segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Pesadelo em Limeira - O dia em que a esperança morreu logo na chegada - Parte 5

A história de um breve romance indie cheio de putaria grudenta - Parte 3

Rick tinha 20 anos. Cristina tinha (X) anos. E isso já diz quase tudo. Não tudo. Esperem. Mas eles nunca tinham se visto. E depois de tudo que fizeram, e de tudo que poderiam ter feito, eles nunca mais se viram. Assim. Rick não sabia que a sua vida, depois de tudo que fizeram, e de tudo que poderiam ter feito, iria mudar para sempre. Atingir um prisma muito particular. Muito. Após a fatalidade deliberada, como se tivesse planejado o próprio assassinato, ou um sexo oral em si mesmo, nós, eu e os outros próximos, nunca mais olhamos para Rick do mesmo jeito. A partir da hecatombe, a partir do passo em falso consciente, ao desligar a chave da ponderação, do amor próprio, de pichar o muro da própria casa, de adulterar o combustível do próprio veículo, de bagunçar com a própria língua o glacê do bolo, percebemos que ele era capaz de fazer qualquer coisa para chamar a atenção. Para depois ficar bravo. Com as nossas risadas, nossos aplausos, nossos corredores poloneses sarristas, nossas ligações notívagas a olhos astronauticos sonolentos que estavam em outro planeta portanto não havia como visualizarem o estupro terráqueo, nossas pétalas de flores mortas jogadas no ar enquanto ele desfilava a contragosto, sorvendo o gosto metálico da própria insanidade, nos culpando por não apreciarmos o seu autoflagelo, um escravo de si mesmo, uma vítima da própria fama, arranhou barrigas com raiva, tirou sangue gelado de amigos que perdiam os dias para ganhar uma vaga para sexo em alguma faculdade longe de casa, ignorou a nossa piedade de não contra-atacar, um réu não confesso que foi pego em flagrante. Ele me culpa por tudo. Eles me culpam por tudo. Dizem que fui eu que criei o monstro. Mas eu sei o nome disso: inveja. Eu trocaria todos os lugares certos nas horas certas pelo lugar certo na hora certa que foi imposto a mim. Será? Será que a minha história é fantasiosa? Será que a fantasia pode ser real? Como faz? Como faço?

Rick, torça para que nenhum de nós esteja insensivelmente bêbado ao fazer um brinde especial na sua futura festa de casamento.

Em algum sábado de junho de 2004

Era sábado.

E os meus sábados em 2004 eram segundas para pessoas com sábados.

Livre, desimpedido e refém de mim mesmo.

Mesmo.

Refém do Nestor.

Do Telmo.

Ambos meus reféns.

Ambos reféns de si

Mesmo.

Não é novidade.

E nós.

Nos conformamos com as limitações da nossa

Própria miséria.

Veja só.

Nós comíamos bem.

Telmo não comia tão bem como come hoje.

Veja só.

Comíamos comida.

E só.

Já me viu?

Não sabe.

No cinema sozinho assistindo ao filme Invasões Bárbaras.

Chorei.

Ninguém viu.

Sozinho.

Sessão de sábado 13h45.

Almoço no MEC.

Donald’s.

“Dois queijos quentes, uma batata-frita grande e uma Coca-Cola média.”

Esses eram os melhores sábados.

Kill Bill foi assim.

Saía da faculdade.

Aulas no sábado.

Primeiro semestre.

Autodescoberta que alguma coisa que nunca vi dormia em mim.

Doença?

Ainda faltava um mês e meio para eu começar a pegar uma pá.

De mina.

(S.)

Ia a pé.

Canal 1 até o Canal 6.

Flanava, via, gostava e voltava.

Limbo?

Eu gostava de todos os filmes que via no cinema porque eu só ia ao cinema para assistir aos filmes que sabia que ia gostar.

Nem tudo precisava ter decepção.

Nós íamos ao cinema juntos.

Rodízio de pizza juntos.

Enquanto todos vocês transavam.

Por aí.

Os piores sábados não vinham e iam a pé.

Eram guiados por um Kangoo-motel:

Sem clientela.

Cardápio:

Cara amassada das 6:00.

Sinais incipientes de abuso alcoólico.

Papadas e semblante de surra.

Pré-Sábado abusivo:

Cachaçarias e festas em quitinetes.

Nada de sexo.

Cinebiografia do Cazuza

Em televisores penteadeira.

Papel de Anais Nin e do MST

Na sociedade de consumo.

Faltava uma arma de fogo.

Na boca.

Ou uma tesoura para cortar a rede da sacada.

Ou as orelhas.

Balsa.

Nestor ficava na Conselheiro Nébias.

Eu:

Canal 1.

Volta.

Eu saía do Canal 1.

Nestor saía da Conselheiro.

Autodescoberta que alguma coisa que nunca viu dormia em Nestor.

Doença?

Balsa.

Passada na locadora.

Talvez o ponto alto

Dos sábados mais baixos

No meu infame ibope.

O Tempo de Cada Um,

de Sophia Miller.

Conte Comigo,

de Kenneth Lonergan.

À noite Rocambole passava duas horas nos enrolando até de fato passar de fato. Rocambole de 2004 não era tão rocambolesco como o Rocambole atual.

Vectra azul marinho quatro portas dois ponto zero farol claro.

Som potente quase sempre Outkast fase Speakerboxxx/The Love Below.

“Rola de novo Church!”

“Rola de novo Church!”

“... novo Church!”

“Church!”

Prova de Amor,

de David Gordon Green.

Um giro de 360 graus na entrada da Lucky Scope.

“Entrar pra quê?”

“Nós só vamos perder dinheiro de novo

e arrumar outra briga por frustração.”

Irreversível,

de Gaspar Noé.

Dois giros de 360 graus na entrada da Lucky Scope.

“Olha aquela mina.”

“Olha aquela mina.”

“Vamo entrá?”

“Olha aquela.”

“Semana que vem não tem jeito.

Combinado?

Nós vamo entrá!”

Amar é: Claque!

Lucky Scope é: Claque!

Lucky Scope era:

“não”,

“não”,

dança,

“apavora o gordinho”,

“apavora o gordinho”,

“Eu to suando pra caralho!”

“Arranca o telhado.”

“não”,

“uma breja”,

“outra breja”,

“mais uma”,

“mais duas”,

“mais cinco”,

“O gordinho caiu,

o gordinho caiu”,

“mais... mais... mais...”,

“Que música é essa?”

“olha a conta”,

“Quê?”,

“E essa?”

“O Rocambole arrumou briga com um japa”,

“Quê?”

“Olha a fila pra pagá a conta!”

“Quê?”

“Olha a fila pra usá o banheiro.”

“Quê?”

“Eu não conheço nenhuma música nessa porra!”

“Eu não podia te ficado em casa?!”

“Aquela mina que pagou de gatinha lá dentro tá no ponto de ônibus.”

“Vai de 77 memo sua filha duma puta!”

Cabeça Grávida de Trigêmeos disse na fila que “a mina ali falou que eu pareço o Erick Marmo”.

Sei.

Solitário Jim,

de Steve Buscemi.

“Vamo rodá o Tombo de carro.”

“E depois?”

“Astúrias.”

“E?”

“Pitangueiras.”

“Não tem ninguém no Tombo.”

“Não tem ninguém nas Astúrias.”

“Diminui, diminui,

Para, porra, para,

Olha aquelas mina ali,

Leonardo, põe a bunda pra fora do vidro do carro,

Rocambole, pede informação, caralho, pede informação”,

“Já vo, porra!”

“Eu já to com a bunda pra fora...

Vai logo, caralho!, tá chuviscando na minha bunda.”

“Cala a boca, Rick, não deixa o Rick abordá.”

“Ééeeee, o Rick queima o filme.”

“Oi, por favor, vocês podem me dá uma informação?”

“Shhhhhh, elas tão vindo...”

“Oi.”

“Tudo bom?”

“Tudo.”

“Por favor, você sabe como eu faço pra chegá

Até o clube Vila Souza?”

“Então, você vira à... ahhhh, nãaaao, que nojo!”

O Mundo de Leland,

de Matthew Ryan Hoge.

O Último Beijo,

de Gabriele Muccino.

Eu queria descobrir o que eles viam quando olhavam pra fora.

O que eles viam em si quando olhavam pra fora.

Será que Nestor já estava imaginando como seria ficar apaixonado?

Será que Elisa já estava crescendo dentro dele?

Será que Elisa já o fazia ‘crescer’?

Quem é Elisa?

Peraí, só mais uma coisa: ela existe?

Telmo meio que enlouqueceu quando foi pra faculdade.

Continuou não pegando ninguém,

Mas decorou todas as músicas do Chiclete com Banana

E passou a usar constantemente uma camiseta da Faculdade Metodista abóbora

Na qual se lia a exortação: Toda Poderosa Metô.

Heróis Imaginários,

de Dan Harris.

Ele se considerava um Metoloko.

Os Metolokos reuniam-se em micaretas,

usavam bandanas estampadas

E se divertiam pegando gordas suadas em público.

Eles iam para o JUCA encher a cara com vodka barata

E representar a faculdade no campeonato de xadrez.

Os Metolokos são seres invejáveis!

Os Metolokos são seres indesejáveis!

Os Metolokos são seres fascinantes!

Os Metolokos são seres repugnantes!

Um deles chegou uma vez absolutamente bêbado em casa,

Tirou toda a roupa do corpo, tirou todas as comidas

E bebidas que estavam na geladeira, derreou numa cadeira

Que estava na cozinha, apagou e acordou no dia seguinte

Com o barulho da sua mãe na cozinha preparando o café-da-manhã

Enquanto colocava todos os alimentos e bebidas de volta a geladeira

E observava atônita a porra do seu filho roncando pelado na cozinha

Numa típica manhã de puta frio do ABC.

O mesmo cara morou dois anos nos Estados Unidos,

Foi de Nova Iorque à Jamaica num carro alugado,

Perdeu-se numa boca jamaicana,

Quase foi vítima de um arrastão-estupro-canibalismo,

Esqueceu por quase dois dias onde havia estacionado o carro alugado

E além do mais voltou ao Brasil sem aprender a falar inglês.

Dogville,

de Lars Von Trier.

Telmo nos contou uma incrível história com um final inusitado

Na qual Telmo e outros Metolokos estavam numa balada meia-boca

E, ao saírem frustrados da balada, viram um conhecido deles

Recebendo uma punhetinha de uma mendiga bem no meio da rua.

Na mesma hora, os Metolokos se manifestaram:

“Porrrra, meeeeu, olha só o que o cara tá fazendo.”

A pergunta é: o que você acha que aconteceu depois disso?

Eu, se estivesse lá, diria: “Nossa, o cara é mó maluco,

Que nojento, filma esta porra!”

Nestor diria: “Eu não transo nem com virgem sem camisinha”.

Telmo disse: “Horrível, eu não vou conseguir dormir... de tanto rir.”

Os outros Metolokos disseram: “Eu sou o próximo”,

“Não, eu sou o próximo.”

“Linha!”

“Vamo tirá no dedos iguais.”

“Não, vamo fazê uma fila.”

“Quem chegá primeiro, é o próximo.”

“Demais, hoje alguém vai batê uma pra mim. Até que enfim.”

“Pergunta se ela chupa.”

A Última Noite,

de Spike Lee.

A intensidade da nossa desilusão

Estava tão exacerbada a ponto

De nos rendermos e nos juntarmos, em uma infeliz

Porém estranhamente rara e tragicômica ocasião,

A Telmo e seus Metolokos Boy’s em uma excursão de busão

Rumo a uma festa da Metodista num ginásio de São Paulo:

Festa da Bacardi.

Bacardi à vontade até o último que ficar em pé.

Entretanto, ainda no caminho para a festa,

Ou melhor, o erro, a Baikal começou a dar o seu show:

De horror.

Bully,

de Larry Clark.

A Baikal peregrinou de mão em mão.

Antes de beber,

A pessoa que no momento estava em posse da Baikal,

Tinha que gritar o seu nome e a sua cidade: Nestor, Guarujá.

A partir daí, os Metolokos garantiam a sua vergonha:

“Nestor!, Nestor!, Nestor!, vira!, vira, vira, hei, hei, hei...”

