quarta-feira, 1 de julho de 2009

Segunda Edição da Rádio Tudo É Albino Menos Rebeca

Mais máscula. Menos tosca. Mais rock. E com o mais inepto locutor do universo. Dessa vez, porém, sem gripe.
(VAAAAAAAAAI CORINTHIANS)

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quarta-feira, 24 de junho de 2009

Mais um texto grande – para horror dos impacientes, míopes e sensíveis – sobre um motivo estúpido


Algumas pessoas me pediram (meus amigos imaginários) para escrever um texto sobre a derrocada acadêmica do jornalismo. Como vocês (ou não) sabem, eu sou jornalista. Formado e não deformado pelo corpo docente que, agora, deve estar doente de raiva.
Fui coagido, há cinco anos atrás, não pela força, mas sentimentalmente, por um “ser” chamado “mãe”, a arranjar um diploma. A minha carreira estudantil é dividida em três etapas: do pré à quarta-série fui o melhor aluno da classe; da quinta à sétima-série fui o pior aluno do Brasil - reprovei três vezes em todas as matérias (inclusive em Educação Artística), exceto em Educação Física, graças ao santo atestado médico escrito, sem brincadeira, pelo pai de um amigo que é ginecologista, gaúcho e ardoroso fã de Eros Ramazzotti e Andrea Bocelli; e da oitava ao terceiro colegial só passei porque a escola na qual estudava à época exigia o máximo da insignificância intelectual dos seus pupilos de classe-média inadimplente.
Após quatrocentos anos de estudo, inúmeros cochilos, incontáveis zeros, compassivos meios, milhares de erros ortográficos, divisões absurdas, tabuadas insolúveis, gafes geográficas, colas equivocadas, colas milagrosas, colas deslavadas e comemoradas como a esperada morte de todo o clã Sarney, ocasionais beijinhos, constantes foras, um batalhão de espinhas, falsos diagnósticos, duas evacuações fisiológicas pegas no flagra, eternos verbos to be, falaciosa acusação de ter cuspido na cabeça de uma menina da oitava-série que só não me levou ao linchamento graças à minha velha amizade com o simpático pior valentão do colégio, dezessete advertências em um ano, fugas mal-sucedidas, uniformes justos devido a momentâneas dificuldades financeiras, duas suspensões, nenhuma briga, campeão de 100 metros rasos, campeão de ping-pong sem mandar uma bola à mesa adversária (é sério, em outra ocasião conto com mais calma), ausências dissimuladas, voltas sem idas, nenhum sexo, o papel de árvore na peça “A Volta da Chapeuzinho Vermelho”, sheik na Festa das Nações de 1997, dançarino de tango na Festa das Nações de 1998, desabrigado bósnio na Festa das Nações de 1999, sultão quase-virgem na Festa das Nações de 2000 (a Festa das Nações dava dois pontos na média em História e Educação Artística, mesmo assim eu sempre me fudia), uma estranha obsessão púbere de mostrar a bunda em público, alvo de paixão de uma vizinha que escreveu uma carta a mim que terminava com a estranha saudação: “Miu, beijos”; três namoros, um chifre desvendado, outros chifres que devem estar incógnitos, a chegada do vigésimo aniversário, eu supus que a minha disponibilidade para ouvir alguém mais velho falar um monte de merda desinteressante já havia se esgotado.
Mas não.
Desconhecia, hercúlea era a minha alienação, A Trilogia Elementar do Fracasso Travestida de Sucesso: Faculdade + Emprego + Morte = Fez sua parte.
Os meus pais, ainda em êxtase por seu filho possivelmente retardado ter conseguido concluir arduamente o segundo grau, me deram um ano de férias para pensar na vida - nas afamadas e quase sempre inalcançáveis possibilidades que dariam o tom ensolarado ao meu futuro.
Assim, eu passei um ano tocando bateria na minha banda – a mítica, indolente e instrumental Cadillac Drama. Eu passei um ano batendo punheta imaginando surubas no Leste Europeu, sexo com empregadas domésticas suadas que esfregavam com a língua as minhas cuecas no tanque, orgasmos sinfônicos com Monica Bellucci (um amigo teve o “dom” de se masturbar na cena do estupro de Irreversível), sexo casual com a atriz Flávia Alessandra, sexo casualmente para sempre e pós-morte com Dani Bananinha, sexo casual com a apresentadora Lorena Calábria (apesar do sobrenome de marca de laticínios, não sei por quê, nutria uma tara por esta mulher), sexo casual com Letícia Spiller, sexo casual com jogadoras de tênis, sexo casual com jogadoras de vôlei, sexo casual com jogadoras de dardo, sexo casual com jogadoras de rugby, sexo casual com jogadoras de qualquer coisa, com arremessadoras de peso, com mães gostosas, com mães magras, com mães gordas, com bisavós, com engenheiras, com funcionárias da Cosipa, com ciganas, com mendigas, com qualquer mulher viva, com qualquer mulher morta, com qualquer mulher apodrecida. Eu passei um ano escrevendo merda no ICQ. Eu passei um ano baixando música no Napster. Eu passei um ano alugando filmes de terror. Eu passei um ano indo a cinemas sozinho. Eu passei um ano me embriagando em baladas e provocando anões. Eu passei um ano me embriagando em baladas e passando em branco. Eu passei um ano me embriagando em baladas e voltando de ônibus. Eu passei um ano vomitando em baladas e me embriagando em neuras. Eu passei um ano pensando no amor. Será que é aquela ali? Será que é você? Será que é aquela outra? Será que é a Jennifer Connelly? Será que é a Daniela Sarahyba? Será que é a Chan Marshall vulgo Cat Power? Será que é a Marlene Mattos? Será que não é ninguém? Eu passei um ano me empanturrando em rodízios de pizza. Eu passei um ano freqüentando shows de hardcore alimentando o vazio da existência que era tão vazia que ignorava o próprio vazio. Eu passei um ano assistindo a meus amigos empinarem pipa. Eu passei um ano jogando War. Eu passei um ano jogando Winning Eleven. Eu passei um ano sofrendo com o meu Corinthians. Eu passei um ano falando mal de alguma garota ou das garotas em geral junto a meus amigos. Eu passei um ano jogando futebol e fazendo inimigos. Eu passei um ano recusando convites para ir à praia de dia. Eu passei um ano recusando convites para renovar o guarda-roupa. Eu passei um ano ignorando que um dia um ano passaria mais depressa.
