhadamente nuas pelas ruas apinhadas de alcoólatras mirins ou fumando o sétimo beck do dia só pela força do hábito ou se masturbando à noite no cantão da praia do Tombo pensando naquela prima gostosa que morreu ao voltar bêbada de uma balada depois de ficar com um cara parecido comigo e que com toda a certeza contou para todo mundo e óbvio que ninguém nunca acreditou nele, ninguém estava lá de fato para ver, nunca mais ele terá a chance de vê-la à distância para bater no braço dos que estão em volta e apontar o dedo e dizer “é aquela daquela noite” e pensar e não externar: “Nem morta ela irá confessar o que fez comigo”.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

A moda do Hard Seicho-No-Ie (um texto sério)

















"Não faça nada! Minta!”
Primeiro e único mandamento da cartilha do Hard Seicho-No-Ie.

“Sou isso que sou. Goste ou não, sou isso que sou.”
Trecho do livro Como fugi do estrabismo, de Arno Palumbo, editora Sem

Eu nunca tive Twitter. Eu nunca tive Facebook. Eu fui o último do meu círculo de amizades a ter celular. Esclareço desde já que não tenho nada contra quem usufrui dessas mídias sociais. Essa relutância à tecnologia não se deve a um suposto purismo renitente, mas sim ao fato de possuir muitas dificuldades e preguiça para aprender a utilizar essas ferramentas antes modernas, atualmente comuns, futuramente jogadas no sótão empoeirado do esquecimento. Admito que me sinto incapacitado, e de certo modo receoso, em acompanhar as evoluções vertiginosas pelas quais passam os aparelhos tecnológicos. Eu só aciono os comandos básicos do meu celular: tipo, ligar para minha mãe. Eu desativei há bastante tempo o meu Messenger. Eu só olho o meu e-mail de vez em quando. Eu só tive coragem de participar do Orkut, hoje datado, porque estava à procura de uma garota: eu não tenho mais Orkut e não consegui pegar a garota. Até uns tempos atrás eu ainda comprava Cd. Até uns tempos atrás eu ainda não havia baixado filmes pela internet. Até uns tempos atrás eu ainda não havia assistido nada pelo computador sem que me causasse uma comichão desconfortável de impaciência. Até hoje me nego a baixar livros.

A solitária interação que tenho com pessoas que não conheço é por meio deste blog. Há menos de um mês que retornei à escrita. Eu fiquei praticamente dois anos sem escrever absolutamente nada em lugar algum. Eu parei porque estava ficando... sem vontade. Eu parei porque estava ficando... de saco cheio de tudo e, especialmente, de mim. Eu parei porque tomei conhecimento da extrema irrelevância à qual as minhas idéias estão destinadas. Eu aceito numa boa, não tenho pique e nem falta de vergonha na cara para autopromoção. Portanto, fiquei quase dois anos lendo livros, assistindo séries, correndo (é, bem rápido), parando paulatinamente de dirigir carros (hoje quase totalmente, eu faço até compras suado, que nojo, né, nem tudo na vida cheira a vinho envelhecido e Angelina Jolie) e trabalhando. Lendo livros... eu não consigo ler mais nada além de livros. As revistas que lia não significam mais nada. O jornal que meu pai assina é... o jornal que o meu pai assina. As leituras cibernéticas são escritas, em sua maioria, por iludidos hipócritas e comentadas, em sua extrema maioria, por universitários com analfabetismo funcional. Contra todos os prognósticos tento bravamente sentir-me minimamente ao máximo desinformado. Entretanto, nos últimos meses, me senti tentado a voltar. Dar um rumo mais criativo à minha vida além da existência condensada ao ato de inspirar pelo nariz e espirrar pela bunda. Quando criei este blog, eu tinha pretensões. Nada grandioso e purpurinado, mas achava, de algum jeito obscuro, que podia fazer a diferença. O obstáculo que impediu voos mais altos foi a cisma que tenho de não me levar a sério, embora saiba que o que impede essa cisma de ser maior é o meu ainda maior anonimato. Ninguém me conhece e eu não conheço ninguém que tenha o “real” poder de transformar ninguém em alguém. Além de todos esses percalços, há outro definitivamente intransponível: eu não gosto de fazer o que eu não gosto de fazer, e, detalhe, eu não faço. E a coisa que mais gosto de fazer é não fazer coisa alguma que julgo desnecessária: eu já nasci aposentado da vontade do voyeur do cotidiano – a de gozar com o pau dos outros. Não me importa a grana que oferecerem e nem o rabo que abrirem: morrerei pobre e eunuco. Essa constatação pode me deixar louco, mas me sentiria morto se não agisse de acordo com as coisas que acredito. Chame de princípios, eu chamo de assinatura. Portanto, quando voltei a escrever regularmente e passei a refletir seriamente se devia ou não voltar a postar as minhas “discutíveis” diatribes, o esperado e temido momento das questões quiçá insolúveis se abateu sobre mim, e se essas questões o espancarem com violência, então, caro idiota, a carapuça serviu diretinho, e, antes que me pergunte, caso a carapuça não tenha evoluído para uma metástase, a cura é possível: Vale a pena escrever a analfabetos funcionais que se acham filósofos? Vale a pena escrever a analfabetos funcionais que recém descobriram Freud e que usam a pretensa verdade freudiana como a própria verdade? Vale a pena escrever a analfabetos funcionais que citam Susan Sontag em uma churrascada em meio a uma discussão inebriada, apaixonada e apaixonante sobre futebol? Vale a pena escrever a analfabetos funcionais que só leram um livro na vida: O Manual de Redação do Estadão? Vale a pena escrever para o analfabeto funcional afiliado à UNE que aspirou todo o dinheiro do diretório acadêmico do qual era presidente para investir em pó? Vale a pena escrever a analfabetos funcionais entusiastas do regime cubano que assinam Marie Claire? Vale a pena escrever a analfabetos funcionais entusiastas do artista que é entusiasta do regime cubano que usa esse sincero entusiasmo para morar em um triplex no Leblon? Enfim, vale a pena escrever a alguém que julga reacionário tudo aquilo que é contrário ao seu ponto de vista?