E você não tinha como fugir daquele ritual importado dos

Spring Breaks garotinhas católicas do Arkansas chupando

23 paus negros e 19 latinos antes de desmaiar por excesso de speed

E insolação numa praia da Costa Rica e voltar para os States

Para retomar contrariada o sonho de ser professora substituta.

Telmo, Guarujá.

“Telmo!, Telmo!, Telmo, vira, vira, vira, hei, hei, hei....”

E você não tinha como deixar que aquela vodka de macumba

Escorresse pelo seu queixo e, por reflexo, lhe provocasse

Um esgar facial nada fotogênico.

Cleck: “Bela foto!”

Uknown White Male, a True Story,

de Rupert Murray.

Francesco, Guarujá.

Pois é, o meu nome é Leonardo,

Mas disse que era Francesco, portanto:

“Francesco!, Francesco!, Francesco!, vira, vira, vira, hei, hei, hei...”

Mas eu não bebi.

Ninguém viu.

97% dos passageiros do busão já não confiavam mais no que estavam vendo

Ou não.

Um específico membro dos Metolokos vomitou pelo vidro do ônibus

O que me pareceu uma porção de bananas cortadas em rodelas

Sobre o teto solar de uma BMW.

“Fran... cesco, cara, posso te chamar só de Fran?”

“Pode.”

“Fran!, Fran!, Fran, vira, vira, vira, hei, hei, hei...”

A cada vez que escrevo este grito de guerra,

Mais ele me parece uma ode ao sexo anal.

O cara da banana em rodelas não conseguiu entrar.

O melhor amigo Metoloko do Telmo também não conseguiu entrar.

Depois eu meio que fiz uma rasa amizade com esse cara e descobri

Que ele curtia Rodolfo e E.T

“O Cd do Rodolfo e E.T.”

“Ahhh, tá bom, agora entendi, tá perdoado.”

Telmo resolveu fazer companhia aos Metolokos feridos.

Os Metolokos eram muito unidos.

O senso de irmandade exalava-lhes por todos os poros.

Menos quando rolava uma festa da Bacardi com Bacardi à vontade

Cheia de piranhas cheias de Bacardi

Exalando Bacardi por todos os orifícios.

Telmo foi o único Metoloko a não entrar na festa

Para auxiliar os amigos combalidos da mesma cepa.

Nós como bons amigos que somos e não Metolokos que somos

Lhe fizemos companhia.

Por 20 minutos, depois demos uma entrada para ver se realmente

Estávamos perdendo algo digno de histórias ulteriores.

E rapidamente intuímos que aquilo não acabaria... limpo.

Uma mesa preta gigante atulhada de Bacardi.

Sem filas, sem senhas, logo logo

Alguém seria encontrado sem calcinha

Com um rastro de vômito com sangue nas costas

E não lembraria disso no dia seguinte:

“Quem me comeu?”

As pessoas desmoronavam.

Os olhos desmoronavam.

Os cabelos desmoronavam nos olhos já pulverizados.

Pessoas rolavam das escadas.

Pessoas rolavam das escadas gelatinosas com os copos

Cheios de vodka levantados no ar.

“Eu posso cair, a Bacardi, não.”

Mamãe me dizia “nunca vá a churrascos à noite

Que começaram na hora do almoço.

Você não irá sorver uma gota da cerveja que trouxe e

A mina na qual você está apaixonado

Será sodomizada semi-desacordada

No chão frio da área de serviço

Pelo cara mais idiota da face da terra”.

Mãe é mãe.

Chegamos atrasados à babilônia Polo Play.

“Cheguei atrasado ao filme Amnésia e não entendi nada.”

“Comecei a assistir Lost na metade da terceira temporada

E achei uma bosta.”

“Os caras já tinham fumado cinco becks cada um.

É óbvio que não consegui convencê-los a adiantar o TCC.”

Nos filmes de apocalypse zumbi, se você ainda não se tornou um zumbi:

Fuja!

Numa pista de skate cheia de skatistas, se você for o único com um par de patins:

Fuja!

Na Pitangueiras num dia de ressaca

E cheia de surfistas pitboys analfabetos,

Se você for único morie cat:

Fuja!

Numa festa de Bacardi à vonts, se você chegar atrasado, e sóbrio:

Fuja!

Nós fugimos.

Fomos ficar com o Telmo.

Os Metolokos feridos também já tinham fugido.

Para os táxis que iriam levá-los às suas camas

Envoltas pela temida fragrância de mais uma largada queimada.

A primeira menina que saiu do clube deitou no gramado

Em frente ao clube com as pernas abertas.

Ela estava de mini-saia branca e o gramado tinha

Mais lama do que grama.

Um cara que estava passando pela calçada

Com o uniforme da Eletropaulo

Tentou abordá-la e tomou uma gorfada no rosto.

Outro cara que estava passando pela calçada

Com um pudoll bichona na coleira

Não acreditou no que tinha visto.

Voltou, se aproximou, abaixou o tronco, virou o pescoço e

Tentou ver de que cor era a calcinha da mina ou,

Quem sabe, se ela estava sem calcinha.

Dez minutos depois ele voltou.

Agora sem o pudoll bichona.

Agora com uma máquina fotográfica de filme.

Ele tirou pelo menos umas doze fotos.

Até que o enfermeiro da única ambulância interveio

E disse que, se ele não parasse, ele teria que chamar a polícia.

O enfermeiro foi até a menina, conversou com ela,

Levantou a menina da lama

Sem antes olhar por baixo da mini-saia dela

E a levou até a ambulância.

Parecia que vários cavalos haviam cagado sobre a mini-saia dela.

Três meninas saíram desmaiadas

E carregadas por quatro seguranças.

Uma mega-gorda saiu carregada por cinco seguranças a contragosto

Como se estivesse sendo destruída em um tablado de MMA

E contestasse a decisão do juiz de interromper a luta

E dar a vitória a seu oponente.

Três ambulâncias chegaram.

Mais trinta pessoas saíram carregadas.

Duas viaturas apareceram.

Três policiais espancavam na esquina próxima um cara com cassetetes.

A organizadora super gostosa da festa

Que usava o microfone da Sandy

Antes de confessar que dar o cu é de boa

Preferia naquele momento

Estar em casa dando o cu numa boa.

Cinco novas ambulâncias chegaram.

Vários caras brigavam a garrafadas.

Mais duas viaturas apareceram.

Um caminhão do corpo de bombeiros errou o endereço

E ficou por lá mesmo.

Enquanto isso, no olho do furacão da festa,

Uma menina despencava do terceiro andar do clube.

Ela quebrou a bacia.

Duas irmãs gêmeas só voltaram para casa

Duas semanas após a festa.

E no meio daquela bacanal sem sexo,

Três caras quase virgens do Guarujá

Eram os únicos que estavam se divertindo com aquilo tudo.

E um deles acabou vendo um par de seios bem bonitinho

Enquanto o comilão da mina a carregava para colocá-la no ônibus.

“O, brother, os peito da tua mina tão aparecendo aí, arruma isso.”

Há o lado bom de assistir à vida.

Sobre Café e Cigarros,

de Jim Jarmush.

O que Telmo via dentro de si

Enquanto olhava através do vidro embaçado do carro

A praia da Enseada erma sendo fustigada pela chuva?

Um Refúgio no Passado,

de Brad Macagann.

Será que ele pensava nos seus instrumentos analógicos

Nos quais pouco tocava e que nunca saiam de casa?

Será que alguma vez ele atinou para a ironia desse comportamento

Como metáfora para a própria existência?

O que havia dentro de mim além de ódio silencioso

Enquanto olhava no interior do meu obsoleto, asséptico e obscuro

Kangoo Motel para esse cartão postal mundial desprovido de árvores,

Com um povinho filho da puta,

Com ruas mais esburacadas

Do que o rosto do meu antigo professor de Geografia

Que também era um grande filho da puta

E um asqueroso ladrão de lanches dos alunos,

“Já que eu pedi para você não conversar,

E você conversou,

Eu vou tomar o seu refrigerante e a sua maçã,

E já que a maçã é um alimento perecível,

E o refrigerante esquentará e estragará,

Serei obrigado a saboreá-los durante o recreio”,

Dando voltas

E mais voltas

Em torno

Dos mesmos

Lugares

Como um cachorro

Com mania

De perseguir

E morder

O próprio rabo?

Havia a certeza que precede o fim de algo que prometia ser infinito:

O fim da minha música.

E a certeza que precede o começo de algo que promete ser infinito:

A porra das palavras.

A manutenção ingênua que crê na força das palavras

E por meio delas cria

A dialética das oposições.

A minoria que insurge-se contra a maioria

E torna-se a maioria

Provocando a mudança

Contínua

E inesgotável

Da sociedade.

Água e Pedra

Homem e Mulher

Deus e o Diabo

Buço e Busto

Allan Ball e Miguel Falabella

O Virgem de 40 Anos,

de Judd Apatow.

Dia e Noite

Sol e Lua

Paz e Estupro

Igreja e Aborto

Aldous Huxley e Paulo Coelho

Buena Vista Social Cub e Trio Los Angeles

Mesa de Bar e Mesa de Cirurgia

Academia Brasileira de Letras e Millôr Fernandes

Month Python e Zorra Total

Orgasmo e Câncer

Corrida e Punheta

Chupeta e Sexo Oral

Paz e Amor e Ordem e Progresso

Closer, Perto Demais,

de Mike Nichols, adaptação da obra de Patrick Marber.

Marlon Brando e Dado Dolabella

Patti Smith e Syang

Meg White e Zack Hill

Daniel Filho e Charlie Kaufman

Rocambole e Dhalsin

Pedro Bial e Noah Chonsky

Paul Newman e José Mayer

Yao Ming e Rick

Rodolfo (Raimundos) e Rodolfo (ex-Raimundos)

The Carpenters e The Shaggs

KLB e The Shaggs

Marta do futebol e Martha Suplicy

Maurício Manieri e Mayer Hawthorne

Hermes e Renato e Banana Mecânica

Truman Capote e Roberto Esper

Kamau e Cabal

Tarso de Castro e Boris Casoy

Woody Allen e Wolf Maya

Beastie Boys e R.K.F

Penélope (MTV) e Penélope Cruz

Ian MacKaye e Lobão

Pitty e Joan Jett

Irmãs Galvão e As Gêmeas do Pólo Aquático

Tom Jobim e Tom Cavalcante

MGTM e Grateful Dead

Ken Kesey e Padre Marcelo Rossi

Holden Caufield e Mark Chapman

Biafra e Jello Biafra

Villa Lobos e Vila Belmiro

Van Gogh e Vin Diesel

Miley Cyrus e Miles Davis

Rede Record e Editora Record

Troma Filmes e Globo Filmes

Jimmy Hendrix e Jimmy do Matanza

Café Photo e Puteiro da Vaquejada

Serguei e Mick Jagger

Nelson Rodrigues e Nelson Rubens

James Taylor e Taylor Swift

Deserto e Sauna

Nelson Rodrigues e Nelson Mandela

Carmelitas Reclusas e As Acorrentadas

Waking Life,

de Richard Linklater.

Michael Jackson e Vanessa Jackson

Rubens Ewald Filho e Pauline Kael

Suba e Supla

Os Trapalhões e Renato Aragão

Regras da Atração,

de Roger Avary, adaptação da obra de Bret Easton Ellis

Literatura Russa e Renato Russo

Libertines e The Clash

MoonWalker e Johnnie Walker

Bryan Adams e Ryan Adams

Daniel Radcliffe e Daniel Johnston

Phil Spector e Rick Bonadio

Frank Aguiar e Frank Zappa

Lenny Bruce e Lenine

Lênin e Lenine

Lenny Bruce e Lênin

Beto Barbosa e Beto Brant

Napoleão Bonaparte e Napoleon Dynamite

Anti-Herói Americano,

de Robert Pulcini e Shari Spring Berman, baseado na obra de Harvey Pekar.

Gravidez e Genocídio

Moderno e Sincero

T.V Aberta e Liberdade de Escolha

Hugo Chávez e Miss Venezuela

Dick Cheney e Philip K. Dick

Paz e Coma

Multishow e Showtime

Hitler e Ilha Bela

Reality Show e Realidade

Dom Quixote e Sancho Pança

Brasil e Brasil

Estados Unidos e Estados Unidos

Espanha e Espanha

Itália e Itália

França e França

Brasil e Brazil

Eu, Você e Todos Nós,

de Miranda July.