Então o prazo se esgotou e encontrei a melhor saída para sanar os meus problemas: “Decidi, vou fazer inglês!”. (Imagine a cena: eu, um homem de 21 anos, sentado em um banco sem encosto para as costas e com os braços apoiados sobre um balcão de bar – bem comédia romântica norte-americana. De repente, uma mulher chega ao meu lado e diz, “Oi”. Eu respondo, “Oi”. Ela pergunta, “Qual é o seu nome?”. Eu respondo, “Leonardo”, e prontamente pergunto, “E o seu?”. Ela diz, “Juliana”, e em seguida pergunta, “Qual a sua idade?”. Eu digo, “21 anos”, e pergunto, “e a sua?”. Ela diz, “Também 21”, e pergunta, “o que você faz da vida?”. Então eu digo, “Bem, faço inglês”.)
O inglês durou um ano. Não aprendi nada. Só me apaixonei pela professora. Também não deu em nada. Eu era um nada. Nada dava certo. Nadava, nadava, nadava, nadava e nada. Sem troféus. Sem medalhas falsas. Sem emprego. Sem dinheiro. Sem amor. Sem sexo. Sem perspectiva. Com amigos sem as mesmas coisas. Sem carteira de motorista – reprovei no primeiro exame prático. Com carteira de motorista – passei no segundo exame prático por ter o mesmo nome, Leonardo, e fazer aniversário na mesma data, 9 de maio, que o delegado que estava julgando a minha performance.
De qualquer maneira, até mesmo da pior maneira possível, adentrei no cinzento prédio da Faculdade de Comunicação e Artes - a FACOS - da Universidade Católica de Santos, a Unisantos, em meados do mês de fevereiro de 2004 para iniciar a minha aventura acadêmica. Ou melhor, satisfazer as incessantes e fatigantes súplicas de minha mãe. Escolhi como primeira opção no vestibular o curso de Psicologia. Escolhi como segunda opção no vestibular o curso de Psicologia. Escolhi como terceira opção no vestibular o curso de Jornalismo. Um dia depois do vestibular (chutei quase tudo, o que não chutei, errei), vi que havia me equivocado nas minhas preferências, portanto, decidi que queria fazer Jornalismo. De todo modo, e para a surpresa de ninguém, tamanha é a facilidade para entrar na maioria das faculdades particulares do país, basta deixar cair a carteira de identidade na porta, fui aprovado em todos os cursos. Pague e Pesque. Até então, nunca havia lido um livro na vida. Nunca havia escrito nem uma mísera palavra – exceto quando recitei, a plenos pulmões e só de cueca sob uma tempestade de verão, uma poesia de minha autoria à minha vizinha nissei pela qual estava apaixonado, a voluptuosa, para a idade de 11 anos, Camila Shimi, poesia essa intitulada “Adorável filha de Bruce Lee” – não sabia que o Bruce Lee era chinês, nem ela. Ignorava escritores de qualquer espécie. Arte pra mim se limitava à música e a cinema. Ouvia desde Fugazi até John Zorn. Assistia de Kevin Smith a Larry Clark. Não era tão estúpido quanto aparentava. Era muito mais. Muito mais estúpido e muito mais feliz. A obtusidade age como um campo de força que nos protege da compreensão da dura realidade que nos cerca, portanto poucos têm a capacidade de enxergar. Fui cabeludo e voltei para casa como se tivesse sido vítima de uma arrasadora fusão de sarna com radiação de alta potência. Se com cabelo já era difícil, a careca pós-trote no carnaval não fez nenhum sucesso. Levei um susto quando vi que a maior parte dos meus companheiros de classe estava lendo jornal na sala de aula, me senti em um workshop que apresentava materiais para futuras moradias para mendigos. Não demorou muito para que a minha falta de conhecimento se anunciasse: 0,5 no primeiro teste de Português e “Fraco”, o que equivalia a um 3,0, no primeiro trabalho de História do Jornalismo. A motivação de desistência que me retirou do Karatê, do futebol, dos fins de semanas de escoteiro, do Kumon, do namoro com a Natalha, do Inglês, voltou à tona. Comuniquei aos meus pais que queria desistir, havia tomado uma resolução: “Quero ser músico profissional e acabar como o Benito de Paula”. Minha mãe ficou preocupada e perguntou: “Como o Benito de Paula?”. “Tá bom, mãe, esquece a ‘viagem’ do Benito de Paula, quero acabar como o Kiko Zambianchi” - e esta resposta doeu mais em mim do que nela.