A intelectualidade brasileira diz: “Nós somos contra tudo que não defendemos!”.
Porém, o que eles defendem? O que a imprensa brasileira defende? O que os analistas políticos, econômicos, culturais, comportamentais defendem? O que a Folha de S. Paulo defende colocando um anúncio de meia página na capa do caderno Ilustrada da nova loja da Daslu? O que a MTV Brasil defende empregando uma besta chamada Bento Ribeiro? O que defende Xico Sá ao ser parte integrante do programa Saia Justa, o qual sempre fez questão de tripudiar? O que defende Mano Brown como VIP de shows de rap que custam uma fortuna? O que defende o lesadíssimo senador Eduardo Suplicy ao ser amigo de um terrorista estrangeiro filho duma puta? O que o João Gordo defende trabalhando para a instituição evangélica que sempre repudiou? Dinheiro? Então vale mentir em troca de dinheiro? Então os políticos não fazem nada de mais? Então não pega nada cuspir no prato que ainda irá comer? Quanto você custa? Posso barganhar? O que você defende? Posso querer a sua bunda? Posso defumar os seus mamilos? No que você acredita? O que Marcelo Rubens Paiva defende no texto A moda do reaça?

Eu li Feliz Ano Velho, Blecaute, Bala na Agulha e Malu de Bicicleta. Li em uma época na qual ainda estava descobrindo as minhas predileções literárias. Considerei, durante certo período, Marcelo Rubens Paiva como um dos únicos expoentes da literatura pop no Brasil. Depois eu fui crescendo, as minhas teias cognitivas foram se expandindo, e o que antes era interessante tornou-se boa recordação. Fazia tempo que não lia nada escrito por ele. Até que me instigaram a seguir determinado caminho que me obriguei a não percorrer durante algum tempo e deparei com o texto – estilo hard seicho-cho-ie - A moda do reaça. Ao terminar de ler, me senti triste por reconhecer a chegada da senilidade em um autor que admirava quando jovem (procure na internet, não vale a pena!). Eu sempre fui e serei um defensor contumaz da liberdade de expressão, mesmo que a expressão seja repulsiva. Mesmo que a expressão engendre-se das reflexões de “palhação da classe” de Rafinha Bastos e Danilo Gentili. Mesmo que a expressão seja publicada por meio dos dedos e do cérebro de rato cancerígeno de Lobão. Mesmo que a expressão nasça da sofreguidão adiposa envolta em uma atmosfera “ambiance” de Ed Motta. Mesmo que a expressão seja adocicada pela falta de conteúdo e pela saturação visual de Mari Moon. Mesmo que a expressão advenha das falácias redigidas pelos terceiros de Ricardo Teixeira. Mesmo que a expressão saia do inimigo n. 1 da esquerda playboy brasileira: Diogo Mainardi. Diogo Mainardi é tão culpado quanto Renato Russo é gênio. Diogo Mainardi é tão culpado quanto Dinho Ouro Preto é punk. Diogo Mainardi é tão culpado quanto Zé Love é bonito. Lógico que Marcelo Rubens Paiva não deixou de refestelar-se no lugar comum e eleger Diogo Mainardi o culpado por toda a ignorância brasileira – para delírio dos habitués freqüentadores da coluna da Mônica Bergamo e das festas “altruístas” da revista Trip. O mais avassalador problema da velhice é alimentar o inimigo com o seu alimento predileto sem se dar conta disso. A única coisa que sei sobre Diogo Mainardi é que ele adora quando quem não o adora faz questão de atestar o desagrado no veículo para o qual trabalha. A propósito, eu nunca li Diogo Mainardi, o que sei sobre ele é o que as pessoas escrevem sobre ele. Com A moda do reaça. Marcelo Rubens Paiva rebaixou-se a Ophra Winfrey no célebre caso James Frey. No íntimo, ele e os outros Hard Seicho-No-Ie são outros no íntimo: eles nunca acharam uma mulher feia, nunca acharam um homem feio, nunca torceram o nariz para o gosto de alguém, nunca atravessaram um sinal vermelho, nunca xingaram um pedestre, nunca dirigiram bêbados, nunca contaram uma piada de português, nunca atravessaram a calçada por medo, nunca deram duas voltas no trinco da porta de entrada do apartamento, nunca instalaram na porta de entrada do apartamento um trinco para chave-tetra, nunca julgaram quem não conheciam, nunca escolheram como amigos péssimos amigos, nunca espantaram um cão, nunca fecharam o vidro do carro a um pedinte, nunca se surpreenderam negativamente com algo que disseram em público, nunca vibraram em silêncio por terem peidado silenciosamente em público, nunca tiveram medo da morte, nunca tiveram vontade de matar, nunca quebraram uma vidraça, nunca reconheceram-se como reles medíocres, nunca tomaram uma decisão olhando somente para o próprio umbigo lustroso. (O que de fato eles nunca fizeram e, pelo andar da capenga carruagem, nunca farão, é descer do “aprazível” muro!)


