segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Pesadelo em Limeira - o dia em que a esperança morreu logo na chegada - Parte 3

Repórter: Arno Palumbo, o que o faz ser um profissional-bem sucedido?
Arno Palumbo: Eu não sou um profissional bem-sucedido.
Repórter: Então, para o senhor, o que é um profissional bem-sucedido?
Arno Palumbo: Um cara que tem a cara de pau de cobrar o que ele pede!

Trecho da sublime entrevista de Arno Palumbo na 907º edição da revista Pariu Review.

Além de serem de um otimismo repugnante, mesmo quando alguém morre de embolia pulmonar, os romances/peças/histórias indie nacionais cometem um pecado que jamais seria expiado seu eu fosse o patrão da boca do confessionário: eles teimam em transportar a atmosfera do primeiro mundo para as tramas do nosso combalido terceirão. Se há de fato um emo do século XXI que existe desde os anos 80 que merece tomar um tapa estridente na cara é o indie brasileiro. A molecadinha emo maquiada do novo século que é encarada com ojeriza por qualquer gordinho míope corcunda com a camiseta com a estampa da Patti Smith inchada de cachaça come mais mulher agora do que eu jamais comerei na minha vida inteira. Eu fui a um show do The Draft há uns sete anos que tinha uns moleques de treze anos pegando umas quatro minas ao mesmo tempo. Eu sei também que eles gostam de dar a bunda, se vestir como as groupies do Mötley Crüe e beijar garotos ouvindo Tokio Hotel no motel, mas para quem gosta de dar a bunda e beijar garotos ouvindo Tokio Hotel no motel vestido como uma piranha californiana dos anos 80 dar a bunda bastante e beijar garotos ouvindo Tokio Hotel no motel deve ter um significado de que as coisas estão fluindo conforme os planos de existência. Olha lá nos livros do André Takeda. Olha lá nas peças do Felipe Hirsch (ou melhor, olha lá nos livros que ele copia para fazer as peças. “Meeeeeeeu, é mashup, maluco”, “Mashup é o meu saco enrugado, filho da puta! Vou comer a tua mulher e dizer que é Mashup”). Olha lá na trigésima terceira página do diário daquela mina esquisita que parecia a Angela Merkel e que não falava com ninguém na faculdade e que sabia até o tipo sanguíneo do Kevin Shields, do Myyyy Bloooood Valentiiiiiiine: a vontade de fazer um épico sonhador algodão-doce cor-de-rosa com a roda gigante de Coney Island iluminando de fundo as traquinagens fedendo a rosa de defunto do Morrisey.

São Paulo não é Nova Iorque. São Paulo não é Londres. Central Park não é o Parque do Ibirapuera. A Praça da República de madruga é o Jurassic Park. Brooklyn não é o Brooklin Paulista. Tudo começa que aqui não tem outono. As folhas não caem nos nossos parques repletos de mendigos tarados e a Winona Ryder não cai num colchão de folhas marrons-amareladas no mês de outubro antes de morrer de câncer. Os táxis não são amarelos e os motoristas não estão temperados com molho curry. Não tem show do Bright Eyes toda semana na distância de trinta pedaladas e o CBGB não teve que fechar as portas para se transformar num condomínio de luxo. A Rua Augusta não é a Greenwich Vilagge e o metrô não funciona 24 horas por dia. Santos não é Califórnia. Até isso já aconteceu: “Santos, a Califórnia brasileira”. Com aquela areia de manguezal? “Santos, a Califórnia brasileira.” Com quem? Com o White Frogs? “White Frogs, o Descendents brasileiro?” Só se for: “White Frogs, o Descendents... do Marapé”. Na boa, gente do caralho, vamos nos colocar no nosso encardido lugar. Aqui o nosso Papai Noel é negão, viciado em crack e pretende não voltar para a cadeia após o indulto do Natal. Aqui nóis anda descalço e as véia carregam as compras nas costas. Aqui os nossos guardadores de carro comem lixo e enxáguam a boca na poça d’ água. Aqui os nossos cavalos e os nossos cabritos e os nossos cabritinhos atravessam a avenida principal no horário do rush e as nossas Barra Forte conseguem carregar uma família de seis pessoas em uma única viagem. Aqui a neve fica pendurada nas sacadas dos prédios e é feita de isopor. Aqui nóis corre para não sermos atropelados por caminhões sobrecarregados por containers repletos de refugiados nigerianos e macaenses, por motos conduzidas por motoboys com crista de galo, por bicicletas manobradas por grávidas alcoólatras com hepatite B, por Fuscas abóboras 62 atulhados de papelão e cinco ninhos de baratas, por ônibus desconjuntados pilotados por motoristas de ônibus enfurecidos por serem motoristas de ônibus, enquanto a nossa Havainas chicletuda arrebenta bem no começo da faixa de pedestres com a tinta gasta. Aqui a nossa arte de rua tinha como referência a vanguardista obra de autor desconhecido de uma sereia obesa com o rosto do falecido Bussunda e a cabeleira loira similar às infinitas perucas da Elke Maravilha no murão branco do Sobre as Ondas. Aqui as nossas garçonetes andam descalças e os nossos cozinheiros trocam o sal por cocaína nas nossas porções de batatas-fritas siamesas. Aqui as nossas prostitutas não andam de casaco de pele e nem tem cabelo black power e os nossos cafetões não andam que nem o Big Boi com uma AK 47 na costas. Aqui as nossas prostitutas são chamadas de putas ou de putas mendigas e se vestem de cueca borrada com um cobertor que fede a mijo de rato e possuem o cabelo da Sigourney Weaver em Alien 3 e cobram cinco reais por uma chupeta meeeeeega poluída no meio da rua (dez reais se quiser gozar dentro da boca pelada de dentes) sob a marquise da academia Flex e os nossos cafetões são como as crianças mártires dos romances de Plínio Marcos armados com um metal pontudo cheio de tétano no cós do shorts verde florescente do Mário Bros e com a pistola quebrada de matar patos do Phantom System.

Por mais que o pessoal das capitais do sudeste e do sul do Brasil nos olhem de soslaio como Gremlins bronzeados com um cardume de sardinhas salpicadas de óleo diesel escondido no interior de nossas bermudas floridas de tactel, nós não nos damos ao luxo idiota de agir como islandeses japoneses molhados pela chuva ininterrupta de Seattle tomando um cafezinho em uma ruela de Paris enquanto imaginam se um dia a Kim Deal irá explodir dentro do apê decorado com obras adquiridas na Galeria Vermelho a uma quadra da Cracolândia: nós assumimos a nossa torpe repugnância. Por isso que o meu vizinho de longa data não achou nada de mais em fazer um gato da minha T.V a cabo e da minha internet banda larga. Por isso que o meu outro vizinho amarrava com uma corrente em volta da lixeira a sua cadela vira-lata no cio chamada Shakira para um bando de cachorros vira-lata no cio a cercarem e batalharem para ver quem conseguiria estocá-la primeiro. Por isso que o mesmo vizinho batia uma bronha no seu rottweiler. Por isso que o meu antigo vizinho que morava na casa da frente da minha um dia apareceu pelado e com uma venda nos olhos na varanda do seu imponente sobrado porque estava brincando de esconde-esconde sexual com a sua amante (“ó, galerinha mais ou menos, eu vou pedir um favor a vocês: caras, pelo amor de Deus, não me chamem em casa hoje à tarde, vai vir uma mina aqui que to pegando, uma moreninha safadinha lá do colégio, o meu pai viajou, então eu to sozinho, a gente vai ficar pelado, eu e ela, eu vou pedir para ela amarrar uma venda nos meus olhos, depois eu vou pedir para ela se esconder enquanto conto até 50, quando acabar de contar, eu saio correndo atrás dela”). Por isso que um antigo segurança cocainômano que trabalhava na rua pintou de branco só um lado do meio fio da rua e só um lado dos postes da rua e saiu batendo de casa em casa do lado da rua que ele havia pintado cobrando pelo serviço que ninguém havia pedido a ele. Por isso que uma outra vizinha guardava no saco plástico dos supermercados Peralta a cagada de uma semana do seu fila deixada no quintal e saía na madrugada de sábado para domingo jogando toda a bosta nas calçadas das outras casas. Por isso essa é A HISTÓRIA DE UM BREVE ROMANCE INDIE CHEIO DE PUTARIA GRUDENTA!

A história de um breve romance indie cheio de putaria grudenta – Parte 1

Eu não sei quando o indie guarujaense começou. Ou se sequer começou. Talvez tenha sido na época em que o Mad era o caçula da turma. Não me recordo de nenhuma banda indie que tenha nascido aqui. Lembro de bandas de rapcore. Lembro de bandas de hardcore. Tanto hardcore pedreiro quanto hardcore do amor. Lembro de bandas de reggae. Bandas de metal. Metal melódico, metal capeta, death metal, trash metal, doom metal e metalcore. Rock estradeiro. Punk. Até punk teatral. Emocore. Screamemo. Rap. Grunge. Rock instrumental. Caiçarock. Mas não lembro de nada indie. De nada esnobe. De nada cachecol em Vicente de Carvalho na praça 14 Bis. De nada com nome de jogo do Atari. Lembro de vinho branco de supermercado popular com taça de plástico no Tombo. Mas não era uma manifestação de um indie. Indie não é da moda. Indie odeia o que todo mundo gosta. Indie esnoba tudo que já idolatrou um dia porque agora todos idolatram o que ele idolatrou junto com outros três amigos virgens que dividiam infidelidades imbecis no Mirc. Indie tem vinil. Indie tem fita-cassete. Indie chora ao ouvir uma melodia. Indie descola a cueca do fundo do rabo desgrenhado. A linha é muito tênue entre o indie presunçoso e o viciado em RPG. Indie é um porre. Mas ele pode ser um amigo seu. Um amigo fiel. Sumido, assumido, mas fiel. Um gigante emotivo. Eu, definitivamente, perdoem-me qualquer injustiça, qualquer armadilha da memória, não lembro de nenhuma banda indie guarujaense. Mas conheço talvez o maior indie de todos os tempos da história do Guarujá. Grande mesmo: tem quase dois metros de altura. Um pacote completo. A peça chave para a história de um breve romance indie cheio de putaria grudenta: vos apresento Carmelino Pão e Vinho (sim, ele existe).

Conheci Carmelino Pão e Vinho junto com o UNESCO (UNESCO existe, embora talvez ele tenha se esquecido desse detalhe). E me deu medo. Ele tinha treze anos, já tinha quase dois metros, ele estava muito barbudo, ele estava muito cabeludo, ele estava com uma camiseta muito preta do Megadeth e ele estava com muita cara de quem tinha acabado de acordar de um sono muito profundo – a palavra que me veio à mente ao vê-lo pela primeira vez foi CAVERNA! E ele tinha um cachorro muito feio e muito bravo chamado Sabbath (que Ronnie James Dio o tenha adotado no céu, pequeno filho da puta Sabbath). Fomos atrás de Carmelino Pão e Vinho porque descobrimos pelo Telmo que ele tocava guitarra pra caralho. Eu e o UNESCO acabávamos de desmontar uma banda que tinha um guitarrista maluco que ia para o ensaio vestido de ninja e que depois virou uma bichona de verdade.

Todo mundo na família de Carmelino Pão e Vinho é gigante. As origens de Carmelino Pão e Vinho são de algum lugar da Romênia perto da região da... Transilvânia. (É um absurdo que depois de todos esses detalhes macabros nós tenhamos montado uma banda de surf music super bem-humorada. A banda chamava-se Recos e nós tocávamos a versão surf-music da música do Batman.) A mãe de Marcelino Pão e Vinho é uma senhora muito simpática. Ela é dona de um coléginho de educação infantil dentro do qual nós fizemos várias festas na adolescência. Como não conhecíamos quase nenhuma menina a não ser as irmãs dos nossos amigos, que eram tão atraentes quanto nossas próprias irmãs, nós convidávamos as minas que passavam pela nossa rua voltando da igreja evangélica. As festas na escola da dona Carmelina Pão e Vinho consistiam em um monte de crentes banguelas comendo e bebendo às nossas custas que ficavam dando gargalhadas com uns pedações de coxinha de frango presos nas infeccionadas gengivas, de um grupinho de caras estilosos que não sei quem havia convidado que ficavam dançando charme, a trilha sonora da novela Quatro por Quatro na vitrola que não sei quem havia colocado (eu, quem sabe, C&C Music Factory é muito legal) já que éramos caras maus do rock, uma mina da rua de trás cujo estranho apelido era Bicudinho (tirem as suas próprias conclusões), uma outra mina que morava numa casa irregular que parecia um quiosque pós-Tsunami cujo apelido era Chulé (tirem as suas próprias conclusões), uma outra mina que morava na mesma rua do coléginho cujo apelido era Oboé (Google + Oboé + Imagens = Você vai sacar), um segurança maluco conhecido como Roca que era muito fã da nossa banda (o único fã, por sinal, ele ficava pulando que nem um retardado quando ouvia aquela porra ruidosa que a gente tocava e ficava enfiando o dedo do meio na veia grande do braço como se estivesse se drogando) cuja inteligência era uma lástima pelo fato de ter comprado do Saulo um pedaço muito pequeno de silvertape por 20 reais (Saulo vendia pipas por cinco reais na época em que a cerveja custava cinco centavos, Saulo empinava pipa e um dia foi cortado por uma mina, Saulo empinava pipa e um dia foi cortado por um moleque que só tinha um braço, Saulo vendeu uma prancha de surfe de isopor para um menino dizendo que era a prancha que o Kelly Slater havia começado). Não podia faltar a constrangedora parte das músicas lentas por meio das quais as crentes faziam a festa. Todo mundo pegava todo mundo. Homens com homens e mulheres com mulheres. Mentira. UNESCO salvou muitas crentes nessas festas. Eu algumas vezes salvei uma ruivinha nessa festa. “Se deu bem, uma ruivinha.” Ela parecia um buldogue. O pai de Carmelino Pão e Vinho nunca foi muito com a nossa cara. A irmã de Carmelino Pão e Vinho é advogada e é totalmente do metal. Ela se casou de preto e entrou na cerimônia matrimonial ao som Stairway To Heaven. O irmão de Carmelino Pão e Vinho era totalmente alucinado. Ele cursou agronomia na USP de Piracicaba e ficou dois anos sem por o pé na faculdade embora continuasse recebendo mensalmente o dinheiro do pai. Ele tinha um amigo conhecido como Esqueleto que nos disse que tinha tomado cogumelo na cobertura de um prédio e que os prédios em torno se transformaram nos Transformers. A imagem mais vívida que tenho do irmão de Carmelino Pão e Vinho foi quando ele arrancou todos os botões de sua camisa social, abriu os braços e ficou cantando a plenos pulmões Samba Makossa no Bafo da Onça. UNESCO passou um réveillon na residência dos Pão e Vinho e achou tudo muito estranho: “Quando deu meia-noite, eles não fizeram porra nenhuma, a cidade estourando lá fora, virgens senso descabaçadas, pessoas morrendo atropeladas, pessoas sendo esfaqueadas, esposas traindo os maridos, maridos traindo as pessoas, bacanais, barcos afundando, gente vomitando, animais sendo sacrificados, castanhas sendo trituradas, bebês sendo queimados por estilhaços de fogos de artifício, gente saudável virando aidética e nós tomando vinho branco e ouvindo o último cd do Richard Clayderman”.