Ficou acordado que eu teria que concluir, pelo menos, o primeiro semestre. E as coisas mudaram. Para sempre. Fiz um texto para a disciplina de Psicologia sobre a falta de inocência que há nas crianças de hoje em dia, tirei nota máxima, li na classe, todo mundo aplaudiu e fiquei com uma sensação boa. Botei na cabeça que já era hora de começar a ler alguma coisa. Li Charles Bukowski e chapei. Li Jack Keouac e chapei. A partir daí, não parei mais, fiquei doente, viciado em livros, receoso até o último segundo da minha vida. Allen Ginsberg. William Burroughs. J.D.Salinger. John Fante. Paulo Leminski. Céline. Norman Mailer. Chuck Palahniuk. Millôr Fernandes. Kurt Vonnegut. Nick Hornby. Somerset Maugham. Jeffrey Eugenides. José Agripino de Paula. Fiódor Dostoiévski. Kafka. Robert Crumb. Henry Miller. Lourenço Mutarelli. Hunter Thompson. Tarso de Castro. Raymond Chandler. Raymond Carver. Haruki Murakami. Alexandre Frota etc.
No meu caso, a faculdade foi importante por evidenciar que havia um rumo pelo qual eu podia seguir. Duvido que teria conhecido estas mentes maravilhosas citadas acima se tivesse optado, por exemplo, pela música. Mas não foi só a faculdade que fez isso, muito menos os professores. O proveito que se tira do conhecimento parte única e exclusivamente de si próprio. 90% de um curso acadêmico depende do interessado. Se dependesse dos ensinamentos dos professores, eu estava exercitando os “profundos” ditames do Lead até hoje. Depois do segundo semestre, a faculdade perdeu o valor. As técnicas jornalísticas supracitadas como vantagem após a queda do mito do diploma funcionam somente como uma forma de uniformizar os ratos de laboratório também conhecidos como alunos e, futuramente, como jornalistas autômatos. O fim da obrigatoriedade do diploma já existia desde que Pedro Álvares Cabral errou o caminho e ancorou aqui. No Brasil, sempre foi lei burlar a lei. Não vejo por que houve tanta comoção com o fim da suposta ditadura do canudo decorativo. Há um policial que tem um programa de variedades em uma emissora em Santos. Há um professor de física que também tem um programa de variedades na mesma emissora. Ana Hickman dá pitacos sobre o cotidiano no programa do qual faz parte na rede Record. Neto, ex-jogador de futebol, tem uma coluna no Estadão, analisa futebol e entrevista atletas há mais de dez anos. Se vivemos em uma democracia, e a classe jornalística foi uma das principais, senão a principal, fomentadora da liberdade de expressão no país, não consigo atinar para os deméritos que envolvem a opinião de qualquer pessoa que não tenha a merda de um diploma que muitos imbecis acéfalos possuem devidamente enquadrados em suas respectivas salas de jantar. A imprensa se caracteriza como um mundo de interesses. Altos-salários para poucos e baixos-salários para quase todos. A síntese do que é o Brasil. Caro empresário, anuncie para sair incólume de eventuais escândalos. Pergunte para quinze jornalistas se eles estão satisfeitos com a profissão. Pergunte se o veículo pelo qual eles trabalham, isso se ele forem sortudos por ter um lugar para trabalhar, cumpri com as leis trabalhistas. Nepotismo é vergonha para político mas não é vergonha para a família Beting? Mauro Beting diz: “Beting e Beting, o programa mais nepotista da T.V brasileira”, e depois ri. Essa é a nossa imprensa diplomada? As revistas estão “enganosamente” quebradas mas aceitam colaborações desde que elas sejam gratuitas. José Luiz Datena alimenta até hoje um ódio pelo jogador Ronaldo pelo fato de ele ter atravancado uma entrevista que o jornalista quis fazer com ele, há anos atrás, a qual foi realizada, inclusive na casa do entrevistado, à época em Madri, mas não pôde reservar dois minutos da sua agenda, durante um ano de intermitentes tentativas, para dar uma declaração a um grupo de alunos da minha classe que tentou, sem sucesso, fazer uma entrevista com ele sobre a violência da polícia brasileira que servia como tema para o trabalho de conclusão de curso.
O que funciona à imprensa tupiniquim, não funciona a mim. O que funciona a mim, não funciona a eles. Os maiores e mais inventivos jornalistas de nossa história, mortos ou vivos, nunca tiveram diploma de jornalista – ex: Millôr Fernandes, Tarso de Castro, João do Rio, Nelson Rodrigues, entre outros. A tecnologia, contrariando detratores que a acusam de minar o segmento “impresso” da imprensa, só serviu para enriquecer os cofres de grandes editoras e escravizar “recém-formandos” sedentos por um lugar sob um teto translúcido que apóiam o seu sedentário alívio uniforme sobre uma mesa de acrílico decorada com fotos de familiares. Para quem discorda, observe a variedade de publicações na banca mais próxima. Convivemos com uma tendenciosa e enxugada seleção de estágios. Áreas de recursos-humanos que só servem como fachada. Aos tristes e decepcionados por tanto dinheiro gasto e absorção de técnicas jornalísticas inócuas, por favor, não sejam hipócritas. Se só bastasse piscar os olhos para ter diploma nas mãos, não hesitariam. Ao fim do segundo semestre, as conversas de bar eram mais produtivas que os solilóquios saudosistas cuspidos por professores sexagenários que faziam de tudo para mostrar à nossa “péssima” geração que “no tempo deles as coisas eram mais difíceis e emocionantes”. Pagar o diploma em 48X e beber no bar. Quem é aluno brilhante e não paga a mensalidade, não recebe o diploma. Quem é talentoso mas não tem contatos porque é incapaz de se aproximar de um desconhecido por interesse, e com certeza dez décimos da população intergalática desaprovam este tipo de comportamento diagnosticando-o como covardia, vai ficar desempregado pelo resto da vida. Foda-se o diploma!