Acredito que discutir política culmina em atmosferas tão catastróficas quanto assistir a uma performance de Le Parkour feminino. Discutir política nada mais é do que isso: a pessoa A defende uma coisa, ou acha que defende uma coisa, a pessoa B defende outra coisa, ou acha que defende outra coisa, a pessoa A tentará provar à pessoa B que a coisa que ela defende é a correta, a pessoa B tentará provar à pessoa A que o seu ponto de vista é o correto, por fim, a pessoa A não conseguirá provar à pessoa B o seu ponto de vista, a pessoa B não conseguirá provar à pessoa A a sua coisa. Moral da história: ou a pessoa A ficará de cara amarrada à pessoa B, ou a pessoa B ficará de cara amarrada à pessoa A, ou a pessoa A e a pessoa B darão um basta à política e começarão a falar sobre a vagabunda da Suelen que ficou com o casinho da tia descolada da Pri.

Quem lê este blog, saiba que defendo, como disse antes, a liberdade de expressão irrestrita. Eu defendo o casamento gay, com véu, grinalda, buquê, musica disco, música da Broadway, daminhas de honra de três anos de idade equilibrando as alianças na ponta do nariz. Eu defendo a legalização da maconha, embora acredite que, mesmo com a legalização, o tráfico não irá acabar. Eu só não defendo a legalização de todas as drogas porque entendo que o Brasil não está culturalmente pronto para administrar tal revolução. Eu defendo o direito ao aborto. Eu defendo o direito à eutanásia. Eu considero o anarquismo o melhor “sistema” para reger a sociedade, embora o reconheça como utópico portanto impossível de ser implantado onde haja humanos envolvidos. Eu defendo as pesquisas e os transplantes de células-tronco – e tenho tudo contra quem é contra essa dádiva científica. Eu defendo a pirataria em detrimento dos impostos abusivos. Eu defendo o livre acesso às criações artísticas por meio de downloads. Eu defendo A Lei Rouanet somente a artistas desconhecidos ou pouco conhecidos. Eu defendo as cotas sociais ao invés das cotas raciais. Eu defendo quem não defende a Copa do Mundo no Brasil. Eu defendo quem não defende as Olimpíadas no Brasil. Eu defendo quem prefere as bicicletas aos carros. Eu defendo quem prefere as próprias pernas aos veículos motorizados. Eu defendo quem utiliza regularmente os transportes públicos embora saiba que os nossos transportes públicos estão mais para as regiões púbicas de um náufrago de 98 anos de idade. Agora, a polêmica: eu defendo a pena de morte a estupradores, latrocidas, terroristas, ditadores genocidas, assassinos passionais, psicopatas, assassinos de aluguel e a locatários do assassino de aluguel. “Nossa, bicho, que fascista!” Se você acha essa atitude fascista, hard seicho-no-ie, você não sabe o que é fascismo. Para entender o porquê, eu parti da seguinte premissa: minha mãe está caminhando por uma rua erma em direção à sua casa após fazer as compras. Ela é abordada por um homem que logo anuncia “perdeu, vagabunda, isso é um assalto!”. Mesmo depois de a minha mãe entregar tudo a ele – dinheiro, jóias, celular, relógio, botas etc -, o homem espanca a minha mãe, estupra a minha mãe e a mata estrangulada com o sutiã que foi arrancado selvagemmente do corpo dela. O que você faria se tivesse a chance de encontrar esse filho da puta a sós? Eu o mataria. Não capitularia nem por um segundo, eu o mataria todos os dias, todas as horas, todos os segundos. Eu gostaria de ver morto o homem que estuprou a minha filha até a morte. Eu gostaria de ver morto quem mandou matar meu pai por denunciar um esquema de fraude governamental. Eu gostaria de ver morto quem mandou explodir o prédio onde mora parte da minha família. Eu gostaria de ver morta a babá que envenenou deliberadamente o meu neto de cinco meses de vida. Eu gostaria de ver morto o ex-namorado da minha filha que a assassinou porque ela não queria mais vê-lo. Tenho certeza que esse sentimento brota, mesmo contra a vontade, nas pessoas que tiveram partes cruciais das suas vidas extirpadas dessa forma.
Não, eu não tenho que entender por que uma pessoa que supostamente sofre de “problemas” teve que roubar, estuprar e matar uma mulher de 60 anos. Não, eu não tenho que compreender por que uma pessoa “carente” teve que matar a ex-namorada porque ela não queria mais ficar com ele. Não, eu não tenho que me conformar com a atitude da mulher que envenenou uma criança de cinco meses de vida. Não, eu não tenho que aceitar que a voz divina levou uma pessoa a explodir um hospital infantil.

Pelo menos eu não sou tão retardadamente contraditório quanto o jornalista inglês Christopher Hichens, que se diz contra a pena de morte em qualquer circunstância, mas depõe a favor à Guerra do Iraque. Ambas são penas de morte. A única diferença é que a guerra mata, sobretudo, inocentes.

Aliás, esqueci de outro tipo de pena de morte, a pena de morte do hard seicho-no-ie, a qual censura quem tem coragem de falar o que pensa!