Estados Unidos e América

Generalização e Conhecimento de Causa

Arte e Arte

Olhar e Conhecer

Homem e Humano

Comunismo e Teoria do Comunismo

Teoria do Socialismo e Socialismo

Hippie e Neo-Hippie

Leis e Controle

Educação e Dinheiro

Livros e Inteligência

Vanguarda e Vanguart

Egoísmo e Vítima

Liberdade e Imprensa

Tranqüilidade e Solidão

Profissão e Amor

Sucesso e Originalidade

Originalidade e Sucesso

(Continua na próxima segunda-feira.)

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Pesadelo em Limeira - O dia em que a esperança morreu logo na chegada - Parte 4

A história de um breve romance indie cheio de putaria grudenta - Parte 2

Primeiro sintoma indie: lançar mão de adjetivos delicados. Carmelino Pão e Vinho conheceu Miranda na internet enquanto estava de castigo. Eles conversaram, se encontraram, ficaram e... “foi lindo”. Isso que ele falou pra mim: lindo. E a parada evoluiu e se estendeu para outros assuntos. “Se liga, peraí, é agora, espera só um pouco, ouve só, nossa, esse pianinho é muito... ‘fofo’.” Fofo. Vindo de um homem que ouvia Atari Teenage Riot de cueca preta encardida enquanto comia carne crua fedorenta no quarto escuro para um homem que comia coisas massudas oriundas do interior do nariz: foi aterrador. O fim de um amigo e o início de um... Kid Vinil adolescente. A vítima de Mal de Alzheimer que tem vergonha de lembrar de tudo. Sobretudo das cicatrizes caiçaras que jamais se cicatrizarão. Miranda não existe mas ela toca baixo. Segundo Carmelino Pão e Vinho: “Melhor que todo mundo. Melhor que você, melhor que eu, melhor que o Telmo, melhor que o Rocambole, melhor que o Flea, melhor que o Ron Carter, melhor que o Les Claypool...”. Miranda não existe mas ela conhece de música. Segundo Carmelino Pão e Vinho: “Conhece mais do que qualquer um. Beastie Boys é uma merda. Minor Threat é uma merda. Fugazi é uma merda. NOFX é uma merda. Black Flag é uma merda. Metallica é uma merda. Hole é liiiiindo”.

Amor! “Ame-me ou me ame.”

Carmelino Pão e Vinho nos apresentou coisas boas.

Ele que nos trouxe Sense Field.

Ou foi Miranda?

Ele que nos trouxe Get Up Kids.

Ou foi Miranda?

Ele que nos disse que Get Up Kids não era mais legal.

Ou foi Miranda?

Ele que nos disse que o Further Seems Forever parecia uma escola de samba firulenta. Ou foi Miranda?

Quem disse que Smart Went Crazy era muito melhor que Faraquet?

Relacionamentos amorosos modernos ou não tão modernos assim: Quem é quem? Se você for procurar o significado da palavra relacionamento no dicionário, você não irá encontrar isso: guerra velada, posses sorrateiras, competição infantil, servidão de uma das partes, plantio de ervas daninhas no corpo do outro: plantio do outro no outro. Os relacionamentos modernos ou não tão modernos assim quase sempre ambicionam somente uma coisa: O que é? “Já sei, levar a mina para tomar um sorvetinho na praia.” Não! “Essa é fácil, levar a mina para o motel e tentar levar a mina ao orgasmo ao mesmo tempo em que você chega ao orgasmo, ou seja, dezenove segundos.” Não! “Dar um filho pra ela?” Tá frio. “Dar um urso pra ela?” Não, só se a tua mina for a Maíza. “Dar um tiro na cara dela?” Às vezes acontece isso, nos relacionamentos da Suzana Vieira, por exemplo, ou nos de William Burroughs, mas não vamos nos exacerbar a tal ponto. “Ah, caralho, desisto, qualé dessa parada?” Mudança. “Mudança? Só isso?” Do outro. Pelo outro. Que se transforma em missão cega. Em serviço social mesquinho. Em filantropia às avessas.

O que vou dizer agora pode ser encarado como machismo, pois depõe a favor dos machos, mas a sede de “mudança” parte única e exclusivamente das mulheres. Se o cara for um galinha compulsivo, ela fará de tudo para transformá-lo no personagem do Greg Kinnear no filme Banquete de Amor. Se o cara não dar bola pra ambição, ela fará de tudo para transformá-lo num arrivista inescrupuloso. Se o cara for sincero, ela fará de tudo para transformá-lo numa mentira ambulante. Se a dedicação obsessiva que ela emprega a essa missão não surtir efeito, ela irá dobrar a jornada de trabalho. Se a dedicação obsessiva que ela emprega a essa missão surtir efeito, ela irá lavas as mãos, trocar o número do telefone, fazer as malas e nem se dará ao trabalho de dizer adeus. “Ele faz uma coisa irritante: ele pensa diferente de todo mundo. Ele faz outra coisa irritante: ele não suporta usar terno e gravata. Ele faz mais uma coisa irritante: ele odeia novela. Ele faz outra coisa muito mais irritante: ele não liga para dinheiro e se nega a comprar um carro. Ele faz uma coisa muito muito muito mais irritante: ele continua trabalhando de bartender, ele diz que é a coisa que lhe dá mais prazer na vida. Ele faz outra coisa muito muito mais muito mais muito mais muito mais irritante: ele não é ciumento.”

Eu não conheço nenhum cara que largou a mina porque ela ainda trabalha no Boticário. Eu não conheço nenhum cara que largou a mina porque ela não gosta de futebol.

Eu não conheço nenhum cara que largou a mina porque ela era muito legal.

Eu não conheço nenhum cara que largou a mina porque ela roia muito as unhas.

Eu não conheço nenhum cara que largou a mina porque ela não gostava de filme europeu.

Eu não conheço nenhum cara que largou a mina por conta da tonalidade artificial do cabelo dela.

Eu não conheço nenhum cara que largou a mina porque ela prefere Seu Jorge a Dinosaur Jr.

Eu não conheço nenhum cara que largou a mina porque ela não era ciumenta.

(A minha segunda ex-namorada me largou porque eu não era ciumento.)

Eu conheço caras que largaram as suas namoradas porque queriam largar as suas mãos na bunda do maior número de mulheres possível.

Eu conheço caras que largaram as suas namoradas porque queriam largar as suas mãos na bunda do maior número de mulheres possível.

E eu conheço caras que largaram as suas namoradas porque queriam largar as suas mãos na bunda do maior número de mulheres possível.

A não ser por estes exemplos de múltipla mesmice, o homem sabe valorizar mais as qualidades das mulheres a ponto de ignorar quase por completo os piores defeitos das suas parceiras. “O meu amor por você torna os seus defeitos insignificantes.”

O dia, mulheres, que vocês tiverem a possibilidade de ouvir estas palavras saídas da boca de um homem sendo dirigidas a vocês, tratem de enterrar as suas facas afiadas, de queimar a sua pilha de páginas com fórmulas dispendiosas de futilidade, de retirar os seus sutiãs acolchoados da fogueira, de dar descarga nos seus pôsteres da Sarah Jessica Parker, de doar os seus pôneis, de furar os seus tímpanos enquanto as suas amigas bem-sucedidas tentam os atolar com merda requentada – tratem, enfim, de depositar o seu futuro com os olhos fechados e um belo sorriso estampado no rosto nas mãos desse autêntico cidadão. Eu asseguro que ele fará o inimaginável para deixá-la pavimentar o rumo do próprio destino. Eu asseguro que ele fará o necessário para você não achar que o melhor mesmo é que os outros acham que você deve achar.

Eu retiro tudo que disse caso o autêntico cidadão referido usar peruca.

Os defeitos são inerentes, amar é para poucos.

Às vezes me surpreendo com as minhas cretinices piegas. No entanto, eu considero esse mantra o combustível que rege a minha existência.

Era a missão dela. Ela tinha que sair fora. Carmelino Pão e Vinho viu e sentiu tudo. Os olhos queimaram. A garganta fechou. Carmelino Pão e Vinho viu Miranda fazendo as malas. Viu Miranda sabotar o próprio e-mail. Sentiu que ela arquivava peças íntimas escolhidas de modo aleatório nas frestas mais recônditas de sua memória. Viu e sentiu quando ela encaixotou as suas armas diabólicas – os CDs. Viu e sentiu ao vê-la espalhar as próprias fotos como uma trilha íngreme rumo ao inferno. Talvez tenha sido depois desses contratempos indeléveis que os tímidos choros de Carmelino Pão e Vinho tenham se tornado Tsunamis recorrentes. Ele me via: chorava. Ele via Telmo: chorava. Ele via Rick: chorava. Ele via Rocambole: chorava. Ele se envolveu com uma mina cujo apelido era Demo. “Larga dela, cara.” “Puta, cara... (choro-choro-choro) eu não consigo.” Você a ama?” “Não.” “Então?” “Não dá... (choro-choro-choro) ela é muito fofinha.” Fofinha. Aí ele fez a pior coisa que alguém pode fazer a si mesmo: virou clubber. Indie + Clubber = Terceira Guerra Mundial. Ele passou a usar roupas transadas. Roupas compradas em feiras de cultura GLS. Camisetas com código de barra. Óculos escuros gigantes com armações douradas e lentes amarelas. Sapatênis pomposos número 44. Calças de veludo. Cigarros mentolados e expiração exagerada. Dava medo de andar com ele. Eu andava bem na frente enquanto Telmo segurava a bronca e entrava em acordo com a própria paciência. Quando achávamos que era impossível algo ficar ainda pior, ele começou a jogar RPG pra valer. Indie + Clubber + RPG = AIDS na gengiva. Quando achávamos que era ainda mais improvável algo ficar ainda pior do que o pior com o ainda, ele passou a fazer mágica. Na rua. Para chamar a atenção das garotas. Como um xaveco. Com cartas. Escolha uma carta. Não mostre pra mim. Lembra da carta que escolheu? Não esqueça. Então. Peraí. Só um segundo. É essa? E ele acertava. A carta. Não o xaveco.