Set List do primeiro show do Recos na minha festa de debutante que aconteceu na minha casa
1) Born To Be Wild – Steppenwolf
2) Recos em Gotham City – nossa adaptação surf music para a música do Batman
3) Banana – os Ostras
4) When I Come Around – Green Day
5) Jardins da Babilônia – Rita Lee
6) Puteiro em João Pessoa – Raimundos
7) Bombtrack – The Rage Against The Machine
8) No Sleep Till Brooklyn – Beastie Boys

Carmelino Pão e Vinho sempre foi um cara calorento. Nós íamos muito ao shopping La Plage na adolescência para fazer alguma coisa na qual agora, e daqui para a frente, não consigo encontrar nenhum sentido. Qual o sentido de beber gin pura? Qual o sentido de ficar vendo conhecidos na Elite arrancando sangue um do outro? Qual o sentido de ficar vendo aquela porra falecida do Durepox agindo como escroto? Qual o sentido de dar risada de alguma atitude que o Guimba tomou? Qual o sentido de ficar deitado, bêbado, no chão do shopping La Plage? Qual o sentido de olhar o UNESCO vomitar uma rodela de tomate intacta? Qual o sentido de uma mina parecida com o Sílvio Santos tirar as calças na minha frente, mijar na minha frente e eu não fazer nada? Qual o sentido de pegar uma mina parecida com o Sílvio Santos? Qual o sentido de ser apelidado de Piniquinho? Qual o sentido de ficar escrevendo estas merdas? Qual é o seu sentido? Qual é o meu sentido? Qual é o sentido da vida? Tudo tem que fazer sentido? Carmelino Pão e Vinho andava sempre do mesmo jeito: cabelo comprido que quase chegava aos ombros, camisa social xadrez de manga curta, bermudão branco, ou preto, com bolsos grandes nas laterais, e o indefectível Adidas branco com as listras pretas todo remendado. Para arrefecer o calor, ele ia ao banheiro do shopping, tirava a camisa xadrez, abria a torneira, colocava a camisa embaixo da torneira e só a fechava quando a camisa estivesse encharcada. Depois ele colocava a camisa no corpo como se nada tivesse acontecido. Muito nojento. O que me leva a uma questão crucial: como Carmelino Pão e Vinho virou indie?


O processo embrionário da indienização de Carmelino Pão e Vinho iniciou-se quando a mãe dele nos disse que “ele sempre foi tratado com os melhores shampoos”. Ela disse isso porque Carmelino Pão e Vinho permitiu que UNESCO depenasse as suas madeixas metaleiras. Após o corte, Carmelino Pão e Vinho disse: “Nossa, ficou da hora, a minha mãe vai ficar muito feliz, ela não agüenta mais me ver de cabelo comprido”. O inevitável porém é que ele só tinha visto a parte da frente do corte. A parte de trás, que foi delicadamente extirpada com uma gilete Bic quase cega, fez a nuca de Carmelino Pão e Vinho parecer uma imberbe buceta assada vítima de um violento estupro coletivo perpetrado por todos os componentes da Associação dos Mecânicos Tarados Bem Dotados. Carmelino Pão e Vinho ficou meses sem sair de casa. Quando saiu, ele não era mais o mesmo.

Nós nos considerávamos punks. Sujos. Se bem que nós gostávamos de nossa comida quentinha e de sermos cobertos até o queixo numa noite fria e de recebermos um beijinho na testa de nossas mães e um reconfortante “durma com Deus, meu amor”. Mas as minhas unhas eram sujas. E o meu ídolo era o Sid Vicious. E o que o Sid Vicious fazia? Se comportava como um completo idiota. E o que eu fazia? Me comportava como um completo idiota. Eu cuspia nas mãos e passava na cara. Eu arrumava a corrente da minha bicicleta e limpava as mãos cheias de graxa no rosto. Eu comia pão de mel sob as tempestades de verão. Eu fugia de mulher. Na festa de 13 anos da Carolzinha, três meninas gatinhas quiseram ficar comigo. Eu fugi das três. Eu fazia de tudo para ser sujo. Eu deixava de tomar banho. Não cortava as unhas. Não penteava o cabelo. Falava tudo errado e quase sempre era um palavrão. “Por que você não quer ficar comigo?” “Você tem cara de piroca.” Mas elas queriam ficar comigo. Por mais que não lavasse os cabelos, eles continuavam lisos. E compridos. Eu não cortava os cabelos. Eu fui considerado na sétima série o mais gatinho da classe. Empatado com o Testa. Quando você é considerado o cara mais gatinho da classe junto com um cara conhecido como Testa, você não é tão gatinho assim. Mas não trabalhei em prol da minha escrotidão para ser convidado por uma mina que eu nem conhecia para ser o par dela na festa de quinze anos da melhor amiga dela que eu também não conhecia. Eu não trabalhei em prol da minha escrotidão para a minha vizinha da frente deixar uma cartinha - “Léo, o carteiro passou aí na sua casa e colocou uma carta na sua caixa de correio”, “No domingo?”, “É, bem... não sei... tchau” – de amor muito estranha que começava mais ou menos assim: “Querido Léo, desde a primeira vez que te vi, eu comecei a gostar de você. Agora, dois anos depois de nos conhecermos, é que comecei a gostar de você, antes eu não gostava”. Quê? E terminava assim: “Leo, te amo, ‘Miu’ beijos!!!!!!!” Miu? Eu fugi dela também. Ela era esquisita. E depois ficou gostosa. Mas não me arrependi. Eu estava apaixonado. Apaixonado perdidamente por mim. “Se o seu amor depende do tamanho do amor que você sente por si mesmo, você não sofrerá desilusões.” E Freud estava certo quando disse isso. E Freud não estava certo quando disse isso porque não foi Freud que disse isso: fui eu. Eu era muito feliz. Fedido + descabelado + catarrado = Feliz. Eu não estava interessado em mulheres. Elas não eram uma prioridade. E talvez pelo modo desdenhoso que eu tratava as mulheres, elas se sentiam atraídas por mim. E talvez pelo fato de chegar ao cúmulo de bater punheta pensando em garotas falecidas. E talvez pelo fato de chegar ao cúmulo de bater punheta pensando na atriz britânica Helen Mirren. E talvez pelo fato de todos os livros que li (e não foram poucos) não chegarem a um décimo de todas as punhetas que já bati. E talvez pelo fato de chegar à excentricidade de bater punheta enquanto ouvia Gipsy Kings. E talvez pelo fato de chegar ao cúmulo de bater punheta pensando naquela mulher excessivamente carnuda que horas atrás dava de mamar para um bebê no metrô. E talvez pelo fato de chegar ao cúmulo de, após finalizar uma punheta com sucesso, limpar a mão na bíblia sagrada. E talvez pelo fato de chegar ao cúmulo de bater punheta assistindo a um mangá erótico. E talvez pelo fato de chegar ao cúmulo de sonhar que estava batendo punheta e acordar batendo uma punheta. E talvez pelo fato de ter chegado ao cúmulo de, antes da internet, ligar para o tele-sexo para bater punheta enquanto uma voz gravada de mulher safada contava uma história estúpida ao mesmo tempo em que levava a minha família bem próxima da bancarrota devido à conta do telefone. E talvez pelo fato de ter chegado ao absurdo de ter colado todas as páginas da primeira Playboy da Mônica Carvalho. E talvez pelo fato de ter cometido a repugnância de colar um recado na geladeira com o próprio esperma. E talvez pelo fato de ter saído para a balada com a cueca toda gozada. E talvez pelo fato de ter batido punheta com a mão esquerda adormecida enquanto discutia os rumos da política estudantil pelo telefone com uma comunistinha chata da minha classe cujos peitões mais pareciam dois Pogobols convulsivos. E talvez pelo fato desmoralizador de já ter sido pego no flagra pela própria mãe enquanto batia punheta. E talvez pelo fato de já ter tido a pachorra de passar pasta de dente no pau para variar a punheta. E talvez pelo fato de não ter se preocupado com aquela mancha de sabonete líquido na camiseta azul-marinho que na verdade era fruto de uma punheta maluca. E talvez pelo fato de ter chegado ao estágio vergonhoso de ter dormido enquanto batia uma punhetinha. E talvez pelo fato ainda mais vergonhoso de ter broxado enquanto batia punheta, elas pararam de ficar interessadas em mim e passaram a ficar interessadas nos caras que não estavam tão assim, digamos, estuprador pra elas. Passaram a ficar interessadas nos caras que fingiam que não estavam interessados nelas. Porque eu não fingia. Eu estava pouco me lixando para as minas. Eu estava mais interessado em arrotar na cara de qualquer testemunha de Jeová que viesse me acordar no domingo de manhã. Quando passei a me interessar, eu me interessei muito, eu me interessei tanto que cheguei a acordar gozado depois de sonhar com uma mina que nunca tinha visto na minha vida. Carmelino Pão e Vinho não teve esse azar. Ou essa sorte. Fica a critério de cada um. Ele voltou do seu retiro imposto pela sua mãe e, ao tocar no violão, as primeiras notas que saíram dali foram premonitórias. E catastróficas. Ele tocou More Than Words, do Extreme, fechou os olhos e meio que chorou. Carmelino Pão e Vinho estava mudado. O amor muda tudo. Miranda fudeu com tudo! Miranda não existe!



(Continua na próxima segunda-feira.)

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Pesadelo em Limeira - o dia em que a esperança morreu logo na chegada - Parte 2

“O amor é Lindo
O amor é Foda
Todos amores lindos acabam em foda
A metade do amor fodendo a outra metade.”

Trecho do livro Cartinhas Perfumadas: bosta, esperma, pus, urina esverdeada e muito gloss, de autoria de Arno Palumbo, editora Gostosa mas sacal.

Eu faço parte desta história. Mas não sou o protagonista. Sou um mero coadjuvante divertido. O homem que descontrai as situações embaraçosas embaraçadas no nó da garganta dos envolvidos. Não sou afeito a descrições. Elas fazem com que a imaginação morra. Contudo, neste caso, a imaginação terá que morrer em sacrifício aos fatos irrevogáveis das péssimas notícias.
Estamos em 2004 e nós não estamos em 2004. Quem é 2004? Onde fica 2004? O que nos dará 2004? Mulheres? Mulheres? Mulheres? Dinheiro... e mulheres? Dinheiro atrai mulheres? Porque em 2004 eu necessito de mulheres. Eu estou desesperado em 2004. Eu leio em 2004 e os livros que leio estão repletos de sexo. Onde está o sexo em quem me lê em 2004? 2004 vem com sexo embutido? “Senhor, perdoe-me, mas por falta de utilidade, teremos que transformar o seu pau em pingente.” “Senhor, perdoe-me, mas por falta de iniciativa própria, precisamos do seu pau para salvar o unicórnio.” “Senhor, perdoe-me, necessito do seu empoeirado pau para implantá-lo sob a minha axila esquerda para transformá-lo na minha nova obra de arte.” Eu aprendi palavras novas em 2004: curro, felação, intercurso, sodomia e onanismo. Eu quero amor em 2004. Eu sempre quis o amor em 2004. Eu quero o meu amor de quatro em 2004. Eu sempre quis o amor em 2005. Em 2015. Em 94. Em 98. Em 1967. Em 1830. Em 2000, ele surgiu e desapareceu como uma prostituta amadora assassinada com vida. Onírico, idílico, matrimônio, passional e Provence. Em 2004, eu batia punheta desde 2004 anos antes de 2004. Eu colecionava punhetas. Punhetas holandesas. Punhetas suecas. Punhetas africanas. Punhetas orientais. Punhetas abastadas. Punhetas pobres. Punhetas submissas. Punhetas temperamentais. Punhetas poetisas. Punhetas analfabetas. Punhetas cheirosas. Punhetas famosas. Punhetas imaginárias. Punhetas criativas. Punhetas vespertinas. Punhetas notívagas. Punhetas matutinas. Punhetas onipresentes. Se houvesse uma Copa do Mundo de punheta em 2004, eu não seria convidado, seria considerado Hour Concour. Se houvesse uma Copa do Mundo de punheta, ela teria que ser disputada todos os dias. Se os superatletas têm o Iron Man, os punheteiros teriam Gold “Hand” Man. Ou Big Mustache On the Man’s Hand. Ou Fuck You, Gillete, My Hand Is Ok. Ou Jungle Hand. Ou ZZ Top Hand. Ou Rick Rubin Hand. Eu compunha um trio em 2004. Um ménage à trois composto só por homens. Um ménage à trois sem sexo. Um ménage à trois de papos futebolísticos. Um ménage à trois corintiano. Um ménage à trois de filosofia de bar. Um ménage à trois sem vontade de tomar banho. Sem vontade de pentear o cabelo. À vontade em deitar na rua tal qual um mendigo de classe média. À vontade de dizer com vontade a vontade de satisfazer a vontade e ofender quem satisfaz a própria vontade. Eu, Telmo e Nestor. Esta história é sobre Nestor.