VAMOS NOS ENGANAR QUE OS HUMANOS SÃO NATURALMENTE IMPARCIAIS, E ACEITAR QUE A PARCIALIDADE É UM CRIME PERMITIDO SOMENTE A POUCOS AFORTUNADOS!

segunda-feira, 13 de junho de 2011

2º. Round: Feministas Radicais e por quê, em casos excepcionais, bater em mulher pode ser benéfico à sociedade

















Elas estão sempre de canto, a cara amarrada, pálidas, unhas sujas e carcomidas, palitinho na boca, braços cruzados e macios como os do Alf, O Eteimoso, um dos joelhos dobrados e a sola do pé encostada na parede, regata-machão branca, um rolo de silver tape fazendo a vez de sutiã, cabelos curtos e mal aparados camuflados por bonés desbotados de caminhoneiro, coturno comprado na Galeria do Rock, corrente prateada de bolinha e o indefectível bucinho bem canalha (a propósito, muito parecido com o que eu esqueço que uso de vez em quando). Elas são mulheres, ou quase isso, e pegam mais mulheres que qualquer garanhão metido a Chiquinho Scarpa (até eu sou capaz de pegar mais mulheres que qualquer garanhão metido a Chiquinho Scarpa). Retificando, elas são mulheres, “nós somos mulheres, caralho!”, e pegam mais mulheres que qualquer garanhão metido a Ricardinho Mansur. Elas podem parecer o Jared Leto. Elas podem parecer o Zac Efron. Elas podem parecer o Leonardo Di Caprio. Elas também podem parecer o Teddy Boy Marino. No telefone, elas podem ter a voz do seu irmão mais novo. Ou podem ter a sua voz quando era mais novo. Elas podem ter a voz da Marília Gabriela. Ou podem ter a voz do Cid Moreira. Mesmo que seja difícil, elas podem se tornar suas amigas (garanto que você não vai querer nada além disso). Vocês podem jogar sinuca. Vocês podem se embebedar. Elas não pedirão o seu desodorante emprestado. Vocês podem paquerar mulheres juntos. Elas podem lhe dar dicas para encontrar o ponto G. Elas podem peidar na sua cara, vomitar no chão da sua sala, arrotar na cara da sua avó, interditar o seu banheiro e levar a sua namorada para a cama. Você não irá encontrá-las na próxima edição do Carnafacul. Você não irá encontrá-las no show da Simone. Você não irá encontrá-las no show da Angela Ro Ro . Você não irá encontrá-las no show da Ana Carolina. Você não iria encontrá-las nos shows da Cássia Eller. Você poderá encontrá-las nos shows do Krisiun. Você poderá também encontrá-las numa churrascada na sede oficial dos Abutres Moto Clube. Vocês podem até, quem sabe, encontrá-las estrelando um ensaio fotográfico antissensual no Facebook. Mas com toda a certeza você irá encontrá-las nos shows do Dominatrix.

Elas odeiam os que se intitulam machistas, embora sejam mais trogloditas que o machista que é capaz de decepar a língua do engraçadinho que ousar perguntar se ele é heterossexual. Elas são feministas radicais, caralho!. Elas não estão nem aí para os seus músculos, porra! Elas não estão nem aí para a sua falta de músculos, cacete! Elas não estão nem aí caso você saiba trocar uma lâmpada, merda! Elas não querem nem saber que você consegue carregar o botijão de gás cheio só com uma mão, cu! Elas não querem nem saber que você precisa de auxílio para carregar um botijão de gás vazio, frouxo! Elas não estão nem aí para o fato da sua barba ser áspera, cara de melão! Elas não estão nem aí para o fato de você ter pelos nas costas, cara de feijão! Elas pouco se importam que você corre na praia sem camisa, chato! Elas não querem nem saber que é natural para você comer a namorada por trás, loser! Elas têm tudo isso e elas conseguem, com os instrumentos certos, fazer tudo isso.

Aaaaahhhh, minhas queridas mulheres brasileiras, suecas, africanas, guatemaltecas, portuguesas, espanholas, italianas, argentinas, francesas, cubanas, gregas, russas, afegãs, norte-americanas, inglesas, australianas, esquimós, para elas, vocês não são mulheres porra nenhuma! Elas estão cagando mole para o requebrar dos seus quadris. Elas estão mijando em pé e bem amarelo para as plásticas dos seus narizes. Elas fecham os olhos e trançam os pelos do sovaco para os silicones dos seus seios. Elas estão coçando as micoses e acariciando as cicatrizes nos pulsos provocadas pelas brasas de Derby vermelho para as suas sardas abaixo da região do pescoço conquistadas graças aos bronzeamentos religiosos desde os cinco anos de idade no litoral norte. Elas catam piolho e comem a seborréia para as luzes dos seus cabelos. Elas coçam a xana e estrangulam um gambá rechonchudo para as suas depilações a laser. Elas comem as unhas e cospem terra molhada de urina de cavalo para as suas unhas Vermelho Ivete.

É estarrecedor, minhas queridíssimas mulheres, eu sei bem. Eu me faço as mesmas perguntas que vocês estão fazendo a si mesmas neste momento crucial. Qual é o problema em possuir as medidas e o sex appeal da Scarlett Johansson e curtir mulheres? Qual é o problema de uma mulher deliciosa levar a namorada deliciosa ao show da Roberta Sá? Qual é o problema de uma mulher lésbica e independente dançar como a Beyoncé, vestir-se como a Miley Cyrus e ler um romance do Nicholas Sparks? Porque, sinceramente, me incomoda ouvir uma mulher bradar que todos os homens são misóginos, que todas as mulheres que valorizam os seus atributos físicos são vazias, e que para ser uma mulher de verdade ela tem que ser uma sósia do Vin Diesel.
A próxima vez que encontrar uma Feminista Radical terei que dar uma bica, de Kichute, no meio das suas pernas. De baixo pra cima. Com o peito do pé. A intenção não é feri-la fisicamente, mas ideologicamente.