O último momento marcante que dividi com Carmelino Pão e Vinho, o resumo supremo da sua personalidade e da de todos os indies radicais do terceiro mundo, aconteceu muitos anos depois de sua última crise de personalidade e da extenuante ressaca pós-Miranda. Ele já era um indie convicto e conformado com a característica instabilidade que se apossa de um entusiasta de Belle and Sebastian nas situações mais ordinárias do dia-a-dia. Eu estava no primeiro ano da faculdade de jornalismo. Ele já estava no quarto ano de publicidade, apesar de ser dois anos mais novo que eu. Quando nem sequer pensávamos que algo surpreendentemente desagradável poderia deixar o mundo um lugar ainda mais inóspito do que essa atuante diarréia de vômito a céu aberto, ele começou a namorar uma indie. Não queira ouvir uma discussão indie. É pretensiosa, afetada, iletrada e não tem o senso de humor lúgubre das discussões de metaleiro. Pior que uma discussão indie, é a demonstração de carinho público entre um casal indie heterossexual. “É melado?” Aposto que deve ser mais melado que esperma de camelo em bochecha ressecada. Havia um bar ao lado da faculdade que eu e Carmelino Pão e Vinho freqüentávamos. Lá não se podia falar palavrão e nem falar alto. Mas podia demonstração de carinho entre casais indies heterossexuais. Como também podia haver uma árvore no meio do banheiro. E também era permitida a presença de gatos pulguentos ao lado do seu copo americano transbordando de cerveja. Eles também davam um sim a hippies que cursavam geografia e que empunhavam um violão desafinado. Como também davam um sim a universitários que cursavam história com as suas diatribes paranóicas contra a Nike, a favor de Yasser Arafat, “Viva Hakim Bey!” e “Quem é Hakim Bey?”. Certo dia eu fugi da aula de Metodologia do Trabalho Científico e fui ao bar para tomar algo bem barato chamado Bavária. Ao entrar, vi que Carmelino Pão e Vinho e sua namorada indie estavam sentados em suas respectivas cadeiras arranhadas situadas em cada ponta da mesa de plástico bamba. Eles estavam com as mãos dadas sobre a mesa. E estavam, meu Deus, olhando um para o outro e... chorando. Pareciam dois guarda-chuvas axadrezados indicados pela revista Simples após serem pegos de surpresa por uma fugaz tempestade de verão. Eu fiquei assustado. Nós, hipocondríacos, temos que ser assustados. É um pré-requisito para entrar no clube. Dores na virilha: câncer. Sede excessiva: diabetes. Dores abaixo da barriga: apendicite ou câncer. Coceira nos olhos: conjuntivite, catarata, glaucoma. Febre: leptospirose, dengue, AIDS, febre amarela, H1N1, Ébola. Ligações de madrugada: morte de um familiar. Alguém gritou gol na rua: gol do Santos. Lágrimas de transeuntes em transportes públicos: traição, aborto, estupro, demissão, rompimento, reprovação, AIDS etc. Então perguntei: “O que aconteceu? Por que estão chorando?” Os dois viraram o pescoço, na minha direção, ao mesmo tempo. Tudo muito bem coreografado. Não havia sorrisos. Só bocas fechadas e relaxadas. Olhos abertos e paisagísticos. Goteiras. Colírios. “Aconteceu alguma coisa com a sua filha?” A namorada indie de Carmelino Pão e Vinho tinha uma filha pequena. “O quê? Aconteceu alguma coisa com a minha filha? Onde está a minha filha?” Eu nunca tinha visto nem uma foto da criança. Quanto menos visitado a Praia Grande, onde a namorada indie de Carmelino Pão e Vinho vivia com a filha. Ah, ela cursava letras. Ah, ela escrevia poemas sobre a força da buceta. Tudo muito lírico, nada de buceta propriamente dita. “Não, tá louca, mina, tá me tirando de pedófilo, caralho?” Brincadeira, eu não falei desse jeito. “Não, eu só to perguntando isso porque os dois tão aí chorando, sabe, aí eu pensei, bem, sabe como é, carros velozes, crianças correndo no meio da rua e.... Então os dois começaram a sorrir pra mim. Um sorriso retardado. Sorriso de iogue. Sorriso Tai Chi Chuan. Sorriso pedófilo pré-ato. Aquele tipo de sorriso que as pessoas dão quando acham que acabaram de ver Jesus. Aquele tipo de sorriso que as pessoas dão quando acham que elas são tão especiais a ponto de Jesus se materializar para dar-lhes um alô. Aquele tipo de sorriso que você dá quando ouve alguém dizer que anteontem viu Jesus na hora do almoço jogando uma pituca de cigarro no chão. Aquele tipo de sorriso que certas pessoas dão por se acharem mais sábias que você. Aquele tipo de sorriso condescendente e imbecil que certas pessoas dão ao acharem que você é imbecil. Ou aquele tipo de sorriso que dei quando aquela pasta cremosa com prazo de validade vencido saiu do meu pau pela primeira vez após chacoalhá-lo ininterruptamente por um minuto embaixo do chuveiro na época em que tomar banho não era nada divertido: a surpresa ao concluir que nem sempre é necessário revolver na lama para encontrar um tesouro. “Léo”, agora ele me chamava de Léeeeeo, “são lágrimas de alegria, cara, sabe por quê?, NÓS VAMOS AO SHOW DO PIXIES!, cara, você sabe o que é isso?, É O PIXIES!, cara, eu e ela vamos ver o PIXIES!, ao vivo, na nossa frente, eles tocando ali, bem ali, pra gente, eu consegui comprar o ingresso, foi meeeeeeeeega disputado, Léeeeeeo, meu deus, cara, que lindo (Lindo!), lindo (Lindo!), lindo (Lindo!), é o PIXIES, meu, você sabe o que é isso?” Sei. Afinal, eu que mostrei o PIXIES pra ele. Afinal, ele que sumiu com uma coletânea dupla que eu tinha do PIXIES. Sumiu também com o meu cd raríssimo do Whirpool. Ele me mostrou o Whirpool. Ou foi Miranda? “Telmo, tenho uma confissão a fazer”, “O que foi, vai assumir?”, “Ainda não, só no dia do casamento do Nestor, daqui a trinta anos, com um negão chamado Antônio”, “Eu já pensei nisso”, “Em casar com um negão chamado Antônio?”, “Não, que o Nestor irá casar com um negão chamado Antônio”, “Tá na cara. Se liga, tenho uma confissão a fazer”, “Faça”, “Eu gosto de Whirpool”, “Nãaaaaaao, Leonardinho, dando munição pro inimigo...”, “Eu até comprei o cd”, “Aquela porra empoeirada que tava jogada na loja do Fera?”, “Exato”, “O Carmelino vai ficar insuportável.” Ele me disse que perdeu o cd do Whirpool e me deu um cd do Diagonal. “Sério? Tu acha que o Diagonal vai compensar o Whirpool?” Eu perdi o cd dele do Sense Field, o Building. Estamos quites. Ele se mudou para São Paulo. Ele tocou por um tempo no Diagonal. Ele se casou e não contou para ninguém. No final do ano passado, numa madrugada de sábado, ele ligou para o meu celular. Ele me convidou para tocar bateria na nova banda dele. Eu disse que não morava mais em São Paulo. Eu não disse que tinha me cansado daquela merda. Eu me cansei de viver naquela merda. Eu meio que disse que não queria tocar mais. Com ninguém. Cansei de ter que depender dos outros para poder realizar as minhas vontades. Banda é isso. Foi a última vez que conversamos.

Carmelino Pão e Vinho não tem nenhuma relevância na história do Nestor. Não esqueçam que esta história, na verdade, embora não pareça, é sobre o Nestor. Carmelino Pão e Vinho foi um mero figurante na História de um breve romance indie cheio de putaria grudenta. O romance que é a força motriz na História de um breve romance cheio de putaria grudenta é o breve romance indie entre Rick e Cristina. Rick não existe. Cristina não existe. Miranda não existe. Cristina é a avó de Miranda.

(Continua na próxima segunda-feira.)

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Pesadelo em Limeira - o dia em que a esperança morreu logo na chegada - Parte 3

Repórter: Arno Palumbo, o que o faz ser um profissional-bem sucedido?
Arno Palumbo: Eu não sou um profissional bem-sucedido.
Repórter: Então, para o senhor, o que é um profissional bem-sucedido?
Arno Palumbo: Um cara que tem a cara de pau de cobrar o que ele pede!

Trecho da sublime entrevista de Arno Palumbo na 907º edição da revista Pariu Review.

Além de serem de um otimismo repugnante, mesmo quando alguém morre de embolia pulmonar, os romances/peças/histórias indie nacionais cometem um pecado que jamais seria expiado seu eu fosse o patrão da boca do confessionário: eles teimam em transportar a atmosfera do primeiro mundo para as tramas do nosso combalido terceirão. Se há de fato um emo do século XXI que existe desde os anos 80 que merece tomar um tapa estridente na cara é o indie brasileiro. A molecadinha emo maquiada do novo século que é encarada com ojeriza por qualquer gordinho míope corcunda com a camiseta com a estampa da Patti Smith inchada de cachaça come mais mulher agora do que eu jamais comerei na minha vida inteira. Eu fui a um show do The Draft há uns sete anos que tinha uns moleques de treze anos pegando umas quatro minas ao mesmo tempo. Eu sei também que eles gostam de dar a bunda, se vestir como as groupies do Mötley Crüe e beijar garotos ouvindo Tokio Hotel no motel, mas para quem gosta de dar a bunda e beijar garotos ouvindo Tokio Hotel no motel vestido como uma piranha californiana dos anos 80 dar a bunda bastante e beijar garotos ouvindo Tokio Hotel no motel deve ter um significado de que as coisas estão fluindo conforme os planos de existência. Olha lá nos livros do André Takeda. Olha lá nas peças do Felipe Hirsch (ou melhor, olha lá nos livros que ele copia para fazer as peças. “Meeeeeeeu, é mashup, maluco”, “Mashup é o meu saco enrugado, filho da puta! Vou comer a tua mulher e dizer que é Mashup”). Olha lá na trigésima terceira página do diário daquela mina esquisita que parecia a Angela Merkel e que não falava com ninguém na faculdade e que sabia até o tipo sanguíneo do Kevin Shields, do Myyyy Bloooood Valentiiiiiiine: a vontade de fazer um épico sonhador algodão-doce cor-de-rosa com a roda gigante de Coney Island iluminando de fundo as traquinagens fedendo a rosa de defunto do Morrisey.

São Paulo não é Nova Iorque. São Paulo não é Londres. Central Park não é o Parque do Ibirapuera. A Praça da República de madruga é o Jurassic Park. Brooklyn não é o Brooklin Paulista. Tudo começa que aqui não tem outono. As folhas não caem nos nossos parques repletos de mendigos tarados e a Winona Ryder não cai num colchão de folhas marrons-amareladas no mês de outubro antes de morrer de câncer. Os táxis não são amarelos e os motoristas não estão temperados com molho curry. Não tem show do Bright Eyes toda semana na distância de trinta pedaladas e o CBGB não teve que fechar as portas para se transformar num condomínio de luxo. A Rua Augusta não é a Greenwich Vilagge e o metrô não funciona 24 horas por dia. Santos não é Califórnia. Até isso já aconteceu: “Santos, a Califórnia brasileira”. Com aquela areia de manguezal? “Santos, a Califórnia brasileira.” Com quem? Com o White Frogs? “White Frogs, o Descendents brasileiro?” Só se for: “White Frogs, o Descendents... do Marapé”. Na boa, gente do caralho, vamos nos colocar no nosso encardido lugar. Aqui o nosso Papai Noel é negão, viciado em crack e pretende não voltar para a cadeia após o indulto do Natal. Aqui nóis anda descalço e as véia carregam as compras nas costas. Aqui os nossos guardadores de carro comem lixo e enxáguam a boca na poça d’ água. Aqui os nossos cavalos e os nossos cabritos e os nossos cabritinhos atravessam a avenida principal no horário do rush e as nossas Barra Forte conseguem carregar uma família de seis pessoas em uma única viagem. Aqui a neve fica pendurada nas sacadas dos prédios e é feita de isopor. Aqui nóis corre para não sermos atropelados por caminhões sobrecarregados por containers repletos de refugiados nigerianos e macaenses, por motos conduzidas por motoboys com crista de galo, por bicicletas manobradas por grávidas alcoólatras com hepatite B, por Fuscas abóboras 62 atulhados de papelão e cinco ninhos de baratas, por ônibus desconjuntados pilotados por motoristas de ônibus enfurecidos por serem motoristas de ônibus, enquanto a nossa Havainas chicletuda arrebenta bem no começo da faixa de pedestres com a tinta gasta. Aqui a nossa arte de rua tinha como referência a vanguardista obra de autor desconhecido de uma sereia obesa com o rosto do falecido Bussunda e a cabeleira loira similar às infinitas perucas da Elke Maravilha no murão branco do Sobre as Ondas. Aqui as nossas garçonetes andam descalças e os nossos cozinheiros trocam o sal por cocaína nas nossas porções de batatas-fritas siamesas. Aqui as nossas prostitutas não andam de casaco de pele e nem tem cabelo black power e os nossos cafetões não andam que nem o Big Boi com uma AK 47 na costas. Aqui as nossas prostitutas são chamadas de putas ou de putas mendigas e se vestem de cueca borrada com um cobertor que fede a mijo de rato e possuem o cabelo da Sigourney Weaver em Alien 3 e cobram cinco reais por uma chupeta meeeeeega poluída no meio da rua (dez reais se quiser gozar dentro da boca pelada de dentes) sob a marquise da academia Flex e os nossos cafetões são como as crianças mártires dos romances de Plínio Marcos armados com um metal pontudo cheio de tétano no cós do shorts verde florescente do Mário Bros e com a pistola quebrada de matar patos do Phantom System.