C O~~~O R

(Esta é uma obrinha de ficção. Bem pequenininha. Em importância e em magnitude artística. Desde já atesto que pouquíssimas pessoas, muito poucas pessoas meeeessssmo, lerão o que está escrito aqui. Se alguém se sentir retratado nesta história, retratado de modo injusto, está se levando demais a sério. Obrigado.)

Percebo agora, enquanto me distraio escrevendo esta merda, que 2004 talvez tenha sido o ano mais intenso da minha vida. No entanto, a minha intensidade nada tem a ver com a intensidade de uma jovem socialite siliconada solta e sem calcinha pelas ruas de Los Angeles. Na minha intensidade, não acontece quase nada. Mas só esse “quase” já significa muito pra mim.
Esta história que irei contar agora não tem relação direta com a história principal, a triste história do Nestor. Esta história que irei contar agora, no entanto, também ocorreu em 2004. E, para minha surpresa, só agora me dei conta que ela aconteceu no mesmo dia em que começou a derrocada Nestoriana. Foi num domingo de junho. Enquanto a derrocada Nestoriana deve ter começado às 19:30, a história que irei contar agora começou um pouco depois das cinco horas da manhã e acabou lá pelas sete da manhã. Ela começou no sábado, em Santos, se estendeu numa balada, o sábado virou domingo, o domingo amanheceu, deu uma parada no Fran’s Café, voltou para o Guarujá e não conseguiu dormir. Eu tinha a história comigo. Eu tenho a história comigo. EU comecei no sábado. EU comecei no sábado em Santos. EU me estendi na balada. EU percebi que o sábado estava se transformando em domingo. EU vi o domingo amanhecer. EU dei uma parada no Fran’s Café. EU inclusive desabei estranhamente da cadeira do Fran’s Café. EU voltei ao Guarujá. EU não consegui dormir. Eu tinha que ser o primeiro a contar a história. Eu vi tudo. Qualquer um poderia ter visto, mas eu fui o escolhido. EU. A imagem não saía da minha cabeça. O dia foi longo. Cansativo. Mas eu não estava cansando. Eu precisava de um megafone e de um palanque. Eu vi tudo. Tudo. Em câmera lenta. Olha só, agora a imagem está passando pela minha cabeça, ela é minha, só minha. Eu fiquei deitado de olhos bem abertos. Com a cabeça apoiada sobre os meus braços cruzados e um sorriso canalha rasgando o meu rosto. Um sorriso maquiavélico e um esfregar de mãos. Eu vi. Eu vi tudo. Eu tinha que contar a história primeiro. Eu vi tudo. Eu fui o escolhido num ângulo privilegiado. No lugar certo, na hora certa, a pessoa certa fez tudo errado bem na frente da pessoa errada. Bem na minha frente. Eu esperei dar 10:00 para pular da cama. Para pular o café-da-manhã. Para atravessar o portão da frente. Para correr até a casa de quem? Hein? De quem? Adivinha? Do Nestor. O Nestor foi o primeiro cara a ouvir a história. Esta história. A minha história. Viu? O primeiro cara a ouvir a minha história que aconteceu no mesmo dia em que começou a sua triste história.
Eu: Tu não sabe.
Nestor: O quê?
Eu: Cara, é muito foda.
Nestor: O que foi, caralho?
Eu: O Rick...
Nestor: O que aconteceu com ele?
Eu: Cara, o Rick...
Nestor: Fala logo, porra!
Eu: O Rick ficou... nossa, é demais até pra mim.
Nestor: Ficou o quê, cacete?
Eu: Cara... acho que não vou conseguir contar.
Nestor: Não, não, agora conta, agora tu vai contar, fala logo, porra, tu que começou com essa merda, agora conta.
Eu: A imagem não sai da minha cabeça, tá ligado? Ela fica, cara, martelando, saca? Eu não consigo acreditar... Falow, vou pra casa tomar um banho, to sujão...
Nestor: Vai se fudê, porra, tu não vai sair daqui nem fudendo enquanto não me contar o que aconteceu...
Eu: Tá bom, tá bom.
Nestor: Que tá olhando pra mim? Conta, caralho!
Eu: Vamos lá. Um, dois, três. O Rick... o Rick ficou... o Rick ficou... o Rick ficou... levão.
Nestor: O Rick? É mentira, é mentira dele, ele é mó mentiroso com essas parada...
Eu: Eu vi.
Nestor: Tu viu? Sério?
Eu: Foi foda.
Nestor: Não acredito...
Eu: Foi selvagem...
Nestor: Sério? Meu Deusss...
Eu: Língua pra tudo que é lado...
Nestor: Até ele...
Eu: No meio da pista...
Nestor: Puta merda...
Eu: Com uma coroa...
Nestor: Tá brincando?
Eu: Loira...
Nestor: Caralho...
Eu: Olho azul...
Nestor: Tamo fudido...
Eu: CRISTINA!
Nestor: Minha Nossa Senhora... Peraí, o quê?
Eu: CRISTINA!
Nestor: A Cris... Tá louco?
Eu: CRISTINA!
Nestor: Não, não, não...
Eu: CRISTINAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!
Nestor: NÃAAAAAAAAAAAAAAAOOOOOOOOOOOOOOOO!
Eu:CRISTINAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA...
Nestor:NÃOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO...
Eu:CRISTINAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
Nestor:NÃOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO...
Eu:CRISTINAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA...
Nestor:NÃOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO...
Lembrem-se: esta história que estou contando não aconteceu. É tudo mentira. São delírios que invadem o meu cérebro de vez em quando. As pessoas não existem. O Nestor existe. O Telmo existe. O Rocambole existe. O Saulo existe. O Falcãozinho existe. O cagueta do irmão dele existe. O Cabeça Grávida de Trigêmeos existe. Mas quem é Rick? Quem é Cristina? Ou melhor, quem é Cris? Ou muito melhor, quem é Ce? Eu os inventei. Eles são fruto da minha falta do que fazer. Dito isso, tá tudo certo? Posso continuar? Vamo embora.
Algumas coisas que você precisa saber sobre Rick:
- Rick é um cara de porte físico... menor.
- Ele é baixinho.
- Ele é fofinho.
- Dá para pegá-lo sob as axilas e colocá-lo sentadinho em qualquer muretinha ordinária.
- Rick diz que bebe muito, mas todo mundo está cansado de saber que dar um copo cheio de cerveja a Rick é ceder novas fronteiras ao mosquito da dengue.
- Não queira ver Rick mergulhando o corpo em qualquer superfície aquática e depois emergindo com aquela careta linda.
- Sempre desconfie quando Rick disser: “eu preciso ir para o centro de Santos para pagar umas contas para o meu pai”.
- Não chame Rick para fazer parte do seu time de futebol.
- A última vez que ele jogou futebol ele conseguiu marcar dois gols contra num intervalo de dois minutos entre um gol e outro em uma partida de dois gols ou dez minutos.
- Se Rick lhe oferecer uma carona, não aceite, ele não sabe o que faz dirigindo aquela porra da Wolksvagen sem amortecedor.
Rick e os seus múltiplos sotaques:
- Quando Rick nos concede a honra de estar aqui, no Guarujá, ele mescla o caiçara com o paraibano, praticamente (praticamente? Não me inclua nesta categoria) a língua oficial do Guarujá: o Caiçaribano.
- Quando está em Santos, ele é carioca, e ele não é Rick, lá ele tem outro nome, outros apelidos, outros gostos (exemplo: Marroon 5), ele tem outra história, outros amigos, nem tente cumprimentá-lo em Santos porque lá ele não se permite te cumprimentar.
- Quando está em São Paulo, Rick é caipira, mas tem lapsos de carioca. A porrrrrrta pode ser “porrrrta, porrra!”, “porrrrta, vagabuuuunda”, “porrrrrta, méeeeerrrrrda”.
- Quando tem mulher por perto, ele não é só carioca, também é marrento. Ele fala como se tivesse lombrado no Posto 9 em Ipanema enquanto tira a camiseta e alisa o corpo como se tivesse um corpo digno de ser alisado no Posto 9 em Ipanema.
- Se Rick tirar a camiseta na sua frente, você verá que ele tem uma pançinha.
- Se Hollywood tem Rick Moranis, Cabeça Grávida de Trigêmeos: “Nós temos o Rick Pançanis”.
- Rick já foi de blazer quadriculado da Adidas ao Pastel do Trevo.
- Rick já tomou um soco no gogó do Telmo.
- Rick sofria bullying da molecadinha da terceira série do Almeida Júnior.
- Rick estava na sétima série.
- Rick quase morreu quando xingou de filho da puta um colega nosso cearense de 42 anos com 1,90 de altura e 180 quilos de largura por causa de um jogo de poker que valia uma coca-cola de dois litros.
- Presumo que ele quase tenha morrido por conta da tardia descoberta do ofício desse misterioso colega.
- Ele era matador de aluguel. Fora isso, era um cara legal, pagava tudo.
Rick e as baladas:
- O comportamento de Rick nas baladas é um caso que merece ser analisado pelo Dr. Cal Lightman, da série Lie To Me.
- Acompanhar Rick na balada é quase a mesma coisa que ir sozinho.
- O diferencial é que no final da balada ele não aparece como Rick, mas como a mais diabólica de suas múltiplas personalidades: Pinóquinho.
-Ele some no começo da balada para reaparecer no final e dizer: “Caralho, bróder, peguei uma loirinha...”
- Ele some no começo da balada para reaparecer no final e dizer: “Compadre, o dia já raiou e o meu galo cantou numa morena puro-sangue...”
- Ele some no começo da balada para reaparecer no final e dizer: “Vixi Maria, neguinho, aquela baianinha num queria me deixar ir embora”.
- A baianinha ficou conhecida como a Baianinha Virtual.
- A moreninha ficou conhecida como Se Engana que A Gente Finge que Acredita.
- A loirinha ficou conhecida como a Ilustríssima Mentira.
- Quando o Pinóquinho entra em cena ele sempre está acompanhado por outra de suas ardilosas múltiplas personalidades: Pequenino David Blaine.
- Tudo o que o Pinóquinho faz ninguém vê.
- Quando o Pinóquinho faz alguma coisa e alguém vê, O Pequenino David Blaine não deu as caras. Quando o Pinóquinho faz alguma coisa e alguém vê, ele não é mais o Pinóquinho, mas a realidade nua e crua e nada glamorosa de Rick.
- A Síndrome de Pinóquio é uma praga difundidíssima na sociedade masculina da Baixada Santista dos 15 aos 37 anos de idade.
- Quando um amigo seu chega pra você... Vos apresento Negão!
- Negão era um cara que sempre criticou a minha pregressa conduta de jovem infeliz romântico.
- Negão dizia “vamos sair, cara, para de ficar se lamentando pelos cantos, o amor não existe, as mulheres são ‘todas’ vadias, eu vou ficar noivo, mas eu tenho cinco amantes, fora as perdidas que eu pego nas baladas, eu tenho uísque guardado na Lucky Scope, eu sei falar o que elas querem ouvir...”
- Negão disse uma vez para uma crente do cu quente sem o dente da frente: “Eu, você e a Lua”.
- Negão é formado em psicologia.
- Quando fraturei o meu tornozelo seriamente, Negão dizia “não vai andar mais, cara, tá fudido, vai ficar manco pelo resto da vida”.
- A irmã de Negão se jogou do terceiro andar do prédio e quebrou os dois tornozelos.
- A irmã do Negão hoje é mãe e dança pagode todo sábado.
- Quando, em um passado não muito distante, eu fiquei gordinho, Negão dizia “caralho, tu tá gordo pra caralho, parece um porco”.
- Quando voltei a ficar magro, Negão dizia “parece um aidético, parece um viciado, parece que tá morrendo”.
- Quando comecei a escrever, e mostrei um texto a ele, Negão disse “falta um ponto e vírgula aqui”.
- Negão enviava a seguinte saudação ao seu clubinho do Orkut: “Um abraço, do Négo”.
- Negão enviava a seguinte saudação à sua patota do Orkut: “Manus e minas um abraço, do Negó”.
- Negão é negão e possui umas tetinhas de punheteiro super sexy.
- Negão usava o corte de cabelo super sexy do Spike Lee no filme Faça a Coisa Certa.