O MUNDO CÃO É PITBULL MALTRATADO PELO DONO PRONTO PARA MATAR AQUELE QUE É CONTRA A GUERRA QUE LEVA À MORTE.


terça-feira, 16 de junho de 2009

O Segredo


Há a ilusão.
Na ilusão, as pessoas são independentes.
Elas também são criativas.
E sorridentes.
Sobretudo altruístas.
Uma verdadeira comunidade.
Um coletivo que busca atingir em cheio o ponto fraco do mainstream.
O mainstream vive do dinheiro e da exploração.
São os famosos porcos chauvinistas engravatados.
A ilusão abomina porcos chauvinistas.
Eles tentam de todos os modos cercear a ilusão.
E, durante muito tempo, conseguiram.
Porém, desde que a internet se popularizou e a tecnologia evoluiu a níveis inimagináveis, a ilusão fodeu com o mainstream.
As mega stores perderam a força ou foram destruídas.
Os artistas começaram a tocar a própria carreira.
As músicas são baixadas de graça.
A era digital permiti a você ser um cineasta.
Os blogs tornaram-se os novos currículos.
As publicações de arte são concebidas com mais facilidade.
A ilusão abriu uma editora.
Criou um selo.
Montou um lugar para que a ilusão pudesse apresentar a sua arte e a ilusão pudesse assisti-la.
Organizou um festival.
Logo vários festivais da ilusão foram organizados.
E todos estão satisfeitos com o que vem acontecendo.
Todos têm oportunidade.
Há espaço para todo mundo.
Para todos os sexos, todos os estados, todas as etnias, todos os estilos – só basta querer.