“Sofia? Sofia? Arnaldo!?” “Fala, porra, o que que tu qué, caralho!?” “POW! Mina, para de fingir que tá doendo, tu não tem saco e tem, como escudo de proteção, a juba do Nelson Triunfo entre as pernas!”

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Tudo É Albino Menos Rebeca recomenda

Blue Valentine

















Se você é homem, gosta de uma breja, é romântico, talentoso porém desprovido de ambição, e sofre, de modo intermitente, com a mente ambígua das mulheres, este filme é sobre você. E detalhe: você está fodido, talvez para sempre, muito cuidado com quem você irá escolher como par romântico, a sua vida não é um filme de 100 minutos, é um martírio crescente que pode durar cem anos, isso se você for um filho da puta azarado.
Blue Valentine é o tipo de filme que gosto: triste. Adoro filmes tristes cujos finais acabam da pior maneira possível. Excesso de sangue, overdose, suicídio passional, doenças terminais e acidentes brutais: amo muito tudo isso. Entendo que posso passar a impressão de ser uma pessoa mórbida, mas não me gusta, por exemplo, Jogos Mortais, nem Faces da Morte. Sangue gratuito só vale a pena em filmes de zumbis. Só para constar, eu dei um vestido colorido, uma bolsa de couro marrom e uma cesta de café de manhã à minha namorada pelo seu aniversário. E namoro uma menina que é fã de Lily Allen – para você ver que das mentes supostamente mais diabólicas vêm as atitudes mais tolerantes. E para reforçar ainda mais o senso democrático com o qual são revestidos os meus relacionamentos mundanos, publicarei agora o pequeno lembrete que minha namorada fez questão de deixar sobre a minha escrivaninha quando soube que eu ia indicar este filme a você: “Meu, eu dormi nesta porra, não perca tempo com esta merda”, o que faz parecer, pelos impropérios deste lembrete, que não namoro uma menina, mas um membro dos Hells Angels. O que também faz parecer, se analisarmos sob o ponto de vista do meu notório egocentrismo, que ela não está se referindo ao filme, mas a mim. (Ela dorme pra caralho!) O interessante é que não foi só ela que odiou o filme, todas as pessoas para as quais indiquei o filme fizeram questão de vê-lo nem até a metade, provocando uma sensível queda no meu ibope de diletante refinado. Entretanto, vamos ser razoáveis com este que no momento escreve estas palavras trajado com uma calcinha box da Sexy Machine e uma bota preta de cano alto da Timberland, a minha mina curtiu Crepúsculo, e não só Crepúsculo, mas também Vampire Diaries, e não só Vampire Diaries, ela leu todos os livros do Crepúsculo. Ou seja, ela não manja porra nenhuma. Dê uma chance a mim, assista ao filme, pouco me importa se sozinho ou acompanhado, mas não transe enquanto o filme tá rolando, muito menos com homens, é gay e trata-se de um desrespeito para com os atores e realizadores do filme, uma vez eu transei com a minha ex-namorada enquanto o filme tava rolando, foi catastrófico, ela interrompeu o coito para fazer algo melhor: ver o filme. Blue Valentine será lançado na próxima sexta-feira, dia 10 de junho, nos cinemas daqui, intitulado borra cuecamente de Namorados para Sempre. No entanto, caso a sua situação financeira não seja compatível ao preço pouco generoso das salas de projeção, surrupie-o da internet, eu fiz mais ou menos isso, comprei o filme no camelô e, por enquanto, foi o melhor filme que vi este ano.

Três Vidas

















Em um dia desses que se destaca por algum lapso de imprevisibilidade que vem de dentro, percebi que nunca me interessei por nada oriundo de Portugal. Eu nunca vi um filme português. Eu desconheço qualquer artista plástico de Portugal. Eu nunca fui perseverante o bastante para assistir integralmente a um jogo do campeonato português de futebol. Eu nunca li nenhuma literatura de Portugal. Nem sequer li Saramago. Eu nunca peguei uma mina da terrinha. Eu pensava nos peitos de alguma menina com peitos dignos de reflexão quando o professor de português do cursinho declamava ardorosamente os versos de Os Lusíadas, de Luís de Camões. Eu tinha que reparar esse equívoco. Afinal, sou também fruto de uma linhagem lusitana. Portanto, quando deparei com o livro Três Vidas, do escritor português João Tordo, não hesitei: apertei o passo e comprei uma coisa norte-americana. No entanto, quando uma pilha do mesmo livro caiu desastrosamente no meu pé, não tive dúvidas: este filho da puta quer me mostrar que existe mais que bacalhau em Portugal. Então eu gastei quase cinqüenta paus no calhamaçinho de 606 páginas. E, bem longe das minhas expectativas, eu não só gostei do livro como foi o melhor romance que li este ano. A história é contada por um narrador anônimo muitos anos depois dos fatos relatados terem ocorrido. Ela começa no final da década de 70 e termina nos primeiros anos do século XXI. Passa por Alentejo, Lisboa e vai à degradada Nova Iorque nos anos 80. O livro tem de tudo: amor, intrigas, perseguição e morte. E você precisa ser totalmente filho da puta para não ler este clássico contemporâneo. Não é exagero, corra atrás.