Por mais que o pessoal das capitais do sudeste e do sul do Brasil nos olhem de soslaio como Gremlins bronzeados com um cardume de sardinhas salpicadas de óleo diesel escondido no interior de nossas bermudas floridas de tactel, nós não nos damos ao luxo idiota de agir como islandeses japoneses molhados pela chuva ininterrupta de Seattle tomando um cafezinho em uma ruela de Paris enquanto imaginam se um dia a Kim Deal irá explodir dentro do apê decorado com obras adquiridas na Galeria Vermelho a uma quadra da Cracolândia: nós assumimos a nossa torpe repugnância. Por isso que o meu vizinho de longa data não achou nada de mais em fazer um gato da minha T.V a cabo e da minha internet banda larga. Por isso que o meu outro vizinho amarrava com uma corrente em volta da lixeira a sua cadela vira-lata no cio chamada Shakira para um bando de cachorros vira-lata no cio a cercarem e batalharem para ver quem conseguiria estocá-la primeiro. Por isso que o mesmo vizinho batia uma bronha no seu rottweiler. Por isso que o meu antigo vizinho que morava na casa da frente da minha um dia apareceu pelado e com uma venda nos olhos na varanda do seu imponente sobrado porque estava brincando de esconde-esconde sexual com a sua amante (“ó, galerinha mais ou menos, eu vou pedir um favor a vocês: caras, pelo amor de Deus, não me chamem em casa hoje à tarde, vai vir uma mina aqui que to pegando, uma moreninha safadinha lá do colégio, o meu pai viajou, então eu to sozinho, a gente vai ficar pelado, eu e ela, eu vou pedir para ela amarrar uma venda nos meus olhos, depois eu vou pedir para ela se esconder enquanto conto até 50, quando acabar de contar, eu saio correndo atrás dela”). Por isso que um antigo segurança cocainômano que trabalhava na rua pintou de branco só um lado do meio fio da rua e só um lado dos postes da rua e saiu batendo de casa em casa do lado da rua que ele havia pintado cobrando pelo serviço que ninguém havia pedido a ele. Por isso que uma outra vizinha guardava no saco plástico dos supermercados Peralta a cagada de uma semana do seu fila deixada no quintal e saía na madrugada de sábado para domingo jogando toda a bosta nas calçadas das outras casas. Por isso essa é A HISTÓRIA DE UM BREVE ROMANCE INDIE CHEIO DE PUTARIA GRUDENTA!

A história de um breve romance indie cheio de putaria grudenta – Parte 1

Eu não sei quando o indie guarujaense começou. Ou se sequer começou. Talvez tenha sido na época em que o Mad era o caçula da turma. Não me recordo de nenhuma banda indie que tenha nascido aqui. Lembro de bandas de rapcore. Lembro de bandas de hardcore. Tanto hardcore pedreiro quanto hardcore do amor. Lembro de bandas de reggae. Bandas de metal. Metal melódico, metal capeta, death metal, trash metal, doom metal e metalcore. Rock estradeiro. Punk. Até punk teatral. Emocore. Screamemo. Rap. Grunge. Rock instrumental. Caiçarock. Mas não lembro de nada indie. De nada esnobe. De nada cachecol em Vicente de Carvalho na praça 14 Bis. De nada com nome de jogo do Atari. Lembro de vinho branco de supermercado popular com taça de plástico no Tombo. Mas não era uma manifestação de um indie. Indie não é da moda. Indie odeia o que todo mundo gosta. Indie esnoba tudo que já idolatrou um dia porque agora todos idolatram o que ele idolatrou junto com outros três amigos virgens que dividiam infidelidades imbecis no Mirc. Indie tem vinil. Indie tem fita-cassete. Indie chora ao ouvir uma melodia. Indie descola a cueca do fundo do rabo desgrenhado. A linha é muito tênue entre o indie presunçoso e o viciado em RPG. Indie é um porre. Mas ele pode ser um amigo seu. Um amigo fiel. Sumido, assumido, mas fiel. Um gigante emotivo. Eu, definitivamente, perdoem-me qualquer injustiça, qualquer armadilha da memória, não lembro de nenhuma banda indie guarujaense. Mas conheço talvez o maior indie de todos os tempos da história do Guarujá. Grande mesmo: tem quase dois metros de altura. Um pacote completo. A peça chave para a história de um breve romance indie cheio de putaria grudenta: vos apresento Carmelino Pão e Vinho (sim, ele existe).

Conheci Carmelino Pão e Vinho junto com o UNESCO (UNESCO existe, embora talvez ele tenha se esquecido desse detalhe). E me deu medo. Ele tinha treze anos, já tinha quase dois metros, ele estava muito barbudo, ele estava muito cabeludo, ele estava com uma camiseta muito preta do Megadeth e ele estava com muita cara de quem tinha acabado de acordar de um sono muito profundo – a palavra que me veio à mente ao vê-lo pela primeira vez foi CAVERNA! E ele tinha um cachorro muito feio e muito bravo chamado Sabbath (que Ronnie James Dio o tenha adotado no céu, pequeno filho da puta Sabbath). Fomos atrás de Carmelino Pão e Vinho porque descobrimos pelo Telmo que ele tocava guitarra pra caralho. Eu e o UNESCO acabávamos de desmontar uma banda que tinha um guitarrista maluco que ia para o ensaio vestido de ninja e que depois virou uma bichona de verdade.

Todo mundo na família de Carmelino Pão e Vinho é gigante. As origens de Carmelino Pão e Vinho são de algum lugar da Romênia perto da região da... Transilvânia. (É um absurdo que depois de todos esses detalhes macabros nós tenhamos montado uma banda de surf music super bem-humorada. A banda chamava-se Recos e nós tocávamos a versão surf-music da música do Batman.) A mãe de Marcelino Pão e Vinho é uma senhora muito simpática. Ela é dona de um coléginho de educação infantil dentro do qual nós fizemos várias festas na adolescência. Como não conhecíamos quase nenhuma menina a não ser as irmãs dos nossos amigos, que eram tão atraentes quanto nossas próprias irmãs, nós convidávamos as minas que passavam pela nossa rua voltando da igreja evangélica. As festas na escola da dona Carmelina Pão e Vinho consistiam em um monte de crentes banguelas comendo e bebendo às nossas custas que ficavam dando gargalhadas com uns pedações de coxinha de frango presos nas infeccionadas gengivas, de um grupinho de caras estilosos que não sei quem havia convidado que ficavam dançando charme, a trilha sonora da novela Quatro por Quatro na vitrola que não sei quem havia colocado (eu, quem sabe, C&C Music Factory é muito legal) já que éramos caras maus do rock, uma mina da rua de trás cujo estranho apelido era Bicudinho (tirem as suas próprias conclusões), uma outra mina que morava numa casa irregular que parecia um quiosque pós-Tsunami cujo apelido era Chulé (tirem as suas próprias conclusões), uma outra mina que morava na mesma rua do coléginho cujo apelido era Oboé (Google + Oboé + Imagens = Você vai sacar), um segurança maluco conhecido como Roca que era muito fã da nossa banda (o único fã, por sinal, ele ficava pulando que nem um retardado quando ouvia aquela porra ruidosa que a gente tocava e ficava enfiando o dedo do meio na veia grande do braço como se estivesse se drogando) cuja inteligência era uma lástima pelo fato de ter comprado do Saulo um pedaço muito pequeno de silvertape por 20 reais (Saulo vendia pipas por cinco reais na época em que a cerveja custava cinco centavos, Saulo empinava pipa e um dia foi cortado por uma mina, Saulo empinava pipa e um dia foi cortado por um moleque que só tinha um braço, Saulo vendeu uma prancha de surfe de isopor para um menino dizendo que era a prancha que o Kelly Slater havia começado). Não podia faltar a constrangedora parte das músicas lentas por meio das quais as crentes faziam a festa. Todo mundo pegava todo mundo. Homens com homens e mulheres com mulheres. Mentira. UNESCO salvou muitas crentes nessas festas. Eu algumas vezes salvei uma ruivinha nessa festa. “Se deu bem, uma ruivinha.” Ela parecia um buldogue. O pai de Carmelino Pão e Vinho nunca foi muito com a nossa cara. A irmã de Carmelino Pão e Vinho é advogada e é totalmente do metal. Ela se casou de preto e entrou na cerimônia matrimonial ao som Stairway To Heaven. O irmão de Carmelino Pão e Vinho era totalmente alucinado. Ele cursou agronomia na USP de Piracicaba e ficou dois anos sem por o pé na faculdade embora continuasse recebendo mensalmente o dinheiro do pai. Ele tinha um amigo conhecido como Esqueleto que nos disse que tinha tomado cogumelo na cobertura de um prédio e que os prédios em torno se transformaram nos Transformers. A imagem mais vívida que tenho do irmão de Carmelino Pão e Vinho foi quando ele arrancou todos os botões de sua camisa social, abriu os braços e ficou cantando a plenos pulmões Samba Makossa no Bafo da Onça. UNESCO passou um réveillon na residência dos Pão e Vinho e achou tudo muito estranho: “Quando deu meia-noite, eles não fizeram porra nenhuma, a cidade estourando lá fora, virgens senso descabaçadas, pessoas morrendo atropeladas, pessoas sendo esfaqueadas, esposas traindo os maridos, maridos traindo as pessoas, bacanais, barcos afundando, gente vomitando, animais sendo sacrificados, castanhas sendo trituradas, bebês sendo queimados por estilhaços de fogos de artifício, gente saudável virando aidética e nós tomando vinho branco e ouvindo o último cd do Richard Clayderman”.

Set List do primeiro show do Recos na minha festa de debutante que aconteceu na minha casa
1) Born To Be Wild – Steppenwolf
2) Recos em Gotham City – nossa adaptação surf music para a música do Batman
3) Banana – os Ostras
4) When I Come Around – Green Day
5) Jardins da Babilônia – Rita Lee
6) Puteiro em João Pessoa – Raimundos
7) Bombtrack – The Rage Against The Machine
8) No Sleep Till Brooklyn – Beastie Boys

Carmelino Pão e Vinho sempre foi um cara calorento. Nós íamos muito ao shopping La Plage na adolescência para fazer alguma coisa na qual agora, e daqui para a frente, não consigo encontrar nenhum sentido. Qual o sentido de beber gin pura? Qual o sentido de ficar vendo conhecidos na Elite arrancando sangue um do outro? Qual o sentido de ficar vendo aquela porra falecida do Durepox agindo como escroto? Qual o sentido de dar risada de alguma atitude que o Guimba tomou? Qual o sentido de ficar deitado, bêbado, no chão do shopping La Plage? Qual o sentido de olhar o UNESCO vomitar uma rodela de tomate intacta? Qual o sentido de uma mina parecida com o Sílvio Santos tirar as calças na minha frente, mijar na minha frente e eu não fazer nada? Qual o sentido de pegar uma mina parecida com o Sílvio Santos? Qual o sentido de ser apelidado de Piniquinho? Qual o sentido de ficar escrevendo estas merdas? Qual é o seu sentido? Qual é o meu sentido? Qual é o sentido da vida? Tudo tem que fazer sentido? Carmelino Pão e Vinho andava sempre do mesmo jeito: cabelo comprido que quase chegava aos ombros, camisa social xadrez de manga curta, bermudão branco, ou preto, com bolsos grandes nas laterais, e o indefectível Adidas branco com as listras pretas todo remendado. Para arrefecer o calor, ele ia ao banheiro do shopping, tirava a camisa xadrez, abria a torneira, colocava a camisa embaixo da torneira e só a fechava quando a camisa estivesse encharcada. Depois ele colocava a camisa no corpo como se nada tivesse acontecido. Muito nojento. O que me leva a uma questão crucial: como Carmelino Pão e Vinho virou indie?


O processo embrionário da indienização de Carmelino Pão e Vinho iniciou-se quando a mãe dele nos disse que “ele sempre foi tratado com os melhores shampoos”. Ela disse isso porque Carmelino Pão e Vinho permitiu que UNESCO depenasse as suas madeixas metaleiras. Após o corte, Carmelino Pão e Vinho disse: “Nossa, ficou da hora, a minha mãe vai ficar muito feliz, ela não agüenta mais me ver de cabelo comprido”. O inevitável porém é que ele só tinha visto a parte da frente do corte. A parte de trás, que foi delicadamente extirpada com uma gilete Bic quase cega, fez a nuca de Carmelino Pão e Vinho parecer uma imberbe buceta assada vítima de um violento estupro coletivo perpetrado por todos os componentes da Associação dos Mecânicos Tarados Bem Dotados. Carmelino Pão e Vinho ficou meses sem sair de casa. Quando saiu, ele não era mais o mesmo.