- Negão só andava de Nike e era fã das músicas do Will Smith.
- Negão sumiu com o meu cd importado do The Roots.
- Negão sumiu com o meu cd importado do Mos Def and Talib Kweli.
- Negão sumiu com o meu cd importado The Colour and The Shape, do Foo Figthers.
- Depois disso, quando o Negão me pedia um cd emprestado, eu dizia “não é meu, o Telmo me emprestou, é de um amigo dele de São Bernardo do Campo”.
- Negão foi PM e ele disse pra mim que “quando tem um tiroteio, eu me escondo, tu acha que vou trocar tiro com bandido ganhando um conte e meio?”.
- Negão compunha músicas Low Low Low Low Low-Fi, muuuuuito Low Low Low Low Low-Fi, uma mistura de Sid Vicious Afro com letras à la Amado Batista em sua fase mais escrota.
- Ainda me lembro do refrão de uma delas.
- “Você se foi e não voltou... pra mim.”
- O refrão dessa música foi motivado por uma mina que o obrigou a amarrar uma corda em volta do cano do chuveiro.
- A corda arrebentou e ele acabou não morrendo.
- Quando me recuperei da minha depressão romântica, eu chamei várias vezes o Negão para ir à balada comigo para nós arrocharmos as gatas.
- Negão nunca me convidou.
- Certa vez, eu o encontrei no Avelinos.
- Ele me cumprimentou rápido e disse que ia atrás de uma mina que estava esperando por ele ao lado do balcão em frente ao banheiro na esquina do hall de entrada dentro de uma caverna muito escura atrás de uma passagem secreta de uma biblioteca vastíssima de terror psicológico no subsolo além das tubulações de esgoto sob o firmamento um pouquinho pra lá da Oceania à esquerda de Bancock...
- Toda vez que me deparava com o Negão na balada, ele vinha com uma desculpa para fugir de mim (e reconheço que esta frase ficou bem gay).
- Em todos os momentos em que vi o Negão na balada em nenhum deles ele estava com uma mina.
- Prazer, Síndrome de Pinóquio.
- “Prazer, o meu nome é Negão e sou mais uma vítima da Síndrome de Pinóquio.”
- Prazer, o meu nome é Negão e eu não sou mais uma ferramenta de ficção explorada pelo Leonardo.”
- “Eu existo!”
- Cabeça Grávida de Trigêmeos, Nestor, Telmo e Dorinha (outro personagem que realmente existe. Ele não é mulher, é homem, chame-o de mulher que ele arranca a sua cabeça com uma Magnum imaginária que ele guarda no porta-luvas do carro) viram a realidade nua e crua e azeda de Rick na balada.
Algum dia do segundo semestre de 2005:
- Eu, Rick, Dorinha, Cabeça Grávida de Trigêmeos, Nestor e Telmo fomos para a balada.
- Ao entrar na balada, Rick sumiu.
- Ao entrar na balada, eu vomitei.
- No pé de uma mina.
- Ela disse que nunca mais falaria comigo.
- Eu nunca tinha visto ela na minha vida.
- Nem mais gorda nem mais magra.
- Só daquele jeito: gorda, com uma maquiagem de boneca russa e com uma gosma parecida a suco de beterraba no peito do pé.
- Dorinha, Cabeça Grávida de Trigêmeos, Nestor e Telmo foram caçar.
- Borboletas, certamente.
- De preferência, no limiar entre o exibicionismo irresponsável e o coma alcoólico.
- Eu fiquei encolhido até o fim da balada no banquinho a céu aberto.
- Eles viram Pinóquinho em ação.
- Se eles viram, não era Pinóquinho.
- Pinóquinho sem a contribuição do Pequenino David Blaine é um reles cidadão capaz de cagar no mictório da balada na frente de todo mundo e contar pra todo mundo que quem fez isso é muito louco.
- Telmo: “Ele estava com dificuldades”.
- Dorinha: “A mina não queria ficar com ele de jeito nenhum”.
- Cabeça Grávida de Trigêmeos: “Ela só ficou com ele porque eu enchi bastante o saco dela”.
- Nestor: “Ela era... COMPACTA”.
- Telmo, Dorinha e Cabeça Grávida de Trigêmeos em uníssono: “Hahahahaha, pode crer, ela era bemmmmm COMPACTA”.

(COMPACTA)

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(COMPACTA)

(COMPACTA)

(COMPACTA)
(Se um dia você estiver andando com o Rick pelo centro do Guarujá na temporada de verão, ou em alguma balada poser, tipo Phoenix, tipo Target, Tipo Yellow, tipo Café Del Mare, nada tipo Colômbia (Pá Pum), nada tipo Porto da Vila, nada tipo La Piazzeta no sábado, nada tipo Festa de Aniversário do DJ Cabral, nada tipo Boliche do centro (até porque faliu), nada tipo Pão de Açúcar do centro depois das duas da manhã, nada tipo Praça dos Vodus após a meia-noite, nada tipo Baile do Havaí da Sociedade Esportiva Itapema, e ele apontar para uma mina, uma mina de uns 24 anos, talvez mais nova, talvez aparentando ser mais nova, de altura mediana, ou seja, um gigante perto do Rick, com cabelos castanhos claros que chegam quase até o cofrinho, cofrinho muito bonitinho, por sinal, rosto bonito, cheio de sardinhas, olhos castanhos, às vezes quase verdes, porte de menina rica, bem cuidada, Universitas, Barra Funda, um apartamento por andar a meia quadra da praia, atualmente em Moema, quem sabe Alameda Santos, Frei Caneca, Campinas, viajada, Nova Iorque, Barcelona, um mês no Canadá aos 17 anos, Disney quando era criança, cidadania espanhola, ou cidadania italiana, ou cidadania portuguesa, fisioterapeuta, nutricionista, psicóloga, veterinária, jeans da Guaraná Brasil, bronzeado sutil, moletom da Epcot Center, um golden retriever chamado Romeu, corpinho bacana, saudável, todas as partes em seus devidos lugares, nada sobrando, nada escapando, tudo durinho, sorriso branco, cativante, atrativo, tratado por dentistas jovens com técnicas inovadoras, ex-namorados que jogam futebol americano na praia, que jogam rugby na faculdade, que jogam frescobol à beira mar, que usam Lacoste com a gola levantada, que usam Diesel com os bolsos traseiros fashionnamente rasgados, que calçam New Balance 1500, que escutam Tiesto no carro, que fumam Malboro vermelho, que jogam truco com charuto cubano e uísque Jameson numa casa de praia em Maresias, que cantam todas as músicas no Coração Sertanejo, que tomam bala, cheiram cocaína, tomam bomba e estupram travestis, e o Rick disser a você, meio na entoca e meio ansioso, que já pegou, “já peguei duas vezes”, uma delas dentro do banheiro da casa do Saulo, é verdade, é a mais pura verdade, e ele parará por aí, deixará essa afirmação suspensa no ar à espera do elogio, do seu elogio, e você irá elogiar, irá se admirar, “parabéns, pegou bem, caramba!”, e ele ficará em silêncio, saboreando o triunfo, omitindo que naquela época ela não era desse jeito, linda, perfumada, tamanho 35, que ela parecia na verdade uma munição de canhão, a tríade repugnante de gordinha-espinhas-aparelho fixo com borrachinha colorida, que ela não era chamada de Carlinha, mas de Carlão, tinha 12, 13 anos, ele tinha 13, 14 anos, e ele a pegou pela primeira vez na quadra do Adélia no baile pós-Festa das Nações, e dizem que ela até o carregou no colo, segurando-o sob as nádegas, e a segunda vez ele a pegou no banheiro da casa do Saulo, escondido de todo mundo, porque a molecada tirava sarro dele, então ele tinha que se esconder para pegá-la, para a molecada não ficar zuando, porque a molecada zuava, “tá pegando a gordinha, hein?”, “meu Deus, vai memo maluco”, “mó dragão!”, e o Carlão era completamente apaixonada por ele, sujeitando-se a ficar agarrando um menino espremida num lavabo exíguo recendendo a merda em conserva só porque ele tinha vergonha dela, vergonha de gostar dela, de abraçar ela, de beijar ela, de ser levantado por ela, e depois de tanta zuera, de tanta pegação no pé, de tanto chupão no pescoço, um dia ele a esnobou, disse que não queria mais, que estava em outra, “não viaja, mina, sai fora!”, e ela saiu chorando, se trancou no quarto para escutar o Blink 182 que ele gostava, para escutar o Pennywise que ele curtia, para se afundar em Cailin, do Unwritten Law (#And hey little girl Look what you do… Oh, I love you… Hey little girl, I love you #), a única música que ela gostava de verdade, e ficar lembrando de todos os momentos nada singelos com ele enquanto se engasgava com lágrimas, catarro, Coca-Cola sem gás e quindim tamanho família, e os anos se passaram como peidos discretos soltados no ar como serpentinas renegadas e úmidas com o prazo de validade expirado, e o Carlão cresceu e emagreceu, e o aparelho fixo com borrachinhas coloridas sumiu, e os peitinhos cansaram de ficar esparramados e se ergueram questionadores, pedindo mais atenção, desde que fosse velada, no limite do suspiro interno, do decoro, do bom gosto, como um saúde discreto após um estrondoso espirro na seção de frutas e verduras do supermercado, que naturalmente veio de todos os lados pálidos de carisma agraciados pela sua presença rosada, pelo seu desfile cheio de vitalidade e confiança, de auge da espécie, Conde de Monte Cristo, Carrie, A Estranha, Uma Thurman em Kill Bill, Carlinha de Salto Alto Agulha Sobre Os Peitos de Pombo de Rick, por ironia, nós estávamos juntos quando vimos a versão século XXI de Carlinha, por ironia, também era numa Festa das Nações (nós não tínhamos outra coisa pra fazer? outro lugar para ir?), e eu falei, “Olha lá, Rick, a mina que tu pegava, a mina que tu esnobou”, e ele disse, alisando o queixo, ou a pançanis, “Huuuumm, ficou gatinha, né? Oxiiii, que pedaçinho bom, sô”, o Conde de Monte Cristo apareceu todo estiloso na festa do seu traidor, Carrie explodiu a cabeça de todos os filhos da puta que fuderam com ela, Uma Thurman atravessou literalmente todas as pessoas que tentaram matá-la, a vingança de Carlinha foi trifásica, embora as três fases tenham sido exatamente iguais, “Ai, eu não mereço isso, um isopor cheio de cerveja, um coqueiro, o mar do pacífico e uma garota de programa arrasa quarteirão como companhia”, “O meu gatinho tem carro importado e vem me buscar em casa”, “Campos de Jordão, friozinho, gente bonita, fondue, vinhozinho e Cláudio Zoli fazendo um som, o que posso querer mais de um inverno?”, “Vingança é da hora!”, Vingança não é um pratinho de alumínio que se come frio, é um prato de plástico com talheres de plástico cheio de carvão quente, que se come sozinho, no escuro, num ambiente pós-apocalíptico, na companhia do Cláudio Zoli tocando sem parar aquela música “tocando um B.B. King sem parar”, e Carlinha foi brutal, sem precisar de um duelo de espadas e nem tirar sangue de ninguém, sem precisar de impropérios com excesso de saliva e nem de verborragia gratuita, é claro que o Rick foi atrás dela, ele achou que tava na mão, e é claro que o Pequenino David Blaine não daria o ar de sua graça, eu estava lá, o Mediano Nelson Rubens, o Nêmesis do Rick, o Caco Barcellos do Rick, O Gay Talese do Rick, o Truman Capote heterossexual do Rick, o Donnie Brasco do Rick, o Ray Liotta do Robert de Niro em Os Bons Companheiros, a testemunha protegida pelo Programa de Proteção a Testemunhas, o paparazzi que matou a Lady Di: “E aí, Carlinha, tudo bom?”, “Tudo (ainda pergunta? Olha pra mim!) e você? (Olha pra você!)”, “eu to legal”, “Legal... (Tem certeza que tá legal? De novo, olha pra mim! Agora olha pra você! Eu to adorando isso)”, “Você mudou bastante desde a última vez que te vi (caralho, tá com uns peitinho da hora, mina, tá magrinha, vo te pega de jeito, é hoje que vo fica levão e deixá o Leonardo visitando barraca sozinho e comendo comida salvadorenha e assistindo a dança típica da Bósnia)”, “Pois é... (Olha pra mim! Olha pra você! Olha pra mim! Olha pra você! Agora olha pra mim... Já! Agora... Olha pra você... Já)”, “Então, Carlinha, vamo saí dessa muvuca, vamo toma uma cervejinha ali... na barraca da Alemanha?”, “Nem to a fim”, “Pô, Carlinha...”, levantando a camiseta e alisando a pançanis, “Vamo ali no cantinho, vai, quero conversar contigo, dizer umas paradas pra você...”, “NÃO!”, Fim da Primeira Fase, 20 minutos depois... “E aí, Carlinha, no futebol dizem que a bola sempre procura o craque, e no amor dizem que a metade da alma gêmea sempre procura a outra metade”, “E? (De quem é essa frase? Do Chorão?)”, “Não entendeu? Tipo, no futebol...”, “Entendi, mas o que você quer dizer com isso? (Patético...)”, “Pô, Carlinha, fica comigo, vai?”, “NÃO!”, Fim da Segunda Fase, uma hora e meia depois, nove esfihas frias e borrachudas depois, dez Kaiser depois, cinco cervejas de trigo depois, doze arrotos depois, nove peidos depois, sete mijadas depois, três tequilas depois, quatro pedaços de pizza borrachuda, fria e brotinho depois, cinco Glacial depois, um tango depois, um Cancan depois, um Hula Hula depois, uma dança do ventre dos Vigilantes do Peso depois, um sapateado irlandês depois, uma dança de rua depois, uma tarantela depois, uma dança aborígene depois, um aperto de mão do Rodolfo depois, um aperto de mão do Daivilin Orelhudo depois, um aperto de mão do Roger depois, um aperto de mão do Nego Alan depois, um aperto de mão do Nego Alan depois, um aperto de mão do Nego Alan depois, um aperto de mão do Nego Alan depois, um aperto de mão do Nego Alan depois, um aperto de mão com a minha mão toda mijada para o Fábio Mancha depois, um aperto de mão do Nego Alan depois... “Pô, Carlinha, fica comigo, porra, foi mal, eu zuei contigo, eu sei, eu sou um idiota, eu sei, mas eu to ligado que você me amava, isso não pode ter acabado por inteiro, vamo ficá junto, vai, só hoje, só um beijinho, ali ó, atrás da barraca da... Palestina, não tem ninguém lá, vamo, vai, relembrar tudo que aconteceu, a quadra do Adélia com aquele parede de pedrinha aconchegante, o banheirinho do Saulo, todo mundo te chamando de gorda, de canhão, de cara de brotoeja, eu dizendo pra você sair fora, hein, vai, vamo?”, “NÃO!”, Fim da Terceira Fase.)]