Treme

















O que diabos aconteceria se um furacão resolvesse dar uma passada pelo Guarujá? Na minha opinião, só sobraria água. Todas as pessoas que permanecessem iriam morrer. Os mais espertos fugiriam antes. Para ser sincero, os mais espertos já fugiram há muito tempo. Só resta quem é fraco o bastante para viver em São Paulo. Eu sou um deles, não me eximo. Mas será que não ia sobrar alguém? Provavelmente, Nego Alan. Como sempre, ele estaria em todos os lugares. Salvando pessoas presas nos escombros, preso nos escombros, solto no alto-mar, voando alto dentro de um helicóptero, morto em cada esquina, vivo em cada esquina, orando no próprio enterro etc. Mais alguém? Morrisey Caiçara. Bêbado em todos os bares, inconveniente em todos os bares, insuportável em todos os bares, cantando o que ninguém pediu para cantar em todos os bares, um personagem desfavorecido cujo castigo é transformar-se em mais uma das infames lendas de uma ilha com uma gravíssima fratura exposta. E a cultura, será que ela sobreviveria? Qual cultura? Há algum tipo de cultura nesta merda? O surfe de marolas? Latrocínio no happy hour? Vai, me dê outra cultura? A pesca no cantão dos Astúrias? A bocha no cantão dos Astúrias? As bicicletas por todos os cantos inclusive nos cantos em que não é permitido o tráfego de bicicletas? Já sei, as pessoas andando no meio da rua. Famílias inteiras andando bem no meio da rua. Crianças peladas andando no meio da rua. A crentaiada se arrastando no meio da rua. Mulheres grávidas com carrinho de bebê no meio da rua. Pessoas boiando no meio da rua como sacos de lixo.
Mas, para saber o que aconteceu após o Furacão Katrina devastar Nova Orleans, basta assistir à melhor série da atualidade: Treme. Criada por David Simons, que tem no currículo nada mais nada menos que The Wire, a série policial mais foda da história, e por Eric Overmyer, Treme mostra o dia-a-dia de intensos personagens e os seus hercúleos sacrifícios para manter a cultura de Nova Orleans viva. Um professor universitário e escritor que começa a postar vídeos no YouTube esculhambando a postura blasé do governo Bush para com a situação da cidade; uma talentosa chef de cozinha que não consegue arcar com as despesas do próprio restaurante; um DJ irreverente e músico insignificante que faz de tudo para ser levado a sério; um trombonista que é constantemente sobrepujado pelos seus vícios; um casal de músicos de rua, ele, violonista e pianista, ela, violinista, que vivem em conflito por conta da inveja do namorado cujos talentos musicais são inferiores aos da namorada; uma dona de bar que sofre com o paradeiro do irmão mais novo após a tragédia; um tradicionalista de jazz e chefe de uma gangue de índios carnavalescos que, contra todos os prognósticos, principalmente os dos próprios filhos, insiste em manter a tradição da gangue e lutar pelos direitos de seus pares; e uma advogada incansável que denuncia os podres da obsoleta, lerda e injusta justiça de Nova Orleans. Quase todos os personagens se conhecem, os que nunca se viram, mais cedo ou mais tarde se darão conta da presença do outro, das tristezas e anseios do outro, em uma colcha de retalhos cujo dinamismo é similar às belas histórias da escritora sulista Carson Mccullers. A grosso modo, Nova Orleans é muito parecida com o Brasil. Repleta de autoridades corruptas, de tráfico de drogas, de deterioração nos serviços públicos, de bares, lixo e música. O que destoa, essencialmente, é a paixão insaciável com que o povo trata a sua cultura: por meio do swing do jazz tocado nas ruas e nos bares enfumaçados, por meio de festas nos quintais das casas onde todo mundo é bem-vindo, por meio dos funerais tristes e ao mesmo tempo festivos e, acima de tudo, por meio do Mardi Grass, o mais afamado carnaval norte-americano que, até agora, não foi descaracterizado pela perseverante sede amarga do capitalismo. Assista agora!

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Toda religião é uma forma de preconceito



"Se o Ronaldo pegou, então deve ser irado!"

Comentário do meu amigo Daniel, corintiano, a respeito da suposta aventura sexual de Ronaldo Fenômeno com travestis