Nós nos considerávamos punks. Sujos. Se bem que nós gostávamos de nossa comida quentinha e de sermos cobertos até o queixo numa noite fria e de recebermos um beijinho na testa de nossas mães e um reconfortante “durma com Deus, meu amor”. Mas as minhas unhas eram sujas. E o meu ídolo era o Sid Vicious. E o que o Sid Vicious fazia? Se comportava como um completo idiota. E o que eu fazia? Me comportava como um completo idiota. Eu cuspia nas mãos e passava na cara. Eu arrumava a corrente da minha bicicleta e limpava as mãos cheias de graxa no rosto. Eu comia pão de mel sob as tempestades de verão. Eu fugia de mulher. Na festa de 13 anos da Carolzinha, três meninas gatinhas quiseram ficar comigo. Eu fugi das três. Eu fazia de tudo para ser sujo. Eu deixava de tomar banho. Não cortava as unhas. Não penteava o cabelo. Falava tudo errado e quase sempre era um palavrão. “Por que você não quer ficar comigo?” “Você tem cara de piroca.” Mas elas queriam ficar comigo. Por mais que não lavasse os cabelos, eles continuavam lisos. E compridos. Eu não cortava os cabelos. Eu fui considerado na sétima série o mais gatinho da classe. Empatado com o Testa. Quando você é considerado o cara mais gatinho da classe junto com um cara conhecido como Testa, você não é tão gatinho assim. Mas não trabalhei em prol da minha escrotidão para ser convidado por uma mina que eu nem conhecia para ser o par dela na festa de quinze anos da melhor amiga dela que eu também não conhecia. Eu não trabalhei em prol da minha escrotidão para a minha vizinha da frente deixar uma cartinha - “Léo, o carteiro passou aí na sua casa e colocou uma carta na sua caixa de correio”, “No domingo?”, “É, bem... não sei... tchau” – de amor muito estranha que começava mais ou menos assim: “Querido Léo, desde a primeira vez que te vi, eu comecei a gostar de você. Agora, dois anos depois de nos conhecermos, é que comecei a gostar de você, antes eu não gostava”. Quê? E terminava assim: “Leo, te amo, ‘Miu’ beijos!!!!!!!” Miu? Eu fugi dela também. Ela era esquisita. E depois ficou gostosa. Mas não me arrependi. Eu estava apaixonado. Apaixonado perdidamente por mim. “Se o seu amor depende do tamanho do amor que você sente por si mesmo, você não sofrerá desilusões.” E Freud estava certo quando disse isso. E Freud não estava certo quando disse isso porque não foi Freud que disse isso: fui eu. Eu era muito feliz. Fedido + descabelado + catarrado = Feliz. Eu não estava interessado em mulheres. Elas não eram uma prioridade. E talvez pelo modo desdenhoso que eu tratava as mulheres, elas se sentiam atraídas por mim. E talvez pelo fato de chegar ao cúmulo de bater punheta pensando em garotas falecidas. E talvez pelo fato de chegar ao cúmulo de bater punheta pensando na atriz britânica Helen Mirren. E talvez pelo fato de todos os livros que li (e não foram poucos) não chegarem a um décimo de todas as punhetas que já bati. E talvez pelo fato de chegar à excentricidade de bater punheta enquanto ouvia Gipsy Kings. E talvez pelo fato de chegar ao cúmulo de bater punheta pensando naquela mulher excessivamente carnuda que horas atrás dava de mamar para um bebê no metrô. E talvez pelo fato de chegar ao cúmulo de, após finalizar uma punheta com sucesso, limpar a mão na bíblia sagrada. E talvez pelo fato de chegar ao cúmulo de bater punheta assistindo a um mangá erótico. E talvez pelo fato de chegar ao cúmulo de sonhar que estava batendo punheta e acordar batendo uma punheta. E talvez pelo fato de ter chegado ao cúmulo de, antes da internet, ligar para o tele-sexo para bater punheta enquanto uma voz gravada de mulher safada contava uma história estúpida ao mesmo tempo em que levava a minha família bem próxima da bancarrota devido à conta do telefone. E talvez pelo fato de ter chegado ao absurdo de ter colado todas as páginas da primeira Playboy da Mônica Carvalho. E talvez pelo fato de ter cometido a repugnância de colar um recado na geladeira com o próprio esperma. E talvez pelo fato de ter saído para a balada com a cueca toda gozada. E talvez pelo fato de ter batido punheta com a mão esquerda adormecida enquanto discutia os rumos da política estudantil pelo telefone com uma comunistinha chata da minha classe cujos peitões mais pareciam dois Pogobols convulsivos. E talvez pelo fato desmoralizador de já ter sido pego no flagra pela própria mãe enquanto batia punheta. E talvez pelo fato de já ter tido a pachorra de passar pasta de dente no pau para variar a punheta. E talvez pelo fato de não ter se preocupado com aquela mancha de sabonete líquido na camiseta azul-marinho que na verdade era fruto de uma punheta maluca. E talvez pelo fato de ter chegado ao estágio vergonhoso de ter dormido enquanto batia uma punhetinha. E talvez pelo fato ainda mais vergonhoso de ter broxado enquanto batia punheta, elas pararam de ficar interessadas em mim e passaram a ficar interessadas nos caras que não estavam tão assim, digamos, estuprador pra elas. Passaram a ficar interessadas nos caras que fingiam que não estavam interessados nelas. Porque eu não fingia. Eu estava pouco me lixando para as minas. Eu estava mais interessado em arrotar na cara de qualquer testemunha de Jeová que viesse me acordar no domingo de manhã. Quando passei a me interessar, eu me interessei muito, eu me interessei tanto que cheguei a acordar gozado depois de sonhar com uma mina que nunca tinha visto na minha vida. Carmelino Pão e Vinho não teve esse azar. Ou essa sorte. Fica a critério de cada um. Ele voltou do seu retiro imposto pela sua mãe e, ao tocar no violão, as primeiras notas que saíram dali foram premonitórias. E catastróficas. Ele tocou More Than Words, do Extreme, fechou os olhos e meio que chorou. Carmelino Pão e Vinho estava mudado. O amor muda tudo. Miranda fudeu com tudo! Miranda não existe!



(Continua na próxima segunda-feira.)

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Pesadelo em Limeira - o dia em que a esperança morreu logo na chegada - Parte 2

“O amor é Lindo
O amor é Foda
Todos amores lindos acabam em foda
A metade do amor fodendo a outra metade.”

Trecho do livro Cartinhas Perfumadas: bosta, esperma, pus, urina esverdeada e muito gloss, de autoria de Arno Palumbo, editora Gostosa mas sacal.

Eu faço parte desta história. Mas não sou o protagonista. Sou um mero coadjuvante divertido. O homem que descontrai as situações embaraçosas embaraçadas no nó da garganta dos envolvidos. Não sou afeito a descrições. Elas fazem com que a imaginação morra. Contudo, neste caso, a imaginação terá que morrer em sacrifício aos fatos irrevogáveis das péssimas notícias.
Estamos em 2004 e nós não estamos em 2004. Quem é 2004? Onde fica 2004? O que nos dará 2004? Mulheres? Mulheres? Mulheres? Dinheiro... e mulheres? Dinheiro atrai mulheres? Porque em 2004 eu necessito de mulheres. Eu estou desesperado em 2004. Eu leio em 2004 e os livros que leio estão repletos de sexo. Onde está o sexo em quem me lê em 2004? 2004 vem com sexo embutido? “Senhor, perdoe-me, mas por falta de utilidade, teremos que transformar o seu pau em pingente.” “Senhor, perdoe-me, mas por falta de iniciativa própria, precisamos do seu pau para salvar o unicórnio.” “Senhor, perdoe-me, necessito do seu empoeirado pau para implantá-lo sob a minha axila esquerda para transformá-lo na minha nova obra de arte.” Eu aprendi palavras novas em 2004: curro, felação, intercurso, sodomia e onanismo. Eu quero amor em 2004. Eu sempre quis o amor em 2004. Eu quero o meu amor de quatro em 2004. Eu sempre quis o amor em 2005. Em 2015. Em 94. Em 98. Em 1967. Em 1830. Em 2000, ele surgiu e desapareceu como uma prostituta amadora assassinada com vida. Onírico, idílico, matrimônio, passional e Provence. Em 2004, eu batia punheta desde 2004 anos antes de 2004. Eu colecionava punhetas. Punhetas holandesas. Punhetas suecas. Punhetas africanas. Punhetas orientais. Punhetas abastadas. Punhetas pobres. Punhetas submissas. Punhetas temperamentais. Punhetas poetisas. Punhetas analfabetas. Punhetas cheirosas. Punhetas famosas. Punhetas imaginárias. Punhetas criativas. Punhetas vespertinas. Punhetas notívagas. Punhetas matutinas. Punhetas onipresentes. Se houvesse uma Copa do Mundo de punheta em 2004, eu não seria convidado, seria considerado Hour Concour. Se houvesse uma Copa do Mundo de punheta, ela teria que ser disputada todos os dias. Se os superatletas têm o Iron Man, os punheteiros teriam Gold “Hand” Man. Ou Big Mustache On the Man’s Hand. Ou Fuck You, Gillete, My Hand Is Ok. Ou Jungle Hand. Ou ZZ Top Hand. Ou Rick Rubin Hand. Eu compunha um trio em 2004. Um ménage à trois composto só por homens. Um ménage à trois sem sexo. Um ménage à trois de papos futebolísticos. Um ménage à trois corintiano. Um ménage à trois de filosofia de bar. Um ménage à trois sem vontade de tomar banho. Sem vontade de pentear o cabelo. À vontade em deitar na rua tal qual um mendigo de classe média. À vontade de dizer com vontade a vontade de satisfazer a vontade e ofender quem satisfaz a própria vontade. Eu, Telmo e Nestor. Esta história é sobre Nestor.

C O~~~O R

(Esta é uma obrinha de ficção. Bem pequenininha. Em importância e em magnitude artística. Desde já atesto que pouquíssimas pessoas, muito poucas pessoas meeeessssmo, lerão o que está escrito aqui. Se alguém se sentir retratado nesta história, retratado de modo injusto, está se levando demais a sério. Obrigado.)