Agora, enfim, vamos ao caso Cristina.

(Continua na próxima segunda-feira.)











































segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Pesadelo em Limeira - o dia em que a esperança morreu logo na chegada - Parte 1

“As mulheres não amam o que você é como pessoa,
As mulheres amam o que você é para as pessoas.”

Trecho do ensaio Adultérios, divórcios, estupros e milk shake, de Arno Palumbo, publicado originalmente no braço dele

(Dedico este texto aos amigos Victor e Daniel – só vocês sabem pelo que nós passamos, ou melhor, só vocês sabem pelo que nós não passamos)

Antes dos acontecimentos lamentáveis que serão retratados daqui a pouco, eu tinha uma namorada. Eu a amava do modo mais juvenil, mais babaca, mais idealizado e mais almejado possível. A minha barriga doía só de pensar nela. Ela sempre chegava atrasada aos nossos encontros. Quanto maior a espera, maior a dor de barriga. Quanto maior a dor de barriga, maior a vontade de cagar. Imagine o semblante de um garoto de 17 anos à espera do seu primeiro amor na entrada do shopping com uma avalanche de fezes no corpo pronta para desmoronar: Oi.
Eu era burro, espinhento, macilento, fora de moda, ansioso, abstêmio e inocente. Hoje sou burro, fora de moda (compro roupas no supermercado), tranqüilo (só não sou calmo quando perco as minhas chaves: “cadê as minhas chaves? Perdi, já era, perdi, já era, fudeu”), hipocondríaco (matei!, matei!, era o mosquito da dengue, se este bostinha me picar de novo, eu morro, já peguei essa porra duas vezes, tem repelente aqui?!), alcoólatra (“eu não sou alcoólatra!”) atleta (“mesmo de ressaca e vomitando, consegui correr quinze quilômetros”), sensível (“sangue bom aquela gooorda!”), desconfiado (“deu-lhe sete? sem tirar? naquela mina? no carro dela? lá? na boca? ela gritou teu nome? ela gozou 11 vezes? filmou?”) e mais velho. Entre esses dois pólos, eu me tornei a pior versão de mim mesmo criada por mim mesmo.
O eufemismo: nós terminamos. Que significa: ela me traiu. Se eu disser com todo mundo, é um exagero, mas se disser com dois quartos da cidade, estou sendo generoso. A limitação acarretada pelo trágico fim desse relacionamento foi que ele me estancou. Eu parei voluntariamente de existir para as outras pessoas: eu parei voluntariamente de existir para as outras mulheres.
Outro eufemismo: celibatário. Que significa: pesadão. Eu não pegava ninguém. Ou eu parei de pegá-las, ou elas pararam de me pegar. O que tenho certeza é que tudo que me envolvia parou: menos a minha mão direita.

Os meus amigos devem estar sentindo vergonha alheia por este relato. Eles não devem estar encarando este relato como um ato de coragem, mas como burrice. Eu sou burro. Mas o que eles não esqueceram é que não esqueci que eles estavam ao meu lado. Eles não esqueceram que não esqueci que eles estavam ao meu lado fazendo a mesma coisa que eu: acúmulo de porra.

Se pudéssemos fazer parte de um time, nós seriamos o Íbis: sempre goleado. Como o Íbis, antes de entrar em campo, nós já sabíamos que seríamos barbaramente trucidados. Como o Íbis, nós encontramos um modo bizarro para conseguirmos nos divertir no centro desta perspectiva árida. Todos os homens que conhecíamos, mas que não faziam parte do nosso círculo, iam para a balada para pegar mulheres. Como sabíamos com antecedência que não arrumaríamos nada, paramos de esquentar a cabeça com essa carência. Para que não morrêssemos afundados no arquipélago de merda projetado por nós mesmos, adicionamos doses cavalares de álcool, nudez em público, patéticas brigas, duelos de dança, divulgação de nossas belíssimas aquarelas de vômito e, sobretudo, a subestimada verdade. Admitíamos tudo para quem perguntasse.
“E aí, cara, pegou alguém?”, “Não!” “Bebeu muito, né?”, “Até bebi, mas não foi por causa disso”, “Por quê, então?”, “A minha cota de decepção já se esgotou”.
“Foi você que saiu correndo pelado atrás do busão?”, “Foi”, “O que você tem na cabeça, cara?”, “Não sei, o que você tem na cabeça?”, “O que não tem na sua cabeça”, “Então você é desonesto consigo mesmo e com as outras pessoas!”

Por pior que fôssemos, nós éramos sinceros. E, entre os piores, nós éramos os melhores. E entre os melhores? Hoje, nós somos os melhores.
Desde a época de Santo Agostinho que as mulheres reclamam que a maioria dos homens não presta. A velha novidade, contudo, é que elas sempre preferiram os caras que não prestam. O que faz delas cúmplices. E, o pior de tudo, hipócritas.
Conheci meninas que ficavam com dois caras na mesma época e, quando souberam que um deles havia ficado com outra menina, surtaram, verteram enxurradas de lágrimas e os amaldiçoaram para todas as amigas. Conheci meninas que namoravam e chifravam o mesmo cara por anos e, após o fim do relacionamento, ao trombarem com seus ex-cornos na companhia de novas mulheres e totalmente refeitos de qualquer dano perpetrado por elas, surtaram, verteram enxurradas de lágrimas e os amaldiçoaram para todas as amigas. Conheci caras que traíam as suas namoradas há vários anos e, quando souberam que elas faziam algo bem semelhante com o instrutor da academia, surtaram, espumaram baba raivosa pela boca, as amaldiçoaram e as espancaram na frente de todos os amigos, entretanto, nada mais natural, elas voltavam correndo como hamsters adestrados cujos corpos estavam assolados por algum vírus pestilento.

O mundo só é dos homens quando as mulheres não estão nele. Por que vocês, mulheres, acham que nós curtimos nos reunir para assistir futebol? Por que vocês, moçoilas, acham que nós gostamos de nos reunir para tomar uma cerveja, falar merda e vermos qual de vocês é a mais danada? Eu não ignoro a possibilidade de vocês, leitoras de Elizabeth Gilbert, estarem se perguntando, histéricas, por que nós, homens impolutos, não nos fodemos entre si? Porque nós, meninas superpoderosas, não viveríamos sem as raríssimas exceções que podem ser encontradas, a muito custo e com muitas baixas, em um grupo que é dominado por vadias falsas!


(Continua na próxima segunda-feira.)







segunda-feira, 15 de agosto de 2011

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Reclamaram que fantasio as histórias. Viajo muito. O elenco existe, mas não está satisfeito. Não se sentem retratados com fidelidade. Muito exagero. Muitas coisas ditas que jamais foram ditas. Se eu não fosse o patrão da minha própria empreitada, definitivamente já teria sido excomungado do meu próprio cérebro. Quem sou eu que não estava ali? Que mundo é este que vivo mas que nunca vi? O muito que se faz para muitos é pouco para muitos.

Os meus parágrafos são longos, quando não são únicos. As vistas doem. As vistas não doem quando algo se move. Quando dois corpos se movem. Quando duas mulheres nuas se movem ao ritmo do oceano. Ler não é agradável quando se lê o desagradável? Ler não é agradável quando se lê?

Oito decisões em oito doses: este... William Faulkner disse “que até mesmo o pior tipo de ficção é muito mais real que qualquer tipo de jornalismo”. O que faço?

Oito decisões em oito doses: este texto será dividido em oito partes. A outra decisão das oito em oito doses é que será completamente verdadeiro.

Cada momento. Cada esperança. Cada promessa. Cada nome. Cada cheiro. Cada dado anatômico. Cada tom de pele. Cada tom de voz. Cada sorriso. Cada ponto de vista. Cada espaço físico. Cada defeito. Cada proposta. Cada temperatura. Cada alucinógeno. Cada toque. Cada beijo. Cada distância. Cada ritmo. Cada conexão. Cada ritual. Cada desilusão. Cada lágrima. Cada começo. O fim.

Esta não é uma introdução. Muito menos a história propriamente dita. O título da história é Pesadelo em Limeira – O Dia em que a esperança morreu logo na chegada.

Mas o título não vem agora. Não sou perfeccionista, mas mudarei o jeito de serei. E também a concordância das leis. Vamos apagar este título:

Pesadelo em Limeira – O Dia em que a es

Pesadelo em Limeira – O Di

Pesadelo em Limei
Pesadelo e
Pesade
Pés
P

Introdução

Vou começar contando uma mentira. Alguém conhece o Ivan? Muitos conhecem o Ivan, mas ninguém nunca o viu. Me refiro a ninguém a todos que conheço. Eu passei por mentiroso na faculdade por contar as mentiras dele. Quem contou as mentiras dele não passou por mentiroso ao contá-las para gente. Ele transformou Ivan em lenda. Ele transformou-se em um comediante de stand-up antes da moda. Quem transformou-se em um comediante de stand-up antes da moda? Também não sei. Talvez Ivan não exista. O que sei é que nada que Ivan disse que existe existe.

Primeira: Ivan estava andando na praia dos Astúrias. De manhã, à tarde, à noite ou de madrugada? Sinceramente, não sei. Sinceramente, ninguém sabe. Então ele continuou andando pela praia dos Astúrias quando, de repente, seus pés sentiram algo duro sob a areia. Curioso que só, curioso que só Ivan, ele resolveu cavar. Cavou... Cavou... Cavou... Cavou... Cavou até os seus olhos férteis depararem com um material parecido com metal. Há a versão que era aço. Há a versão que era titânio. Há a versão que era latão. Porém, a versão mais propalada é que era... um material jamais visto no Planeta Terra. Ou seja, a parada não era nossa. Cavou Cavou Cavou... Cavou Cavou Cavou... até que encontrou... até que encontrou.... uma NAVE ESPACIAL. Ou disco voador, se preferir. O símbolo apocalíptico da ficção científica em plena praia dos Astúrias. Não satisfeito por encontrar algo que mudaria todos os rumos da história da humanidade, ele resolveu... dar um rolê na nave. E deu. Um objeto não-identificado no céu pilotado por um sujeito nunca identificado por ninguém. E disse que foi fácil. Tranqüilo. A... 9.000 Km por hora. No entanto, como todo gênio que se preze, Ivan era egoísta, não queria dividir nada com ninguém, então ele enterrou a nave no mesmo lugar em que estava enterrada. Como ele fez isso? Bem, ele é o Ivan.

Segunda: era inverno no Guarujá. Como todo mundo sabe, ou não, inverno no Guarujá significa menos calor, não frio. Ivan estava deitado na sua cama. Uma típica manhã fria sem frio do inverno guarujaense. Sem muita coisa a fazer, e sem querer fazer coisa alguma, Ivan olhou languidamente em direção à janela. Uma simples olhada na janela de Ivan não é uma simples olhada na janela de Ivan. Ele encontrou um gato. Bem... e daí? Ele encontrou um gato parado em frente à janela. Tá... e? Ele encontrou um gato parado em frente à janela que estava parado em frente à janela porque estava literalmente congelado pelo frio que não faz frio do Guarujá. Nãaaaaao? Ele encontrou um gato parado em frente à janela que estava parado em frente à janela porque estava literalmente congelado pelo frio que não faz frio do Guarujá com a perna direita erguida para trás, a perna esquerda como pé de apoio, o braço direito esticado para trás, e o braço direito levantado como se estivesse apontando para a lua cheia. Ele encontrou um gato congelado em uma posição de ballet. Ele encontrou um gato bailarino congelado em uma cidade litorânea de um país tropical fazendo um arabesque. (Eu manjo dessas paradas de ballet.)

Terceira: Ivan estava decorando o quarto. Praticamente tudo já estava organizado. Todos os objetos em seus devidos lugares. Mas havia um espaço na parede que deixou Ivan intrigado. Ele tinha que preencher aquele espaço. Para nenhuma surpresa de ninguém, ele fez algo surpreendente. Pegou a metralhadora do pai e, naquele exíguo espaço em branco, com extrema habilidade, escreveu a tiros: IVAN.

Quarta: A irmã de Ivan, da qual não sabemos o nome e que também ninguém nunca viu, estava presa na sala de aula. Ela gritou pedindo socorro. Quem poderia salvá-la? Lógico, Ivan. Dizem as más línguas anônimas que Ivan era muito forte. Ao chutar a porta para arrombá-la, Ivan não conseguiu derrubá-la. Em compensação, com o mesmo chute, ele derrubou todas as paredes, o teto e assim resgatou a irmã do pesadelo gerado pela claustrofobia. A porta ficou em pé. Dizem as mesmas más línguas anônimas que, se Ivan tivesse dado outro chute, ele teria derrubado a escola e resgatado, mesmo assim, todo mundo. A porta continuaria em pé.

Quinta: Ivan foi fazer uma trilha em algum lugar da mata atlântica. Sozinho ou acompanhado? Esqueci de perguntar. Ao se tratar de Ivan, supõe-se que ele estava acompanhado por uma gangue de fadas lésbicas. O dia esvaia-se agradabilíssimo. O céu estava azul, o sol era reconfortante e os pássaros estavam afinados. Mas nada no mundo de Ivan pode ser monótono. Portanto, um tigre fez questão de aparecer. E estava bravo e faminto. E foi para cima de Ivan. Pobre tigre. Ivan deu um balão no tigre e o matou estrangulado com um mata-leão.

Sexta: Ivan e o seu primo, do qual desconhecemos o nome e que também ninguém nunca viu, estavam a fim de fazer uma travessura. A travessura: Por que não atirar de espingarda na direção do morro? Travessura bem imbecil, reconheço. O primo iniciou as atividades: fez um buraco ridículo numa pedra ridícula. Chegou a vez de Ivan e, quando a vez dele chega, ela está peremptoriamente proibida de ser ridícula. O meu pai sempre diz que “a genética é foda!”. Se ele estiver certo, isso explica a atitude tomada pelo primo de Ivan após o tiro de Ivan na direção do morro. Ivan pediu, ou melhor, Ivan ordenou que o primo fosse para o outro lado do morro. Ivan atirou e a bala atravessou o morro. O primo de Ivan viu a bala saindo do outro lado do morro. Se eu investigasse, ele diria que ela até deu tchau.