Outra mentirinha que o povo culturalmente confortável com a cultura brasileira criou para enganar a si mesmo, auxiliado por específicos meios de comunicação, órgãos do governo e pela intrépida burrice que lhe é característica principal, é a de que todo tipo de preconceito foi erradicado da nossa evoluída sociedade. O dia em que isso acontecer, e não me refiro somente ao nosso arrombado país, mas ao mundo todo, será o dia em que um E.T anunciar, em árabe, a nossa extinção. O preconceito é inerente ao ser humano. Se não houvesse preconceito, não haveria humor. O preconceito é a matéria-prima do humor. Se há pessoas desprovidas de preconceito, eu não as conheço. As pessoas desprovidas de preconceito que conheço são as hipócritas. Vi uma reportagem na televisão que o número de cirurgias de redução no estômago em crianças alcançou níveis nunca vistos no país. O crescimento dessas intervenções ocorreu por conta do termo mais babaca para designar algo provocado por babacas mais babacas que o termo: o Bullying. Eu sofri essa porra quando era criança. E, por incrível que pareça, aprendi muitas coisas que tornaram a existência cotidiana menos torturante. A principal delas foi a de que as pessoas não mudam. Pode-se dissimular o mal se a pessoa for uma filha da puta. Pode-se dissimular a inveja se a pessoa for invejosa. Pode-se dissimular a falta de senso de humor se a pessoa for comunista: a essência perdura e desnuda-se quando a casa cai. O Bullying é a forma mais brutal de preconceito e a mais vil. Já que o preconceito é inerente a nosotros, devemos usá-lo com inteligência. A vida é feita de escolhas, cada escolha é um preconceito. Preferir alguém a outrem denota preconceito. Torcer por um time: preconceito. Organizar um set list no Ipod: preconceito. A existência nada mais é que uma variedade de preconceitos com múltiplos significados. O preconceito que revolve, com violência, opções sexuais e raça é o preconceito da torpeza.
Aprendi muitas coisas que tornaram a existência cotidiana menos torturante. A principal delas foi a de que as pessoas não mudam. Se a pessoa for boa, ela usará o preconceito de modo inteligente. Se for má, ela usará o preconceito para promover guerras. Se for burra, ela achará que está livre de preconceitos.

Então eu era magro e dentuço e às vezes aquele mundo tinha gosto de sangue.
E as meninas ainda não tinham peitos e eu não tinha peito para chegar às meninas.
E, embora com o passar do tempo os peitos de todas as meninas foram crescendo, o meu peito para chegar às meninas ficou do tamanho dos seios de uma ginasta.
Portanto agora eu poderia atribuir essa falta de coragem ao soco na cara que recebi de alguns filhos da puta da quarta a sexta série.
E também poderia abusar desse artifício cômodo para justificar as duas repetências dessa fase incômoda.
Poderia me isolar em minha saga de saco de pancadas cheio de porra amotinada no meu saco. Poderia me alimentar de ódio e vomitar uma enxurrada de sangue tsunâmico e pedaços de dentes negligenciados enquanto tentava proferir a palavra amor em bolhas coloridas.
Poderia deixar de usar desodorante e cuspir no próprio rosto para chocar a patota que chocava a minha cabeça contra a parede.
Era assim que poderia ter sido o futuro.
Era assim que poderia começar a desmembrar animais de estimação.
Filhotes, de preferência.
Crianças, de preferência.
Derramar sangue alheio para recuperar o sangue perdido.
Transfusão histórica.
Derramar o sangue alheio para recuperar as noites de sono que perdi.
Era assim que poderia perder tempo remoendo o tempo perdido.
Mas não.
Havia outro mundo para conhecer.
Ainda bem que só pessoas boas faziam parte dele.
Ainda bem que só pessoas boas fazem parte do presente que me dei.