Percebo agora, enquanto me distraio escrevendo esta merda, que 2004 talvez tenha sido o ano mais intenso da minha vida. No entanto, a minha intensidade nada tem a ver com a intensidade de uma jovem socialite siliconada solta e sem calcinha pelas ruas de Los Angeles. Na minha intensidade, não acontece quase nada. Mas só esse “quase” já significa muito pra mim.
Esta história que irei contar agora não tem relação direta com a história principal, a triste história do Nestor. Esta história que irei contar agora, no entanto, também ocorreu em 2004. E, para minha surpresa, só agora me dei conta que ela aconteceu no mesmo dia em que começou a derrocada Nestoriana. Foi num domingo de junho. Enquanto a derrocada Nestoriana deve ter começado às 19:30, a história que irei contar agora começou um pouco depois das cinco horas da manhã e acabou lá pelas sete da manhã. Ela começou no sábado, em Santos, se estendeu numa balada, o sábado virou domingo, o domingo amanheceu, deu uma parada no Fran’s Café, voltou para o Guarujá e não conseguiu dormir. Eu tinha a história comigo. Eu tenho a história comigo. EU comecei no sábado. EU comecei no sábado em Santos. EU me estendi na balada. EU percebi que o sábado estava se transformando em domingo. EU vi o domingo amanhecer. EU dei uma parada no Fran’s Café. EU inclusive desabei estranhamente da cadeira do Fran’s Café. EU voltei ao Guarujá. EU não consegui dormir. Eu tinha que ser o primeiro a contar a história. Eu vi tudo. Qualquer um poderia ter visto, mas eu fui o escolhido. EU. A imagem não saía da minha cabeça. O dia foi longo. Cansativo. Mas eu não estava cansando. Eu precisava de um megafone e de um palanque. Eu vi tudo. Tudo. Em câmera lenta. Olha só, agora a imagem está passando pela minha cabeça, ela é minha, só minha. Eu fiquei deitado de olhos bem abertos. Com a cabeça apoiada sobre os meus braços cruzados e um sorriso canalha rasgando o meu rosto. Um sorriso maquiavélico e um esfregar de mãos. Eu vi. Eu vi tudo. Eu tinha que contar a história primeiro. Eu vi tudo. Eu fui o escolhido num ângulo privilegiado. No lugar certo, na hora certa, a pessoa certa fez tudo errado bem na frente da pessoa errada. Bem na minha frente. Eu esperei dar 10:00 para pular da cama. Para pular o café-da-manhã. Para atravessar o portão da frente. Para correr até a casa de quem? Hein? De quem? Adivinha? Do Nestor. O Nestor foi o primeiro cara a ouvir a história. Esta história. A minha história. Viu? O primeiro cara a ouvir a minha história que aconteceu no mesmo dia em que começou a sua triste história.
Eu: Tu não sabe.
Nestor: O quê?
Eu: Cara, é muito foda.
Nestor: O que foi, caralho?
Eu: O Rick...
Nestor: O que aconteceu com ele?
Eu: Cara, o Rick...
Nestor: Fala logo, porra!
Eu: O Rick ficou... nossa, é demais até pra mim.
Nestor: Ficou o quê, cacete?
Eu: Cara... acho que não vou conseguir contar.
Nestor: Não, não, agora conta, agora tu vai contar, fala logo, porra, tu que começou com essa merda, agora conta.
Eu: A imagem não sai da minha cabeça, tá ligado? Ela fica, cara, martelando, saca? Eu não consigo acreditar... Falow, vou pra casa tomar um banho, to sujão...
Nestor: Vai se fudê, porra, tu não vai sair daqui nem fudendo enquanto não me contar o que aconteceu...
Eu: Tá bom, tá bom.
Nestor: Que tá olhando pra mim? Conta, caralho!
Eu: Vamos lá. Um, dois, três. O Rick... o Rick ficou... o Rick ficou... o Rick ficou... levão.
Nestor: O Rick? É mentira, é mentira dele, ele é mó mentiroso com essas parada...
Eu: Eu vi.
Nestor: Tu viu? Sério?
Eu: Foi foda.
Nestor: Não acredito...
Eu: Foi selvagem...
Nestor: Sério? Meu Deusss...
Eu: Língua pra tudo que é lado...
Nestor: Até ele...
Eu: No meio da pista...
Nestor: Puta merda...
Eu: Com uma coroa...
Nestor: Tá brincando?
Eu: Loira...
Nestor: Caralho...
Eu: Olho azul...
Nestor: Tamo fudido...
Eu: CRISTINA!
Nestor: Minha Nossa Senhora... Peraí, o quê?
Eu: CRISTINA!
Nestor: A Cris... Tá louco?
Eu: CRISTINA!
Nestor: Não, não, não...
Eu: CRISTINAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!
Nestor: NÃAAAAAAAAAAAAAAAOOOOOOOOOOOOOOOO!
Eu:CRISTINAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA...
Nestor:NÃOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO...
Eu:CRISTINAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
Nestor:NÃOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO...
Eu:CRISTINAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA...
Nestor:NÃOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO...
Lembrem-se: esta história que estou contando não aconteceu. É tudo mentira. São delírios que invadem o meu cérebro de vez em quando. As pessoas não existem. O Nestor existe. O Telmo existe. O Rocambole existe. O Saulo existe. O Falcãozinho existe. O cagueta do irmão dele existe. O Cabeça Grávida de Trigêmeos existe. Mas quem é Rick? Quem é Cristina? Ou melhor, quem é Cris? Ou muito melhor, quem é Ce? Eu os inventei. Eles são fruto da minha falta do que fazer. Dito isso, tá tudo certo? Posso continuar? Vamo embora.
Algumas coisas que você precisa saber sobre Rick:
- Rick é um cara de porte físico... menor.
- Ele é baixinho.
- Ele é fofinho.
- Dá para pegá-lo sob as axilas e colocá-lo sentadinho em qualquer muretinha ordinária.
- Rick diz que bebe muito, mas todo mundo está cansado de saber que dar um copo cheio de cerveja a Rick é ceder novas fronteiras ao mosquito da dengue.
- Não queira ver Rick mergulhando o corpo em qualquer superfície aquática e depois emergindo com aquela careta linda.
- Sempre desconfie quando Rick disser: “eu preciso ir para o centro de Santos para pagar umas contas para o meu pai”.
- Não chame Rick para fazer parte do seu time de futebol.
- A última vez que ele jogou futebol ele conseguiu marcar dois gols contra num intervalo de dois minutos entre um gol e outro em uma partida de dois gols ou dez minutos.
- Se Rick lhe oferecer uma carona, não aceite, ele não sabe o que faz dirigindo aquela porra da Wolksvagen sem amortecedor.
Rick e os seus múltiplos sotaques:
- Quando Rick nos concede a honra de estar aqui, no Guarujá, ele mescla o caiçara com o paraibano, praticamente (praticamente? Não me inclua nesta categoria) a língua oficial do Guarujá: o Caiçaribano.
- Quando está em Santos, ele é carioca, e ele não é Rick, lá ele tem outro nome, outros apelidos, outros gostos (exemplo: Marroon 5), ele tem outra história, outros amigos, nem tente cumprimentá-lo em Santos porque lá ele não se permite te cumprimentar.
- Quando está em São Paulo, Rick é caipira, mas tem lapsos de carioca. A porrrrrrta pode ser “porrrrta, porrra!”, “porrrrta, vagabuuuunda”, “porrrrrta, méeeeerrrrrda”.
- Quando tem mulher por perto, ele não é só carioca, também é marrento. Ele fala como se tivesse lombrado no Posto 9 em Ipanema enquanto tira a camiseta e alisa o corpo como se tivesse um corpo digno de ser alisado no Posto 9 em Ipanema.
- Se Rick tirar a camiseta na sua frente, você verá que ele tem uma pançinha.
- Se Hollywood tem Rick Moranis, Cabeça Grávida de Trigêmeos: “Nós temos o Rick Pançanis”.
- Rick já foi de blazer quadriculado da Adidas ao Pastel do Trevo.
- Rick já tomou um soco no gogó do Telmo.
- Rick sofria bullying da molecadinha da terceira série do Almeida Júnior.
- Rick estava na sétima série.
- Rick quase morreu quando xingou de filho da puta um colega nosso cearense de 42 anos com 1,90 de altura e 180 quilos de largura por causa de um jogo de poker que valia uma coca-cola de dois litros.
- Presumo que ele quase tenha morrido por conta da tardia descoberta do ofício desse misterioso colega.
- Ele era matador de aluguel. Fora isso, era um cara legal, pagava tudo.
Rick e as baladas:
- O comportamento de Rick nas baladas é um caso que merece ser analisado pelo Dr. Cal Lightman, da série Lie To Me.
- Acompanhar Rick na balada é quase a mesma coisa que ir sozinho.
- O diferencial é que no final da balada ele não aparece como Rick, mas como a mais diabólica de suas múltiplas personalidades: Pinóquinho.
-Ele some no começo da balada para reaparecer no final e dizer: “Caralho, bróder, peguei uma loirinha...”
- Ele some no começo da balada para reaparecer no final e dizer: “Compadre, o dia já raiou e o meu galo cantou numa morena puro-sangue...”
- Ele some no começo da balada para reaparecer no final e dizer: “Vixi Maria, neguinho, aquela baianinha num queria me deixar ir embora”.
- A baianinha ficou conhecida como a Baianinha Virtual.
- A moreninha ficou conhecida como Se Engana que A Gente Finge que Acredita.
- A loirinha ficou conhecida como a Ilustríssima Mentira.
- Quando o Pinóquinho entra em cena ele sempre está acompanhado por outra de suas ardilosas múltiplas personalidades: Pequenino David Blaine.
- Tudo o que o Pinóquinho faz ninguém vê.
- Quando o Pinóquinho faz alguma coisa e alguém vê, O Pequenino David Blaine não deu as caras. Quando o Pinóquinho faz alguma coisa e alguém vê, ele não é mais o Pinóquinho, mas a realidade nua e crua e nada glamorosa de Rick.
- A Síndrome de Pinóquio é uma praga difundidíssima na sociedade masculina da Baixada Santista dos 15 aos 37 anos de idade.
- Quando um amigo seu chega pra você... Vos apresento Negão!
- Negão era um cara que sempre criticou a minha pregressa conduta de jovem infeliz romântico.
- Negão dizia “vamos sair, cara, para de ficar se lamentando pelos cantos, o amor não existe, as mulheres são ‘todas’ vadias, eu vou ficar noivo, mas eu tenho cinco amantes, fora as perdidas que eu pego nas baladas, eu tenho uísque guardado na Lucky Scope, eu sei falar o que elas querem ouvir...”
- Negão disse uma vez para uma crente do cu quente sem o dente da frente: “Eu, você e a Lua”.
- Negão é formado em psicologia.
- Quando fraturei o meu tornozelo seriamente, Negão dizia “não vai andar mais, cara, tá fudido, vai ficar manco pelo resto da vida”.
- A irmã de Negão se jogou do terceiro andar do prédio e quebrou os dois tornozelos.
- A irmã do Negão hoje é mãe e dança pagode todo sábado.
- Quando, em um passado não muito distante, eu fiquei gordinho, Negão dizia “caralho, tu tá gordo pra caralho, parece um porco”.
- Quando voltei a ficar magro, Negão dizia “parece um aidético, parece um viciado, parece que tá morrendo”.
- Quando comecei a escrever, e mostrei um texto a ele, Negão disse “falta um ponto e vírgula aqui”.
- Negão enviava a seguinte saudação ao seu clubinho do Orkut: “Um abraço, do Négo”.
- Negão enviava a seguinte saudação à sua patota do Orkut: “Manus e minas um abraço, do Negó”.
- Negão é negão e possui umas tetinhas de punheteiro super sexy.
- Negão usava o corte de cabelo super sexy do Spike Lee no filme Faça a Coisa Certa.

- Negão só andava de Nike e era fã das músicas do Will Smith.
- Negão sumiu com o meu cd importado do The Roots.
- Negão sumiu com o meu cd importado do Mos Def and Talib Kweli.
- Negão sumiu com o meu cd importado The Colour and The Shape, do Foo Figthers.
- Depois disso, quando o Negão me pedia um cd emprestado, eu dizia “não é meu, o Telmo me emprestou, é de um amigo dele de São Bernardo do Campo”.
- Negão foi PM e ele disse pra mim que “quando tem um tiroteio, eu me escondo, tu acha que vou trocar tiro com bandido ganhando um conte e meio?”.
- Negão compunha músicas Low Low Low Low Low-Fi, muuuuuito Low Low Low Low Low-Fi, uma mistura de Sid Vicious Afro com letras à la Amado Batista em sua fase mais escrota.
- Ainda me lembro do refrão de uma delas.
- “Você se foi e não voltou... pra mim.”
- O refrão dessa música foi motivado por uma mina que o obrigou a amarrar uma corda em volta do cano do chuveiro.
- A corda arrebentou e ele acabou não morrendo.
- Quando me recuperei da minha depressão romântica, eu chamei várias vezes o Negão para ir à balada comigo para nós arrocharmos as gatas.
- Negão nunca me convidou.
- Certa vez, eu o encontrei no Avelinos.
- Ele me cumprimentou rápido e disse que ia atrás de uma mina que estava esperando por ele ao lado do balcão em frente ao banheiro na esquina do hall de entrada dentro de uma caverna muito escura atrás de uma passagem secreta de uma biblioteca vastíssima de terror psicológico no subsolo além das tubulações de esgoto sob o firmamento um pouquinho pra lá da Oceania à esquerda de Bancock...
- Toda vez que me deparava com o Negão na balada, ele vinha com uma desculpa para fugir de mim (e reconheço que esta frase ficou bem gay).
- Em todos os momentos em que vi o Negão na balada em nenhum deles ele estava com uma mina.
- Prazer, Síndrome de Pinóquio.
- “Prazer, o meu nome é Negão e sou mais uma vítima da Síndrome de Pinóquio.”
- Prazer, o meu nome é Negão e eu não sou mais uma ferramenta de ficção explorada pelo Leonardo.”
- “Eu existo!”
- Cabeça Grávida de Trigêmeos, Nestor, Telmo e Dorinha (outro personagem que realmente existe. Ele não é mulher, é homem, chame-o de mulher que ele arranca a sua cabeça com uma Magnum imaginária que ele guarda no porta-luvas do carro) viram a realidade nua e crua e azeda de Rick na balada.
Algum dia do segundo semestre de 2005:
- Eu, Rick, Dorinha, Cabeça Grávida de Trigêmeos, Nestor e Telmo fomos para a balada.
- Ao entrar na balada, Rick sumiu.
- Ao entrar na balada, eu vomitei.
- No pé de uma mina.
- Ela disse que nunca mais falaria comigo.
- Eu nunca tinha visto ela na minha vida.
- Nem mais gorda nem mais magra.
- Só daquele jeito: gorda, com uma maquiagem de boneca russa e com uma gosma parecida a suco de beterraba no peito do pé.
- Dorinha, Cabeça Grávida de Trigêmeos, Nestor e Telmo foram caçar.
- Borboletas, certamente.
- De preferência, no limiar entre o exibicionismo irresponsável e o coma alcoólico.
- Eu fiquei encolhido até o fim da balada no banquinho a céu aberto.
- Eles viram Pinóquinho em ação.
- Se eles viram, não era Pinóquinho.
- Pinóquinho sem a contribuição do Pequenino David Blaine é um reles cidadão capaz de cagar no mictório da balada na frente de todo mundo e contar pra todo mundo que quem fez isso é muito louco.
- Telmo: “Ele estava com dificuldades”.
- Dorinha: “A mina não queria ficar com ele de jeito nenhum”.
- Cabeça Grávida de Trigêmeos: “Ela só ficou com ele porque eu enchi bastante o saco dela”.
- Nestor: “Ela era... COMPACTA”.
- Telmo, Dorinha e Cabeça Grávida de Trigêmeos em uníssono: “Hahahahaha, pode crer, ela era bemmmmm COMPACTA”.