Sétima: Ivan pegou escondido a Ferrari do pai. (A lenda que corre é que Ivan era favelado, mas... ) Ele estava na estrada pilotando a Ferrari a uns 575 Km por hora quando, infelizmente, perdeu o controle do carro. Perder o controle do carro a 575 Km por hora é morte na certa. Mas não esqueçamos que Ivan é indestrutível. E esperto. Ao perceber a iminência da colisão, ele fez um malabarismo incrivelmente simples: esticou o braço direito na direção do pára-brisa e colocou o braço esquerdo no painel. Portanto, quando o carro bateu em uma placa de sinalização, Ivan ficou colado. O pára-brisa explodiu, o airbag foi automaticamente acionado, a frente do carro encolheu, mas Ivan bloqueou-se da morte com uma manobra digna de um mentiroso filho da puta!
Embora grande parte desta introdução seja composta por mentiras, é tudo verdade.

(Continua na próxima segunda-feira.)

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Esquetes que têm a bosta como mote

“Meu, eu não sei dirigir, mas aquele cara que tá tentando manobrar o carro naquela vaga é mó braço!”, a síntese sem retoques do que é a crítica de artes e esportes no Brasil

Virar correu moda. Desculpe. Correr virou moda. Gordos afluem às pistas urbanas e afrouxam os pulsos. Enxutos apertam os cintos. Escusos malandros correm com a cabeça nas nuvens do pinto. Surdos e mudos xingam quem não consegue falar com as mãos suadas. Amigas gordas que perdem tudo que perderam ao ganhar um sorvete de brinde pelo esforço exemplar de continuar a ganhar mais do que ganham perdendo. Amigas lindas e voluptuosas que não são suas amigas de verdade, não te conhecem, nem percebem a sua presença quando você ainda insiste que em um algum dia não tão remoto o seu olhar vidrado-tarado irá cruzar com os dois fleumáticos azuis característicos das garotas que perguntam “Quem?” na ocasião em que o seu nome é levantado numa roda situada numa esquina de uma cidade que tem apenas cinco mil habitantes sem contar o fato que ela fez parte da sua classe durante três anos e que contava com sete alunos sendo quatro mulheres e uma birolha chamada carinhosamente de Bônus de Pinball. Amigas médias sozinhas ou acompanhadas de mais amigas médias ou em recuperação final sem chance de êxito ou de caras suados despidos da cintura pra cima que vão à manicure pelo menos uma vez a cada duas semanas inclusive em feriados católicos. Senhoras castigadas pelo inevitável relaxo pós-45 e despertas pela desconfiança criada por elas mesmas ou absolutamente premonitórias quanto ao brinco de cruz à la Romário Copa de 94 style do seu marido a passinhos rápidos toldadas pelos seus chapeuzinhos lívidos de noviças reacionárias pós-modernas. Donos e cachorros donos dos donos que cagam em intervalos irregulares, em cenários distintos, em volta de postes, em jardins mal cuidados, sobre a areia fina da praia que empana o croquete de cheiro estragado, em frente às portas de ferro, alumínio ou madeira das casas que recebem a primeira remessa de brisa marítima por isso descascam, sulcam, racham, queimam o lado externo que vale o dinheiro para quem não olha para dentro (clientes regulares de puteiro, gigolôs convictos e sindicalizados, caça-talentos, assinantes da Marie-Claire, pais de família divorciados da polpa e lambuzados pela casca que não consegue mas sonha em ser polpa, quem acredita que a Giovanna Antonelli e a Carolina Dieckmann usam roupa da Marisa portanto as compram no crediário). Homens de negócios no ócio da corrida com ambos ouvidos com negócios onde saem vozes que gritam “negóóóóóóóciooooossssss” a passos curtíssimos que dão a sensação que nunca sairão do lugar, que nunca passarão do quiosque, que nunca passarão daquela bike presa no coqueiro, que nunca passarão por aquele mendigo bêbado que jaz morto já há uns dez dias, que nunca voltarão para casa, que nunca voltarão para casa de praia, que nunca voltarão para os negócios, que nunca voltarão a usar os negócios comprados graças aos negócios, que nunca voltarão à outra casa da outra família cheia de outros negócios graças ao mesmo negócio, que nunca voltarão ao quinto exame do toque retal, que nunca voltarão à faculdade para buscar a namorada de 18 com corpo de 28 que é amiga de sua terceira filha do segundo casamento que mora na outra casa que não é a primeira na qual mora a primeira mulher mãe dos seus dois filhos homens amante de um dos amigos do filho que faz nela o toque retal porém não só com o dedo mas também com o pênis e não para prevenir alguma enfermidade que provavelmente pode fazer uma pessoa gritar de dor mas para dar-lhe prazer que ocasionalmente vira dor e a faz gritar de prazer dolorido, que nunca voltarão ao trilhogésimo copo de uísque, à nonavanogésima carreira de cocaína comprada graças à renomada carreira no mundo dos negócios, ao quadrpriquilhanosézimo peitinho cabeludo de viadinho que ele gosta de chupar com o auxílio do gelo egresso do seu trilhogésimo copo de uísque que ele, ao que sempre parece, nunca voltará a beber.
Sou um traidor cafajeste da tradição milenar dos corredores estetas entusiastas da virulência sem colesterol de Henry David Thoreau e da intrépida inocência perecível de Chris McCandless. Depois de me gabar para próximos e principalmente para mim mesmo por obter o simbólico, porém não menos importante, título de único brasileiro que não coloca molho shoyo no segmento cru da culinária japonesa (o shoyo em demasia viola o paladar natural da comida nipônica), caí de cara e com (sem) vergonha na bosta que tem o esquete como mote (ou é o contrário?) ao correr ouvindo MÚSICA! OHHHHHHHHHHHH! JOGUEM TOMATES! CEBOLAS GRAÚDAS! EXEMPLARES DO MONGE E O EXECUTIVO! EXEMPLARES DO ROMANCE DO JERÔNIMO TEIXEIRA! EXEMPLARES DO LIVRO DA CARLA DUALIB! EXEMPLARES DA HISTÓRIA DO ROCK DE BRASÍLIA NOS ANOS 80! CÓPIAS DO CD SOLO DO RENATO RUSSO. CÓPIAS DO NOVO DO VELHO DO NEM TÃO NOVO NEM TÃO VELHO CD DA LILY ALLEN! CÓPIAS DO NOVO DO VELHO DO NEM TÃO NEM TÃO VELHO CD DA PITTY! CÓPIAS DE FILMES IRANIANOS QUE TÊM UM SACO PLÁSTICO SUJO DE CHORUME OU UMA LONA DE SUPERFÍCIE ÁSPERA DEVIDO AO INCLEMENTE PODER DO SOL OU UM GRÃO DE AREIA OU UM CAROÇO DE FEIJÃO BRANCO OU UMA ENCHARPE ESCURA COM DETALHES EM VERMELHO OU UM CAMELO MANCO QUE INSPIRA COMPAIXÃO OU A ESTRATOSFÉRICA BOSTA DO CAMELO MANCO QUE INSPIRA COMPAIXÃO COMO MOTE! TAQUE LUCUBRAÇÕES DE MAITÊ PROENÇA. (TAQUE MAITÊ PROENÇA SEM LUCUBRAÇÕES E SEM ROUPA.) LANCE AS FILOSOFIAS DE MARCIA TIBURI. (LANCE A MARCIA TIBURI DE UM PENHASCO ATINANDO PARA QUE ELA EXPLODA SOBRE A BOSTA DO CAMELO CAOLHO QUE TEM O MOTE COMO ESQUETE.) TRANSMITA A SAPICIÊNCIA PRETENSIOSA DE EXCELÊNCIA GRAMATICAL À LA PASQUALE DA ACABADA/ PICHADA PENÉLOPE REQUENGUELA FILHA DO VELHO NOVA. ENTUPA OS CORREDORES SOLITÁRIOS DA MINHA CASA COM AS GARGALHADAS NICOTINADAS DO TIO BARBARA GANCIA E DA TIA JOSÉ SIMÃO. FAÇA-ME ACREDITAR QUE A IMPRENSA “INDEPENDENTE” EXISTE E QUE “NADA” NEM “NINGUÉM” PAGA PARA ELA EXISTIR.
A aparição da música dos outros na minha corrida foi um experimento causado por uma ocasional preguiça de não querer correr em um determinado dia que acabou por se tornar um vício. Uns experimentam cigarros e viram fumantes. Outros experimentam Miolo e sabe-se lá por que diabos viram esnobes – e eu conheço gente assim. Outros experimentam ouvir Cansei de Ser Sexy ou Garotas Suecas ou Fernanda Takai ou MixHell ou Moptop ou Vivendo do Ócio e viram fãs. De todos os males, o meu é o menor.
No momento não consigo correr sem um sonzinho. Tênis gastos e boa música fazem a diferença na performance. A música funciona como um aditivo que estimula as partes do corpo que teimam em congestionar a fruição das engrenagens. Não necessariamente a música precisa ser agitada. Exemplo: Eu corro ouvindo Nick Drake. Eu corro ouvindo Owen. Eu corro ouvindo Toe. No entanto, correr ouvindo Bom Iver, não dá. Nem Sade. Nem pense em colocar Sigur Rós. Muito menos Enya. Ou o mestre Yanni. (Erasure é muito selvagem.) É preciso de certos estados de espírito para obter resultados que realmente valham a pena. Não dá para misturar esportes e garotas. Não dá para colocar o Álvaro Pereira Júnior e o Marcelo Tas em uma mesma sala sem que um deixe de chupar o pau do outro. Do mesmo modo que é incompreensível Deus ter deixado Ray Charles e Stevie Wonder cegos (“ah, cara, mas justamente por eles serem cegos é que a música deles alcança um nível tão sublime de beleza”; “beleza, cara, então vou furar os seus três olhos para ver se a mesma coisa acontece, posso?”; “ah, não, cara, tenho medo”) e não ter deixado José Luiz Datena e Lobão mudos. Pequenas regras da existência que valorizam as partes iguais, mas ignoram a ambição que não pensa duas vezes na hora de tentar tomar o que não lhe pertence.



Errar é humano.
O erro é humano.
O humano é um erro.

Eu começo com Purple Blaze, de Ris Paul Ric, ex-guitarrista, vocalista e tocador de maracas do finado e eternamente fantástico Q and Not U. Letra perfeita, melodia que deixa uma sensação de saudade a cada segundo que a música se esvai – como a despedida de um amor impermanente. Em seguida vem Palindramatics, dos nova-iorquinos do Able Baker Fox, rock na medida certa, sem abusar no colarinho. Quando menos se espera vem o equívoco, experimentos passíveis de erro. Péssimos primeiros encontros, sorrisos insinuantes poluídos pela couve, sonos conturbados calcados por lapsos de visões de parentes já falecidos cercados por palhaços malévolos, bailarinas assassinas, ambos com os rostos maquiados com sangue; dores agudas no tornozelo direito, estalos assustadores nos joelhos, mau jeito nas costas e o baço grita “Pare!”. Li sobre uma banda chamada The Gaslight Anthem. O jornalista dizia ou dizia o que outro jornalista (inglês ou americano) já havia dito que o som era uma mistura de punk rock com Bruce Springsteen. O hardcore melódico foi sempre ignorado e considerado a pior vertente do hardcore pela crítica que vê até na estática de uma televisão uma visão reveladora engendrada pela mente calva de um artista que já preparou – 290 páginas – a longa ‘moral da história’ chamada eufemisticamente de “Contexto” ou visceralmente de “Qualé desta merda?”. O visual e a biografia, verossímil ou fictícia, fazem o ladrão ficar bonito, cultuado e até mesmo, veja só, talentoso. Os críticos de tendência “Antes Tudo Do Que Música” podem dizer da forma mais blasé e esganiçada possível: Ninguém mandou o Fat Mike nascer Fat e realmente desgrenhado! (e não meticulosamatematicaminuciosaoobsessivamente desgrenhado.) A embalagem do começo de carreira do Kings of Leon vendeu o som que não era do Kings of Leon em uma embalagem biográfica que não era o Kings of Leon, enfim, o Kings of Leon era uma banda que não era, era uma banda que não era o Kings of Leon. Atualmente, o Kings of Leon é o que não era. O quê, por exemplo? Sei lá, alguma coisa, alguma coisa é. Já sei, o Kings of Leon é tudo que um ex-gay é!
Voltando ao assunto, The Gaslight Anthem é correto. O que é apenas correto, pelo menos para mim, não é especial. Não faz diferença. É o Morais no Corinthans. Sou corintiano e espero que o Morais, no fundo meu coração combalido, me faça calar a boca. Sou um entusiasta da boa música e desejo que o próximo disco do The Gaslight Anthem seja o melhor disco da história do rock. Por enquanto nada passa de uma expectativa que não condiz com a realidade. É o famoso “eles fazem Rock’n Roll honesto” que os pseudos críticos dos anos noventa usavam para classificar as novidades de bandas decadentes do calibre de Inocentes, Ultrage A Rigor, Plebe Rude e afins. “Como é o seu novo vizinho?” “Ele só serve para dar oi, tchau e, quem sabe, carregar por cinco metros, mais por educação do que por qualquer outra coisa, a parte pesada das compras no final de tarde.” A crítica de arte é compreendida pelos críticos como faculdade essencial. Para quem? Para os chatos. Crítica de arte é, não devia ser, mas é, puro gosto. Não sou didático, mas... travestido de discurso cujo responsável se considera um “especialista”. E é aí que a merda cremosa voa para todo lado acertando em cheio a goela do coitado que pensa que é bem informado mas não passa de uma vítima da ditadura do espaço que preenche o vácuo dos corretos. Eu gosto de NOFX, mas não gosto de The Gaslight Anthem, o ponto é esse? Para eles, sim, embora não acreditem. Para mim, mais ou menos ou não. “Mais ou menos ou não, que porra é essa, gato?” Ser mais velho que um fã adolescente do Arctic Monkeys ajuda. Ser mais velho que um fã adolescente do Arctic Monkeys mas agir como tal é como usar a baby look roxa de qualquer peido cibernético que é a nova fofoca da web e ficar com a barriga inchada de fora de tanta cerveja à base de trigo. Mais sucintamente: é ridículo. Confesso que me desdobrei para criar alguma simpatia pela Nação Zumbi. Mas não consigo. Não consigo gostar de jeito nenhum. Já ouvi todos os discos, já fui a diversos shows e o meu semblante permanece igual ao do escritor sul-africano J.M.Coetzee na contra-capa de seus livros.