Todo homem é um preconceito em si mesmo

Eu me dou bem com os gays. Na real, eu sempre me dei bem com os gays. Não, eu nunca dei para gays nem para qualquer cidadão que possua pênis. Sou preconceituoso o bastante para impossibilitar que qualquer coisa toque o meu cu. Mas não tenho nada contra, inclusive até conheço, gente que deixa a namorada lamber o próprio cu. A liberdade autônoma pode ser mais subjetiva do que pregam. Ela fez com que um amigo fosse duas vezes a uma balada gay só para ver como é que era. O nome da balada: Santa Mix. O nome do amigo: deixa pra lá. Desde criança vivo num mundo habitado relativamente por gays. Quem vive atualmente na cidade de São Paulo, também. Dos quatro anos até os 13, eu quis ser jogador de futebol. Mas, como sempre, desencanei. E novamente desencanei quando, dos 14 aos 23, quis ser um rockstar. Depois quis ganhar dinheiro escrevendo as coisas que gosto: isso. Ainda continuo a escrever as coisas que gosto, mas o dinheiro não gosta das coisas que escrevo. E eu não gostaria de ganhar dinheiro escrevendo coisas que não gosto. Como nunca namorei garotas que não gosto. Contudo, estar em um lugar que desgoste nem sempre é uma questão de escolha. A liberdade pode, às vezes, desiludir. O problema, porém, é que não há escolha para quem não tem dinheiro. Ou melhor, tem, e ela envolve comer merda e foder uma gorda fedida que fala sozinha em cima de um monte lixo. Então tive que me contentar em obter dinheiro trabalhando no negócio da família. Em certos casos, a única escolha que se tem é escolher a falta de escolha: jogar o dardo na direção do alvo, errar o alvo e rezar para que ele não retroceda e perfure a nossa testa. O meu pai deve ter pensado desse modo ao me apresentar, durante o período da infância, o tão propalado e temido período da formação, somente o lado macho da vida. Certamente deve ter sido difícil para um homem de 34 anos, que acabara literalmente de pendurar as chuteiras, aceitar a idéia de passar o resto de sua vida administrando uma escola de ballet. É isso que ele, junto com a minha mãe, faz há 28 anos. 28 anos de sapatilhas, músicas ao piano e homens depilados de voz fina. É isso que ele, junto com a minha mãe e, nos últimos dois anos, junto com o filho, faz há 28 anos. A relação do homem com a prática do ballet é baseada na coragem e na desconfiança alheia de uma suposta homossexualidade. Quantas vezes você já ouviu: “Não é porque ele faz ballet que ele é gay”. Por experiência própria, de 20 bailarinos que conheci, o dedo mindinho do pé de um deles não era gay: estava com o esmalte gasto, um horror! Ser gay, pelo menos para alguns, não significa ser gay o tempo todo. Ninguém suporta por muito tempo ficar ouvindo o Marinho discorrer sobre toca-discos, vinis e dj’s. As mulheres, certamente, não! O homem só agüenta a mulher cujo monólogo está restrito a glamour, fofocas e roupas quando sabe que o seu laborioso papel de ouvinte propiciará que ele a leve para o banco de trás do carro e a coma de quatro enquanto a bochecha dela fica engraçada ao ser esfregada no vidro. Agora, como pedir para um heterossexual que agüente o papo com um homem cujo repertório vocabular se restringe a picas grossas, peitos peludos, Lady Gaga, picas grossas, rabos peludos, Scissor Sisters, picas grossas e a bunda depilada do príncipe William? E como pedir para um homossexual que tolere o papo com um homem cujo repertório vocabular limita-se a homens de coxas grossas que correm atrás de uma bola, esquemas táticos incompreensíveis que envolvem esses mesmos homens de coxas grossas correndo atrás da mesma bola, homens musculosos banhados em sangue engalfinhados em uma gaiola estendida, donas de bucetas sacanas, donas de bucetas recatadas e pena de morte? Ser gay não significa não ser homem, significa ser um homem com predileções distintas da maioria dos homens. Entretanto, por mais discrepantes que sejam essas predileções, sempre há coisas em comum. (Não, não estou me referindo a uma análise do dilema Richarlyson.) Por exemplo, Scissor Sisters. Eu curto Scissor Sisters. E daí? Qual é a diferença entre Scissor Sisters e Bee Gees? Tudo bem, o vocalista do Scissor Sisters rebola pra caralho, mas fora esse sacolejante detalhe, qual é o problema? Exaurido o assunto Scissor Sisters, que tal abordar Erasure? Assumo, também gosto de Erasure, considero A Little Respect uma grande canção pop - e não posso ser contrário à análise de que a maior parte dos homens que assumiram que curtem Erasure mais cedo ou mais tarde assumiram-se boiolas. Mas sou exceção. Sempre há uma exceção em homens que familiarizam-se com aspectos da cultura gay. Alguém deixou de ler e respeitar Gore Vidal por conta disso? Embora não há um ser no meu círculo de amizades que leu ou lerá Gore Vidal. (Talvez se interesse no futuro, vai saber, por algo escrito por Al Gore.) Há homens heterossexuais que vislumbram bravura no ato da sodomia masculina. “Porra, um cara que agüenta um pau de negão de 30 centímetros e, ainda por cima, ou por baixo, sente prazer no ato, tem que ser muito macho!” Sério? Acredito que o homem cujo bumbum agüenta um pau de negão de 35 centímetros, e ainda sente prazer no ato, tem que ser muito gay. Ser gay nada mais é que agüentar um pau de 49 cm e ainda sentir prazer no ato. O gay só é gay porque gosta de currar e ser currado por homens. Ninguém é gay só pelo fato de gostar de Patrícia Marx. Ok, me rendo, antes de fazer a pergunta a si mesmo, admito, gosto de Patrícia Marx, Quando Chove é uma música que toca profundamente o meu coração, não só o meu coração mas o coração e o cóccix de dez décimos da Parada Gay. Tanto Patrícia Marx quanto Bryan Adams – é, ele também -, Wilson Phillips (não conhece? Corra atrás. Sonzeira bem... de boa), Boyz II Men (Wesley Snipes ouve Boyz II Men quando está com o coração partido, tá!), The The (resumo: o Deus da música), Banda Beijo (peguei pesado, né? Eu sei, mas Baianidade Nagô é uma música que inexplicavelmente me faz cantar, eu sei a letra toda, cara, é uma vergonha, esse momento é um divisor de águas na minha biografia, nunca contei a ninguém, vocês são as primeiras pessoas a que conto, vocês... três leitores que leem esta porra!), Dionne Warwick (meu brother, se você não derrama nem uma mísera lágrima toda vez que ouve That’s What Friends Are For, você tem um cacto moribundo no lugar do coração), 4 Non Blondes (todo mundo se achava “cool” ou “cuuullll” ao cantar What’s Up!) e... Zélia Duncan (não vomite, senão vou vomitar, depois desta última “surpresinha”, mereço vomitar na minha própria cara!) me impelem a lembrar de uma época que o significado da palavra “relaxar” era tomar banho de banheira sozinho (só para constar, não pegava ninguém), ouvir rádio FM (entendeu?) e criar um estratagema para extravasar o amor que sentia por Renata Yumi (ainda não tinha “me” inventado a punheta). Na boa, eu tinha 11 anos e não tinha controle nem sobre o meu corte de cabelo, como vocês dois podem exigir uma “maior” qualidade no meu gosto musical pré-adolescente? “Fale por você, carinha, eu, quando tinha 9 anos, veja só, 9 anos, já escutava John Cage.” Ouvia o quê, 4’33”? Não fode, caralho, com 9 anos to ligado que tu escutava Copacabana Beat trancado no quarto e possuía a latinha das 7 Melhores da Pan. Tão vendo? Este é o problema do homem que está mais próximo da meia-idade e mais distante do saudoso período em que tinha meio-metro e nem meia-preocupação com a vida e nem meia-obrigação de correr atrás de meia-entrada para dormir no meio do filme: ele esconde o passado púbere como se fosse o Phil Anselmo antes do Pantera ser O Pantera.