Há a verdade.
Na verdade, há os séqüitos.
As confrarias.
As panelas.
Na verdade, há a inveja.
O medo de perder o lugar que gera a competição.
O medo de perder o lugar que gera o nepotismo.
O nepotismo é o maior aliado das dinastias de famílias corruptas que fazem carreira na política.
A política é o símbolo máximo do mainstream.
E o ser político caminha em meio ao público da ilusão.
A política é contagiosa como uma peste.
O ser político se diz ilusão.
A verdade acredita que a ilusão é só uma ilusão.
O político edita uma revista.
O político construiu um lugar para que a ilusão que é só uma ilusão segundo a verdade possa apresentar a sua arte para a ilusão que também é política.
Para entrar na área “livre” da ilusão feita por políticos segundo a verdade, precisa-se de dinheiro.
A área “livre” da ilusão que na verdade é política pede dinheiro para barrar, infelizmente, com “imenso” pesar, o público que não tem dinheiro suficiente para usufruir das atrações de ilusão ilusória infectadas pela política segundo a verdade que ocorrem na área “livre” da ilusão.
A política do político que edita uma revista “é que não seríamos nada sem a colaboração do público seguidor dos ditames da ilusão”.
O público seguidor dos ditames da ilusão que é só uma ilusão só pode colaborar se seguir as normas restritíssimas criadas pelo político dono da revista “independente”.
O político que edita a ilusória revista independente quer que você apresente as suas idéias de ilusão ilusão segundo a verdade.
O político dono da ilusória revista independente com conteúdo de ilusão que é só ilusão segundo a verdade diz que não pode te oferecer um emprego porque as finanças de uma revista independente dirigida ao público ilusão ilusório contaminado pela política segundo a peste da verdade são muito escassas, mas ele curtiu muito as suas idéias de ilusão ilusória e gostaria que você aceitasse publicá-las na revista de independência ilusória de propriedade do político que não sente remorso por difundir a ilusão.
O editor-político que é dono de uma revista de independência ilusória que sem remorsos estimula a ilusão nos ilusão desprovidos de malícia chamada verdade que não acredita que a ilusão exista lamenta dizer que infelizmente ele não poderá lhe pagar pela sua colaboração.
A mãe do político dono da revista que edita a ilusão da independência ilusória disse para a sua vizinha “que não entende essas coisa de ilusão” que, segundo a verdade, é ilusória, política, logo mentirosa, uma ilusão de ilusão, “mas está feliz pelo fato de o seu filho ter comprado um carro zero, alugado um apartamento, sozinho, no Brooklin Paulista, e, mesmo assim, ter meios para sair três vezes por semana para ir a lugares em que há apresentações dessas coisa que não entendo de ilusão”.

Há o artista que fez um show em Santos.
O artista que fez um show em Santos, na ocasião, era vocalista de uma banda que já morreu.
O artista-vocalista, ele também pinta, e gosta de pagar de louco, e cuspir gírias da favela, um Mano Brown branco que compra roupa na Augusta, subiu ao palco e todo mundo riu das asneiras ininteligíveis que ele bradava porque no litoral pau de paulistano é igual a chocolate para chocólatra.
Não precisa nascer em outro planeta para ser observado, com adoração, como um extraterrestre.
Venha pra cá.
Faça fila para marcar o seu X no dorso da mão.
Cara de bravo por causa do presunto no meu sanduíche?
O vocalista-artista trintão não parecia muito à vontade ao tocar em Santos.
Não parecia – mas o indício de desconforto era tão patético quanto a postura do guitarrista que destrói a guitarra em um show e depois recolhe os pedaços torcendo para que ela possa sobreviver.
As informações borbulhavam.
“Esta banda é polêmica.”
“Eles não têm medo de nada.”
Caganeira no metrô câncer no pâncreas impotência sexual Aids morte ataque cardíaco fulminante pobreza gangrena acidente de carro namorada vítima de estupro filha vítima de estupro abstinência paraplegia tetraplegia atentado terrorista queda de avião overdose
Ao lado do vocalista-artista que se orgulha dos seus vícios por meio de gírias excludentes às suas feições e trajes artificialmente envelhecidos (são novos e caros), há o baixista que também fez um show em Santos.
O baixista que fez um show em Santos, atualmente toca em uma banda de prestígio.
Comparemos a sua importância na banda de prestígio à do terceiro goleiro de um time grande que, quando campeão, vibra mais que todo mundo.
O baixista-terceiro goleiro que age como presidente do clube mas que não passa de assistente de massagista diz, antes do início da segunda música, “desliguem esta porra de luz colorida do palco!”.
O artista-vocalista que nasceu em lençóis limpos mas que ainda insiste, sem sucesso, em nos fazer acreditar que veio à luz com o rosto chafurdado na merda, diz “É, não vamos mais tocar aqui se não apagarem a luz!”.