(Cara J.M.Coetzee)

Entretanto, devo reconhecer que os caras são ótimos artistas. Eu só não consigo gostar, e, afinal, quem sou eu? Sou apenas um rapaz latino-americano com um pau de 29 cm. Em contrapartida, o NOFX é melhor musicalmente que o The Gaslight Anthem. “Eu ainda compro vinil, eu ainda compro fita-cassete, eu ainda compro CD, eu ainda freqüento a London Calling, eu ainda digo para todo mundo que sou órfão do Lado B sob a tutela do Kid Vinil, eu ainda tenho o pôster do Jarvis Cocker fazendo pose de dândi e não concordo com você!” Foda-se e seja feliz! “Foda-se e seja feliz? Nossa, que dicotômico... isola, não acredito, olha quem tá ali, é a Erika Palomino!” Foda-se e seja feliz! “O que é isso, o Smiths vai voltar?” Foda-se e seja feliz! “Li pela metade, não entendi, mas gostei o bastante para dizer a todo mundo que mudou a minha vida e recomendei até mesmo para o ‘bode’ do meu psicanalista.”

Foda-se e morra de desgosto pelo mundo que criei pra mim.
Pelo menos ele é meu.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Tudo É Albino Menos Rebeca recomenda

Um Dia

Um Dia não é um livro para se ler em um dia. Afinal, são 416 páginas. Ler um livro desses em um dia significa que você não tem porra nenhuma para fazer o dia todo. Embora ler o dia todo seja mais estimulante e redentor do que passar o dia todo fritando hambúrguer numa chapa. Ler Um Dia em um dia seria como gastar um relacionamento afetivo e brutalmente sexual com Eva Green (os melhores peitos do cinema, quiçá da história da humanidade, assistam Sonhadores, punheteiros e lésbicas desinibidas, do Bernardo Bertolucci, os peitos são ótimos, o filme é uma bosta que virou cult) em um dia sendo que havia possibilidade de estendê-lo por um ano. Por que Jennifer Connelly iria perder tempo deixando você ejacular precocemente dentro dela se o Sting pode durar 14 horas?

(Eva e... ELES)


Um Dia começa no dia 13 de julho de 1988, quando Emma Morley conhece Dexter Mayhew na festa de formatura da faculdade. Ela é discretamente bonita, deslavadamente sarcástica, irritantemente politizada e fruto de uma família notoriamente humilde. Ele é ostensivamente boa-pinta, descaradamente hedonista, naturalmente idiota e fruto de uma família notavelmente bem-sucedida. Eles ficam juntos, vão para cama juntos, mas não transam. Ela quer mudar o mundo. Ele quer mudar o corte de cabelo. Fim do primeiro capítulo.
Quando chegamos ao segundo capítulo, também estamos no dia 13 de julho. Só que de 1989. Cada capítulo acontece um ano depois do anterior. Sempre no dia 13 de julho. O dia em que eles se conheceram.
Um Dia não é um livro normal. Assim como os peitos de Eva Green, é anomalamente sensacional. Eu não trocaria um minuto com Eva Green para ler Um Dia em uma semana. Mas como Eva Green não sabe que existo, e se soubesse, seria como se eu não existisse, eu tenho tempo e falta de escolha para dar vida além da conta a objetos inanimados.
O livro foi lançado na Inglaterra em 2009 e só este ano foi lançado por aqui. Ele foi escrito pelo inglês David Nicholls, mas ele é tão bem produzido, tão bem estruturado, tão engraçado, tão verossímil, tão bonito, tão triste, que parece que foi escrito sozinho. Como se tivesse vida própria - como os seios de Eva Green.
Um Dia já virou filme, que estreará nos Estados Unidos no dia 19 de agosto. No Brasil, como sempre, ainda não há previsão de lançamento. Pelo trailer, a adaptação promete ser uma absoluta porcaria. Pela diretora Lone Scherfig, a mesma de Educação, um ótimo filme, talvez esse seja um raríssimo caso no qual o trailer é pior que o filme. Vamos torcer!
Emma Morley é interpretada pela nova namoradinha da América Anne Hathaway. Eu preferiria que fosse a namoradinha britânica Emily Blunt. Não só pelos motivos óbvios (logo abaixo os motivos óbvios), mas porque a julgo mais engraçada e mais parecida pelas descrições físicas da personagem Emma Morley do que Anne Hathaway.
(Motivos óbvios)

Dexter Mayhew é interpretado pelo inglês Jim Sturgess, o mocinho do filme-musical-beatlemaníaco Across The Universe. Eu preferiria o seu compatriota Hugh Grant. No entanto, Hugh Grant já entrou no estágio de interpretar o pai de Anne Hathaway. Porém, se dessem uma brecha, ou mesmo se não dessem uma brecha, Hugh Grant não veria contratempos em sugerir a Anne Hathaway experiências incestuosas. Pra mim, sem brincadeira, Hugh Grant é um dos atores mais engraçados e mais subestimados do cinema contemporâneo. Ele é o típico galã inglês calhorda com um tino fora do comum para a ironia. Um cara que fode o relacionamento com a deliciosa Elizabeth Hurley em troca de um boquete de uma prostituta de meio-fio só pode ser um fanfarrão.
(Liz Hurley)

Por enquanto, espero que só por enquanto, nada promete se não for por enquanto, Um Dia foi o melhor livro, junto com Três Vidas, do português João Tordo, que li este ano. Compre, pegue emprestado, alugue ou roube. É tudo por uma boa causa. Eu garanto!

(PS: Até a minha namorada que é fã de Crepúsculo, de Vampire Diaries, de Lily Allen, de Fagner, que torce para o Santos, que deu risada com Napoleon Dynamite, que assiste Disney Channel, que não perde um episódio de Keeping Up With The Kardashians, que está devorando todas as temporadas de Gossip Girl, que disse que nasceu para fazer spinning, que foi ao show de gravação do DVD do Natiruts, que me disse que assistiu a um filme super legal intitulado Garotas S.A, que acha o Rodrigo Faro “uma figura”, que se deslumbra com os calouros do Raul Gil, que decorou todas as falas de Castelo Rá-Tim-Bum, foi arrebatada por Um Dia.)

segunda-feira, 18 de julho de 2011

MACONHA - Uma história de amor... e traição - Última Parte

“Momentos mágicos. Momentos para os quais atribuímos valor muitos momentos depois de chegarmos à conclusão que a vida nos dará pouquíssimas chances de concretizar momentos como esses. Sem responsabilidades à espreita. Sem horários pré-estabelecidos. Sem cortes desconfortáveis em bolos de casamento e filhos engatinhando. Sem excesso de gordura no abdômen. Sem smokings, convites de casamento e degustação de champagne por formalidade. Sem o veredicto agourento de que perdemos a sintonia das nossas expectativas.” Trecho do livro Fim do Mim Segundo Mundo, de Arno Palumbo, editora Bafo de Cebolitos

Aos 23, eu já devia ter terminado a faculdade. Aos 23, eu ainda estava começando a faculdade. E precisava arranjar um jeito de voltar a fazer sexo. E ainda alimentava o desejo de fazer sexo com duas mulheres ao mesmo tempo. E ansiava fazer sexo com uma mulher acima dos 35 anos de idade. E torcia para que se realizasse o sonho de comer uma professora – mesmo que fosse de Kumon. E aquela púbere e impetuosa perversão de ter uma empregada gostosa e comê-la enquanto ela esfregava um pedaço de Bombril na panela de pressão ainda resistia no meu âmago. E não seria nada mau se uma mina da faculdade aceitasse numa boa transar comigo no banheiro do quarto andar no horário da aula de Teoria do Jornalismo. E me perguntava quando teria coragem de experimentar alguma droga ilícita.

Sete anos depois de arquitetar esta triste constatação de uma vida ausente de vivência, o que posso dizer hoje é que só falta comer duas mulheres ao mesmo tempo, comer uma mulher acima dos 35 anos de idade, comer uma professora (mesmo de Kumon), ter uma empregada gostosa e comê-la enquanto ela esfrega um pedaço de Bombril na panela de pressão, e comer qualquer menina em qualquer banheiro de qualquer andar de qualquer faculdade no meio de qualquer aula.

Contudo, no que concerne à droga ilícita, foi preciso alcançar o cume do desdém para criar a coragem de consumi-la.

O meu avô era alcoólatra. Muito! Foi o primeiro homem a dar oportunidade a Cauby Peixoto. Vejam só, bêbado porém visionário. Décadas antes de Bruno e Marrone cagar o romantismo etílico o transformando num antro de cornos que se dão ao luxo de espatifar jatinhos, o meu avô literalmente dormia na praça: de paletó e gravata. E o pior de tudo: em Vicente de Carvalho! Hoje ele seria queimado vivo, mas naquela época dormir na praça bêbado era menos nocivo que dormir no jatinho pilotado por Marrone. (Ou foi o Bruno?) Era a década de 50 e o meu avô se chamava Alaor. Alaor, o poeta. Alaor, o seresteiro. Alaor, o agitador cultural. Alaor, o boêmio. Alaor: morreu de cirrose antes de me ver nascer: morreu de cirrose antes de ver a minha mãe crescer para eu poder nascer. Alaor era meio que negão. E essa informação não esclarece por que o meu pau é TÃAAAAAAO pequeno. Como também não esclarece por que eu sou TÃAAAAAAO branco. Mas isso talvez explique por que me gusta ficar TÂAAAAAO BÊBADO! A parada de Alaor era pinga pura e passar o inverno aquecidinho dentro de um saco de batata. Me dê dois engradados de cerveja, um pacote de meio quilo de Amendorato, uma T.V a cabo com mais de 100 canais, uma poltrona reclinável, um par de meias e um cobertor - que eu calo a minha boca! Ou falo sem parar. A minha mãe sempre teve medo. Teve medo que a genética de Alaor devastasse o meu futuro. Eu já fiz muita cagada ao ficar bêbado, mas não irei relatá-las agora porque pretendo relatá-las em outra ocasião (racionamento de assunto). Por ora, assim como Robinho não virou o craque que todos esperavam, eu não virei o alcoólatra a que estava destinado.

Eu sempre subestimei os efeitos das drogas ilícitas e o tamanho sacrifício que elas empreendem por parte dos usuários para serem consumidas. Estamos falando dos anos 90 e o Brasil dos anos 90 tinha Fernando Henrique Cardoso como presidente e ele ainda nem imaginava que um dia estrelaria um filme no qual falaria com desenvoltura em defesa da legalização da maconha. O Planet Hemp nasceu nos anos 90 e o videoclipe de Legalize Já, após a primeira exibição, de madrugada, na MTV, teve a veiculação proibida pela justiça. A censura era como um vampiro: morta, muito velha e muito viva. Os meus amigos naquela época fechavam os vidros do carro e fumavam maconha para ver se eu ficava doidão por tabela: eu nunca fiquei. Depois eles riam sem parar, riam sem parar, riam sem parar: eu estava com fome, queria voltar para casa e assistir Beavis and Butthead para rir sem parar. A cada luz vermelha que refletia nos retrovisores do carro, o medo no semblante de cada um era quase palpável: eu iria apanhar por acompanhar más companhias. Mas eles não eram más companhias. Pelo contrário, eram companhias agradabilíssimas. Contavam ótimas histórias, eram super engraçados, curtiam as mesmas bandas que eu curtia, todos nós tínhamos bandas (alguns se afundaram na poeira, venderam as próprias coisas para sanar dívidas, internaram-se em centros de reabilitação, foram presos por roubo, foram dormir na rua, morreram, estão vivos, sumiram, outros estão hoje em dia meio pirados devido às seqüelas que provém do abuso), alguns faziam parte da mesma banda e, afinal, eram os únicos amigos que tinha. O problema residia no fato de que tinha que me deslocar para o cantão do Guaiúba para poder conversar. Ou para o morro das Astúrias num frio de rachar. Ou ao Bostrô, no Tombo, para reviver a incomodativa sensação de estranho no ninho que sentia quando era o único branco “azedo” de classe-média a fazer parte do time principal do Santa Emília, atual FEBEM.

Então, quando Rocambole nos mostrou aquela trouxinha apinhada de sementes destroçadas de Bonzai, eu pensei: Por que não?

Eu saia com uma mina da faculdade da qual não gostava - e não transava. Eu devorava todos os livros possíveis da Beat Generation - mas não dava a bunda. Eu vi muitos caras feios pegando minas gatas por causa da brisa do beck – um deles possuía um dente removível. Se havia algum fator que me policiava, era o receio de dar certo para dar errado como os meus amigos do passado.