(COMPACTA)

(COMPACTA)

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(COMPACTA)
(Se um dia você estiver andando com o Rick pelo centro do Guarujá na temporada de verão, ou em alguma balada poser, tipo Phoenix, tipo Target, Tipo Yellow, tipo Café Del Mare, nada tipo Colômbia (Pá Pum), nada tipo Porto da Vila, nada tipo La Piazzeta no sábado, nada tipo Festa de Aniversário do DJ Cabral, nada tipo Boliche do centro (até porque faliu), nada tipo Pão de Açúcar do centro depois das duas da manhã, nada tipo Praça dos Vodus após a meia-noite, nada tipo Baile do Havaí da Sociedade Esportiva Itapema, e ele apontar para uma mina, uma mina de uns 24 anos, talvez mais nova, talvez aparentando ser mais nova, de altura mediana, ou seja, um gigante perto do Rick, com cabelos castanhos claros que chegam quase até o cofrinho, cofrinho muito bonitinho, por sinal, rosto bonito, cheio de sardinhas, olhos castanhos, às vezes quase verdes, porte de menina rica, bem cuidada, Universitas, Barra Funda, um apartamento por andar a meia quadra da praia, atualmente em Moema, quem sabe Alameda Santos, Frei Caneca, Campinas, viajada, Nova Iorque, Barcelona, um mês no Canadá aos 17 anos, Disney quando era criança, cidadania espanhola, ou cidadania italiana, ou cidadania portuguesa, fisioterapeuta, nutricionista, psicóloga, veterinária, jeans da Guaraná Brasil, bronzeado sutil, moletom da Epcot Center, um golden retriever chamado Romeu, corpinho bacana, saudável, todas as partes em seus devidos lugares, nada sobrando, nada escapando, tudo durinho, sorriso branco, cativante, atrativo, tratado por dentistas jovens com técnicas inovadoras, ex-namorados que jogam futebol americano na praia, que jogam rugby na faculdade, que jogam frescobol à beira mar, que usam Lacoste com a gola levantada, que usam Diesel com os bolsos traseiros fashionnamente rasgados, que calçam New Balance 1500, que escutam Tiesto no carro, que fumam Malboro vermelho, que jogam truco com charuto cubano e uísque Jameson numa casa de praia em Maresias, que cantam todas as músicas no Coração Sertanejo, que tomam bala, cheiram cocaína, tomam bomba e estupram travestis, e o Rick disser a você, meio na entoca e meio ansioso, que já pegou, “já peguei duas vezes”, uma delas dentro do banheiro da casa do Saulo, é verdade, é a mais pura verdade, e ele parará por aí, deixará essa afirmação suspensa no ar à espera do elogio, do seu elogio, e você irá elogiar, irá se admirar, “parabéns, pegou bem, caramba!”, e ele ficará em silêncio, saboreando o triunfo, omitindo que naquela época ela não era desse jeito, linda, perfumada, tamanho 35, que ela parecia na verdade uma munição de canhão, a tríade repugnante de gordinha-espinhas-aparelho fixo com borrachinha colorida, que ela não era chamada de Carlinha, mas de Carlão, tinha 12, 13 anos, ele tinha 13, 14 anos, e ele a pegou pela primeira vez na quadra do Adélia no baile pós-Festa das Nações, e dizem que ela até o carregou no colo, segurando-o sob as nádegas, e a segunda vez ele a pegou no banheiro da casa do Saulo, escondido de todo mundo, porque a molecada tirava sarro dele, então ele tinha que se esconder para pegá-la, para a molecada não ficar zuando, porque a molecada zuava, “tá pegando a gordinha, hein?”, “meu Deus, vai memo maluco”, “mó dragão!”, e o Carlão era completamente apaixonada por ele, sujeitando-se a ficar agarrando um menino espremida num lavabo exíguo recendendo a merda em conserva só porque ele tinha vergonha dela, vergonha de gostar dela, de abraçar ela, de beijar ela, de ser levantado por ela, e depois de tanta zuera, de tanta pegação no pé, de tanto chupão no pescoço, um dia ele a esnobou, disse que não queria mais, que estava em outra, “não viaja, mina, sai fora!”, e ela saiu chorando, se trancou no quarto para escutar o Blink 182 que ele gostava, para escutar o Pennywise que ele curtia, para se afundar em Cailin, do Unwritten Law (#And hey little girl Look what you do… Oh, I love you… Hey little girl, I love you #), a única música que ela gostava de verdade, e ficar lembrando de todos os momentos nada singelos com ele enquanto se engasgava com lágrimas, catarro, Coca-Cola sem gás e quindim tamanho família, e os anos se passaram como peidos discretos soltados no ar como serpentinas renegadas e úmidas com o prazo de validade expirado, e o Carlão cresceu e emagreceu, e o aparelho fixo com borrachinhas coloridas sumiu, e os peitinhos cansaram de ficar esparramados e se ergueram questionadores, pedindo mais atenção, desde que fosse velada, no limite do suspiro interno, do decoro, do bom gosto, como um saúde discreto após um estrondoso espirro na seção de frutas e verduras do supermercado, que naturalmente veio de todos os lados pálidos de carisma agraciados pela sua presença rosada, pelo seu desfile cheio de vitalidade e confiança, de auge da espécie, Conde de Monte Cristo, Carrie, A Estranha, Uma Thurman em Kill Bill, Carlinha de Salto Alto Agulha Sobre Os Peitos de Pombo de Rick, por ironia, nós estávamos juntos quando vimos a versão século XXI de Carlinha, por ironia, também era numa Festa das Nações (nós não tínhamos outra coisa pra fazer? outro lugar para ir?), e eu falei, “Olha lá, Rick, a mina que tu pegava, a mina que tu esnobou”, e ele disse, alisando o queixo, ou a pançanis, “Huuuumm, ficou gatinha, né? Oxiiii, que pedaçinho bom, sô”, o Conde de Monte Cristo apareceu todo estiloso na festa do seu traidor, Carrie explodiu a cabeça de todos os filhos da puta que fuderam com ela, Uma Thurman atravessou literalmente todas as pessoas que tentaram matá-la, a vingança de Carlinha foi trifásica, embora as três fases tenham sido exatamente iguais, “Ai, eu não mereço isso, um isopor cheio de cerveja, um coqueiro, o mar do pacífico e uma garota de programa arrasa quarteirão como companhia”, “O meu gatinho tem carro importado e vem me buscar em casa”, “Campos de Jordão, friozinho, gente bonita, fondue, vinhozinho e Cláudio Zoli fazendo um som, o que posso querer mais de um inverno?”, “Vingança é da hora!”, Vingança não é um pratinho de alumínio que se come frio, é um prato de plástico com talheres de plástico cheio de carvão quente, que se come sozinho, no escuro, num ambiente pós-apocalíptico, na companhia do Cláudio Zoli tocando sem parar aquela música “tocando um B.B. King sem parar”, e Carlinha foi brutal, sem precisar de um duelo de espadas e nem tirar sangue de ninguém, sem precisar de impropérios com excesso de saliva e nem de verborragia gratuita, é claro que o Rick foi atrás dela, ele achou que tava na mão, e é claro que o Pequenino David Blaine não daria o ar de sua graça, eu estava lá, o Mediano Nelson Rubens, o Nêmesis do Rick, o Caco Barcellos do Rick, O Gay Talese do Rick, o Truman Capote heterossexual do Rick, o Donnie Brasco do Rick, o Ray Liotta do Robert de Niro em Os Bons Companheiros, a testemunha protegida pelo Programa de Proteção a Testemunhas, o paparazzi que matou a Lady Di: “E aí, Carlinha, tudo bom?”, “Tudo (ainda pergunta? Olha pra mim!) e você? (Olha pra você!)”, “eu to legal”, “Legal... (Tem certeza que tá legal? De novo, olha pra mim! Agora olha pra você! Eu to adorando isso)”, “Você mudou bastante desde a última vez que te vi (caralho, tá com uns peitinho da hora, mina, tá magrinha, vo te pega de jeito, é hoje que vo fica levão e deixá o Leonardo visitando barraca sozinho e comendo comida salvadorenha e assistindo a dança típica da Bósnia)”, “Pois é... (Olha pra mim! Olha pra você! Olha pra mim! Olha pra você! Agora olha pra mim... Já! Agora... Olha pra você... Já)”, “Então, Carlinha, vamo saí dessa muvuca, vamo toma uma cervejinha ali... na barraca da Alemanha?”, “Nem to a fim”, “Pô, Carlinha...”, levantando a camiseta e alisando a pançanis, “Vamo ali no cantinho, vai, quero conversar contigo, dizer umas paradas pra você...”, “NÃO!”, Fim da Primeira Fase, 20 minutos depois... “E aí, Carlinha, no futebol dizem que a bola sempre procura o craque, e no amor dizem que a metade da alma gêmea sempre procura a outra metade”, “E? (De quem é essa frase? Do Chorão?)”, “Não entendeu? Tipo, no futebol...”, “Entendi, mas o que você quer dizer com isso? (Patético...)”, “Pô, Carlinha, fica comigo, vai?”, “NÃO!”, Fim da Segunda Fase, uma hora e meia depois, nove esfihas frias e borrachudas depois, dez Kaiser depois, cinco cervejas de trigo depois, doze arrotos depois, nove peidos depois, sete mijadas depois, três tequilas depois, quatro pedaços de pizza borrachuda, fria e brotinho depois, cinco Glacial depois, um tango depois, um Cancan depois, um Hula Hula depois, uma dança do ventre dos Vigilantes do Peso depois, um sapateado irlandês depois, uma dança de rua depois, uma tarantela depois, uma dança aborígene depois, um aperto de mão do Rodolfo depois, um aperto de mão do Daivilin Orelhudo depois, um aperto de mão do Roger depois, um aperto de mão do Nego Alan depois, um aperto de mão do Nego Alan depois, um aperto de mão do Nego Alan depois, um aperto de mão do Nego Alan depois, um aperto de mão do Nego Alan depois, um aperto de mão com a minha mão toda mijada para o Fábio Mancha depois, um aperto de mão do Nego Alan depois... “Pô, Carlinha, fica comigo, porra, foi mal, eu zuei contigo, eu sei, eu sou um idiota, eu sei, mas eu to ligado que você me amava, isso não pode ter acabado por inteiro, vamo ficá junto, vai, só hoje, só um beijinho, ali ó, atrás da barraca da... Palestina, não tem ninguém lá, vamo, vai, relembrar tudo que aconteceu, a quadra do Adélia com aquele parede de pedrinha aconchegante, o banheirinho do Saulo, todo mundo te chamando de gorda, de canhão, de cara de brotoeja, eu dizendo pra você sair fora, hein, vai, vamo?”, “NÃO!”, Fim da Terceira Fase.)]

Agora, enfim, vamos ao caso Cristina.

(Continua na próxima segunda-feira.)