Há os três rapazes que organizaram o show.
Eles são do Guarujá.
Eles necessitaram de muito tempo para poder juntar o dinheiro que foi usado para pagar as bandas que vieram tocar naquele dia em Santos.
Um dos rapazes trabalhou até de madrugada, durante semanas, às vezes tendo que dormir no próprio trabalho, às vezes tendo que ingerir anfetamina para ficar acordado e ter a condição de fazer as horas-extras necessárias para obter dinheiro suficiente para realizar o show.
Outro trabalhava como marceneiro.
Outro trabalhava como pescador.
Moravam a poucos metros da favela.
Nem por isso assomaram-se ao Complexo de Cabal.
Organizaram o show, deram ótima aparelhagem às bandas, pagaram o que foi combinado, tomaram o usual prejuízo, e o que ganharam?
“Se não apagarem as luzes, nós não vamos tocar!”
Eu estava lá.
Parado no meio da platéia.
Bêbado.
Eu estava lá e não me conformava porque tínhamos que nos tornar submissos só porque eles eram de um lugar maior.
Só porque um bando de filho da puta concedeu o seu orgulho de graça pelo fato de se enxergar inferior a um cara que toca a porra de um instrumento.
Eles ficam pelos cantos.
Eles olham para você intermitentemente.
Eles param de olhar pra você assim que você começa, naturalmente, a olhar para eles como se olha para um poste, ou para um sinal vermelho, ou para o relógio, ou para uma parede branca.
Qualquer elogio é compreendido por eles da mesma forma que o mais ignóbil ditador assimila uma nova composição química capaz de explodir todo o universo.
Há muito tempo atrás, o meu pai me disse uma coisa que absorvi como lema para me guiar por este mundo chamado mentira: “TODO MUNDO CAGA!”.
E, em ocasiões excepcionais, TEM GENTE QUE CAGA PRA CARALHO!
Sujando a privada de bosta.
O chão.
Milho incrustado na bosta.
Quem caga preto tem sangue nas fezes.
Limpa a bunda com a mão.
Extrai a bosta endurecida direto da fonte.
Com raiva.
Estoura uma espinha amarela na testa devido à força exigida na hora do uhrrrrruuuuu...
O artista conceitual que colou com Supercola um grão de arroz cru na testa e disse que é arte e a crítica também disse que é arte também caga fedido pra caralho por causa daquele cu que gosta de caralho.
O jornalista José Trajano, que gosta de criticar todo mundo mas não admite ser criticado, também caga pra caralho.
Babe, Terror não precisa cagar porque o som dele é a bosta mais fedida que existe.
Richarlyson, jogador do São Paulo, caga igual ao Jimmy do Matanza.
Kurt Cobain cagava tão fedido que explodiu a própria cabeça.
A carreira do Já Rule tá tão cagada que ele teve que se juntar à bosta da Vanessa Camargo.
Este que vos escreve cagou duas vezes ontem, uma hoje de manhã, e se sente grato por seu intestino estar funcionando maravilhosamente bem. (Mas nem sempre foi assim. Pergunte aos meus amigos. Final de maio de 2006.)
Cachorro caga.
Jabuti caga.
Padre caga.
Estuprador caga.
Madre Teresa de Calcutá cagava.
Birolha caga.
Gostosa caga.
As mães cagam.
As avós cagam.
Sobrinhos cagam.
Filhos cagam.
Cegos cagam.
Deficientes físicos cagam.
As namoradas cagam.
Buda caga.
Jeová caga.
José Sarney caga de tudo e em tudo.
Professores cagam.
Médicos cagam.
Einstein cagava.
Gandhi cagava.
Jimi Hendrix cagava.
Keith Moon cagava.
Vinny caga.
Nasi caga e caga muito mais quando se mete a comentar futebol.
Jane Austen cagava.
Sylvia Plath cagava.
Bruna Surfistinha caga.
Sandy caga.
Nina Simone cagava.
Marlon Brando cagava.
José Mayer caga.
Batoré caga.
Santistas cagam.
São Paulinos cagam.
Flamenguistas cagam.
Corintianos cagam.
Americanos cagam.
Iranianos cagam.
Chineses cagam.
Brasileiros cagam nas ruas.
Nas piscinas.
No mar.
Em mictórios. (Eu já vi.)
Todas as componentes do Coral das Meninas de Petrópolis cagam.
Mendigos cagam.
Bill Gates caga.
Roberto Justus caga.
Os participantes do programa apresentado por Roberto Justus comeriam a bosta dele por um milhão de reais.
Roberto Justus comeria a bosta de Donald Trump.

Você lê Jorge Luis Borges e ainda se gaba por isso?
Você montou uma banda de Free Jazz e ainda se acha no direito de menosprezar os seus amigos?
Você é um explorador em busca de música nova na internet e ainda continua a adotar aquela deplorável atitude ao odiar as bandas que foram antes descobertas e enaltecidas por você só porque outras pessoas começaram a gostar?
Você adora discutir sobre tudo e ainda o dom da sua retórica se limita a achincalhar a literatura do Chico Buarque?
Você se veste como comuna, compactua com os ideais dos comunas e ainda insiste que nada de bom foi produzido na música depois do Chico Buarque?
Você odeia os emos e ainda anota tudo que o André Forastieri recomenda?
Você é um cara mente aberta e ainda torce o nariz para quem diz que não gosta de Ramones?
Você se acha justo e ainda trai a sua namorada?
Você não assiste televisão há dez anos e ainda usa cachecol no verão?
Você acredita que Cuba é o melhor lugar do mundo para se viver e ainda assina Marie Claire?
Você acha inaceitável falta de educação à mesa e ainda atende telefone celular na sala de cinema?
Você gosta de beber o esperma do seu namorado e ainda faz parte do Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo?
Você comprou uma Ferrari zero quilômetro e ainda deve o décimo terceiro salário aos seus funcionários?
Você é contra a pena de morte e ainda idolatra Che Guevara?
Você acredita na força do ego e ainda tem prisão de ventre?