Do grupo, Saulo, Rocambole e Nestor já haviam fumado. Nestor não havia sentido nada: “Nada, cara, nada!”. Saulo era irmão de um dos maiores maconheiros da história do Guarujá: “Aí, UNESCO, salva nóis.”. Falcão era um nazista-peão-metrossexual-narcisista que era capaz de dizer coisas como “maconheiro é tudo vagabundo” e “se eu fosse o prefeito do Guarujá, eu explodiria a favela”. E também falava “anafabeto”, “Carai”, “Barai”, “Atai” (Carai é caralho; Barai é baralho; Atai é atalho). Ele achava que o Jello Biafra, vocalista do Dead Kennedys, era mulher, chamava-se Jennys Biafra e havia estrelado o filme Vinte Mil Léguas Submarinas. Ele achava que a Marilyn Monroe era homem e também havia estrelado Vinte Mil Léguas Submarinas. Ele dizia “eu malho porque vi na T.V que quando a gente malha o nosso corpo solta uma parada chamada... Morfina”. Ou seja, ele era taxativamente contra o Bonde dos Beloteiros e definitivamente burro! (Ele “é” taxativamente, taxativamente, taxativamente, taxativamente contra o Bonde dos Beloteiros. Falcão, a sua traição não passará incólume por estas linhas. Aguardem.) O mais próximo que Telmo chegará de fumar maconha será quando o herói do GTA tiver que fumar maconha para se infiltrar numa gangue rival. A silhueta “bemmmmmm” oval de Rocambole vale mais que mil kibes: “Pra mim, não!”.

A única, porém fundamental, burocracia pela qual tivemos que passar para fumar o beck foi: Como bolá-lo? Rocambole disse: “Deixa comigo!”. E ele bolou. E parecia uma embalagem de bala de coco caseira embalada por um mendigo-travesti pelado no inverno ucraniano com uma artrite crônica nos dedos em carne viva. O Rocambole era uma fraude! Ele sabia bolar mesmo era um ardil para justificar que, quando era “vegetariano” (Telmo: “Lá se vai a mata atlântica”), aquela bandeja atulhada de salsicha no seu aniversário de 20 anos era, na verdade, “salsicha de soja”. Fraude! Nossa sorte foi que o Gary Snyder estava com a mulher e o filho na barraca vizinha. Óbvio que ele não era o Gary Snyder. Ele sequer tinha ouvido falar em Gary Snyder. “Não, não to ligado.” Mas ele se vestia com trapos. E demorava uns dois minutos antes de pensar o que ia falar. Porém, ele era um artista na arte de bolar. Ele bolou. E depois desfez todo beck. E rebolou, não o quadril, mas o beck. Rebolou tranquilamente, passo a passo, no swingue. Redesfez (sic) o beck. E pediu ao Rocambole para rebolá-lo novamente. Rocambole rebolou-o com lentidão, suavidade, um javali na dança do ventre, bem lento, bem lento, “vai logo, Rocambole, caralho!”. E Rocambole rebolou-o. E parecia uma embalagem de bala de coco caseira embalada por um mendigo-travesti pelado no inverno ucraniano com uma artrite crônica nos dedos em carne viva. Rocambole era uma fraude! O simulacro de Gary Snyder rerebolou (sic) o banza. Rerebolou-o. (Sic.) Dessa vez com rapidez e extrema habilidade. Entregou-o e disse pra gente: “Na boa, galerinha, agora me deixem em paz”. E nós o deixamos. Fomos para bem longe. Saímos do camping. Fomos à praia sem qualquer luz artificial. Era noite. A lua não deu as caras. Estava tudo escuro. Era como viver no focinho de um labrador preto. Rocambole andava com uma caixa de fósforos meio úmida no bolso da sua bermuda jeans número 63 comprada na Loja da Fábrica Street Wear: sem cinto. Ventava muito. Para variar, tudo conspirava ao nosso favor. Eu, Nestor, Rocambole, Saulo e Falcãozinho, que veio escondido do irmão. “Falcãozinho, eu vou contar pra mãe se tu se mete nessas parada de maconha”. (Olha que ele conta mesmo.) Saulo vinha bebendo pinga vagabunda com refrigerante mais vagabundo desde o meio da tarde, mas ainda dava para entender o que ele tentava dizer: “Tá bom, Saulo, saquei, não precisa ‘tentar’ repetir”. “Valeu, Saulo, agora cala a boca!” “E aí, Saulo, que porra é essa? Para de passar a mão na minha bunda, caralho!” Rocambole demorou uns dez minutos para entrar em acordo com a ventania para usufruir de uma efêmera trégua para poder acender o beck. Ele acendeu e fez as próprias honras garantindo a si o tão almejado apetite cuja voracidade é proporcional a três gerações de famílias vikings ideologicamente onívoras. “Passa a bola, gordinho!” Saulo deu quatro pegas, depois saiu cambaleando na direção errada – “é pro outro lado, seu idiota!” – e gritou como se estivesse com a boca cheia de água e pasta de dente diluída “colo o boco, corolho, ogoro eu vo come oquelo filho do puuuto d’ filho do coooseiro, porro”, “se liga, Saulo, tu vai arrumar confusão com o pai da mina”, “iiiiiiii... molondroooo, se ele bolongo, eu como ele tooombém, e como o mooolher dele, e tooombém te como, seu filho dumo puto!”. Nestor deu três peguinhas e saiu, contrariado e mal-humorado, em direção à enorme fila do banheiro com chuveiro quente. Nestor não toma banho frio. Nestor não come peixe cru. Nestor não come peixe assado. Nestor só come peixe frito. Nestor não come frutas. E não come mulheres menstruadas. E não faz sexo sem camisinha. Falcãozinho deu cinco pegas – “caralho, chepinha, passa a bola, putinha!” – e depois ficou parado com cara de quem diz: “Ainda não acabei”. Putinha? Se Falcãozinho fosse uma mulher, ele seria uma putinha. Da pior espécie. Putinha interesseira. Putinha esnobe que não tem onde cair morta. A não ser que fosse cair morta sobre um pau circuncidado com uma coroa de diamantes em volta da cabeça. “Eu ia dar pra caralho e só ia sair com uns maluco com carrão cheio de neon e Mr. Catra e que usasse moletom da Billabong e camiseta da Sthill e calça da Element e chinelinho da Lui Lui.” Se Falcãozinho fosse um personagem de filme, ele seria Julia Roberts em uma Linda Mulher. Mas sem a doçura, as lágrimas e o romantismo. E sem o cabelo longo cor de fogo. E sem aquela boca gostosa. Só as orelhas do Topo Gigio e o cabelo do Casagrande (e a carinha do Casão). Nem uma mulher romântica gostaria de ser Falcãozinho se ele fosse Julia Roberts. Sim, ele casaria com o Richard Gere. Mas continuaria se prostituindo. Mesmo que se prostituir possa também ser entendido como dar de graça. Eu dei três pegas longos. Traguei, puxei, segurei e soltei. Eu passei a minha adolescência vendo os outros tragando, puxando, segurando e soltando. Eu já sabia o que devia fazer. E saí achando que ainda era imune aos encantos da maconha: E me dei muito bem.

Eu ri. Ri como nunca havia rido na minha vida. Ri enquanto as minhas pernas formigavam. Ri enquanto as minhas mãos formigavam. Ri enquanto o meu pau ficava muito duro. O meu pau ficou tão duro que eu poderia armar uma nova barraca. Uma barraquinha para um casal de filhotes de camundongo. Quando Gumercindo caiu dentro da caixa d’ água da casa do Falcãozinho para ver o Saulo comendo no chão do quintal da casa vizinha abandonada a ex-vizinha que pagava de cachorra mas que era uma vadia morta, eu não ri tanto assim. Quando Rocambole, na extinta Avelinos, ao ser questionado por uma japonesinha, com toda a educação, se ele sabia (“por favor, moço, o senhor sabe...”, ela falou deste jeito) onde vendia X-Salada, e ele respondeu que não sabia onde vendia x-salada, mas sabia onde ela podia encontrar um X-Linguição (“olha, X-Salada eu não sei, mas eu tenho aqui um X-Linguição.” “Ai, que nojo, moço.”), eu não ri tanto assim. Quando Saulo, ainda pivete, apoiado no parapeito, de costas para gente, da janela do quarto do Daniel, deu uma pirueta, colocou a mãozinha de futuro desentupidor de hímens no queixo e anunciou “Não me chamem mais de Saulo, agora eu sou o Shawn Michaels... Jr, (veja foto logo abaixo do verdadeiro Shawn Michaels), eu não ri tanto assim.












Quando Saulo e Firmezinha desceram o Sobre As Ondas de bike, e um menino com o rosto todo queimado e deformado pelo fogo pediu para o Firmezinha parar e perguntou ao Firmezinha “E aí, Firmezinha, cadê aquele colante da Rip Curl que tu ia me arranjar?”, e o Firmezinha respondeu “PÔ, Churrasquinho...”, eu não ri tanto assim. Quando Falcãozinho e Mumuca foram ao Raizzes (a balada era tão horrível quanto a grafia do nome), e eles... bem, deixa que o Falcãozinho conta: “Se liga, a gente tava lá, tá ligado, eu e o Mumuca, lá na entrada do Raizzes, aí duas mina ficaram olhando pra gente de longe, tá ligado, tipo aquelas funkerinha gostosinha com risada de piranha, e aí eu cheguei pro Mumuca e falei ‘ih, malandro, as mina tão desejando us menino’, e elas vieram andando na nossa direção, aí eu falei ‘Mumuca, vamo jogá essas mina no banco de trás e vamo comê elas lá no Bostrô’, e elas foram se aproximando cada vez mais, tá ligado, eu fui ficando com o pau durão, tá ligado, a mais baixinha tinha uns peitão, aí eu e o Mumuca ficava olhando pra elas e elas ficava olhando pra gente, bróder, tá ligado, tipo rolando a interação, aí elas pararam na nossa frente e a mais baixinha com uns peitão falou: ‘Que que tá me olhando, caralho!, to cagada?!’ Aí eu falei pro Mumuca: ‘Mumuca, vamo saí fora’”, eu não ri tanto assim. Quando Chulipa, homem que consegue chegar a trezentos quilômetros por hora na Imigrantes com um Honda Civic 2002 (“tem certeza, Chulipa?”), imitou à perfeição a reação de uma mulher que é currada pelo Black Mamba – “Vai, Mamba, vai, Mamba” - (veja a foto do Black Mamba logo abaixo), eu quase ri tanto assim porque foi engraçado pra caralho!

Talvez eu nunca mais irei rir assim. Como naquela noite de 6 de setembro de 2004 na Prainha Branca. Rir, na maioria das vezes, sem motivo algum. Rir junto aos meus melhores amigos. Chutando as portas dos banheiros para dizer ao Nestor “EU TO MUITO DOIDÃO, CARALHO!”. Rir ao ver o Nestor sair do banheiro com a toalha na cabeça se contorcendo de tanto rir e caindo de joelhos na atuante poça de lama que ficava em frente ao banheiro. Rir ao ver o desespero do Falcãozinho por não conseguir sentir absolutamente nada: “Caralho, seus filho da puta, cês não vão me ensinar como traga? Eu não sei tragar, caralho, eu não to sentindo nada, eu quero rir que nem vocês, me ensina aí, vai, por favor...” (Falcãozinho aprendeu a tragar. A maconha deu muito certo pra ele. Tão certo que certa vez, após mais uma edição generosa de Banza’s Night na casa dele, ele tentou fazer a T.V mudar de canal no interruptor do ventilador.) Rir ao ver o Saulo completamente despirocado: naturalmente, etilicamente e cannabissativamente. Dizendo que iria me comer. Dizendo que iria comer o Falcãozinho. Dizendo que iria comer todo mundo. Dizendo coisas incompreensíveis: “Vocês... o diabo... a grama... filho da puta!”, “Leonardo... eu ainda vou comer a tua bunda... caracol com chulé... Hitler está enterrado em Ilha Bela... cruz invertida... buceta de lhama... eu quero tomar leite condensado com Nescau... barriga de celulite... eu vou explodir o Mc Donald’s junto com o meu camarada Índio...” Rir ao ver a risada natural e sóbria de Telmo jogado na barraca absorvendo eflúvios alucinógenos enviados pelo ‘fofo’ do Donkey Kong no Game Boy. Rir ao ver Rocambole rindo e o Rocambole rindo ao me ver rindo e eu rindo ao ver o Rocambole rindo ao me ver rindo e eu rindo ao ver o Rocambole rindo e o Nestor rindo ao me ver rindo e eu rindo ao ver o Saulo rindo e o Saulo rindo ao ver o Nestor rindo e o Nestor rindo ao ver o Falcãozinho decepcionado e o Falcãozinho decepcionado ao ver o Rocambole rindo ao me ver rindo ao ver rindo o Saulo ao ver rindo o Nestor rindo ... Rir na cara séria do Falcão sem me dar conta do perigo de rir na cara de um futuro traidor dos próprios amigos. De um traidor que anos depois delatou o próprio irmão para a própria mãe. De um traidor que tentou delatar os próprios amigos aos próprios pais. De um traidor que maculou, talvez para sempre (vamos deixar o ‘talvez’ no ar como uma fumaça que insiste em não se extinguir) a Banzaland. De um traidor hipócrita que certa vez tive a infelicidade de dividir um beck.

FALCÃO: O JUDAS DE JAH!

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Saldo das três partes de MACONHA – Uma história de amor

A palavra Buceta foi utilizada 22 vezes

Pau: 7 vezes

Pênis: 1 vez

Pica: 1 vez

Pinto: 1 vez

Maconha: 15 vezes

Banza, Banza é Maconha: 3 vezes

Beck: 8 vezes

Teta: 13 vezes

Seio: 2 vezes

Punheta: 5 vezes

Caralho: 12 vezes

Sexo: 7 vezes

Transa no sentido de transar um sexo com alguém: 7 vezes

Comer no sentido de foder: 22 vezes

Foder no sentido de foder: 1 vez

Bunda: 10 vezes

Nádega: 1 vez

Estupro: 3 vezes

Vadia: 12 vezes

Suruba: 1 vez

Boquete: 1 vez

Puta: 11 vezes

Traidor: 6 vezes – todas elas referentes às atitudes de Falcão – O Judas de Jah!