terça-feira, 9 de junho de 2009

Ler é legal para quem gosta de ler


O Tal Desbunde

E Os Hipopótamos Foram Cozidos Em Seus Tanques é um título longo para um livro curto lido por um desempregado com tempo de sobra para pensar em se matar e, com calma, mudar de ideia assim como quem “não” muda de cueca.
Escrito a quatro mãos, durante um ano, de 1944 a 1945, em Nova Iorque, por um trintão, William Burroughs, e por um molecão de 23, Jack Kerouac, a obra é o primeiro registro do que, poucos anos depois, veio a se chamar Beat Generation. Para se ter uma noção, sem a Beat Generation, Ney Matogrosso jamais cantaria “América do Sul” com tanta desenvoltura.
O enredo se baseia no fato real, que até hoje gera dúvidas, que é o assassinato, a facadas, do coroa pentelho David Kammerer pelo intrépido adolescente “camuflado” Lucien Carr. Morre um homem - nasce um movimento que mudará de forma indelével os rumos da arte.
Mike Ryko, marinheiro hedonista amante de poesia, é o alter ego de Kerouac. Will Dennison, barman sardônico que faz bicos como detetive, é o personagem de Burroughs. Cada capítulo corresponde à visão de cada personagem em meio a uma série de situações (bebedeiras, brigas, histórias de marinheiros que desbravaram a Europa, o fim iminente da Segunda Guerra, a podridão nas ruas de Nova Iorque, lucubrações espirituais, a boemia começa a se afundar nas drogas, mulheres que querem homens, homens que querem mulheres, homens que querem homens e mulheres e mais dois homens) que, inevitavelmente, levarão até o controverso crime.
E Os Hipopótamos Foram Cozidos Em Seus Tanques teve que esperar pela morte de todos os envolvidos para ser lançado sessenta anos depois de finalizado. Ironicamente, por enquanto, é o último suspiro da Beat Generation.


POPS

Clube do Filme é o último livro que li. Antes do Caderno Vermelho, de Paul Auster. E da biografia do Brando. Primeiro o Brando, depois o Caderno Vermelho. Eu chorei. Não pelo Clube do Filme, mas quando meu pai me pegou no flagra, bêbado, aos quatorze anos, ao pedir, tal como uma pergunta retórica, que eu trocasse a lâmpada da sala. A lâmpada caiu, eu caí em prantos, minha mãe caiu em prantos e com os joelhos sobre o gélido piso de ardósia, as mãos vermelhas de cólera no rosto, uma Ave Maria na ponta da língua, um terço azul enlaçado no pescoço, depois ela começou a contar, às lágrimas, a história do seu pai, meu avô, que morreu antes do meu nascimento, portanto eu não o conheci, “sabe, snifff, snifff, qual foi a causa da morte do seu avô, meu filho? A cachaça!”
Clube do Filme é a história do “turbulento” (nem tanto assim) relacionamento entre um pai, o canadense David Gilmour, que é também crítico de cinema, autor e narrador do livro, e o seu filho, Jesse Gilmour, vagabundo, problemático, mezzo gangsta, mezzo romântico e cheirador ocasional de poeira branca que iogue não faz usufruto na hora da meditação.
Jesse Gilmour (e o Word insiste em corrigir para Jessé Gilmour), aos 15 anos, não aguentava mais estudar. Ia mal nas provas de inglês, era considerado um quase retardado pelos resultados das avaliações de matemática, ignorava Latim e os conhecimentos em Geografia se resumiam a perguntas como: “Depois da Argentina, o mundo acaba, né?”.
Aos 11, eu perguntei ao meu pai: “Papai querido, se um casal venezuelano se muda para o Japão e tem um filho no Japão, ele nasce de olho puxado?”.
David Gilmour, o pai, à época desesperançado pelo desemprego na meia-idade e preocupado com a situação do filho, toma uma medida radical: “Filho, você não precisa ir mais à escola. Só que, em troca, você terá que assistir na minha companhia, todos os dias, a três filmes selecionados por mim. Esta será a sua educação!”. (Pai legal pra caralho!) E esse é o mote do livro.
Odeio classificações de estilo. Odeio também lavar louça no frio. Mas lavo. No calor até que é legal. Mas calor é terrível. Prefiro o frio. Mas acordar no frio é uma merda.
O livro é um amálgama de crônica, conto, romance e crítica de cinema. Contudo a fusão de tendências permite que não seja nada disso. Clube do Filme não irá mudar a vida de ninguém. Porém, em retrospecto, quais dos melhores momentos da sua vida você teve a capacidade de prever?

terça-feira, 2 de junho de 2009

Primeira Edição da Rádio Tudo É Albino Menos Rebeca

Este primeiro programa ficou um pouco tosco, mas a partir do segundo as coisas ficarão melhores. Inclusive, farei questão de gravá-lo nu. Este eu gravei de calcinha. Além do rosto e do corpo, mais uma semelhança que há entre mim e David Beckham. Clique aqui e ouça. Ou, se preferir, acesse o Redtube e seja feliz. Gozando loucamente.


video

terça-feira, 26 de maio de 2009

Gay Power


“O jornalismo convencional caiu no conto do voyeur do cotidiano que se satisfaz com uma insossa gozada por meio do 'membro' alheio!”
Isabelita dos Patins


No começo da década de 60, nos Estados Unidos, Gay Talese (que não é gay), Truman Capote (que definitivamente era gay), Tom Wolfe (suspeito que morde a fronha) e Norman Mailer (a antítese mais crua da pederastia) deram uma lufada de ar fresco na claustrofóbica linguagem da imprensa ao criarem o New Journalism, ou, para quem é nacionalista, o Novo Jornalismo. Bastou ignorar as asneiras dos editores, beber um pouco mais além do inaceitável durante o expediente, pulverizar impiedosamente a imparcialidade utópica, escalar a sinuosa montanha da autodescoberta em busca da afirmação do indivíduo, munir-se de influências literárias e inclinações humorísticas, exigir e usufruir ao máximo do escrutínio descritivo, para depois abarcar os louros do pioneirismo, os olhares de inveja dos superiores retardatários, angariar séquitos de seguidores e fazer uma ponta em um episódio da extinta série Gilmore Girls (o senhor Mailer que o diga do além-túmulo).
Vida de Escritor, a mais nova obra de Gay Talese (que virá ao Brasil em julho deste ano para participar da sétima edição da FLIP) lançada no país dos analfabetos, é uma ode ao fracasso – a autobiografia verborrágica e digressiva de um gênio da cultura americana que por muitas vezes sucumbi à própria genialidade.
O velho distinto que, de modo obsessivo, durante muitos anos, se vê encurralado por inúmeros projetos que, por enquanto, ainda não viram a luz da existência. O garoto descendente de italianos que era constantemente esmurrado por brutamontes filhos de irlandeses que só o faziam porque sentiam ojeriza por “carcamanos”. O péssimo aluno no colégio que evolui ao status de aluno medíocre na faculdade. O editor curioso de esportes do semanário da faculdade que resolve esmiuçar o que há por trás de uma turba de cidadãos do Alabama que odeiam tanto os negros a ponto de impossibilitá-los de jogar, mesmo com a notória capacidade técnica e física dos discriminados, no péssimo time da universidade. O repórter novato da editoria de esportes do New York Times que sonha incorporar às suas matérias jornalísticas as técnicas literárias presentes na escrita da autora gótica Carson Mccullers, e, como ela, alimentará, ao longo da extensa carreira, uma predileção por personagens outsiders, os esquecidos, os atletas derrotados, os músicos fracassados, os ausentes de períodos auspiciosos em meio a toda glória de flashes, brindes e sucessos brilhantes.
Exatamente assim. Sem ordem cronológica, sem o fardo de ser didático, sem os dedos de editores ceifadores que usam como parâmetro o próprio cansaço por fazerem parte de uma confraria tão redutora e estúpida que o poder que provém do lixo de suas ações despóticas cai por terra quando eles chegam a suas casas suntuosas e inanimadas, se olham no espelho e repetem, religiosamente, o inexorável mantra do editor: “Sou um bosta, sou um merda, me fode como uma cadela!”.


PS: Semana que vem tem estréia da Rádio Tudo É Albino Menos Rebeca. As melhores músicas, as melhores dicas de livros, filmes, cosméticos, xavecos, fumo etc. Não percam!


terça-feira, 19 de maio de 2009

Nomadismo Comportamental


Dedico a todos os velhos amigos inesquecíveis que hoje me fazem fingir, reciprocamente, que não os conheço.


Desde pequeno eu sempre senti que o meu espírito era indubitavelmente contrário à manifestação mais propalada e executada entre os supostos sabichões que dizem “que fazem bico porque pensam”, mas que na verdade fazem bico porque o bico talvez seja o único antídoto, certamente é o mais acessível, para atenuar a triste constatação que a fotogenia é um privilégio daqueles que não precisam pensar em nada para atrair toda a atenção: Bem-Vindos ao tenebroso universo do Nomadismo Comportamental.
Alex gostava de New Kids On The Block e morava em São Paulo. Eu morava em Guarujá e superestimava quem morava em São Paulo porque isso é o mínimo que se espera de uma pessoa que vive em Guarujá. Viver em Guarujá é uma merda. Ponto. New Kids On The Block também era uma merda mas eu só tinha dez anos. Não venha me dizer que com dez anos você já tava ligado nas ideias do Jello Biafra, escutava Brahms só de cueca ao mesmo tempo em que sorvia uísque escocês com idade para ter Mal de Alzheimer, fazia duas sessões por dia, de 20 minutos cada, de meditação transcendental, usava a sua irmã como interlocutora enquanto incorporava a onisciência de Platão envolvido por um lençol com a estampa do Super Mouse, ignorava astronautas, idolatrava Calígula e sabia que o Sid Vicious havia cagado na boca de uma mina no Chelsea Hotel. Alex tinha doze anos e era uma espécie de guru comportamental para o povinho caiçara. O povinho caiçara era composto por Cadu, Zé Tó, Jussara Gosta de Mulher e Tem Peito de Homem, Fabiano, Nicolas, Eu, Cláudio, Rodrigo, Maurício, Piolhinho e Sydney. Nós todos amávamos New Kids On The Block porque Alex falou que era bom, e porque ele era de São Paulo, e porque nós éramos do Guarujá, e Guarujá é uma merda, assim como Lorena, Peruíbe, Mongaguá, Itapema, São Vicente, Fernando Bonassi, Pet Shop Boys, Cachorro Grande, arte conceitual, filme chinês, brasileiro que gosta de filme iraniano, Largo do Arouche, Bolívia, Márcia Tiburi, A Tribuna, Brito Júnior, Poço de Caldas, Caldas Novas é legal, mas Luis Caldas, não! Exclamação. Ah, o Douglas também fazia parte do povinho. Alex era ruivo, tinha um relógio Casio calculadora para o qual, quando nos mostrou pela primeira vez, fizemos “UAU!”. Douglas morreu de catapora e, por respeito à sua alma, não farei nenhuma crítica à sua conduta “sovina”. Foi mal. “Uau” é uma reação falada totalmente surrupiada dos garotinhos loiros de classe média norte-americana que eram protagonistas de filmes hollywoodianos da metade da década de 80 e do começo dos anos 90 - estereótipo resumido na personalidade de outro cara que vivenciou aquele período: Christopher, loiro carioca filho de uma mulher esguia de cabelo curto nascida no Recife e de um cara com barba grisalha e cabelo à escovinha, tipo o Ray Conniff, nascido na Inglaterra. Christopher chamava a mãe de “mom”; o pai de “dad”; a gente de “filho de “pescador”, de “vassalo”, de “sobrinho de faxineira”, de “figurante da novela Escrava Isaura”, de “stupid”, de “asshole”, de “son of a maid bitch”, mas nós gostávamos dele. Christopher tinha uma puta coleção de Playmobil. Christopher tinha uma puta coleção de Comandos em Ação. Christopher tinha um puta apartamento na cobertura do prédio. O puta apartamento do Christopher tinha também uma puta piscina. Christopher tinha um puta Master System. Master System é um videogame que até puta viciada em crack desdenha hoje em dia. Christopher tinha uma prima chamada Jennifer, que não era puta. Jennifer era galesa, parecia uma girafa desengonçada, ninguém entendia porra nenhuma que ela dizia, tinha uma risada de síndrome de down, mas eu a amava. Aos 10 anos, Jeniffer tinha um metro e setenta. Aos 10 anos, eu tinha um metro e cinqüenta. Aos 55, minha mãe tem um metro e quarenta e nove. O meu pai nasceu em 1949, chama-se João, tem 1,77 e vive do balé. Digamos que Jennifer era um jogador búlgaro de vôlei e eu era o anão que cantava com o Kid Rock. Digamos que eu era a Nicete Bruno e ela era o Paulo Goulart. Dizer “Uau”, quando criança, é fofo. Depois dos 20, é gay. Jussara Gosta de Mulher e Tem Peito de Homem também era (é) gay mas nós não sabíamos que menina que gosta de menina também podia ser denominada gay. Por isso a chamava-mos de “esquisita”. “E feia.” “Não chama ela pra brincar com a gente.” “Qual o seu nome, cara?” “Tu também tem pinto?” “Ontem eu vi um filme e me lembrei de você: Minha Vida de Cachorro.” 1990 e as corridas com palitos de picolé da Kibon (sem premiação) que eram realizadas nos pequenos córregos que se formavam quando a nossa rua de terra era castigada pela chuva; de segunda a sábado às 19:00 era hora de Vamp com pipoca de panela na casa do Fabiano; na casa do Fabiano vi sua irmã mais nova cagando, na cozinha, sobre um balde de plástico aquilo que eu ainda insisto em acreditar ser uma almôndega generosa com o sangue fazendo as vezes do molho de tomate; 1990 e a minha prima roubando, depois da escola, balas na loja de conveniência da Texaco; no campinho de terra que ficava em um terreno no final da rua, o jovem Ismael arrancou, aos socos, o aparelho fixo de um gordinho turista folgado chamado Marcos, que achou, sem sombra de dúvida, que iria morrer no momento em que o aparelho, ornado por borrachinhas tricolores paulistanas, incrustou-se sobre suas gengivas saudáveis; jogo de taco com taco profissional da Topper de propriedade dos irmãos RodrigoCláudioMaurício; Rafael Camarão disse que o seu pai espirrava “Atchô!”; 1990 e a propaganda do novo micro-system da Gradiente com a trilha sonora do C&C Music Factory (para quem desconhece, pense no pior dos anos 80 que se sai melhor no século XXI), grupo que cunhou o nefasto termo “Poperô”; 2001 e a mesma prima que roubava balas na loja de conveniência da Texaco foi presa no aeroporto de Zurique, na Suíça, por carregar no corpo, tal como uma “mula”, uma quantidade astronômica de drogas pesadas. Uma famosa atriz brasileira da atualidade disse que “a vida começa aos 45”. Eu digo a ela que a vida começa quando a alegria acaba. Ser jovem nos anos 90 é odiar os anos 80. Depois do Hollywood Rock, Alex parou de gostar de New Kids On The Block e passou a idolatrar o Guns N’ Roses. Nós questionamos, em uníssono, “Já?”. Ser jovem nos tempos atuais é amar os anos 80. Nicolas era o único brasileiro de uma família argentina que torcia para a seleção da Argentina e era obrigado pela mãe a tocar piano e a se vestir como uma criança argentina no período da ditadura. Nicolas, o brechó ambulante. 1990 e todos pendurados no caminhão de lixo. Fabiano caiu do caminhão de lixo sobre uma poça de lama e pediu calça de moletom emprestada para todo mundo no intuído de atenuar a dor que viria à tona no inevitável espancamento perpetrado pela sua mãe. Alice, irmã de Nicolas, loira argentina peitudíssima de pele lívida, uma vez perguntou pra mim, depois de perceber que eu estava olhando avidamente para os seus peitos: “Te impressiona? Quer tocá-los?”. A primeira vez que gozei sem precisar tocar a primeira vez no corpo de uma mulher. Ser jovem descolado nos anos 80 é odiar os anos 80. Deus criou a beleza. Deus criou a natureza, o verde, o vermelho, o arco-íris, o calor, a sombra, o perfume, as águas claras, azuis, os cães saudáveis, os gatos ronronantes, a lama terapêutica, o olhar, os olhos claros, o sorriso, as cutículas, as unhas, a chuva redentora, o fim de tarde, a água que sai da mangueira, as ilhas longínquas, a neve e as estrelas. Deus criou a berinjela, a catapora, a conjuntivite, os vesgos, os cegos, o câncer e os irmãos siameses. Nos anos 70, no Brasil, ser jovem é ser americano ou inglês nos anos 60. Alex parou de gostar de Guns N’ Roses e assumiu peremptoriamente: “O que vira é Red Hot Chili Peppers!”. “Já?” Uma semana depois, Jussara Gosta de Mulher e Tem Peito de Homem quebrou todos as fitas K7 que tinha do Guns N’ Roses. Cadu e o seu pai viviam para matar porcos para viver, pelo menos, até os 60. Minha mãe de um metro e quarenta e nove e o meu pai de um metro e setenta e sete organizaram para mim, de um metro e cinqüenta, uma festa de onze anos com temática dos anos 50 – eu ganhei uma fita do Vanilla Ice. Alex esqueceu Chili Peppers, Danzig, Faith No More, Cypress Hill, Rage Against The Machine, Primus, Sepultura, Slayer e assumiu de vez: “O que vira é dar o cu.” Jussara Gosta de Mulher e Tem Peito de Homem não curtiu e disse: “Ih, malandro, o cara é gay, sai fora!”. Douglas morreu de catapora e me lembro do seu pequeno caixão sendo vedado após duas pazadas de terra e da respiração do seu cachorro dormindo no meu colo. A mãe de Douglas me perguntou “Por que ele?”. Eu pensei, “Por que não?”. Os familiares jogaram flores sobre o caixão, os vizinhos jogaram flores sobre o caixão, a mãe tentou se jogar sobre o caixão, duas semanas depois ela se jogou do terceiro andar do prédio, quebrou os dois tornozelos, não perdeu a vida, mas perdeu o marido. Eu joguei algum dinheiro que devia para ele. Um dia antes de morrer, ele me cobrou: “Até amanhã, caralho!”. “O amanhã acabou hoje”, pensei. Foi mal. Ser jovem nos anos 80 é imaginar que, depois do surgimento do Atari, o ano 2000 terá carros voadores. Deus inventou o amor. Deus inventou o ser humano. Deu nessa merda!